🇧🇷 *Fabio Graner: Derrota de Messias é desastre para governo, mas também é recado ao STF- Globo*
A rejeição do nome de Jorge Messias pelo Senado extrapola o significado de uma derrota política pesada para o governo e é interpretada, nos bastidores, também como um recado direto do Congresso ao Supremo Tribunal Federal (STF). A leitura é compartilhada por interlocutores tanto da base governista quanto da oposição.
Em um ambiente de crescente acirramento político e com a aproximação do calendário eleitoral, o placar — 42 votos contrários e 34 favoráveis — expôs a disposição do Senado de afirmar sua força institucional e dar um sinal à Corte de que seria preciso conter sua "hipertrofia". Vale dizer que, de certa forma, isso foi dito pelo próprio Messias na sabatina na CCJ do Senado antes da votação em que foi derrotado.
Com o movimento, a oposição reforça a estratégia de polarização com a Corte máxima, muito alinhada com a tônica do governo Jair Bolsonaro e que tem encontrado eco em boa parte da população, como mostram pesquisas. Pré-candidato a presidente, o senador Flavio Bolsonaro falou em "reação aos excessos do Supremo". A atuação oposicionista também visa reforçar a onda pela aprovação da anistia contra a condenação por tentativa de golpe, pendente de exame pelo Congresso. A sentença que levou Bolsonaro à prisão é tratada pela extrema direita como um episódio de atuação política da Corte.
A tensão entre os Poderes vinha se intensificando nas últimas semanas. Declarações de ministros do STF, como Gilmar Mendes, ampliaram o desconforto entre congressistas. Nos corredores do Senado, ganhou corpo a percepção de que o Judiciário tem ampliado excessivamente seu espaço de atuação e restringido liberdades. Correta ou não, a visão de parte dos parlamentares é que é preciso um freio de arrumação institucional.
A decisão de barrar o nome indicado pelo governo também produz efeitos práticos: o STF seguirá operando com uma cadeira vaga por mais tempo, aumentando a carga de trabalho dos ministros e impondo pressão adicional sobre o funcionamento da Corte.
No Palácio do Planalto, o discurso oficial é de aceitar o resultado. Nos bastidores, porém, o clima é de perplexidade e desolação. A avaliação interna é que será necessário um freio de arrumação na articulação política, sobretudo no Congresso, onde a base tem mostrado fragilidade.
A derrota também expõe, de forma mais nítida, as dificuldades da articulação política liderada pelo ministro José Guimarães, recém-empossado na função.
O episódio reforça as dúvidas sobre a capacidade de coordenação da base aliada em votações sensíveis e sobre a efetividade da interlocução com o Legislativo.
Esse cenário amplia a incerteza em relação à tramitação de pautas prioritárias do Executivo. Entre elas, o projeto de lei complementar que trata da desoneração de combustíveis, visto como uma das apostas do governo para aliviar pressões sobre preços. Apesar de haver, em tese, um ambiente favorável à proposta, parlamentares já sinalizam que o avanço do texto dependerá de um custo político mais elevado.
A tendência é crescer a cobrança por uma liberação mais robusta de emendas parlamentares, o que tende a elevar a fatura imposta ao governo para garantir apoio no Congresso. A combinação entre base fragmentada, demandas crescentes por recursos e um ambiente político mais tenso indica que a aprovação de medidas econômicas pode exigir negociações mais complexas nas próximas semanas.
A partir de agora, auxiliares e analistas avaliam que o governo terá de decidir entre adotar uma postura mais combativa na relação com o Legislativo — especialmente diante da oposição — ou investir na recomposição de pontes para evitar novas derrotas em um momento sensível, marcado pela disputa eleitoral e pelos desafios na condução da agenda econômica.
Para além de todas essas ponderações, uma grande incógnita é entender as razões para a atuação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, contra o nome de Messias. Dada a dimensão política do episódio, algo que não acontecia há mais de um século, as explicações até agora parecem insuficientes.
https://oglobo.globo.com/economia/fabio-graner/post/2026/04/derrota-de-messias-e-desastre-para-governo-mas-tambem-e-recado-ao-stf.ghtml
Nenhum comentário:
Postar um comentário