*Especial: Estrangeiros acionam gestoras no Brasil, e nova onda de capital deve inundar a Bolsa*
Por Bruna Camargo
São Paulo, 14/04/2026 - O interesse de investidores estrangeiros pelo Brasil entrou em uma nova fase, que pode destravar a entrada de capital mais estável e de longo prazo na Bolsa. Gestoras relatam um aumento nas conversas com grandes alocadores globais, como fundos de pensão e endowments, interessados em fechar mandatos de investimento para investir em ações brasileiras. Segundo executivos ouvidos pela Broadcast, esse movimento ainda está no início, mas tende a ganhar tração à medida que o Brasil se consolida como destino relevante na reconfiguração global de portfólios.
"O que estamos observando na Bolsa agora é o fluxo macro, temático. Mas estamos conversando com quem vem para ficar cinco, dez anos", afirma Brenno Berkovitz, sócio e responsável pelo RI da Encore Asset Management, mencionando que o rali do Ibovespa neste começo de ano foi um call de saída dos Estados Unidos em direção a emergentes. Agora ele vê um interesse mais forte do estrangeiro, com alocadores olhando para o Brasil pela primeira vez.
Ricardo Campos, CEO e CIO da Reach Capital, destaca o fluxo de capital externo para a Bolsa. Os dados mais recentes da B3 mostram que os investidores estrangeiros ingressaram com R$ 67,39 bilhões no ano até agora, superando com folga os cerca de R$ 25 bilhões do total de 2025. Esse cenário até reabre espaço para operações de mercado de capitais, como IPOs e follow-ons, que estavam paralisadas, de acordo com o executivo.
Ainda assim, os gestores destacam que o capital mais transformador ainda está por vir. "O pouco para eles é muito para a gente", resume Rodrigo Andrade, sócio e head de Equities da Vinland Capital, ao destacar que pequenas realocações de portfólios globais podem representar volumes expressivos para o Brasil.
Rogério Freitas, head de investimentos do ASA, afirma que há uma combinação de vetores macroeconômicos e geopolíticos favorecendo mercados emergentes, como a busca por diversificação após anos de concentração nos Estados Unidos, valuations mais atrativos e o papel dos emergentes como produtores de commodities em um cenário de incerteza global.
Na mesma linha, Campos, da Reach, avalia que o ambiente internacional tem levado investidores a buscar ativos reais e novas geografias. E, nesse contexto, o Brasil se beneficia também por manter relações comerciais diversificadas.
Além disso, os gestores apontam características domésticas que aumentam a atratividade do País, como liquidez de mercado, arcabouço institucional estável e neutralidade geopolítica. "O Brasil dá check em várias 'caixas' importantes para o investidor estrangeiro", afirma Andrade, da Vinland.
Outro ponto destacado é o ciclo de juros. O início - ou a expectativa - de queda das taxas no Brasil é visto como um gatilho relevante para a Bolsa, historicamente associado a períodos de valorização dos ativos. "Estrangeiro adora investir em país onde o juro está caindo", observa Berkovitz, da Encore.
Seletividade
Apesar do otimismo, o fluxo ainda está concentrado em estratégias mais defensivas, mas os produtos long only continuam sendo a principal porta de entrada para quem busca exposição estrutural ao País. Já a demanda por mandatos em estratégias long and short tem crescido. "O gringo não quer um risco direcional", afirma Andrade, da Vinland, destacando a procura por produtos com menor volatilidade.
Do ponto de vista setorial, a preferência ainda recai sobre empresas mais líquidas e previsíveis, mas há expectativa de migração gradual. Enquanto a primeira onda do apetite esteve concentrada em produtos passivos, como o ETF EWZ, e ações de maior liquidez, as chamadas blue chips, como Vale e Petrobras, a tendência é de avanço para setores como utilities, que oferecem receitas mais estáveis e proteção em cenários de volatilidade, segundo Campos, da Reach.
Para os gestores, esse movimento também deve abrir espaço para uma reprecificação de empresas fora do radar dos grandes índices, que ainda não participaram plenamente da alta recente. "Abaixo [das blue chips] subiu muito pouco, então vai existir um catch up das empresas que não estão na superfície do índice e ficaram para trás. Tem muitas oportunidades na Bolsa ainda", afirma Berkovitz, da Encore.
Eleições
Do ponto de vista político, a eleição presidencial de 2026 aparece como um fator secundário para o investidor estrangeiro, segundo os executivos ouvidos pela reportagem. A percepção geral é de que questões fiscais e institucionais são analisadas dentro de um contexto global e não como um risco isolado do Brasil.
"Eleição não preocupa tanto. Na cabeça do estrangeiro, um governo Lula 4 seria mais do mesmo, enquanto qualquer um tirando o Lula pode trazer um upside. Se der Lula, vão esperar a reação dos gestores locais, ganhando tempo para entrar com mais calma. Se tiver chance de o Lula não ganhar, pode adiantar a entrada para não perder o primeiro upside", avalia Berkovitz, da Encore.
Para os executivos, o maior risco ao cenário positivo seria uma reversão das condições externas, como fortalecimento do dólar ou retomada da atratividade americana, o que poderia reduzir o apetite por emergentes. Ainda assim, a avaliação predominante é de que o movimento atual tem bases mais duradouras.
Contato: bruna.camargo@estadao.com
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