quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O Brasil no Divã Estatístico, de Marcelo Giufrida

 No jargão financeiro e econométrico, o sucesso de um ativo é medido pelo seu Alfa (o retorno que ele gera por mérito próprio) e pelo seu Beta (sua sensibilidade aos movimentos do mercado). 

Quando transportamos esses conceitos para a macroeconomia e comparamos o crescimento do PIB brasileiro com o crescimento mundial desde o ano 2000, o diagnóstico é desconcertante: o Brasil apresenta um Beta baixo e um Alfa persistentemente negativo. 

Mas o que esses termos técnicos dizem sobre a nossa realidade social e política? 

O Beta da Dependência: O Voo da Galinha 

O fato de o Brasil possuir um Beta baixo (estimado entre 0,6 e 0,8) indica que não somos capazes de capturar integralmente o dinamismo da economia global. Quando o mundo acelera, o Brasil reage com atraso e com menos intensidade. Historicamente, nossa economia é movida por ciclos de commodities, mas a falta de integração nas cadeias globais de valor e a precariedade da infraestrutura logística impedem que o país surfe as ondas de crescimento mundial com eficiência. 

Diferente de tigres asiáticos ou de outros emergentes que alavancam o crescimento externo para transformar suas estruturas internas, o Brasil parece atuar como um freio de mão puxado. Somos sensíveis ao preço do minério e da soja, mas insensíveis à inovação e ao ganho de produtividade global. 

O Alfa Negativo: A Autossabotagem Estrutural O dado mais alarmante, contudo, é o Alfa negativo. 

Em uma regressão linear, o alfa representa o que sobra quando o efeito do mundo é retirado. Se o alfa é negativo, significa que, se o crescimento mundial fosse zero, a economia brasileira estaria encolhendo por forças próprias. 

É a representação numérica da autossabotagem. Desde 2000, esse alfa negativo tem três pilares principais: 

1. A Carga do Estado e a Crise Fiscal: Gastamos muito e gastamos mal. A dívida pública, que consome uma fatia gigantesca do orçamento com juros, retira capital que poderia estar financiando o setor produtivo. 

2. A Armadilha da Produtividade: O trabalhador brasileiro médio produz hoje quase o mesmo que produzia nos anos 80. Sem educação básica de qualidade e sem incentivos à modernização industrial, o país estagnou tecnologicamente. 

3. Insegurança Jurídica e Custo Brasil: O ambiente de negócios é um labirinto tributário e regulatório que afugenta o investimento direto estrangeiro e pune o empreendedor local. A Década Perdida e a Queda de Relevância Os números não mentem. 

Se em 2011 chegamos a ser a 7ª economia do mundo, hoje lutamos para nos manter no top 10, mas com uma participação no PIB global que só encolhe. O crescimento médio de 2,4% ao ano nas últimas duas décadas é insuficiente para uma nação jovem que precisa de emprego e renda. Enquanto o mundo cresce a taxas próximas de 3,8%, o Brasil se contenta com as sobras.

Conclusão: É possível inverter o sinal? 

A conclusão dessa "regressão" da nossa história recente é que o Brasil se tornou um país "caro antes de ser rico". Para transformar o alfa negativo em positivo e elevar o nosso beta, não basta torcer por um novo superciclo de commodities ou por uma queda nas taxas de juros americanas. A solução exige uma ruptura com o modelo de crescimento baseado apenas no consumo e no gasto público. É necessário um choque de oferta: reforma administrativa profunda, simplificação tributária real e, acima de tudo, um foco obsessivo na produtividade. Sem isso, continuaremos sendo a economia do "quase" — um país que observa o mundo passar pela janela, preso em sua própria inércia estatística. 

26/02/2016

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O Brasil no Divã Estatístico, de Marcelo Giufrida

 No jargão financeiro e econométrico, o sucesso de um ativo é medido pelo seu Alfa (o retorno que ele gera por mérito próprio) e pelo seu Be...