terça-feira, 22 de abril de 2025

Bankinter Portugal Matinal 2204

 Análise Bankinter Portugal


SESSÃO: Outro golpe por incompetência: insistir em atacar Powell (Fed). Ontem, a Europa esteve ainda fechada, mas Nova Iorque permaneceu aberta, retrocedendo apreciavelmente (-2,4%) graças a Trump culpar o mensageiro dos maus resultados das suas políticas: insiste em culpar Powell de não baixar taxas de juros para ajudar a contrastar a provável involução do ciclo económico que ele mesmo provocou; ontem foi Hassett, o principal assessor económico do seu governo, que afirmou estar a estudar se “livrar-se” de Powell é uma opção realista (o seu mandato expira em maio de 2026). 


Naturalmente, considerar seriamente a possibilidade de terminar a independência do Fed aterroriza o mercado e a única coisa que consegue é que Wall St. retroceda com força, depreciar o USD (1,154/€) e que se procure (ainda mais) refúgio no ouro (+2%; já apreciado perante umas perspetivas de aumento da inflação preocupantes, visto que é um ativo de cobertura de inflação) e no franco suíço (CHF; 0,932/€). Agora, a Fed é o refúgio da independência para o mercado e se isso for retirado (altamente improvável que consiga) apenas restam ativos como o ouro e o franco suíço, numa situação semelhante à crise dos mísseis em Cuba, em 1962. Por isso, esta reação é lógica. E, por isso, porque continuamos a pensar que Trump irá testar todos os seus limites antes de ver-se obrigado a corrigir a situação quando ficar sozinho, quanto até os seus o abandonarem, insistirmos em adotar uma estratégia defensiva. Mesmo que ele corrigisse imediatamente, grande parte do dano está feito (o Leading Indicator de ontem foi outra prova: -0,7% vs. -0,5% esperado vs. -0,2% anterior). Apenas há que ter paciência, em posições defensivas, até que chegue o momento da oportunidade de voltar a assumir riscos a preços razoáveis. Quando? A evolução dos acontecimentos marcará os tempos, mas ainda é cedo. Talvez pensar no verão (julho/agosto) faça sentido.


O relevante HOJE são os resultados e guidances: GE (ca.12 h), SAP, Tesla, Intuitive Surgical (as 3 após o fecho americano). O mais importante são os guidances, mais do que os resultados. Como até agora, as empresas dirão muito seriamente que os irão ajustando em função do que aconteça com os impostos alfandegários e restantes medidas do governo americano; sem se atreverem a retirá-los para não sofrer um descalabro, mas sem os confirmarem porque sabem que já não podem comprometer-se. E AMANHÃ será dia dos PMIs em todo o mundo, que são indicadores intermédios de atividade: irão piorar em maior ou menor medida, colocando todos os Industriais (até o americano) em zona de contração (<50). Isso, embora não seja uma surpresa, tampouco será gratuito para o mercado.


CONCLUSÃO: Wall St. poderá subir um pouco esta tarde e, assim, reduzir os retrocessos europeus da manhã, mas será apenas uma contrarreação inercial clássica após quedas fortes como as de ontem, portanto, não se pode confiar. Nada muda enquanto Trump continuar a testar os seus próprios limites, caso os tenha. As yields das obrigações continuarão a aumentar, o USD a debilitar-se, o ouro a subir, o CHF a apreciar-se e o petróleo, pouco a pouco (não hoje), para níveis inferiores a 60$/b. como consequência do final do ciclo económico expansivo global e do aumento de produção (reconhecido ou não) por parte de países que precisam de equilibrar as suas contas públicas, tornando impossível abaixo de 80$/b. O fundo do mercado não mudará enquanto o governo americano insistir em cavar, pensando que assim sairá do buraco.


S&P500 -2,4% Nq-100 -2,5% SOX -2,1% Europa cerrada. VIX 33,8% Bund 2,47% T-Note 4,42% Spread 2A-10A USA=+65pb B10A: ESP 3,18% PT 3,06% FRA 3,25% ITA 3,65% Euribor 12m 2,104% (fut.1,889%) USD 1,153 JPY 161,6 Ouro 3.489$ Brent 66,7$ WTI 63,5$ Bitcoin +0,9% (88.081$) Ether 0% (1.577$). 


FIM

domingo, 20 de abril de 2025

Editorial OESP

 Estadão/Editoriais: O caminho para a insolvência


São Paulo, 19/04/2025 - Os investidores estão dando ao governo federal a oportunidade de aferir o nível de desconfiança que ronda a política fiscal de Lula da Silva. Ao embutirem, desde dezembro de 2024, juros reais - já descontada a inflação - de mais de 7%, os títulos da dívida pública brasileira de longo prazo mostram que é alto o descrédito na solvência de um governo focado no aumento dos gastos e sem margem para elevar ainda mais a arrecadação. O descontrole impõe um preço muito alto pelo risco de compra dos títulos que financiam a dívida.


Uma recente reportagem do Estadão mostrou que há quatro meses esses títulos, com vencimento aproximado de dez anos, romperam a barreira dos 7% e desde então mantêm taxas semelhantes às que eram cobradas entre 2015 e 2016, quando o País viveu uma das piores crises de sua história, que culminou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Apesar de o novo marco ter sido atingido em dezembro, desde outubro a taxa vinha gradativamente se aproximando desse patamar.


A simples equivalência com um período tão crítico para a economia nacional seria suficiente para disparar sinais de alerta no governo, diante de um endividamento público de 76% do Produto Interno Bruto (PIB). Economistas ouvidos na reportagem estimaram que, mesmo que o País não registrasse déficit nas contas públicas, ainda assim seriam necessários ao menos 13 anos para estabilizar o patamar de uma dívida tão acentuada.


Mudar esse cenário é uma escolha de governo, que não aparenta disposição para se afastar da crença lulopetista que vê no Estado o grande indutor do desenvolvimento nacional. Assim, mesmo em meio a uma situação fiscal complicada, criam-se programas sem o respectivo aprofundamento da capacidade orçamentária. Um exemplo é o Pé-de-Meia, que combate a evasão escolar no ensino médio. O programa tem previsão de custo de R$ 12,5 bilhões neste ano, mas só teve R$ 1 bilhão incluído no Orçamento de 2025 aprovado pelo Congresso. Há outros exemplos, como o Auxílio Gás e o próprio Bolsa Família.


Um relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado divulgado em fevereiro alertou para o aumento dos desafios do Tesouro Nacional na gestão da dívida em momentos de aperto monetário como o atual. A taxa básica de juros de 14,25% - com probabilidade de chegar a 15% até junho - piora a percepção de risco no controle da dívida, deixa os títulos mais voláteis e afasta investidores dos papéis destinados ao financiamento da dívida pública. Além disso, ter uma elevada parcela de títulos remunerados pela Selic na composição do endividamento faz com que o custo médio da dívida suba proporcionalmente mais em situações de aperto monetário. E haja recursos para a rolagem desse endividamento.


Não à toa, o descasamento entre as políticas monetária e fiscal é hoje um dos principais entraves à economia. A política monetária busca controlar a inflação, que em março acumulou taxa de 5,48% em 12 meses pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE. A expectativa do mercado financeiro, de acordo com o mais recente relatório Focus, do Banco Central (BC), é de que chegue ao fim de 2025 em 5,65%, isto é, 1,15 ponto porcentual acima do teto permitido. A redução de gastos pelo governo poderia contribuir para conter a inflação e, por consequência, afrouxar um pouco a política de juros do BC. Mas o que se vê nas medidas apadrinhadas por Lula é exatamente o oposto.


O conturbado cenário internacional já traz a sua cota de incertezas a países emergentes, como o Brasil. Soluções internas voltadas ao equilíbrio econômico e fiscal - como um efetivo corte de despesas, desindexação da economia, fiscalização e redimensionamento de programas sociais - seriam um bom sinal em direção à equalização da dívida e recuperação da confiança no País. Mas, pelo que mostra o levantamento da venda de títulos pelo Tesouro, o governo Lula da Silva está a anos-luz dessa meta. Como bem resumiu o ex-secretário do Tesouro Jeferson Bittencourt, as taxas de juros refletem hoje a certeza de que o arcabouço fiscal não vai entregar a solvência prometida.


Broadcast+

sábado, 19 de abril de 2025

O novo não

 O novo “não” de Tarcísio de Freitas para Bolsonaro


19/04/2025 04h06 Atualizado há 5 horas


Jair Bolsonaro externou a aliados, há algumas semanas, que não vivia seu melhor momento com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.


O motivo foi o novo convite feito para Tarcísio deixar o Republicanos e migrar para seu partido, o PL.


Jair Bolsonaro queria que o pupilo político migrasse para sua legenda antes que o Supremo Tribunal Federal (STF) aceitasse a denúncia contra ele, por tentativa de golpe de Estado, mas isso não ocorreu.


O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, já chegou a anunciar a ida do governador de São Paulo para o PL em diferentes ocasiões, ao longo do ano passado.


Primeiramente, Valdemar disse em entrevistas que Tarcísio comunicou a ele que iria para o PL antes das eleições municipais. Depois que o pleito de 2024 passou, o presidente do partido alegou que o governador estava esperando o fim das eleições daquele ano para fazer a mudança.


Sempre que foi perguntado publicamente sobre o tema, Tarcísio disse que ficaria no Republicanos. Por muito tempo Tarcísio alimentou críticas sobre a conduta política de Valdemar Costa Neto. Além disso, uma ida para o PL significaria um controle maior de Bolsonaro sobre seu destino político.



https://oglobo.globo.com/google/amp/blogs/bela-megale/post/2025/04/o-novo-nao-de-tarcisio-de-feitas-para-bolsonaro.ghtml

Leitura de sábado 3

 Leitura de Sábado:China não voltará a comprar soja dos EUA como antes, diz professor da Cornell

10:00 19/04/2025 


Por Gabriel Azevedo


São Paulo, 17/04/2025 - O professor de economia aplicada Wendong Zhang, da Universidade Cornell, no Estado de Nova York, avalia que, mesmo que os Estados Unidos e a China cheguem a um acordo para encerrar a disputa envolvendo a questão tarifária, os chineses dificilmente voltarão a importar soja do país nos mesmos volumes de antes. "Não acho que veremos o retorno aos números antigos, a menos que haja uma mudança política dramática", afirma ele, em entrevista ao Broadcast Agro. Nesta semana, o governo Donald Trump afirmou que as tarifas aplicadas contra produtos chineses chegaram a 245%, após sucessivas rodadas de sobretaxas. Do outro lado, a China impôs retaliações, elevando a até 84% taxas de importação sobre bens norte-americanos.


Trump justifica as medidas como forma de pressionar a China por acordos comerciais mais vantajosos. Já Pequim classificou a atitude como "erro sobre erro" e prometeu lutar "até o fim". Em meio a esse embate, o agronegócio brasileiro observa com atenção os desdobramentos. Uma reaproximação comercial entre Estados Unidos e China, como já ocorreu no primeiro acordo entre os dois países em 2020 (chamado de "Fase 1"), poderia afetar diretamente os embarques brasileiros de soja e carne - produtos que hoje lideram a pauta de exportações do Brasil para o mercado chinês.


Zhang é especialista em comércio agrícola, China e política internacional. A seguir, os principais trechos da entrevista:


Broadcast Agro - A China está formando estoques e ampliando o plantio de soja, enquanto aumenta as compras do Brasil. Como o senhor analisa essa estratégia? É uma mudança estrutural ou apenas um reflexo da guerra comercial com os EUA?


Wendong Zhang - Nos últimos anos, a China aumentou seus estoques de soja em mais de 25%, principalmente através da empresa estatal Sinograin. Isso dá ao país margem para pausar ou redirecionar compras em momentos de tensão política. Junto com os esforços para expandir a área plantada internamente, essa estratégia claramente reduziu a dependência chinesa da soja americana no curto prazo. Não é apenas uma questão de estabilizar preços, mas de garantir segurança caso as relações se deteriorem novamente. Ao mesmo tempo, vemos a forte preferência chinesa pela soja brasileira como parte de um realinhamento de longo prazo, não apenas uma reação de curto prazo. Em 2024, o Brasil forneceu mais de 70% de todas as importações chinesas de soja, número que seria considerado alto mesmo uma década atrás. Os importadores chineses preferem os grãos brasileiros não apenas pelo preço, mas pela logística mais previsível e pelas relações comerciais mais amigáveis. Com empresas estatais chinesas investindo diretamente em portos brasileiros, isso parece mais uma mudança estratégica do que um ajuste temporário.


Broadcast Agro - Quanto impacto a guerra comercial de 2018/19 causou às exportações americanas? Os agricultores dos EUA conseguirão recuperar o espaço perdido no mercado chinês?


Zhang - A guerra comercial de 2018/2019 deixou marcas duradouras. As exportações americanas de soja para a China caíram drasticamente, e, mesmo com a recuperação parcial dos volumes, o dano à reputação não foi totalmente reparado. Em 2024, a participação dos EUA nas importações chinesas de soja permaneceu em torno de 26%, bem abaixo dos níveis anteriores à guerra comercial. Um estudo do Centro de Pesquisa Agrícola mostrou que, embora os agricultores americanos tenham recebido dinheiro do governo como compensação, as relações comerciais foram enfraquecidas e a confiança foi perdida. Isso é muito mais difícil de restaurar com um cheque. Nossas projeções indicam que a participação dos EUA nas importações chinesas ficará entre 28% e 32% em 2025/26, dependendo da evolução das tarifas e do clima. Isso está bem abaixo dos níveis de 40-45% antes de 2018. Mesmo com safras americanas mais fortes, não acredito que veremos o retorno aos números antigos, a menos que haja uma mudança política dramática ou um problema grave na oferta de outros países. O mundo mudou - e a forma como a China compra também.


Broadcast Agro - O Brasil conseguirá manter sua posição de liderança, apesar dos problemas de infraestrutura? E como secas ou enchentes extremas podem afetar esse cenário?


Zhang - O Brasil fez progressos reais, não há como negar. A expansão do Arco Norte (sistema de portos nas regiões Norte e Nordeste) e os investimentos em ferrovias ajudaram a aliviar os congestionamentos. Mas gargalos sazonais e custos de frete interno ainda são barreiras. Meus modelos sugerem que o Brasil poderia atingir cerca de 100 milhões de toneladas de soja em exportações até 2026, se tudo correr bem. Mas isso pressupõe investimento contínuo e logística mais eficiente da colheita ao porto. Então sim, a infraestrutura é uma limitação - mas uma que está melhorando com o tempo. Os impactos climáticos são extremamente importantes nessa equação. Vimos isso durante a seca argentina de 2023/24 - a China rapidamente redirecionou compras para o Brasil e, em menor medida, para os EUA. Se Mato Grosso enfrentasse uma seca severa ou inundações, eu estimaria um redirecionamento de 5 a 8 milhões de toneladas de demanda. Os choques climáticos são o fator imprevisível nesse sistema, e eles forçam a China a manter planos B - e fornecedores - alternativos.


Broadcast Agro - Muitos analistas falam em "desglobalização". O senhor concorda? Como essa tendência afeta o comércio agrícola global?


Zhang - Eu chamaria de desglobalização seletiva ou estratégica. Os países ainda comercializam, mas estão mais cautelosos agora. Após a pandemia, a guerra na Ucrânia e as tarifas EUA-China, as nações importadoras de alimentos estão repensando os riscos. O comportamento de compra da China - construindo estoques, diversificando fornecedores, investindo em logística - mostra uma clara mudança do comércio baseado na busca pelo menor preço para um comércio baseado em segurança. É um padrão que espero que continue. Essa nova lógica mudou fundamentalmente os fluxos globais. Em 2024, a China importou quase 9 milhões de toneladas da Argentina, Uruguai e Rússia - países que vendiam muito menos há uma década. E não são apenas as importações - a China também está investindo em alternativas proteicas e aumentando a produção doméstica de soja. O resultado é um sistema mais flexível e menos dependente dos EUA.


Mesmo que as tarifas desapareçam, não espero que a China retorne aos padrões de compra anteriores a 2017 tão cedo. Nossas simulações mostram que a guerra tarifária custou cerca de 2,5% do PIB aos EUA e ainda mais à China. As exportações agrícolas americanas caíram mais de US$ 25 bilhões entre 2018 e 2020. Os estados do Meio-Oeste americano, onde se concentra a produção de soja, foram os mais afetados, mesmo com os pagamentos do governo. As tarifas chamaram atenção para os desequilíbrios comerciais? Sim. Mas trouxeram mudança estrutural na China? Não, longe disso. No final, os agricultores americanos pagaram um preço alto por uma mensagem política.

Leitura de sábado 2

 Leitura de Sábado: Governo precisará de R$ 118 bi a mais em receitas para fechar contas em 2026

10:00 19/04/2025 


Por Giordanna Neves, Fernanda Trisotto e Amanda Pupo


Brasília, 15/04/2025 - O governo federal precisará de um esforço adicional de R$ 118 bilhões em receitas para conseguir fechar as contas públicas em 2026, de acordo com o chefe do Centro de Estudos Tributários e Aduaneiros da Receita Federal, Claudemir Malaquias. Segundo ele, a equipe econômica trabalha com três frentes principais para atingir esse objetivo, todas voltadas à ampliação da eficiência arrecadatória, sem a necessidade de aumentar tributos.


As propostas envolvem mecanismos para facilitar a recuperação de créditos tributários em litígio, medidas para intensificar a execução de créditos tributários já reconhecidos e ações voltadas à melhoria do ambiente de negócios. "Esse conjunto de medidas vai ser discriminado por ocasião da lei orçamentária. Até agosto essas medidas precisam estar em tramitação no legislativo", disse durante coletiva de apresentação do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2026.


Malaquias explicou que os mecanismos de facilitação na resolução de litígios tributários envolvem medidas já adotadas em exercícios anteriores, com foco na aceleração da regularização fiscal.


Quanto às iniciativas voltadas à melhoria do ambiente de negócios, ele destacou que diversos fluxos de trabalho no sistema tributário impõem custos operacionais significativos aos contribuintes, os quais podem ser reduzidos por meio de ações de simplificação. "À medida que reduzimos isso, a gente permite que esses contribuintes ganhem competitividade (...) Medidas de simplificação ampliam a aderência de contribuintes a normas tributárias", afirmou.


Já as medidas de garantia de execução de crédito tributário, segundo ele, não representam aumento da carga tributária, mas sim a recuperação de valores que já são devidos ao governo e que, por diferentes razões, ainda não foram efetivamente arrecadados

Leitura de sábado

 Leitura de Sábado:China não voltará a comprar soja dos EUA como antes, diz professor da Cornell

10:00 19/04/2025 


Por Gabriel Azevedo


São Paulo, 17/04/2025 - O professor de economia aplicada Wendong Zhang, da Universidade Cornell, no Estado de Nova York, avalia que, mesmo que os Estados Unidos e a China cheguem a um acordo para encerrar a disputa envolvendo a questão tarifária, os chineses dificilmente voltarão a importar soja do país nos mesmos volumes de antes. "Não acho que veremos o retorno aos números antigos, a menos que haja uma mudança política dramática", afirma ele, em entrevista ao Broadcast Agro. Nesta semana, o governo Donald Trump afirmou que as tarifas aplicadas contra produtos chineses chegaram a 245%, após sucessivas rodadas de sobretaxas. Do outro lado, a China impôs retaliações, elevando a até 84% taxas de importação sobre bens norte-americanos.


Trump justifica as medidas como forma de pressionar a China por acordos comerciais mais vantajosos. Já Pequim classificou a atitude como "erro sobre erro" e prometeu lutar "até o fim". Em meio a esse embate, o agronegócio brasileiro observa com atenção os desdobramentos. Uma reaproximação comercial entre Estados Unidos e China, como já ocorreu no primeiro acordo entre os dois países em 2020 (chamado de "Fase 1"), poderia afetar diretamente os embarques brasileiros de soja e carne - produtos que hoje lideram a pauta de exportações do Brasil para o mercado chinês.


Zhang é especialista em comércio agrícola, China e política internacional. A seguir, os principais trechos da entrevista:


Broadcast Agro - A China está formando estoques e ampliando o plantio de soja, enquanto aumenta as compras do Brasil. Como o senhor analisa essa estratégia? É uma mudança estrutural ou apenas um reflexo da guerra comercial com os EUA?


Wendong Zhang - Nos últimos anos, a China aumentou seus estoques de soja em mais de 25%, principalmente através da empresa estatal Sinograin. Isso dá ao país margem para pausar ou redirecionar compras em momentos de tensão política. Junto com os esforços para expandir a área plantada internamente, essa estratégia claramente reduziu a dependência chinesa da soja americana no curto prazo. Não é apenas uma questão de estabilizar preços, mas de garantir segurança caso as relações se deteriorem novamente. Ao mesmo tempo, vemos a forte preferência chinesa pela soja brasileira como parte de um realinhamento de longo prazo, não apenas uma reação de curto prazo. Em 2024, o Brasil forneceu mais de 70% de todas as importações chinesas de soja, número que seria considerado alto mesmo uma década atrás. Os importadores chineses preferem os grãos brasileiros não apenas pelo preço, mas pela logística mais previsível e pelas relações comerciais mais amigáveis. Com empresas estatais chinesas investindo diretamente em portos brasileiros, isso parece mais uma mudança estratégica do que um ajuste temporário.


Broadcast Agro - Quanto impacto a guerra comercial de 2018/19 causou às exportações americanas? Os agricultores dos EUA conseguirão recuperar o espaço perdido no mercado chinês?


Zhang - A guerra comercial de 2018/2019 deixou marcas duradouras. As exportações americanas de soja para a China caíram drasticamente, e, mesmo com a recuperação parcial dos volumes, o dano à reputação não foi totalmente reparado. Em 2024, a participação dos EUA nas importações chinesas de soja permaneceu em torno de 26%, bem abaixo dos níveis anteriores à guerra comercial. Um estudo do Centro de Pesquisa Agrícola mostrou que, embora os agricultores americanos tenham recebido dinheiro do governo como compensação, as relações comerciais foram enfraquecidas e a confiança foi perdida. Isso é muito mais difícil de restaurar com um cheque. Nossas projeções indicam que a participação dos EUA nas importações chinesas ficará entre 28% e 32% em 2025/26, dependendo da evolução das tarifas e do clima. Isso está bem abaixo dos níveis de 40-45% antes de 2018. Mesmo com safras americanas mais fortes, não acredito que veremos o retorno aos números antigos, a menos que haja uma mudança política dramática ou um problema grave na oferta de outros países. O mundo mudou - e a forma como a China compra também.


Broadcast Agro - O Brasil conseguirá manter sua posição de liderança, apesar dos problemas de infraestrutura? E como secas ou enchentes extremas podem afetar esse cenário?


Zhang - O Brasil fez progressos reais, não há como negar. A expansão do Arco Norte (sistema de portos nas regiões Norte e Nordeste) e os investimentos em ferrovias ajudaram a aliviar os congestionamentos. Mas gargalos sazonais e custos de frete interno ainda são barreiras. Meus modelos sugerem que o Brasil poderia atingir cerca de 100 milhões de toneladas de soja em exportações até 2026, se tudo correr bem. Mas isso pressupõe investimento contínuo e logística mais eficiente da colheita ao porto. Então sim, a infraestrutura é uma limitação - mas uma que está melhorando com o tempo. Os impactos climáticos são extremamente importantes nessa equação. Vimos isso durante a seca argentina de 2023/24 - a China rapidamente redirecionou compras para o Brasil e, em menor medida, para os EUA. Se Mato Grosso enfrentasse uma seca severa ou inundações, eu estimaria um redirecionamento de 5 a 8 milhões de toneladas de demanda. Os choques climáticos são o fator imprevisível nesse sistema, e eles forçam a China a manter planos B - e fornecedores - alternativos.


Broadcast Agro - Muitos analistas falam em "desglobalização". O senhor concorda? Como essa tendência afeta o comércio agrícola global?


Zhang - Eu chamaria de desglobalização seletiva ou estratégica. Os países ainda comercializam, mas estão mais cautelosos agora. Após a pandemia, a guerra na Ucrânia e as tarifas EUA-China, as nações importadoras de alimentos estão repensando os riscos. O comportamento de compra da China - construindo estoques, diversificando fornecedores, investindo em logística - mostra uma clara mudança do comércio baseado na busca pelo menor preço para um comércio baseado em segurança. É um padrão que espero que continue. Essa nova lógica mudou fundamentalmente os fluxos globais. Em 2024, a China importou quase 9 milhões de toneladas da Argentina, Uruguai e Rússia - países que vendiam muito menos há uma década. E não são apenas as importações - a China também está investindo em alternativas proteicas e aumentando a produção doméstica de soja. O resultado é um sistema mais flexível e menos dependente dos EUA.


Mesmo que as tarifas desapareçam, não espero que a China retorne aos padrões de compra anteriores a 2017 tão cedo. Nossas simulações mostram que a guerra tarifária custou cerca de 2,5% do PIB aos EUA e ainda mais à China. As exportações agrícolas americanas caíram mais de US$ 25 bilhões entre 2018 e 2020. Os estados do Meio-Oeste americano, onde se concentra a produção de soja, foram os mais afetados, mesmo com os pagamentos do governo. As tarifas chamaram atenção para os desequilíbrios comerciais? Sim. Mas trouxeram mudança estrutural na China? Não, longe disso. No final, os agricultores americanos pagaram um preço alto por uma mensagem política.

Para entender a conjuntura



O livro “Para entender a conjuntura econômica”, de Carmem Aparecida Feijó, Elvio Valente, Fernando Carlos G. de Cerqueira Lima, Márcio Silva Araujo e Paulo Gonzaga Mibielli de Carvalho, é uma obra voltada para quem deseja compreender o comportamento da economia no curto prazo — a chamada conjuntura econômica.


Resenha

Esta obra busca tornar acessível a análise dos principais indicadores econômicos, como inflação, PIB, taxa de juros, taxa de câmbio, saldo comercial, dívida pública, entre outros. Com uma linguagem clara e didática, os autores explicam como esses indicadores interagem entre si e quais são os impactos de políticas econômicas (monetária, fiscal e cambial) sobre o desempenho de uma economia.

O diferencial do livro está em sua abordagem prática e contextualizada: ele conecta conceitos teóricos da macroeconomia com os acontecimentos da economia brasileira, facilitando a compreensão da dinâmica econômica do país. Isso torna a leitura especialmente útil para estudantes de economia, administração e contabilidade, bem como para profissionais e interessados em acompanhar e interpretar a evolução econômica.

Além disso, a obra é publicada pelas editoras Minha Editora e Manole, conhecidas por materiais didáticos de qualidade, o que reforça o caráter educativo do livro.

Pontos fortes:
• Linguagem acessível, sem abrir mão do rigor técnico.
• Aplicação prática dos conceitos à realidade brasileira.
• Útil tanto para iniciantes quanto para quem deseja aprofundar o entendimento da conjuntura.

Se quiser, posso preparar um resumo por capítulo ou destacar os principais conceitos abordados no livro. Deseja isso?


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Leitura de domingo

 *LEITURA DE DOMINGO: INVESTIDOR ESTRANGEIRO DE LONGO PRAZO AINDA NÃO ENTROU NA B3, DIZ BRADESCO* 15:00 22/02/2026  Por Cynthia Decloedt São...