quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Muito bom

 *Democracia e desesperança* 


" _Como o governo está paralisado pela senilidade ideológica, cabe à direita sensata enfrentar os sabotadores da democracia e lutar para tirar o Brasil do presente atoleiro_ 


Por Luiz Felipe D'Avila 30/10/2024 


https://www.estadao.com.br/opiniao/luiz-felipe-davila/democracia-e-desesperanca/


O World Data Lab, uma instituição de ciência de dados, publicou um estudo sobre a renda de jovens no mundo e revela um dado estarrecedor. Em 2000, o poder de compra de um jovem brasileiro era equivalente ao do jovem mexicano; hoje o poder de compra do brasileiro de 25 anos de idade representa metade do mexicano. Esse é o retrato cruel da degeneração política, econômica e social do Brasil nas últimas duas décadas de governos populistas. Três males abateram o País nesse período.


Primeiro, a miopia ideológica da esquerda e sua visão antimercado transformaram a vida do jovem empreendedor num inferno. A insegurança jurídica e a arbitrariedade do Estado criaram dificuldades burocráticas, judicializaram relações de trabalho e obrigações tributárias e criaram meios de taxar e de expropriar boa parte do ganho dos empreendedores que correram risco e criaram negócios bem-sucedidos. O Estado, capturado pelo corporativismo público e privado, impulsionou o gasto público irresponsável, catapultando o crescimento da dívida pública e obrigando o Banco Central a elevar a taxa de juro para um nível que desencoraja o empreendedorismo. No Brasil, o melhor negócio não é vencer os concorrentes no mercado, mas capturar o Estado e viver à custa de feudos de privilégios estatais. Não é por outra razão que os jovens talentosos buscam oportunidades de trabalhar em outros países que oferecem ambiente de negócio mais amigável e qualidade de vida melhor.


A segunda tragédia é o amor incondicional dos populistas pelo nacional-estatismo. O protecionismo estatal, recheado de subsídios e barreiras comerciais, destruiu a competitividade do País, manteve o Brasil alijado do comércio global e criou uma das economias mais fechadas do mundo. Essa política desastrosa produziu décadas de baixo crescimento econômico. Deixamos de ser o “primo rico” para nos tornarmos o “primo pobre” dos emergentes, como atesta a corrosão do poder aquisitivo dos jovens brasileiros quando comparado aos jovens mexicanos. Na década de 1980, a renda per capita do Brasil era equivalente à da Coreia do Sul; hoje, ela é três vezes menor. Mas o que fez a Coreia do Sul enriquecer? O país investiu na melhoria da educação pública e abriu a economia para o comércio internacional. O Brasil, ao contrário, empobreceu ao insistir em ignorar a educação de qualidade e manter a economia fechada.


A terceira desgraça que abateu o País é o descaso com a educação pública de qualidade para as crianças e jovens. Criamos ilhas de excelência, como a alfabetização plena no município de Sobral (CE), a educação em tempo integral no Espírito Santo e o ensino universitário de ponta no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Mas ilhas de excelência não são capazes de produzir em escala a mão de obra qualificada de que o País precisa na era da revolução tecnológica. No Brasil, 60% das crianças não estão devidamente alfabetizadas aos oito anos de idade e quase metade dos jovens abandona a escola antes da conclusão do ensino médio.


 A tragédia educacional brasileira está espelhada no resultado pífio do País nos exames internacionais de avaliação. O Brasil há anos está nas últimas posições entre os principais países emergentes na avaliação de matemática, ciências e leitura do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). A educação pública de péssima qualidade destrói a mobilidade social, impede o aumento da produtividade do trabalhador e marginaliza o País da produção de conhecimento no século 21.


As eleições municipais mostraram a linha que divide o voto da esperança e da desesperança no País. O primeiro retrata a expectativa do cidadão de melhorar a vida reelegendo bons prefeitos ou optando por mudança da liderança municipal. O segundo revela a absoluta descrença no sistema político e na sua capacidade de oferecer reais alternativas para o País. Esse eleitor busca votar no candidato antissistema, representando pela figura messiânica que vai “acabar com tudo o que está aí” e construir uma nova realidade iluminada pela sua áurea salvacionista.


Se quisermos salvar a democracia das garras dos populistas, é preciso compreender os sentimentos de raiva, indignação e medo que ditam os votos da desesperança. Jovens frustrados com a ausência de crescimento econômico e sem perspectiva de ascensão social por meio da educação de qualidade e do trabalho duro tornam-se presa fácil para aventureiros e populistas que ingressam na política. Como o governo petista está paralisado pela senilidade ideológica e políticas obsoletas, cabe à direita sensata enfrentar os sabotadores da democracia e lutar para tirar o Brasil do presente atoleiro, com educação de qualidade, abertura econômica e líderes políticos comprometidos com promover reformas necessárias para criar um Estado enxuto e eficiente. Como dizia Joaquim Nabuco, “a missão do governo é fazer por meio da política o que a revolução faria pela força”. Se não seguirmos o conselho de Nabuco, a democracia no Brasil não tem futuro"

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Corrupção x STF

 https://www.estadao.com.br/amp/politica/para-74-brasileiros-supremo-tribunal-federal-stf-incentiva-corrupcao-anular-punicoes-operacao-lava-jato-pesquisa-genial-quaest-nprp/?s=08

Carlos Alberto Sardenberg, Para que servem as previsões

O Fundo Monetário Internacional trouxe notícias sobre o Brasil nesta semana. A boa: pela nova projeção, que aparece no Panorama Econômico Mundial, a economia brasileira deverá crescer 3% neste ano. A ruim: a dívida pública continuará subindo neste e nos próximos dois anos, de acordo como relatórioMonitor Fiscal.

O governo, claro, gostou da primeira e rejeitou a segunda.

Mas uma ampla opinião entre economistas brasileiros concorda com as duas informações. Na verdade, é o contrário. O FMI é que chegou agora às projeções já feitas por aqui. É normal.

O fundo produz duas versões por ano do extenso documento que dá uma geral na economia mundial. A instituição tem seus próprios especialistas, mas está claro que se baseia em dados produzidos localmente. E esses dados são gerados toda semana.

O Boletim Focus, publicado toda segunda-feira pelo Banco Central (BC), traz o que se chama de “consenso de mercado”. Não é, pois, a opinião do BC, mas de mais de uma centena de instituições financeiras e consultorias que, toda sexta-feira, enviam seus cenários para o banco. Os técnicos tabulam tudo no fim de semana e chegam às medianas, publicadas no Focus.

Muita gente reclama dos erros nas previsões.O presidente Lula e o ministro Haddad não perdem oportunidade de lembrar que, no início deste ano, o Focus previa umcrescimento bem menor do que de fato vem ocorrendo. Mas é normal, em qualquer país, que previsões sejam refeitas. Elas refletem os dados disponíveis no momento, um quadro que pode mudar.

É possível antecipar com alguma antecedência o tamanho da safra agrícola, incluindo aí previsões do tempo.

Não se prevê, entretanto, um desastre climático, uma mudança brusca que derruba plantações. Do mesmo modo, observando dados sobre a economia mundial, pode-se fazer uma previsão bem aproximada do consumo de energia e, pois, dos preços do petróleo. Até que estoura uma guerra, e lá se vão os prognósticos.

E o dólar? Pelo Boletim Focus, a moeda americana será negociada a R$ 5,42 em 31 de dezembro deste ano. Qual a chance de acertar? Zero. E, se acertar, terá sido por acaso. Sãomuitas variáveis em jogo. Se Trump ganhar, espera-se um dólar mais forte no mundo todo e, pois, a desvalorização das moedas locais, incluindo o real. Se Kamala ganhar, o cenário será diferente. Uma declaração desastrada de Lula—da quelas que rejeitam cortes de gastos—faz subir o dólar e os juros.

Tudo considerado, poderá perguntar o leitor: se é assim, por que fazer previsões? Porque elas indicam as tendências, mostram o que seria o normal, descontadosos eventuais desvios. Por isso, são constantemente refeitas, agregando novos dados. No fim das contas, dá certo.

Neste momento, governo, economistas e FMI concor-

dam que o Brasil crescerá em torno de 3% neste ano.O go-

verno é sempre um pouco mais otimista, mas também ele

esperava menos quando 2024 se iniciou. Quanto às contas

públicas, FMI e boa parte dos economistas brasileiros con-

cordamquehaverádéficitsexpressivosemtodososanosdo

governo Lula. Gastará mais do que arrecada. O ministro

Haddad continua falando em déficit zero, ou perto disso,

mas há muita desconfiançana praça.

Não por causa dele, ministro, mas por causa de Lula, de parte do governo e do Congresso. Neste lado do cenário, ou o pessoal quer gastar ou quer oferecer reduções de impostos e subsidiar certos setores da economia. Combinação ex plosiva: mais gasto, menos receita.

O mercado aprecia quando Haddad declara que as metas do arcabouço fiscal—déficit zero, com ganhos de receita e cortes de gasto —serão cumpridas. Declarações nesse sentido derrubam dólar e juros, empurrama Bolsa para cima. O pessoal desconfia é da capacidade e da força política do ministr de impor essa agenda dentro do governo e no Congresso.

Enquanto permanece a desconfiança, a perspectiva é de crescimento menor em 2025, por causa dos juros altos, consequência dos déficits, da dívida pública em alta.

Viram como é difícil acertar as previsões?

Para que servem as previsões?

blogs.oglobo.globo.com/opiniao

sardenberg@cbn.com.br

CARLOS ALBERTO SARDENBERG

Sobre o pacote fiscal

 *Corte de gastos: Casa Civil e Fazenda chegaram a entendimento e medidas estão sob análise jurídica - Míriam Leitão/OGlobo*


30/10/2024 07h44  

 

 

*A informação que eu obtive nessa manhã é que a Casa Civil e o Ministério da Fazenda já chegaram a um entendimento sobre o conjunto de medidas do ajuste fiscal.* Nesse momento as propostas estão “com a turma do Direito”, como me disse uma fonte, o que significa que elas estão sendo analisadas no aspecto jurídico. Um erro nesse ponto pode derrubar uma boa proposta, como se sabe.

*Houve acordo dentro do governo sobre o princípio de reforçar o arcabouço fiscal . E de que forma será esse reforço? “A dinâmica dos gastos obrigatórios tem que ser compatível com a dinâmica da fórmula do arcabouço”, me disse uma fonte*. Há entendimento sobre a fórmula. E o que falta é exatamente essa análise jurídica.

*O mercado financeiro tem suas ansiedades naturais de quem não pode perder um minuto antes de fazer uma posição na administração de recursos de terceiros. O tempo do governo é outro, e é natural que seja assim porque os processos são estes de formulação, negociação, acordo, avaliação jurídica*. Mas essa importante etapa foi concluída. *Havendo acordo entre a economia e a Casa Civil o presidente pode arbitrar.*

Call Matinal ConfianceTec

 CALL MATINAL CONFIANCE TEC

30/10/2024 

Julio Hegedus Netto,  economista.


MERCADOS EM GERAL


FECHAMENTO DE TERÇA-FEIRA (29)

MERCADO BRASILEIRO


O Ibovespa encerrou o pregão na terça-feira (29) em queda de 0,37%, a 130.736 pontos. Volume negociado fechou baixo, a R$ 17,0 bi. Já o dólar encerrou em forte alta,  0,92%, a R$ 5,7610. Vértice da curva de juros segue pressionado.


Mercados hoje (30): Bolsas asiáticas fecharam, na sua maioria, em queda, exceção do Japão; bolsas europeias em queda e  Índices Futuros de NY em alta.


RESUMO DOS MERCADOS (06h40)


S&P 500 Futuro, +0,23%

Dow Jones Futuro, +0,05%

Nasdaq, +0,24%

Londres (FTSE 100),-0,46%

Paris (CAC 10), -0,83%

Frankfurt (DAX), -0,43%

Stoxx600, -0,59%

Shangai, -0,61%

Japão (Nikkei 225), +0,96% 

Coreia do Sul (Kospi), -0,82%

Hang Seng, -1,55%

Austrália (ASX), -0,81%

Petróleo Brent, +1,20%, a US$ 71,97

Petróleo WTI, +1,29%, US$ 68,08

Minério de ferro em Dalian, +0,38%, a US$ 110,26.


NO DIA (30)


Dia de mais indicadores de mercado de trabalho nos EUA, desta vez, o índicador do setor privado, o ADP. Ontem, a geração de empregos, pelo relatório Jolts, veio em desaceleração. 


Pelo dados de atividade, os PMIs vieram mistos. O PMI Composto veio em 54,6 contra 54,4, o Industrial, 47,9 para 47,0 e o de Serviços, 55,3 para 55,4.


Por aqui, há toda uma expectativa em torno do pacote de contenção de despesas, ainda sem data. Seguidas reuniões com Lula seguem acontecendo.


Diante disso, os mercados seguem "desconfiados", o dólar acima de R$ 5,70, juro no vértice longo pressionado e bolsa de valores "de lado", com baixo volume.


Indo para a Zona do Euro, o PIB do terceiro trimestre veio em crescimento de 0,4% contra o tri anterior e 0,9% no anualizado.


AGENDA DO DIA (30):


Indicadores: 🌐

05h00. Alemanha/Ifo: índice de sentimento das empresas de setembro

08h00. BCB divulga ata do Copom 

08h00. FGV: Sondagem do consumidor de setembro

08h00. FGV: IPC-S Capitais da 3ª quadrissemana de setembro

11h00. EUA/Conference Board: índice de confiança do consumidor de setembro

14h00. Áustria: Opep lança relatório sobre perspectivas globais para o petróleo


Eventos:

08h30. BCB: Campos Neto faz palestra em evento do banco J. Safra

10h00. EUA: Lula discursa na abertura da Assembleia Geral da ONU

10h00. EUA/Fed: Michelle Bowman participa de evento


Julio Hegedus Netto, economista da ConfianceTec 

 

Boa quarta-feira e bons negócios!


PS. Em breve, um novo Call Matinal.

Prensa brasileira

 📰  *Manchetes de 4ªF, 30/10/2024* 

▪️ *VALOR*: Incerteza fiscal e cenário externo levam dólar a R$ 5,76, maior cotação desde março de 2021

▪️ *GLOBO*: Indefinição sobre corte de gastos leva dólar à maior cotação desde 2021  

▪️ *FOLHA*: Haddad diz não ter prazo para cortes; dólar chega a maior valor desde 202            

▪️ *ESTADÃO*: Nunes diz que trabalhará para o MDB não apoiar Lula em 2026

Governo sem projeto

 Governo Lula não tem projeto para o país, diz Temer


Para ex-presidente, protagonismo do Congresso pode conduzir um dia a uma reforma política radical, com mudança do sistema de governo


29.out.2024 às 13h26


O ex-presidente da República Michel Temer, 84, afirma que o governo Lula 3 não tem projeto para o país e que passou um sinal negativo ao mudar as metas do próprio arcabouço fiscal que criou no ano passado.


Mandatário entre setembro de 2016 e dezembro de 2018, Temer instituiu em sua gestão o chamado teto de gastos, que corrigia o gasto do ano corrente pela inflação do anterior, e aprovou a reforma trabalhista, além de ter iniciado as discussões da previdenciária, finalmente aprovada em 2019, no governo Jair Bolsonaro (PL).


"A sensação que eu tenho é que este governo não tem um projeto. Ou, se o tem, tem às escuras, não às claras. Não lança para a população", diz Temer.


O ex-presidente afirma que a fase de radicalização política no Brasil está ficando para trás e que o desempenho positivo de seu partido, o MDB, no último pleito seria prova disso. Temer participou nesta terça-feira (29) do Lide Brazil Conference, em Londres, promovido por Folha, UOL e Lide.


Muitos qualificam seu governo como reformista e tendo sido capaz de estabilizar minimamente a economia, com o teto de gastos. Hoje, temos juros e dólar em alta, com a inflação pressionada. Como avalia o quadro?


Assim que eu cheguei no governo, percebi que a economia não se resolve num passe de mágica. Você não reduz os juros nem a inflação com uma única medida. É preciso uma série delas. Por isso, optamos pelas reformas, começando pelo teto de gastos.


Há o fundamento de que ninguém pode gastar mais do que aquilo que arrecada. Isso já começou a dar uma credibilidade extraordinária, porque o problema da economia está muito na segurança, naquilo que as pessoas alardeiam como sendo segurança jurídica, que nada mais é do que o cumprimento rigoroso do sistema normativo.


E disso decorre também a segurança, a credibilidade social, que permite investimentos. No nosso período, fizemos isso. Especialmente eu relembro a reforma trabalhista, o teto de gastos, o encaminhamento da [reforma da] Previdência, a Lei das Estatais, que recuperou a Petrobras e outras empresas.


Você precisa ter muita unidade no governo, que é uma coisa fundamental. Você não pode ter disputa entre ministérios, como, vez ou outra, eu verifico.


O atual governo criou o chamado arcabouço fiscal e já fez modificações, alterando metas para 2025 e sinalizando que o superávit de 1% do PIB será alcançado só em 2028. Como vê o cenário fiscal neste governo?


Em primeiro lugar, quero dizer o seguinte: a ideia do teto não feneceu. O que era o teto no meu governo? Era aplicar a inflação do ano anterior no novo orçamento. O que é o teto hoje? É a inflação do ano anterior, mais 0,5% a 2,5% [de crescimento real]. Se numericamente isso vai dar certo ou não, eu não saberia dizer. Mas ainda existe a figura do teto.


Agora, é preciso que haja aplicação rigorosa desse teto. Se houver titubeio, mesmo com esse teto modificado, teremos instabilidade. Mudar a meta não é útil.


Uma certa estabilidade legislativa também é importante. Porque também a credibilidade fiscal, econômica e social deriva da não existência permanente de modificações legais. Você acabou de dizer uma coisa que preocupa, essa modificação [no arcabouço].


O governo Lula 3 está terminando o seu segundo ano. Como o sr. o avalia até aqui?



Não vejo ideia de reformas pela frente. Temos a reformatação administrativa, mas está demorando. Eu não pude realizá-la porque eu tive pouco tempo de governo.


Eu não vejo, digamos assim, um projeto, uma meta do governo. Por que que eu tive uma meta? Porque, em um dado momento [2015], na Fundação Ulysses Guimarães, nós resolvemos realizar um documento, que foi chamado "Uma Ponte para o Futuro". Quando eu cheguei ao governo, eu tinha um projeto.


Essas coisas todas que falamos das reformas fundamentais, que resultaram na queda da inflação e da taxa Selic, estavam programadas. Com aquele projeto, fomos fazendo as coisas e isso deu credibilidade. Agora, acho que falta o anúncio de um projeto maior.


Como o Juscelino Kubitschek [presidente de 1956 a 1961], que tinha um plano de metas. As pessoas sabiam para onde o governo estava indo. A sensação que eu tenho é que este governo não tem um projeto. Ou, se o tem, tem às escuras, não às claras. Não lança para a população.


O sr. não teria nada para citar como projeto deste governo?



Por enquanto, não. Não saberia dizer. Evidentemente que há um esforço grande para reduzir a inflação, mas ainda é improdutivo. Você veja que a própria diminuição do desemprego —vários editoriais e jornais disseram— é um produto da reforma trabalhista. Ela produziu mudanças na lei, que levou alguns anos para ter o seu efeito.


Eu confesso que não vejo. Vejo boa vontade, mas não vejo execução e vejo muita divergência. Por exemplo, vejo as dificuldades que o ministro [Fernando] Haddad [Fazenda] tem muitas vezes para levar adiante certos projetos. Isso cria insegurança, o que não é útil para a governabilidade.


Aumentar a arrecadação não é ruim, mas aumentar os gastos é. Por isso que o teto de gastos não permitia a elevação dos gastos públicos. Então, dois pontos: você aumenta a arrecadação; muito bem, sinal que a produção vai indo bem. Mas não pode aumentar os gastos, senão uma coisa elimina a outra. E isso parece que está acontecendo.


O seu partido se saiu bem nas eleições. Teve o segundo melhor resultado em população a ser governada, 36,6 milhões [atrás do PSD, com 37 milhões] e ganhou em São Paulo, o que não ocorria desde 2012. Como avalia o fato de o centrão, do qual o MDB faz parte, ter sido o grande vencedor?


O MDB é o grande partido de centro do país. Sempre foi assim. Desde o momento da Constituinte [1988], quando trouxe o país para o centro. E acho que hoje, mais do que nunca, revelou-se que o centro, caminhando para a direita, prevaleceu.


Segundo ponto, o MDB saiu-se muito bem. Você acabou de dizer que pegou São Paulo, mas mais quatro capitais: Porto Alegre, Belém, Macapá e Boa Vista.


Acho que o MDB estabeleceu uma marca estupenda, que é o fato de o seu eleitor votar com uma despreocupação, sem radicalismo.


O sr. vê o Brasil saindo um pouco desse quadro de acirramento na política? O clima está melhorando?


Acho que essa eleição municipal é demonstrativa disso. Prevaleceu mais a moderação, a tranquilidade, o equilíbrio. O Ricardo Nunes [prefeito reeleito de São Paulo] é um exemplo disso. Embora esteja fora da vida pública, nas conversas que tenho com várias pessoas, vejo que todos estão cansados dessa radicalização.


O sr. fala em centro e fim da radicalização. Tem algum palpite para as candidaturas em 2026? Alguma no seu partido? O que acha do nome do Tarcísio [de Freitas, governador de São Paulo, do Republicanos]?


Não gostaria de nominar. Mas o Tarcísio é uma grande figura, sem dúvida. Seria um bom candidato, moderado. O conheço bem e tive a oportunidade de tê-lo no meu governo [como secretário para programas de parcerias e investimentos]. Faz um bom governo em São Paulo e teve uma vitória, como vimos agora, na eleição do Ricardo Nunes.


Tivemos um aumento vertiginoso do poder de alguns congressistas com as emendas, que somam cerca de R$ 50 bilhões por ano. Vimos que 98% dos 116 prefeitos mais beneficiados foram reeleitos, com uma média de 72% dos votos, grande parte do centrão. Isso não é ruim para a democracia, esse direcionamento financeiro?


Acho que está havendo um protagonismo muito grande do Congresso Nacional. No tocante ao orçamento, ele não só aprova, mas tem emendas impositivas, de bancada, de comissão. Enfim, as mais variadas, que são direcionadas a esses municípios.


Isso pode conduzir um dia a uma reforma política radical, com mudança do sistema de governo, que é a ideia de um semipresidencialismo ou semiparlamentarismo.


Já que uma parte grande do orçamento está sendo direcionada ao Congresso, que ele seja responsável também pelos atos de governo. Porque hoje ele manda essas emendas, mas não tem responsabilidade nenhuma pela governabilidade executiva. Tem só pela governabilidade legislativa.


Mas e a transparência dessas emendas, do poder que esses parlamentares têm? Pois hoje têm nas mãos um instrumento para se perpetuarem no poder.


Há que ter transparência, até porque a Constituição determina a publicidade de todos os atos públicos, significando, portanto, a atuação dos parlamentares no tocante ao orçamento. Aliás, já caiu essa coisa do chamado orçamento secreto. Caiu porque era uma violência extraordinária contra a Constituição.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2024/10/governo-lula-nao-tem-projeto-para-o-pais-diz-temer.shtml?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=twfolha

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