*Abertura: Exterior mostra cautela com tensões geopolíticas e Brasil fica em alerta com Master*
São Paulo, 08/01/2026 -
Por Luciana Xavier e Maria Regina Silva*
OVERVIEW. Em véspera de relatório de emprego dos Estados Unidos, o payroll, e IPCA, as atenções no mercado nesta quinta-feira ficam nos desdobramentos do caso Master, produção industrial no Brasil, além de balança comercial e pedidos de auxílio desemprego dos EUA. O presidente Lula participa de cerimônia no Palácio do Planalto para relembrar os três anos dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, às 10 horas.
NO EXTERIOR. A manhã é de cautela, com bolsas em baixa no mercado futuro em Nova York e na maioria da Europa em meio a tensões geopolíticas. Após invadir a Venezuela e levar à força para NY o presidente do país, Nicolás Maduro, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaça tomar a Groenlândia e intervir na Colômbia. Trump disse que conversou ontem com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e que um encontro deve ocorrer em breve. E a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, afirmou que os princípios da União Europeia se aplicam não só ao bloco, mas igualmente à Groenlândia. Ações de defesa, no entanto, sobem nas praças europeias após Trump defender um aumento substancial nos gastos militares dos EUA. Antes de dados dos EUA, indicadores na Europa ficam no radar. As encomendas à indústria da Alemanha aumentaram 5,6% em novembro ante outubro de 2025, surpreendendo analistas, que previam queda de 1,3%. Os contratos futuros de petróleo operam em leve alta, depois de acumularem perdas nas duas sessões anteriores.
POR AQUI. Os desdobramentos do caso Master e o risco de a crise se espalhar dividem as atenções com a pauta do dia. Ontem as incertezas envolvendo a liquidação do Master pesaram nas ações do setor financeiro (leia mais abaixo em O que Sabemos). E o INSS colocou sob suspeita 251 mil contratos de crédito consignado do Master. O tom negativo das bolsas no exterior também pode pesar, embora a alta do petróleo seja favorável para as petroleiras. Os ADRs da Petrobrás tinham leve avanço no pré-mercado em NY há pouco, enquanto o EWZ, principal ETF brasileiro negociado por lá, operava estável. O mercado também olha os números da produção industrial, que não devem alterar a perspectiva de Selic estável na reunião do Copom deste mês. Há a expectativa de que o presidente Lula utilize o ato pelo 8 de Janeiro hoje para vetar o projeto de lei que reduz as penas dos condenados pela depredação dos prédios dos Três Poderes.
NA POLÍTICA. Parlamentares do Centrão depositaram quase metade das 232 assinaturas do requerimento de abertura da CPMI do Banco Master. Uma empresa de marketing de Brasília teria sido a responsável por contratar o vereador Rony Gabriel (PL) para atacar o Banco Central e defender o Banco Master. As nomeações de Otto Lobo para presidente e de Igor Muniz para diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) foram bem recebidas entre advogados que atuam junto à reguladora. Mas gerou apreensão dentro de algumas alas da autarquia, segundo o Valor Econômico. Antigos votos dele contrariaram recomendações da área técnica. O líder do PT na Câmara dos Deputados, Lindbergh Farias (PT-TJ), disse que as prioridades em 2026 da base do governo são a manutenção do veto ao projeto de lei da dosimetria - que beneficia os condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro; o fim da escala 6x1, a PEC da Segurança Pública; o projeto de lei antifacção; e a MP do Gás do Povo.
AGENDA.
PRODUÇÃO INDUSTRIAL E BALANÇA DOS EUA NO RADAR - A agenda desta quinta-feira tem como destaques a divulgação do IGP-DI de dezembro (8h), e da produção industrial de novembro (9h). O Tesouro faz leilões de LTN e NTN-F (11h). Nos EUA são esperados balança comercial (10h30), pedidos de auxílio-desemprego (10h30) e estoques no atacado (12h). Na China saem os índices de preços ao consumidor (CPI) d ao produtor (PPI), às 22h30.
O QUE SABEMOS.
SOB PRESSÃO, MINISTRO DO TCU DEVE SUSPENDER INSPEÇÃO NO BC - O ministro-relator do caso do Banco Master no Tribunal de Contas da União (TCU), Jhonatan de Jesus, deve recuar da inspeção in loco no Banco Central. Pelo menos, até o fim do período de recesso da Corte - que só retorna aos trabalhos no próximo dia 16. Em outro movimento, o próprio presidente do TCU, Vital do Rêgo, admitiu à Coluna do Estadão que o tema é delicado e que pretende "ajudar a fazer um meio de campo para não tensionar mais o mercado". "Vou fazer de tudo para termos um resultado final satisfatório", afirmou ele, acrescentando que pretende se encontrar com o presidente do BC, Gabriel Galípolo.
EM TESE: O recuo temporário pode atenuar a pressão sobre o Banco Central, mas as ações do setor financeiro devem continuar no radar. Ontem registraram perdas na Bolsa. Uma intervenção no Banco Central poderia colocar em risco a credibilidade da autarquia, segundo analistas. Ainda segue no foco a possibilidade de reversão da liquidação do Master, decretada em novembro pelo BC e é investigado pela Polícia Federal, embora especialistas considerem isso difícil. Além disso, continuam incertezas se a crise de liquidez do Master poderá recair sobre o sistema financeiro como um todo, de forma a gerar custos para o consumidor. O economista Roberto Luis Troster prevê que o caso do Banco Master pode se repetir se o País não aprimorar a regulação sobre instituições financeiras. E compara o cenário ao do Banco Santos, que faliu em 2005, após intervenção do BC. Em entrevista à Coluna do Estadão, Troster defende duas mudanças principais para romper esse ciclo. A primeira é a necessidade de analisar um banco não só pelo compliance. A segunda é responsabilizar auditorias e agências de ratings, que por vezes avaliam positivamente bancos sem lastro e não são obrigadas a divulgar conclusões negativas. Já o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, acompanha com atenção e preocupação a investigação do TCU.
PETROBRAS - O Ministério Publico Federal (MPF) do Amapá requisitou esclarecimentos "urgentes" ao Ibama e à Petrobras sobre o vazamento de fluido biodegradável, ocorrido no último fim de semana, durante perfuração de um poço na bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial brasileira, localizado a cerca de 175 quilômetros da costa do Estado.
EM TESE: As ações da Petrobras devem ficar no foco, em meio a esse imbróglio, podendo operar com volatilidade até que a empresa esclareça os fatos. Os ofícios foram enviados ontem, com prazo de 48 horas para que a autarquia e a empresa se manifestem e encaminhem documentos acerca do assunto. A medida foi adotada no âmbito do inquérito civil instaurado em 2018 para apurar a regularidade do licenciamento ambiental do Ibama relativo ao empreendimento da Petrobras.
OVERNIGHT.
DE SAÍDA DA ONU - A administração Trump se retirará de dezenas de organizações internacionais, incluindo a agência de população da ONU e o tratado da ONU que estabelece negociações climáticas internacionais, à medida que os EUA se afastam ainda mais da cooperação global. Ontem, o presidente americano, Donald Trump, assinou uma ordem executiva suspendendo o apoio dos EUA a 66 organizações, agências e comissões.
EUA X VENEZUELA - O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que a Venezuela comprará apenas produtos feitos em território americano com o dinheiro recebido em acordo para petróleo. As compras incluirão produtos agrícolas e medicamentos americanos, equipamentos médico e para utilização na melhora da rede elétrica e de unidades de energia.
CHEVRON - A produtora de petróleo Chevron está em negociações com o governo dos EUA para expandir uma licença chave para operar na Venezuela, a fim de aumentar as exportações de petróleo bruto para suas próprias refinarias e vender para outros compradores, informa a Reuters.
APPLE - O JPMorgan Chase substituirá o Goldman Sachs como parceira para o negócio de cartões de crédito da Apple, informa a Bloomberg.
MORRE O PRESIDENTE DO GRUPO CORONA - O empresário José Adrián Corona Radillo, presidente do Grupo Corona, foi sequestrado e assassinado, afirmou a imprensa do México. Natural do país, ele comandava a empresa conhecida pela fabricação de tequila e outras bebidas alcoólicas.
ENEL CEARÁ - A Enel Ceará (Coelce) anunciou a distribuição da oferta pública de distribuição de notas comerciais escriturais, todas nominativas e escriturais, com garantia fidejussória, da primeira emissão, em série única, no valor de R$ 1,1 bilhão.
LENOVO - Apesar da desconfiança do mercado sobre uma potencial bolha de inteligência artificial (IA), a multinacional chinesa Lenovo afasta essa hipótese, reforça os investimentos no setor e se diz preparada para lidar com a concorrência acirrada por chips nessa indústria. "Definitivamente, IA não é uma bolha", afirmou o presidente global da companhia, Yuanqing Yang.
DEXCO - O conselho de administração da Dexco aprovou a celebração de Acordo de Acionistas com um investidor institucional que subscreverá 100% das novas ações preferenciais a serem emitidas pela controlada indireta da companhia, a Jatobá Florestal. As ações PN serão integralizadas mediante o aporte de aproximadamente R$ 200 milhões. Já o Acordo de Acionistas estabelecerá regras para o exercício do direito de voto e restrições à transferência de ações da empresa.
E NOS MERCADOS.
JUROS DOS TREASURIES - Os rendimentos dos Treasuries operam próximos da estabilidade, enquanto investidores aguardam dados econômicos dos EUA, incluindo pesquisa semanal sobre pedidos de auxílio-desemprego e atualização da balança comercial. Às 7h13, o juro da T-note de 2 anos caía a 3,455% (de 3,469%), o da T-note de 10 anos exibia 4,155% (de 4,141%) e o do T-bond de 30 anos diminuía a 4,843%, após 4,820% no fim da tarde de ontem em Nova York.
FUTUROS DE NY - Os índices futuros das bolsas de Nova York cedem, após o comportamento divergente de Wall Street ontem. Às 7h17, no mercado futuro, o Dow Jones caía 0,33%, o S&P 500 recuava 0,25% e o Nasdaq tinha perda de 0,33%.
EUROPA - As bolsas europeias recuam em sua maioria, mas ações de defesa estendem ganhos recentes após o presidente Donald Trump defender um aumento substancial nos gastos militares dos EUA. Os mercados globais têm focado crescentes tensões geopolíticas nesta semana, após a destituição pelos EUA do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, no último sábado, e ameaças de Washington de assumir o controle da Groenlândia. Por lá, investidores avaliam o aumento nas encomendas à indústria da Alemanha e dados da zona do euro. O PPI subiu 0,55 em novembro ante outubro (previsão: 0,2%), a taxa de desemprego do bloco caiu a 6,3% no período (projeção: 6,4%) e o índice de sentimento econômico cedeu a 96,7 em dezembro (previsão: 96,9). Às 7h17, a Bolsa de Londres caía 0,27%, a de Paris cedia 0,21% e a de Frankfurt, -0,14%.
PETRÓLEO - Os contratos futuros de petróleo sobem, depois de acumularem perdas nas duas sessões anteriores, enquanto investidores seguem acompanhando os efeitos do ataque dos EUA à Venezuela. Os EUA intensificaram a campanha contra uma frota clandestina de petroleiros que transporta petróleo venezuelano, com militares abordando à força um navio escoltado pela Marinha russa e apreendendo outro petroleiro próximo ao Caribe. Incertezas sobre as exportações de petróleo da Venezuela podem pressionar a oferta de óleo transportado por via marítima no curto prazo, afirma Ryan McKay, estrategista sênior de commodities da TD Securities, em relatório. Às 7h10, o barril do petróleo WTI para fevereiro subia 0,88% na Nymex, a US$ 56,48, enquanto o do Brent para março avançava 0,85% na ICE, a US$ 60,47.
MOEDAS FORTES - O dólar opera perto da estabilidade ante outras moedas de economias desenvolvidas. Às 7h11, o euro caía a US$ 1,1678 (de US$ 1,1683), a libra recuava a US$ 1,3441 (de US$ 1,3464) e o dólar se enfraquecia a 156,75 ienes, ante 156,79 ienes do fim da tarde de ontem em Nov York. Já o índice DXY do dólar - que acompanha as flutuações da moeda americana em relação a outras seis divisas relevantes - tinha ligeira alta de 0,08%, a 98,76 pontos, após fechar ontem em alta de 0,11%, a 98,684 pontos.
ÁSIA - As bolsas asiáticas fecharam majoritariamente em baixa nesta quinta-feira, à medida que o rali de início de ano em Wall Street perdeu força. O índice japonês Nikkei caiu 1,63% em Tóquio, pressionado por ações de tecnologia. O SoftBank, grupo que foca investimentos em tecnologia, tombou 7,59%, enquanto o fabricante de equipamentos para semicondutores Tokyo Electron recuou 4,01%. Em outras partes da Ásia, o Hang Seng teve queda de 1,17% em Hong Kong e o Taiex cedeu 0,25% em Taiwan. Contrariando o tom negativo, o sul-coreano Kospi subiu 0,03% em Seul, renovando máxima histórica pelo quinto pregão consecutivo. Na China continental, os mercados ficaram perto da estabilidade, com baixa de 0,07% do Xangai Composto e ganho de 0,17% do menos abrangente Shenzhen Composto. No fim da noite de hoje, estão previstos dados da inflação chinesa referentes a dezembro. Na Oceania, o S&P/ASX 200 da bolsa australiana avançou 0,29% em Sydney.