domingo, 7 de junho de 2026

Soma de todos os medos

 “*Soma de todos os medos” pressiona o Ibovespa e não tem prazo para terminar*


Ivan Ryngelblum05/06/26 14:35


“Soma de todos os medos” pressiona o Ibovespa e não tem prazo para terminar


Principal índice da B3 recua 14,26% desde recorde, puxado pela saída dos investidores estrangeiros, política monetária mais dura, fiscal e tarifas dos Estados Unidos. Analistas colocam queda da taxa Selic em revisão


Após meses de forte alta, a bolsa de valores brasileira passa por um período de correção acentuada, levando muitos a reconsiderar o otimismo em relação a uma retomada do mercado de renda variável em 2026.


Desde a máxima histórica registrada em abril, o Ibovespa recuou 14,26%, saindo do recorde de 198.657,33 pontos, apurado em 14 de abril, para 170.330,63 pontos em 3 de junho - recuando para o mesmo nível de janeiro deste ano.


Trata-se de uma perda de 28.326,70 pontos em apenas 50 dias, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta. No período, um grupo de 305 empresas da Bolsa perdeu, em conjunto, R$ 778,1 bilhões em valor de mercado.


No ano, o Ibovespa ainda está em campo positivo, acumulando alta de 5,96%. Mas uma confluência de fatores negativos, internos e externos, faz com que o pessimismo ganhe espaço entre os analistas.


“É que nem o nome daquele filme, ‘A Soma de Todos os Medos’”, diz Flávio Conde, head de renda variável na Levante Investimentos, ao NeoFeed. “Tudo aconteceu ao mesmo tempo, e os estrangeiros estão vendendo.”


Um dos principais temores vem da política monetária. Em meio à deterioração do quadro inflacionário, os economistas passaram a revisar suas projeções para a taxa Selic no fim do ano. A perspectiva de alívio monetário vinha ajudando a atrair mais investidores para a Bolsa.


Com as projeções para o IPCA subindo pela 12ª semana consecutiva no Boletim Focus, atingindo 5,09% na última edição, a expectativa é de que a taxa básica de juros não caia tanto quanto o inicialmente esperado.


A equipe de economistas da XP Investimentos passou a prever apenas dois cortes de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, de 14,5% para 14%, seguidos por uma pausa para avaliação. Antes, a expectativa era de três reduções, para 13,75%. O BTG Pactual revisou a Selic terminal de 13% para 14,25% em 2026, com um último corte de 0,25 ponto percentual em junho.


O tema da inflação não é apenas local. Conde destaca que o mundo vive um momento de alta dos preços, com a guerra no Irã pressionando os preços da energia globalmente, em meio à indefinição de um acordo entre Washington e Teerã.


Nos Estados Unidos, a inflação medida pelo CPI (Índice de Preços ao Consumidor) avançou 0,6% em abril em relação a março. Em 12 meses, a taxa atingiu 3,8%, superando as expectativas do mercado e gerando dúvidas sobre o que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) fará, dado seu papel como balizador das taxas globais.


“A parte de inflação prejudicou todos os mercados, inclusive o Brasil, porque fez com que todos os bancos centrais — e o nosso vamos descobrir daqui a duas semanas — dessem uma pivotada na estratégia, não cortando mais; na melhor das hipóteses, mantendo, mas até pensando em elevar”, diz Conde.


No caso do Brasil, um ponto que segue pesando é a questão fiscal e as eleições. Os gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva e as perspectivas eleitorais, após Flávio Bolsonaro ser atingido por notícias sobre um suposto relacionamento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, prejudicaram o humor dos investidores.


Esses fatores estão drenando os recursos dos estrangeiros da B3, principal motor da alta do Ibovespa entre o segundo semestre de 2025 e o início deste ano.


O movimento começou em meados de abril e ganhou força em maio. Segundo levantamento da Elos Ayta, com base em dados da B3, os investidores estrangeiros retiraram R$ 14,9 bilhões da Bolsa no mês passado, considerando apenas operações no mercado secundário e desconsiderando aportes em IPOs e follow-ons.


Trata-se da maior saída mensal de recursos desde janeiro de 2022 e supera o recorde anterior de R$ 13,2 bilhões registrado em agosto de 2023, de acordo com a Elos Ayta. Os investidores internacionais aproveitaram para realizar lucros após a valorização que levou o Ibovespa à máxima histórica em abril.


Segundo Conde, os estrangeiros têm direcionado seus recursos para as Treasuries, que vêm apresentando taxas atrativas. Os títulos de dez anos estão na casa dos 4,54%, enquanto os de 30 anos pagam 5,02%. “Teve uma volta de dinheiro aos Estados Unidos, prejudicando até o Bitcoin”, diz.


Para piorar, dois novos “medos” se juntaram recentemente para pressionar o Ibovespa: as novas tarifas aplicadas pelo governo de Donald Trump ao Brasil e a decisão de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.


Na segunda-feira, 1º de junho, o governo americano propôs uma tarifa punitiva de 25% sobre uma série de produtos importados do Brasil, alegando políticas e práticas brasileiras “irrazoáveis” que “oneram ou restringem” o comércio americano. No dia seguinte, o país foi incluído em uma lista de 60 países, além da União Europeia (UE), que apresentam falhas no combate ao trabalho forçado e que receberão uma taxa adicional de 12,5%.


“A classificação de grupos terroristas pesa na decisão de alocar mais dinheiro no Brasil, porque o Brasil não está na lista de amigos dos Estados Unidos na América Latina; está ao lado de Venezuela, Cuba e Nicarágua, sendo que o país nunca fez nada para estar nesse grupo. Se você é analista ou gestor de fundos de ações dos Estados Unidos, não vai recomendar ao cliente investir no inimigo dos Estados Unidos”, diz Conde.


Pensar em uma reversão dessa situação, nas condições atuais, exige bastante otimismo. O principal alívio pode vir de fora, caso Trump mude de opinião sobre o Brasil e feche um acordo com o Irã. Já a situação fiscal é um tema que ainda deve demorar para se resolver.


“A Bolsa vai ficar andando de lado. E não adianta falar: ‘ah, está barato, está exagerado’. Enquanto o Brasil não sair da lista de inimigos e as tarifas não forem revertidas, o dinheiro não vem”, afirma. “E o fiscal piorou demais e pode ficar ainda pior, se as políticas atuais não forem revertidas.”



https://neofeed.com.br/economia/soma-de-todos-os-medos-pressiona-o-ibovespa-e-nao-tem-prazo-para-terminar/

Leitura de sábado 2

 *Leitura de Sábado: governo terá de leiloar 2 rodovias por mês para atingir meta de 13 no ano*


Por Elisa Calmon e João Caíres


São Paulo e Brasília, 02/06/2026 - O governo federal terá de realizar cerca de dois leilões rodoviários por mês para cumprir a meta de 13 certames em 2026. A agenda combina novos projetos e repactuações em um momento de aperto orçamentário para os órgãos responsáveis pela estruturação e regulação das concessões.


Das concessões previstas inicialmente para este ano, duas foram a mercado até o momento: Rotas Gerais (MG) e Rota dos Sertões (PE/BA). Com isso, aproximadamente 85% dos certames previstos para 2026 estão concentrados no segundo semestre. Sem leilões federais programados para junho até o momento, a agenda será retomada em julho com a concessão da Régis Bittencourt (BR-116/SP/PR), único certame com data já definida.


Se todos os ativos previstos forem leiloados, o Ministério dos Transportes repetirá o recorde de 13 certames alcançado em 2025. No ano passado, a agenda acelerou na reta final, com cinco disputas promovidas até junho e outras oito realizadas no segundo semestre.


Apesar do ritmo mais lento no início de 2026, o ministro dos Transportes, George Santoro, reforçou a projeção para este ano. "Faremos 13 leilões este ano", disse após o certame da Rota dos Sertões, na semana passada, destacando que a atual gestão realizou 24 leilões rodoviários federais desde 2023, que somaram mais de R$ 260 bilhões em investimentos.


Após a Régis Bittencourt, a agenda inclui projetos como a Rota 2 de Julho (ViaBahia), a Rota Vale do Café e os lotes 1 e 3 das Rodovias Integradas de Santa Catarina. A carteira também contempla repactuações de contratos como Arco Norte e Transbrasiliana.


O diretor-presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), Marco Aurélio Barcelos, vê espaço para que o governo cumpra a meta prevista. "Vai ser preciso dar uma acelerada para fazer o que se espera nos próximos meses, mas dá tempo ainda", reforçou.


No entanto, para Luís Felipe Valerim, sócio do VLR Advogados, o sucesso da agenda dependerá mais da consistência dos projetos do que do número de certames. "Mais importante do que fazer 13 ou 10 leilões é manter um compasso com qualidade", afirmou. Segundo o especialista, a pressão para cumprir metas pode acelerar estudos e modelagens, aumentando o risco de problemas nos primeiros anos dos contratos.


Mesmo com a intensa agenda de concessões dos últimos anos, o interesse dos investidores pelos ativos rodoviários permanece elevado, com forte competição nos leilões recentes e a entrada de novos investidores no setor, avalia Diogo Nebias, sócio do Panucci, Severo e Nebias Advogados. "O principal risco não está na demanda do setor privado, mas nas questões institucionais para colocar os leilões de pé, como a modelagem e a estruturação dos projetos", ponderou.


Perspectivas


O avanço dos projetos ocorre em meio a restrições orçamentárias nos órgãos responsáveis pelas concessões. O governo federal bloqueou R$ 8,3 bilhões das pastas de infraestrutura para cumprir as metas fiscais previstas no Orçamento. O Ministério dos Transportes teve R$ 1,7 bilhão contingenciado, enquanto a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) perdeu R$ 56 milhões em recursos destinados às atividades regulatórias.


As repactuações também adicionam incertezas à agenda. Das 11 concessões rodoviárias previstas para este ano, cinco envolvem contratos já existentes. "É um cronograma difícil de prever porque não depende só do governo, mas também da construção de consenso entre as partes e, só depois disso, da estruturação do processo competitivo", afirmou Valerim.


Por outro lado, o calendário eleitoral não é visto como um obstáculo relevante para a agenda de concessões. "A carteira de projetos já vem sendo anunciada há algum tempo e, apesar de atravessarmos um período eleitoral em breve, isso não deve afetar a agenda de leilões", disse João Paulo Pessoa, sócio do Toledo Marchetti Advogados.


Valerim, por sua vez, explica que as restrições normalmente associadas ao período eleitoral afetam principalmente contratações de obras públicas, e não concessões. Na avaliação do advogado, a proximidade das eleições pode até acelerar a conclusão de projetos já em fase avançada de estruturação. "A máquina pública tende a fazer um sprint final para entregar projetos e mostrar resultado antes das eleições", afirmou.


Para Barcelos, a carteira de projetos já estruturada para os próximos dois anos reduz o risco de descontinuidade da agenda de concessões após as eleições. "Quem sentar na cadeira de ministro a partir de 2027 vai viver o melhor dos mundos, com uma forte agenda de inaugurações, e não vai querer retroceder", disse o presidente da ABCR.


Contatos:elisa.ferreira@estadao;com; joao.caires@broadcast.com.br 


Broadcast+

Leitura de sábado

 *Leitura de Sábado: brilho de 'big techs' reduz atratividade de ativos locais e tira força do real*


Por Antonio Perez


São Paulo, 01/06/2026 - Sinais de esgotamento da tendência de diversificação global de investimentos que favoreceu ativos emergentes ao longo dos primeiros meses do ano ajudam a explicar o tropeço do real em maio, em meio à maior atratividade das ações das 'big techs', afirmam analistas ouvidos pelo Broadcast.


Dados mais recentes da B3 mostram que os investidores estrangeiros retiraram R$ 14,104 bilhões da bolsa doméstica em maio, após ingresso líquido de R$ 3,179 bilhões em abril. Em 2026, o fluxo de capital externo ainda é positivo em R$ 42,44 bilhões. Com a saída do investidor estrangeiro, o Ibovespa amargou perda de 7,22%, embora ainda avance 7,86% no ano.


O estrategista-chefe da Avenue, William Castro Alves, destaca que houve uma volta do apetite por ações de tecnologia nos EUA no mês passado, com o anúncio de investimentos pesados por parte das empresas de inteligência artificial. O índice Nasdaq, que concentra as ações das big techs, bateu sucessivos recordes ao longo de maio, acumulando ganhos de mais de 8% no mês.


“Os Estados Unidos voltaram a atrair capitais, o que ajuda a fortalecer o dólar. As bolsas americanas estão nas máximas históricas”, afirma Alves. “Os fluxos para emergentes foram direcionados a países com alguma ligação a setores relacionados à inteligência artificial. O Brasil não é um player nesse sentido. Vimos os fluxos para a bolsa brasileira diminuírem bastante nas últimas semanas.”


O gestor de multimercados da AZ Quest, Eduardo Aun, observa que o bom desempenho das big techs pode trazer de volta a tese do “excepcionalismo americano”, que reinava antes do início da diversificação global de carteiras, o que reduziria o apelo de ativos emergentes. Esse quadro se soma à postura mais conservadora do Federal Reserve em relação à inflação, em um ambiente de atividade resiliente e impulso fiscal nos EUA.


"São vetores para alta do dólar. A dúvida é como o real vai reagir nos próximos meses caso haja um fortalecimento global da moeda americana e se confirme um quadro desfavorável à oposição na eleição presidencial", afirma Aun.


Os economistas Álvaro Frasson e Arthur Mota, do BTG Pactual, afirmam que o real se beneficiou, em boa parte do ano, de um fluxo “nunca antes visto” para economias emergentes, sobretudo para países distantes do conflito no Oriente Médio e com elevada exposição a commodities. Além disso, havia incertezas em torno dos "valuations" das empresas de tecnologia nos EUA.


“Prospectivamente, acreditamos que um cenário de distensionamento dos conflitos geopolíticos deveria provocar um movimento de ajuste ao fluxo recente, seja pela normalização do preço do petróleo, seja pelo 'momentum' positivo para ativos de crescimento e tecnologia”, afirmam os economistas, em relatório.


Para o Bradesco, apesar de o fluxo global de realocação de portfólio ter perdido força, o movimento segue oferecendo suporte ao real. A instituição prevê taxa de câmbio ao redor de R$ 5,00 no fim deste ano e do próximo.


“Uma rápida normalização dos preços do petróleo ou um fluxo de retorno aos EUA por conta dos investimentos em empresas de tecnologia são ameaças de curto prazo à moeda, mas não deveriam alterar o quadro mais estrutural de não fortalecimento do dólar globalmente”, afirma o Bradesco, ressaltando que o Brasil segue no radar dos investidores por ser “exportador líquido de petróleo e pelo diferencial de juros elevado”.


Contato: antonio.perez@estadao.com


Broadcast+

sábado, 6 de junho de 2026

Ray Dalio

 ✨ *Ray Dalio alerta que estamos em níveis de bolha comparáveis a 1929 e 2000.*


O megainvestidor alerta que o frenesi atual com a Inteligência Artificial apresenta sinais clássicos de bolha, aproximando-se dos níveis especulativos vistos em 1929 e 2000. No entanto, ele ressalta que o estouro só ocorre quando a "riqueza" em papéis precisa ser convertida de volta em dinheiro líquido. [1, 2]


O fundador da Bridgewater Associates baseia sua avaliação em métricas que monitoram a concentração de mercado, sentimento do investidor e valors (avaliações de preço) em relação aos lucros reais. Ele aponta que grandes revoluções tecnológicas sempre geram euforia, mas muitas vezes os investidores confundem o sucesso da tecnologia com a valorização das ações. 


*Para Dalio, os maiores riscos incluem:*


Conversão de riqueza: Os mercados de tecnologia e IA estão seguindo uma trajetória na qual as empresas são forçadas a gastar fortunas para capturar market share, mas enfrentam o desafio de provar a lucratividade real desses investimentos. 


*Disparidade econômica*: Historicamente, essas bolhas tecnológicas geram enormes abismos na distribuição de renda. 


*Gatilho de estouro*: O estouro do mercado pode não acontecer do nada, mas sim quando houver uma forte necessidade de converter riqueza em dinheiro (como para cobrir obrigações tributárias ou necessidades de capital). 


*Texto com IA*


Materia completa: https://fortune.com/2026/06/04/ray-dalio-stock-market-1929-2000-bubble-debt-crisis-point-of-no-return/

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Otaviano Canuto

 Política tarifária de Trump é "gol contra" e prejudica EUA, diz estudo

Trabalho de instituto alemão cita o Brasil e mostra que 96% dos custos das sobretaxas são absorvidos por companhias e consumidores americanos
VALOR 5junho2026 Rafael Vazquez e Eduardo Belo
A iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retomar a sua política tarifária contra o Brasil e outros países é um "gol contra" e prejudica empresas e consumidores americanos, segundo estudo conduzido por economistas e pesquisadores ligados ao Kiel Institute, think thank com sede em Kiel, Alemanha. O estudo cita especificamente o exemplo do Brasil. Enquanto Trump afirma que a taxação ajudará a equilibrar as relações comerciais a favor do seu país e reparar injustiças, o trabalho dos pesquisadores Julian Hinz, Aaron Lohmann, Hendrik Mahlkow e Anna Vorwig, intitulado "America"s Own Goal: Who Pays the Tariffs?", aponta que o governo americano está insistindo em jogar contra os próprios interesses: importadores e consumidores americanos arcam com quase todo o custo.
Exportadores estrangeiros absorvem apenas 4% do ônus tarifário. Os 96% restantes são repassados a compradores americanos, diz o levantamento.
Sem comentar o estudo propriamente, especialistas ouvidos pelo Valor têm avaliação semelhante. "No fim do dia, tarifas são um tiro no pé de Trump", comenta Lívio Ribeiro, pesquisador do FGV Ibre e sócio da BRCG Consultoria.
"Está bem mapeado que quem paga é o próprio agente americano, não necessariamente o consumidor na largada, mas pode ser o importador ou o lojista que está absorvendo a maior parte do aumento de custo", afirma. "Inúmeros artigos apontam e quantificam que isso está acontecendo."
Para ele, a inflação decorrente das tarifas ainda não chegou "em toda a sua plenitude" para a sociedade americana. O que está afetando mais - e incomodado o consumidor dos Estados Unidos -, no momento, é o preço do combustível, pressionado pela guerra com o Irã. Mas a chegada do aumento de custos aos preços finais é questão de tempo, defende.
Com a economia americana surpreendendo para cima, com mercado de trabalho deixando de piorar uma "sensação geral de maior aquecimento" da atividade, afirma Ribeiro, "os intermediários americanos, os que usam insumos, o pessoal do varejo e até o da logística vão acabar repassando esses custos adiante".
Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial, integrante do Policy Center for the New South, também entende que o custo fica para a própria economia dos EUA. "Às vezes as empresas optam por redução da margem de lucro para absorver o impacto, mas isso não tem sustentação. Mais cedo ou mais tarde elas terão que reajustar", afirma.
Para Canuto, o ônus maior, além do ônus para o consumidor, é das indústrias que precisam de insumos que foram sobretaxados, "porque perdem competitividade".
Nesta semana, após as conclusões de investigações iniciadas no ano passado sob a seção 301 da sua Lei de Comércio de 1974, o escritório do representante comercial dos EUA (USTR) anunciou que pretende impor tarifas de 25% a uma boa dos produtos brasileiros exportados para o país sob acusações tão diversas quanto dispersas, como a consolidação do Pix como meio de pagamento que supostamente prejudica a concorrência de empresas americanas, além de uma suspensão temporário à rede social X por não cumprir determinações da justiça brasileira e outros temas como o desmatamento.
Houve ainda o anúncio que o Brasil, junto com ao menos mais 60 países, pode sofrer uma taxação extra de mais 12% às suas exportações aos EUA devido a denúncias de trabalho forçado, sob a alegação de que as práticas, mesmo sendo a exceção e não a regra das empresas no país, prejudica a competitividade de companhias americanas.
O movimento a partir da seção 301 da Lei de Comércio americana ameaça retomar o tarifaço de 2025, quando os EUA impuseram "tarifas de reciprocidade" a quase todos os países do mundo.
De acordo com o Kiel Institute, a receita alfandegária dos EUA aumentou em aproximadamente US$ 200 bilhões em 2025, mas a sobretaxação foi repassada quase inteiramente aos americanos, o que fere a lógica da política tarifária.
O estudo cita nominalmente o exemplo do Brasil, que chegou a ter produtos sobretaxados em 50% durante 2025, até que os EUA concedessem isenções e depois a Suprema Corte invalidasse a imposição tarifária por decreto.
Ao estimar o efeito dinâmico das tarifas aplicadas ao Brasil em 2025, os pesquisadores identificaram que os produtos brasileiros que circularam pelos EUA durante o período aumentaram mais do que as mercadorias exportadas por outros países do continente.
"Após a imposição de uma tarifa de 50%, os exportadores brasileiros não reduziram substancialmente seus preços em dólares. Os coeficientes estimados rondaram em torno de zero, com intervalos de confiança que excluem reduções de preços economicamente significativas. Essa constatação confirma nossos resultados de referência em um cenário no qual os exportadores brasileiros não "absorveram" a tarifa. O ônus da tarifa de 50% foi repassado quase integralmente aos importadores dos EUA", conclui o estudo.
O efeito negativo para os exportadores brasileiros tende a ser, portanto, a redução do volume de comércio com os EUA. Mas os autores apontam que as empresas e os consumidores americanos também perdem.
O levantamento também identifica um efeito similar na Índia, mas, ao obter mais dados alfandegários da Índia do que do Brasil na investigação, os autores detectaram ainda mais claramente que o efeito atingido é apenas a queda do volume do comércio, sem ganhos para a população americana.
Embora uma das justificativas usadas por Trump é, que ao evitar a entrada de produtos estrangeiros massivamente no país, os EUA retomarão a força industrial que perdeu durante a globalização acelerada, sobretudo a partir da década de 1990, os autores argumentam que os EUA são um mercado importante, mas não o único, e que no médio e longo prazo os países devem encontrar mercados alternativos para seus produtos.
Além disso, segundo escrevem os pesquisadores, muitos importadores dos EUA têm relações de longa data com fornecedores estrangeiros e não podem facilmente mudar de parceiros. "Isso dá aos fornecedores existentes um poder de precificação. Eles sabem que seus clientes nos EUA não podem substituí-los imediatamente e, portanto, enfrentam menos pressão competitiva para reduzir os preços", afirma o estudo.
Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor do Banco Mundial lembra que os Estados Unidos já usaram a Seção 301 contra o Brasil, na década de 1980, conta a então Lei de Informática brasileira. "Isso gerou tarifas e também e implicações para a exportação de bens de informática para o Brasil. A lei da informática não foi alterada de forma significativa, embora em relação à propriedade intelectual tivesse havido medidas para melhorar a proteção de copyright", afirma. Ma a mudança só ocorreu na década de 1990 e teve muito mais a ver com mudanças na política comercial brasileira do que por imposição da Seção 301.
Na visão de Primo Braga, as decisões desta semana mostram de modo "muito claro que se trata de recuperar as políticas tarifárias que tinham se tornado impedidas por decisão da Suprema Corte" em fevereiro.
"Existe um aspecto político em relação ao Brasil, mas é importante o Brasil reconhecer que isso é parte de uma estratégia global dos Estados Unidos em relação à utilização de tarifas", afirma o professor associado da Fundação Dom Cabral.
"A estratégia do Brasil, como já ocorreu no ano passado, é diversificar as suas exportações", comenta Primo Braga. Além de procurar alternativas, o país deve apostar também no acordo de livre-comércio entre União Europeia e Mercosul, em implementação provisória desde o início de maio, recomenda.
"A ideia de tarifa para ajudar a indústria local está cheia de buracos, e 95% dos economistas analisam de forma muito cética a reindustrialização americana a partir da tarifação", comenta Otaviano Canuto.
Ele afirma que as tarifas específicas da Seção 301 sobre o Brasil, assim como as outras sobre 60 países por trabalho forçado nada mais são que um meio de Trump "reerguer a muralha tarifária que ele colocou no ano passado" e foi derrubada pela Suprema Corte em fevereiro.
Para Lívio Ribeiro, a situação ainda não está definida. Não me parece que o escopo final esteja definido. "A Seção 301 é específica, tem uma investigação longa, que pode chegar a ideias estapafúrdias, que é o que estamos enxergando não somente no caso do Brasil, mas também na taxação a países que usam práticas trabalhistas inadequadas", afirma.
A decisão sobre trabalho forçado é o tipo de questão, que por ser ampla e pouco fundamentada, costuma "gerar muito ruído e acaba gerando espaço para negociação", diz. "Mas a Seção 301 específica do Brasil, a que sugere taxação de 25%, é resultado de uma abertura de painel, de investigação e de debates em que as justificativas apresentadas pelo governo brasileiro claramente não foram aceitas pelo negociador americano." Nesse caso, comenta, é mais difícil é mais difícil dizer se e quando se pode flexibilizar as propostas, cujo tom é "mais político e ideológico que comercial".
Para Ribeiro, Trump tem um problema imediato, a eleição legislativa de meio de mandato, que ocorre no fim do ano e na qual "a situação está ficando cada vez pior para ele, em função de atoleiros em que se meteu e de vespeiros nos quais ele resolveu por a mão". Políticas como essa de tarifaço não vão melhorar as condições "nas coisas que são mais importantes para a governabilidade agora que é manter maioria nas duas casas legislativas na eleição", afirma.

Multiplicador keynesiano

 


BDM Matinal Riscala

 *Bom dia Mercado*


*Sexta-feira,5 de junho de 2026*


*Trégua anima, payroll decide*


… O mercado chega à sexta-feira dividido entre duas narrativas. De um lado, a queda do petróleo e a recuperação do apetite por risco refletem a aposta de que Donald Trump fará o possível para evitar uma nova escalada no Oriente Médio, reduzindo o risco de um choque mais duradouro sobre inflação e juros globais. De outro, os fatos no terreno continuam sugerindo que um acordo permanece distante, com Irã e Hezbollah rejeitando condições centrais defendidas por Washington. Nesse ambiente de alívio cauteloso, as atenções se voltam agora para o payroll de maio, principal evento da agenda global, em busca de sinais sobre a força da economia americana e os próximos passos do Fed.


GUERRA COMPRA TRUMP – O mercado voltou a reduzir o prêmio de risco da guerra no Oriente Médio após Donald Trump reforçar que as negociações com o Irã estão na fase final e afirmar que a reabertura do Estreito de Ormuz fará parte de um eventual acordo.


… A reação foi imediata nos ativos: o Brent caiu mais de 3% nesta quinta-feira, o Dow Jones renovou máximas históricas e os juros dos Treasuries recuaram, em um movimento que ajudou a aliviar parte dos temores de um novo choque inflacionário global.


… O problema é que os fatos no terreno contam uma história bem mais complexa do que a refletida pelos preços.


… Enquanto Trump insiste que as conversas avançam e fala até em uma possível reunião com a liderança iraniana, o ministro das Relações Exteriores do Irã afirma que as negociações estão paralisadas e que nenhum progresso tangível foi alcançado.


… Ao mesmo tempo, os confrontos continuam e os principais atores envolvidos seguem impondo condições difíceis de conciliar.


… Um dos pontos centrais está no Líbano. O mercado recebeu bem o anúncio de um novo cessar-fogo entre Israel e o governo libanês, mediado pelos Estados Unidos. Mas a questão é que uma coisa é negociar com Beirute; outra bem diferente é obter a adesão do Hezbollah.


… A principal força militar envolvida no conflito rejeitou as condições apresentadas pelos Estados Unidos e voltou a afirmar que não aceitará qualquer acordo que esteja condicionado ao seu desarmamento ou à limitação de sua presença no sul do país.


… O endurecimento do discurso também apareceu do lado iraniano.


… A Guarda Revolucionária voltou a afirmar que não haverá estabilidade regional sem a retirada de Israel dos territórios ocupados no Líbano e condicionou qualquer entendimento mais amplo ao fim das operações militares israelenses.


… Na prática, tanto Teerã quanto o Hezbollah demonstram que continuam longe de aceitar os termos que Washington tenta vender ao mercado.


… Isso ajuda a explicar uma aparente contradição observada nesta quinta-feira: o petróleo caiu de forma expressiva apesar de o Hezbollah ter rejeitado a proposta de cessar-fogo, de o Irã continuar falando em negociações travadas e de os combates seguirem ativos.


… Em outras palavras, os preços reagiram mais às intenções declaradas por Trump do que aos acontecimentos concretos no terreno.


… A percepção dominante é que a Casa Branca fará quase tudo para evitar uma nova escalada militar. Relatos da imprensa americana indicam que Trump estaria disposto a tolerar episódios pontuais de tensão, desde que não envolvam mortes de militares americanos.


… Trump chegou a cogitar um encontro com o aiatolá Mojtaba Khamenei, em mais um gesto de que está politicamente investido em uma solução negociada para a guerra. Ou, de que parece estar desesperado para encontrar uma saída.


… Enquanto isso, a própria Câmara dos Representantes aprovou uma resolução para limitar a ação militar dos Estados Unidos contra o Irã, reforçando o desgaste político crescente do conflito dentro do país.


… Nesse contexto, o mercado parece menos confiante em um acordo iminente e mais confiante na disposição de Trump.


… A aposta não é necessariamente na paz, mas na redução da probabilidade de um cenário extremo envolvendo o fechamento prolongado de Ormuz, ataques diretos entre Estados Unidos e Irã ou uma expansão da guerra para outras frentes da região.


… Ainda assim, a distância entre a narrativa e a execução permanece significativa.


… A principal pergunta para os próximos dias não é se Trump quer encerrar a guerra — isso ele já deixou claro diversas vezes. A questão é se ele conseguirá convencer Israel, Irã e o Hezbollah a aceitarem condições compatíveis com esse objetivo.


… Por enquanto, o mercado continua comprando a disposição de Trump para encerrar a guerra. Os fatos, porém, ainda sugerem que os obstáculos para um acordo duradouro permanecem todos sobre a mesa – o que significa que o risco de volatilidade continua vivo.


A PRÓXIMA VÍTIMA – Depois de afirmar que está perto de encerrar a guerra com o Irã, Trump indicou que Cuba pode entrar na sua lista.


… Segundo ele, a população cubana “quer terrivelmente” que os Estados Unidos cuidem do país e prometeu que fará isso quando concluir as negociações no Oriente Médio. Trump chegou a sugerir investimentos na ilha e voltou a criticar Venezuela, Índia e Rússia.


A OUTRA GUERRA – Enquanto os holofotes globais permanecem voltados para o Oriente Médio, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, fez um novo movimento diplomático ao propor negociações diretas com Vladimir Putin para encerrar a guerra iniciada em 2022.


… Em carta aberta, Zelensky sugeriu um encontro presencial em país neutro, como Suíça, Turquia ou algum Estado árabe, e reconheceu que a atenção dos Estados Unidos está concentrada no conflito envolvendo Irã e Israel.


… Trump apoiou a ideia de uma reunião entre os dois líderes e disse que ambos os lados precisarão fazer concessões para alcançar um acordo.


PAYROLL – Depois dos dados mais fortes do relatório JOLTS e da pesquisa ADP, o mercado chega ao payroll de maio com expectativa de desaceleração gradual do mercado de trabalho americano, mas sem sinais de enfraquecimento abrupto da economia.


… A mediana das projeções compiladas pelo Broadcast aponta para a criação de 85 mil vagas, abaixo das 115 mil abertas em abril, com taxa de desemprego estável em 4,3% e avanço de 0,3% nos salários. O relatório de emprego será divulgado às 9h30.


… O dado ganha ainda mais relevância após a queda do petróleo e o alívio recente nos Treasuries, que reduziram parte dos temores de inflação associados à guerra no Oriente Médio. Um resultado em linha deve manter o Fed em compasso de espera.


… Já uma surpresa para cima deve reforçar apostas em alta dos juros, enquanto um número muito fraco recolocaria no radar preocupações com o crescimento americano. O payroll é, portanto, decisivo para projetar as expectativas para a política monetária.


… Nas apostas do mercado, de acordo com a ferramenta de monitoramento do CME Group, as chances de que o Fed mantenha os juros inalterados são majoritárias até outubro deste ano. Para dezembro e janeiro, a principal possibilidade é de um aperto.


FED – Ainda assim, a presidente da distrital de São Francisco, Mary Daly, reforçou que a inflação segue sendo a principal preocupação do banco central americano, mas avaliou que a política monetária está bem posicionada para lidar com os riscos atuais.


… Segundo ela, a recente pressão sobre os preços está mais relacionada ao petróleo e às tarifas comerciais do que à inteligência artificial, que ainda não produziu efeitos mensuráveis sobre a inflação ou a produtividade.


… Daly também afirmou que o mercado de trabalho parece estar em fase de estabilização e que muitas empresas estão apenas adiando contratações enquanto avaliam os impactos da IA sobre seus modelos de negócio.


… Para a dirigente, o grande teste para medir os efeitos econômicos da nova tecnologia deve ocorrer ao longo de 2027.


… No Livro Bege nesta semana, o Fed já apontou que os preços aumentaram em um ritmo moderado a forte no geral, com a maioria dos distritos relatando inflação mais alta do que no relatório anterior.


… Os distritos também observaram que os custos relacionados à energia, ligados ao conflito no Oriente Médio, foram o principal fator das pressões inflacionárias, com repercussões nos setores de transporte, embalagens, alimentos e fertilizantes.


MAIS NADA HOJE – Além do payroll, a agenda só prevê produção e vendas de veículos em maio no Brasil, às 11h.


FMI PEDE CAUTELA – O FMI voltou a alertar para os riscos inflacionários associados à guerra no Oriente Médio e ao aumento dos custos de energia, defendendo uma postura cautelosa do Federal Reserve.


… A instituição agora prevê que a inflação americana só retornará à meta de 2% no fim de 2027, e não mais em meados do ano, diante do repasse gradual dos preços de energia e das tarifas comerciais para a economia.


… O Fundo também observou que o petróleo segue negociado acima dos níveis considerados em suas projeções de abril e alertou que a trajetória da commodity continuará dependente da duração do conflito e da reabertura do Estreito de Ormuz.


FITCH – A agência de classificação de risco reduziu nesta quinta-feira sua projeção para o crescimento global em 2026 de 2,6% para 2,4%, citando os impactos da guerra no Oriente Médio, do choque do petróleo e do fechamento do Estreito de Ormuz.


… A Fitch também revisou para baixo as estimativas para os Estados Unidos e a zona do euro e passou a prever que o Fed manterá os juros inalterados neste ano, abandonando a expectativa anterior de dois cortes.


… Para o Brasil, porém, elevou a projeção de crescimento para 2,1% em 2026, refletindo o bom desempenho da atividade no primeiro trimestre. Já para 2027, espera desaceleração diante de menor impulso fiscal, inflação mais persistente e um ciclo de queda da Selic mais gradual.


… Na quarta-feira, mais casas migraram suas projeções para a Selic terminal em 2026 a 14% ou mais, enquanto as apostas na curva de juros já mostram o mercado dividido entre corte de 0,25 ponto este mês e manutenção da taxa nos atuais 14,50% (leia abaixo).


TARIFAÇO – A nova ofensiva tarifária dos Estados Unidos contra o Brasil começou a produzir repercussões políticas dos dois lados.


… Enquanto o governo brasileiro intensificou a defesa contra as acusações americanas e afirmou que os argumentos utilizados por Washington não são legítimos, a disputa comercial passou a se misturar cada vez mais com a corrida presidencial de 2026.


… Parlamentares da base governista desembarcaram em Washington para defender a posição brasileira contra o tarifaço, em meio à crescente politização da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos.


… Ao mesmo tempo, integrantes do governo Trump deixaram claro que a pressão sobre o Brasil vai além das questões já levantadas na investigação comercial e parecem atingir diretamente temas como o Pix e big techs.


… O secretário do Tesouro, Scott Bessent, citou nominalmente o País ao afirmar que Washington “atua contra iniciativas de tributação de serviços digitais que afetem empresas americanas de tecnologia”. Apesar da escalada retórica, o governo brasileiro ainda aposta na negociação.


… O chanceler Mauro Vieira afirmou que o Brasil já apresentou respostas técnicas às acusações americanas e disse esperar que elas sejam consideradas durante as audiências previstas para julho.


… Um dia após recomendar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros por supostas práticas comerciais consideradas irregulares, o USTR propôs uma sobretaxa adicional de 12,5% sob a alegação de que o País não impede a importação de bens produzidos com trabalho forçado.


… É verdade que, neste segundo caso, os Estados Unidos aplicaram a tarifa para mais 58 países e a UE, atingindo muitos aliados. Mas aqui, caso as medidas avancem, determinados produtos brasileiros poderão enfrentar tarifas acumuladas de até 37,5%, segundo a Amcham Brasil.


CURTAS DA POLÍTICA – O Instituto Vox divulga nesta sexta-feira nova pesquisa de intenção de voto para a eleição presidencial, realizada entre os dias 1º e 3 de junho, e que abordou temas como o fim da escala 6×1 e a repercussão da viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos.


TERCEIRA VIA. Pesquisa qualitativa da Genial/Quaest, nesta quinta, mostrou que eleitores independentes continuam buscando uma alternativa à polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas não enxergam hoje um nome capaz de romper essa dinâmica.


… Segundo o levantamento, Caiado, Zema e Renan Santos enfrentam dificuldades de conhecimento nacional ou de viabilidade eleitoral.


PCC.Pesquisa AtlasIntel mostra que 53,1% dos brasileiros aprovam a decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. O levantamento também aponta divisão semelhante sobre os impactos da medida para a soberania nacional.


MARCHA PARA JESUS. Flávio Bolsonaro participou ao lado de Tarcísio e Ricardo Nunes, adotando expressões religiosas na campanha eleitoral, como que a disputa é uma “guerra espiritual” e que o atual governo representa o “mundo do mal, que será derrotado”.


NÃO FUI. Já Lula afirmou que não participou da Marcha para não tirar proveito político de um evento religioso.


DARK HORSE. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, foi sorteado relator de ações envolvendo Flávio Bolsonaro e o financiamento do filme de Jair Bolsonaro, incluindo questionamentos sobre pesquisa eleitoral, propaganda antecipada e possível abuso de poder econômico.


ROTAÇÃO DE ATIVOS – As bolsas americanas tiveram uma sessão mista ontem, com o Dow Jones registrando forte alta e renovando seu recorde de fechamento, enquanto o Nasdaq terminou no vermelho.


… Investidores embolsaram ganhos recentes com as ações de tecnologia e foram às compras de papéis de bancos, saúde e varejo. O movimento foi apoiado pela melhora na percepção de risco sobre os conflitos no Oriente Médio.


… Dow Jones subiu 1,73% (51.561,93 pontos). S&P 500, +0,41% (7.584,31 pontos). Já o Nasdaq teve leve queda de 0,09% (26.830,96 pontos).


… As principais altas do dia foram: Humana (+6,80%), UnitedHealth (+5,16%), Goldman Sachs (+4,96%), Merck (+4,85%), American Express (+3,98%), JP Morgan (+3,34%), Amazon (+1,51%) e Walmart (+0,73%).


… Entre as techs, Broadcom caiu 12,6% após a fabricante chips de IA para outras gigantes do setor, trazer balanço abaixo do esperado na noite de quarta-feira. Micron (-7,8%), ARM (-4,47%) e AMD (-3,6%) acompanharam.


ADRS MISTOS – A melhora do apetite por risco nos mercados internacionais ajudou apenas parte dos papéis brasileiros listados em Nova York ontem, quando a bolsa brasileira ficou fechada devido ao feriado de Corpus Christi.


… O ETF MSCI Brazil (EWZ) subiu 0,40%. Os bancos ficaram mistos: Itaú (+0,66%); os ADRs de Bradesco PN (+0,30%) e ON (-0,33%). Os recibos de Petrobras ON (-0,71%) e PN (-0,55%) sentiram a queda do petróleo.


… Vale (-1,81%) caiu forte, enquanto Embraer saltou 2,37%. Já Axia registrou baixa de 0,40%, Ambev recuou 0,96% e Gerdau perdeu 0,84%.


ALPHABET CONSEGUE MAIS – A controladora do Google captou US$ 84,75 bilhões em sua oferta de ações, acima dos US$ 80 bilhões planejados inicialmente. Os recursos serão destinados a acelerar os investimentos em IA.


… A companhia vendeu cerca de US$ 18 bilhões em ações das classes A e C, acima dos US$ 15 bilhões previstos. E levantou US$ 16,8 bilhões em ações preferenciais conversíveis, ante a previsão de US$ 15 bilhões.


… Esses papéis preferenciais oferecem rendimento de dividendos de 6,25% e serão convertidos em ordinários após três anos. A operação incluiu ainda a emissão de US$ 10 bilhões em ações para a Berkshire Hathaway.


… A operação prevê também um programa de venda gradual de até US$ 40 bilhões em ações no mercado, que permitirá à companhia captar recursos mais lentamente a partir do terceiro trimestre.


A PREÇO DE FOGUETE – A SpaceX confirmou informação antecipada pela Reuters na terça-feira, de que seu IPO terá preço definido previamente, de US$ 135 por ação, algo incomum em Wall Street.


… A empresa aeroespacial de Elon Musk quer vender 556,6 milhões de ações e captar US$ 74,4 bilhões, conforme documento entregue à SEC na quarta-feira. A oferta encerra no dia 11, com estreia na Nasdaq no dia seguinte.


… Se houver a venda do lote suplementar, a captação pode chegar a US$ 85,7 bilhões. A SpaceX busca uma avaliação no IPO de US$ 1,77 trilhão. Porém, analistas da Morningstar acham que a empresa vale apenas US$ 780 bilhões.


… O roadshow começou ontem. Goldman Sachs, Morgan Stanley, Bank of America, Citigroup e JPMorgan Chase lideram a oferta, que conta com outros 18 bancos participantes, incluindo o brasileiro BTG.


AGORA VAI – O petróleo devolveu parte da alta recente com o anúncio do cessar-fogo entre o Líbano e Israel, intermediado pelos Estados Unidos, o que aumentou a expectativa em relação a um acordo com o Irã.


… Porém, assim como ocorreu outras vezes, o cessar-fogo já se mostra frágil, com relatos de ataques mesmo após o acordo. Além disso, o Hezbollah rejeitou os termos discutidos e Israel afirmou que não vai retirar as tropas do Líbano.


… Apesar dos impasses, prevaleceu o otimismo entre os investidores de que as negociações entre Estados Unidos e Irã podem avançar. O Brent para agosto caiu 2,84%, a US$ 95,03 por barril. O WTI para julho recuou 3,10%, a US$ 93,04.


SUSTO NA COREIA – O índice Kospi chegou a cair mais de 6% na manhã desta sexta-feira na Coreia do Sul, pressionado por uma forte realização de lucros nas ações da Samsung Electronics e da SK Hynix.


… Juntos, os dois papéis representam 54% da carteira teórica do índice sul-coreano, que acumula uma alta impressionante de 100% neste ano. As duas empresas têm se beneficiado da demanda de chips para IA.


… Analistas ouvidos pela Bloomberg afirmam que, por causa dos ganhos concentrados nessas duas empresas, a bolsa sul-coreana está muito vulnerável a uma correção mais acentuada.


… “Por enquanto, estou mais preocupado com sinais de superaquecimento nas posições do mercado do que com uma deterioração nos fundamentos”, disse Ha SeokKeun, diretor de investimentos da Eugene Asset Management.


… “Espero um período de maior volatilidade e consolidação nos próximos um a dois meses.”


RECALIBRAGEM – Os juros futuros subiram até 40 pontos-base em alguns vértices na quarta-feira, com o mercado desmontando posições compradas e dobrando a aposta de que o Copom fará uma pausa nos cortes já neste mês.


… O clima de incertezas no exterior se somou aos dados recentes da economia doméstica, com inflação resiliente e atividade aquecida. Algumas casas revisaram suas previsões para a Selic no fim de 2026, com 14% ganhando força.


… A curva de juros, que no começo da semana mostrava corte de 0,25 pp no Copom deste mês como aposta majoritária, fechou na quarta-feira com 50% de chance de manutenção, disse Flávio Serrano, do BMG, ao Broadcast.


… Na agenda do dia, a produção industrial subiu 0,7% em abril, acima do esperado (+0,4%), e acelerando em relação à alta de 0,1% de março.


… No fechamento, o DI para janeiro de 2027 marcava 14,275% (de 14,175% no ajuste anterior); Jan/28 a 14,340% (14,045%); Jan/29 a 14,375% (13,980%); Jan/31 a 14,345% (13,960%); e Jan/33 a 14,375% (14,026%).


… O dólar (+1,14%, a R$ 5,0668) também subiu na quarta-feira, em meio ao clima de maior aversão ao risco no exterior e ao ruído doméstico provocado pelas tarifas dos Estados Unidos, com investidor buscando proteção antes do feriado.


… O mercado também avaliou o relatório ADP, que mostrou criação de 122 mil empregos no setor privado dos Estados Unidos, pouco acima do esperado (117 mil), o que pode abrir espaço para o Fed subir os juros neste ano.


… Ontem, a retomada do apetite por risco com o cessar-fogo entre Israel e Líbano fez o dólar recuar frente aos pares lá fora (DXY -0,10%, aos 99,434 pontos). O euro subiu 0,11% (US$ 1,1612) e a libra ficou estável (US$ 1,3423).


SENTIU A PRESSÃO – Antes do feriado, a bolsa brasileira caiu forte, refletindo principalmente a correção nos juros futuros, após crescer a percepção no mercado de que o Banco Central poderá não cortar mais a Selic neste ano.


… O mercado também sentiu o clima de aversão ao risco no exterior, em meio a sinais de escalada da guerra no Irã. O Ibovespa fechou a quarta-feira em baixa de 2,22%, aos 170.330,63 pontos, com giro de R$ 28,1 bilhões.


… As blue chips caíram em bloco, com Vale ON (-3,78%) na mínima do dia (R$ 81,79), superando com folga o recuo do minério de ferro (-0,57%). Petrobras também fechou nas mínimas: ON -1,12%, a R$ 45,95; e PN -0,77%, a R$ 41,25.


… Os bancos encerraram no vermelho: BTG unit (-4,77%, a R$ 50,71), Santander unit (-2,34%, a R$ 26,72), Bradesco PN (-2,14%, a R$ 17,37), Itaú PN (-2,12%, a R$ 38,72) e BB ON (-1,81%, a R$ 19,53).


… Azzas ON (-8,48%, a R$ 17,38) liderou as baixas do índice, seguida de Hapvida ON (-8,26%, a R$ 11,22) e Cosan ON (-7,73%, a R$ 3,58). Na outra ponta, Copasa ON disparou 13,34% (R$ 60,00), seguida de Minerva ON (+2,29%, a R$ 3,58) e Suzano ON (+1,95, a R$ 41,22).


CIAS ABERTAS NO AFTER – EQUATORIAL foi confirmada como investidora de referência da COPASA, após a desistência do consórcio formado por sócios da AEGEA.


… Oferta por 30% da estatal mineira saiu a R$ 49,03 por ação, totalizando R$ 5,593 bilhões. Empresa indicou interesse no lote adicional de até 48 milhões de ações, o que pode elevar investimento total para R$ 7,95 bilhões.


RAÍZEN anuncia venda de ativos na Argentina para o Mercuria Energy Group por US$ 1,420 bilhão.


BRASKEM. Transferência de controle da petroquímica, da NSP (veículo de investimento da Novonor, ex-Odebrecht) para a IG4 Capital, foi concluída na quarta-feira.


… Dessa forma, entra em vigor o acordo de acionistas já aprovado entre a IG4 e a PETROBRAS, que possui 36,1% do capital total e 47% do capital votante da Braskem. A IG4 fica com 34,32% do capital total e 50,1% do votante.


… Companhia fará assembleia de acionistas no dia 8 para eleger novos membros do conselho de administração e aprovar a reformulação do Estatuto Social, para refletir as disposições do novo acordo de acionistas.


PRIO. Produção total de petróleo em maio atingiu 164.806 barris de óleo equivalente por dia (boed), queda de 5% frente aos 173.416 boed produzidos em abril.


VIBRA fará resgate antecipado da primeira série da quarta emissão de debêntures, no montante de até R$ 779 milhões. Papéis venceriam em 16 de novembro de 2028.


NUBANK. Conselho da Nu Holdings aprovou programa de recompra de ações de até US$ 1 bilhão pelo período de um ano.


LOJAS RENNER. Vice-presidente de Finanças, Daniel Martins dos Santos, acumulará cargo de diretor-presidente da Realize. Ele substituirá Paula Mazanék, que deixará a financeira no fim de julho.


BRAVA. Goldman Sachs passou a deter 8,35% do capital, sendo 6,24% por meio de derivativos de liquidação física e 2,11% por instrumentos de liquidação financeira.


ENGIE. Conselho de administração aprovou incorporação da controlada integral Companhia Energética do Jari para simplificar estrutura organizacional. Operação não acarretará aumento de capital ou direito de recesso.


CEMIG. Subsidiária Cemig Soluções Inteligentes em Energia (Cemig SIM), concluiu compra de SPE com 11 usinas fotovoltaicas no norte de Minas Gerais, com potência instalada de 26,2 MWp, por R$ 155 milhões.

O panorama do doutorado no Brasil e a era da IA

 

O panorama do doutorado no Brasil e a era da IA

Temos um cenário de contrastes claros para a pós-graduação no país: baixa densidade populacional de doutores, alto subemprego e uma forte dependência do setor privado para absorção profissional. Em tempos de Inteligência Artificial (IA), esses dados acendem alertas críticos sobre os rumos do Brasil.

O infográfico abaixo nos traz dados comparativos urgentes, que levantam reflexões necessárias sobre o ecossistema científico nacional:

1️⃣ O Paradoxo da Formação vs. Absorção de Talentos: Formamos milhares de mentes brilhantes por ano, mas enfrentamos a falta de absorção no mercado formal.
2️⃣ Dependência da Ocupação Acadêmica: Diferente dos EUA, onde metade dos doutores atua no mercado e na indústria, no Brasil a maioria ainda se concentra na docência.
3️⃣ Eficiência Temporal vs. Profundidade da Pesquisa: Prazos rígidos de bolsas (4 anos) frente a desafios globais complexos que demandam tempo de maturação.
4️⃣ O Abismo de Representatividade Histórica: O reflexo de um atraso histórico no acesso à ciência de alto nível.

Sem dúvida, esses pontos não excluem outros. O impacto da IA no desenvolvimento socioeconômico é dinâmico e multifacetado. Outros pilares que complementam esse cenário são:

1️⃣ Soberania Tecnológica e Colonialismo Digital: O risco de nos tornarmos apenas consumidores de ferramentas estrangeiras.
2️⃣ Redefinição do "Ser Cientista": Como as ferramentas de IA mudam o foco da produção em massa para o pensamento crítico profundo.
3️⃣ Desigualdade Regional e Social: A necessidade de democratizar o acesso e o fomento à pesquisa de ponta.

Olhar para esses dados é entender que o avanço do Brasil depende da nossa capacidade de debater e encontrar caminhos conjuntos. Esta é uma contribuição ao debate, um convite para refletirmos juntos — academia, mercado e sociedade — sobre como a IA pode impulsionar, e não sufocar, a nossa inteligência nacional.

Qual dessas reflexões faz mais sentido para a sua realidade?

Afagos e pontapés

 Afagos e pontapés

William Waack JORNALISTA E APRESENTADOR DO PROGRAMA WW, DA CNN
Lula mal cabe em si no papel de que mais gosta, o de grande estadista mundial, no qual sua torrente incessante de palavras contrasta com seus efeitos práticos – ou seja, a capacidade de realizar o que diz. Mas é o papel que seus adversários insistem em dar-lhe de presente.
Jair Bolsonaro nunca teve inteligência estratégica, vide onde foi parar. Seus dois filhos conseguem ser piores. Enxergam em Donald Trump uma espécie de Guia Genial da superpotência americana, cuja condição de hegemonia planetária ele se empenha em diminuir.
Em relação ao Brasil, porém, os interesses de Trump estão definidos. Somos um tipo de peão fornecedores de commodities, especialmente as de importância geopolítica, e irritantes cerceadores das atividades de empresas americanas (ênfase no setor financeiro e digital) que precisam ser disciplinados.
Via coerção política, comercial e, potencialmente, através de ferramentas financeiras. Coerção militar não se vislumbra nem de longe neste momento, mesmo com a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas, em parte pelos próprios militares americanos não verem nenhuma utilidade nisso.
São chicotes poderosos que causam prejuízos à economia brasileira, empurram o Brasil do ponto de vista geopolítico a ter de tomar uma decisão binária (China ou EUA) e tentam condicionar decisões domésticas políticas brasileiras aos humores de Trump e seus interesses do momento – para os quais ele não diferencia entre Lula e os Bolsonaros.
O problema é que os irmãos Bolsonaros encaram pontapés como afagos, e cotovelada na boca como cafuné. Suas manifestações de fé profunda na sabedoria de tudo o que Trump faz e a disposição de se alinhar a qualquer coisa que ele diga são uma manifestação explícita de crassa ignorância do básico do básico nas relações internacionais (potências não têm amigos, só interesses).
E superestimam a capacidade da bolha que dirigem de se sobrepor ao que é “atávico” no comportamento de grande parte dos países, não importam época e continente. Não é necessário ser xenófobo para repelir interferências externas de qualquer tipo. Nesse sentido, Lula se beneficia de algo que ele nem sequer precisou criar: uma grande indignação de quem se sente tratado a coices.
Lula sempre confundiu suas posturas ideologizadas com “interesses nacionais”, e o clã Bolsonaro repete a fórmula com sinal inverso. Como o Brasil carece de qualquer “projeto nacional” de aceitação ampla – ou conduzido por elites com um mínimo de empenho nisso –, a palavra “soberania” acaba sendo empregada à vontade pelas duas bolhas sem que tenha qualquer significado prático além de possíveis vantagens na luta eleitoral.
Em algum momento vai doer bastante ser chutado do berço esplêndido.

Vai rolar

 Vai rolar: Trégua anima, payroll decide

 
[05/06/26] O mercado chega à sexta-feira dividido entre duas narrativas. De um lado, a queda do petróleo e a recuperação do apetite por risco refletem a aposta de que Donald Trump fará o possível para evitar uma nova escalada no Oriente Médio, reduzindo o risco de um choque mais duradouro sobre inflação e juros globais. De outro, os fatos no terreno continuam sugerindo que um acordo permanece distante, com Irã e Hezbollah rejeitando condições centrais defendidas por Washington. Nesse ambiente de alívio cauteloso, as atenções se voltam agora para o payroll de maio, principal evento da agenda global, em busca de sinais sobre a força da economia americana e os próximos passos do Fed. (Rosa Riscala)

👉 Confira abaixo a agenda de hoje

▪️ A sexta-feira traz como destaque absoluto o relatório de emprego dos Estados Unidos referente a maio, às 9h30.

▪️A expectativa é de criação de 85 mil vagas, segundo a mediana das projeções Broadcast, após os 115 mil postos abertos em abril.

▪️ A taxa de desemprego deve permanecer em 4,3%, e o salário médio por hora deve subir 0,3% no mês e 3,4% em 12 meses.

▪️ No Brasil, a Anfavea divulga às 11h os dados de produção e vendas de veículos referentes a maio.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Fórum de Lisboa: para que? para quem? Marcelo Guterman

O tal Fórum de Lisboa me parece algo totalmente fora de contexto e, mais do que isso, fora do lugar. São todos, agradecidos desta formidável "boca livre". Mas me desculpem, não faz o menor sentido. Apenas para constar...Daniel Vorcaro cansou de fazer isso...cooptando autoridades, intelectuais e profissionais, que se dobrariam a estes acebípes, estas mordomias. Lamentável. Honestidade? Passou longe.


O economista Felipe Salto foi um dos agraciados com o ar puro de Lisboa. Bateu ponto no Gilmarpalooza e nos brindou com um artigo sobre a palestra do Nobel de economia Joel Mokyr.


Salto certamente não notou a profunda contradição em termos que seu artigo representa. Mokyr ganhou o seu prêmio Nobel pela sua análise da interação entre ciência e inovação tecnológica como propulsor do crescimento econômico, e do papel das instituições de um país para que esse processo ocorra. Segundo Mokyr, não foi acaso a Revolução Industrial ter ocorrido inicialmente na Inglaterra, primeiro lugar em que o Rule of Law, e não o Rule of King, encontrou lugar. Segundo Salto, “é o progresso técnico, aliado a estruturas democráticas e confiáveis, sob instituições à altura, o caminho para elevar o crescimento ao longo prazo”. Perfeito, não estivesse Salto em um evento que representa a antítese desse conceito.

O economista não consegue perceber que Gilmar Mendes não é somente “uma mente privilegiada, cujo espírito público é gigantesco”. Ele é o mais influente ministro da mais alta Corte do país, com poder de vida e morte sobre cidadãos e empresas. Uma pessoa em sua posição deveria resguardar-se de qualquer suspeita de conflitos de interesses, o justo oposto do que esse festival de Lisboa representa. Nunca vamos saber se a presença de empresários brasileiros é motivada pela pura busca por conhecimento (como certamente é o caso do articulista), ou há outros interesses envolvidos. Afinal, Gilmar tem uma caneta poderosa, e não é possível separar uma coisa da outra.

Não para por aí. Gilmar Mendes é o principal responsável, na Corte, pelo fim da Lava Jato, a primeira operação policial que realmente chegou aos próceres da República. Por um breve período, sentimos a gostosa sensação de vivermos nesse país de Mokyr, onde as instituições garantem o Rule of Law, e não a proteção de quem domina a máquina do Estado. Juntar os termos “Gilmar Mendes” e “instituições” no mesmo artigo chega a ser um insulto à inteligência.

O fato de o Gilmarpalooza ocorrer em Lisboa e não em São Paulo ou Brasília é somente pitoresco. Não há noção do quão ridículo que é juntar brasileiros para discutir o Brasil na capital do colonizador. Ou até há, mas é vencida pela tentação de ter um bom motivo para viajar para a Europa em classe executiva. Salto acha isso tudo muito normal, até louvável, mas não percebe que é a mais pura tradução do patrimonialismo jeca q
ue nos define como nação, e que verdadeiramente impede o nosso desenvolvimento econômico.

Alessandro Gagnor

 Logos e Bios.

Há uma pergunta que a filosofia ocidental, em seus momentos de maior honestidade, não consegue evitar: o que vale o pensamento que não se faz vida? É uma pergunta antiga — tão antiga quanto Sócrates recusando a fuga e bebendo a cicuta —, mas é também uma pergunta que a modernidade tratou sistematicamente de tornar irrelevante, transformando a filosofia em produção de doutrinas e a ética em disciplina especializada, separada da epistemologia, da política e da estética como se cada uma dessas regiões do saber habitasse um compartimento estanque.

É precisamente contra essa compartimentalização que se levantam, por caminhos muito distintos, a hermenêutica de Gadamer, a antropologia crítica de Ashis Nandy e o projeto filosófico que Afranio Campos desenvolve em seu novo livro,ainda no prelo, "O Hiato entre o Logos e o Bios". O que os une não é uma tese comum, mas uma intuição partilhada: que a ruptura entre o que se pensa e o que se vive não é apenas uma falha moral do pensador, mas um empobrecimento do próprio pensamento.

Quando Gadamer, em Verdade e Método, recupera a phronesis aristotélica como modelo do compreender hermenêutico, ele não está fazendo arqueologia conceitual. Está diagnosticando uma patologia. A modernidade construiu seu ideal de racionalidade à imagem da ciência matemática da natureza: universal, metódica, independente do sujeito que conhece. A hermenêutica foi arrastada por esse ideal e passou a se perguntar como metodologizar a compreensão, como neutralizar o intérprete para que o sentido do texto emergisse em sua pureza objetiva.

O erro, para Gadamer, é estrutural. O intérprete não é um obstáculo à compreensão; é sua condição de possibilidade. Ele traz consigo uma tradição, preconceitos, uma situação histórica — e é precisamente esse estar-situado que abre o horizonte dentro do qual o texto pode falar. Compreender não é reconstruir o que o autor quis dizer; é deixar emergir um sentido novo no encontro entre dois horizontes, o do texto e o do leitor. A isso Gadamer chama fusão de horizontes.
Mas como descrever filosoficamente esse processo sem recair no arbítrio subjetivo? É aqui que Aristóteles reaparece. A phronesis é precisamente a capacidade de mover-se entre o universal e o particular sem que essa mediação seja mecânica. O prudente não deduz a ação correta a partir de uma regra geral; ele percebe o que a situação singular exige, e essa percepção é ela mesma uma forma de saber, não um mero instinto. O saber universal do bem só funciona porque está encarnado num agente cuja disposição — o seu caráter formado por virtudes habituais — o torna capaz de ver o particular com justeza.

A estrutura é a mesma no domínio hermenêutico: compreender um texto não é aplicar-lhe um método como um artesão aplica uma técnica ao material. É uma applicatio que transforma o intérprete, que o deixa diferente do que era antes do encontro. Assim como a phronesis não deixa o agente intocado — ela é uma virtude, uma disposição estável da alma que se forma e se refina no exercício —, a compreensão genuína é uma experiência no sentido radical que Gadamer herda de Hegel: aquela que muda quem a faz. Há, portanto, uma continuidade de sentido entre o ato de compreender e a vida de quem compreende. Não se pode separar o intérprete da sua interpretação como se separa o operário do produto que fabrica. E isso significa que a questão ética não é exterior à questão hermenêutica: o que o intérprete é — sua abertura ou fechamento, sua boa ou má fé, sua capacidade ou incapacidade de se deixar questionar — determina o que ele consegue compreender.
Esse mesmo nexo entre ética e epistemologia reaparece, por um caminho radicalmente distinto, na obra de Ashis Nandy. Num estudo sobre sua obra, lê-se a formulação que resume com precisão o argumento: "knowledge without ethics is not so much bad ethics as inferior knowledge." Conhecimento sem ética não é apenas eticamente deficiente; é intelectualmente inferior. A tese parece paradoxal à primeira vista. Estamos habituados a pensar que a ciência produz conhecimento verdadeiro ou falso, e que a ética avalia os usos que fazemos desse conhecimento. Nandy dissolve essa separação. Quando uma forma de conhecimento exclui sistematicamente certas experiências humanas — as dos colonizados, dos marginalizados, dos que habitam formas de vida não modernas —, ela não se torna apenas moralmente problemática; ela passa a conhecer pior o próprio objeto que pretende estudar. A exclusão ética é uma limitação cognitiva. A perda ética gera perda epistêmica.

O ponto é mais radical do que a crítica usual à ciência moderna, que se contenta em dizer que a ciência pode ser usada para o bem ou para o mal. Nandy vai mais fundo: certas premissas morais embutidas na própria ideia moderna de racionalidade — a separação sujeito/objeto, a desqualificação do saber experiencial, a imposição de categorias abstratas sobre realidades concretas — empobrecem o conhecimento produzido. A violência epistêmica e a violência ética, como Shiv Visvanathan argumenta sistematicamente em A Carnival for Science e no volume coletivo Science, Hegemony and Violence, são inseparáveis: uma ciência que violenta seus sujeitos está comprometida no próprio nível do conhecimento que produz.

O que é notável é que Nandy chega, por uma via pós-colonial, a uma conclusão que os antigos teriam reconhecido sem dificuldade. Para Platão, a deformação moral da alma distorce a sua capacidade de ver o real. Para Aristóteles, o vicioso não apenas age mal: ele julga mal, porque as suas paixões desordenadas falsificam a percepção do que é bom. Para Tomás, a malícia moral obscurece o intelecto. A ideia de que o sujeito cognoscente precisa de uma certa integridade para conhecer bem não é uma novidade pós-colonial; é uma das teses mais constantes da filosofia pré-moderna, que a modernidade descartou ao construir o ideal do observador neutro, sem corpo, sem história, sem comprometimento ético.

A história do pensamento ocidental moderno é, em parte, a história da dissociação entre o logos e o bios — entre o que se pensa e o que se vive. E os casos paradigmáticos são suficientemente perturbadores para que não se possa descartá-los como curiosidades biográficas. Schopenhauer descreveu com lucidez insuperável a compaixão como fundamento da ética, empurrou uma costureira escada abaixo e celebrou, em latim, a sua morte. Rousseau escreveu o tratado mais influente da modernidade sobre a formação do homem livre e abandonou, um a um, os cinco filhos que pôs no mundo nas portas frias de um orfanato parisiense. Heidegger pôde ver com precisão filosófica a essência da técnica moderna como Gestell — um modo de revelar que transforma tudo, incluindo o ser humano, em reserva disponível para exploração — e ao mesmo tempo aderir ao partido que mais completamente realizou esse modo de tratar o ser humano como material manipulável.

Seria fácil, e errado, concluir daí que as filosofias são invalidadas pelas vidas. O argumento ad hominem é uma falácia lógica. O pensamento de Schopenhauer sobre a compaixão não é refutado pelo episódio da costureira. Mas a pergunta que Afrânio coloca não é lógica; é civilizacional. Não se trata de saber se os argumentos são válidos. Trata-se de saber o que vale um pensamento que não encontra encarnação na vida de quem o pensa — e o que isso nos diz sobre a relação entre verdade, bondade e beleza que os antigos chamavam de kalokagathia, e que a modernidade dissociou com consequências que ainda não terminamos de calcular.

Pierre Hadot respondeu a essa pergunta com a história. Na Antiguidade, filosofar não significava produzir doutrinas; significava ajustar a vida ao logos descoberto por meio de exercícios concretos — meditação, atenção a si, exame de consciência. A filosofia era uma forma de vida, não uma disciplina acadêmica. Sócrates é a figura exemplar não porque tenha escrito as obras mais rigorosas, mas porque a sua morte foi a prova mais alta da sua filosofia: recusou a fuga, bebeu a cicuta, e nesse gesto o logos tornou-se bios.

O junzi confuciano e a phronesis aristotélica designam, por tradições inteiramente distintas, o mesmo fenômeno fundamental: o homem em quem o saber moral se fez disposição estável da alma, e em quem a vida se tornou a prova viva da doutrina. Não o homem que sabe o que é bom e age mal por fraqueza — o akrático de Aristóteles —, mas aquele em quem o saber e o querer e o agir se unificaram numa segunda natureza. Essa unidade não é fácil, e não é automática. É o resultado de uma formação longa — a paideia grega, a bildung alemã, o cultivo de si que Foucault reconheceria nos estoicos — em que o pensamento se vai lentamente encarnando em hábito, e o hábito vai pouco a pouco tornando-se caráter. A phronesis não é um dom; é uma conquista. E é uma conquista que só se realiza na articulação constante entre o universal e o particular, entre o princípio e a situação concreta, entre o logos e o bios.

Wittgenstein abandonou a herança e viveu com austeridade monástica. Soljenítsin suportou o gulag sem trair a verdade que depois escreveu. Simone Weil recusou o conforto intelectual e se pôs ao lado dos operários da fábrica. Scruton defendeu durante décadas, com coragem intelectual rara, verdades impopulares que custaram caro à sua carreira. João Paulo II viveu a teologia do corpo que ensinava. Em todos eles, o pensamento e a vida formam uma unidade que não é perfeição moral — nenhum deles era isento de falhas —, mas é algo diferente e mais importante: coerência, no sentido latino de co-haerere, de estar ligado consigo mesmo.

É a esse horizonte que aponta O Hiato entre o Logos e o Bios. O projeto não é autobiográfico nem edificante; é filosófico no sentido mais rigoroso. Trata-se de restituir à filosofia aquilo que ela perdeu ao tornar-se disciplina acadêmica: a capacidade de articular o que se pensa com o que se vive, de modo que o pensamento não paire sobre a existência como uma superestrutura ornamental, mas a atravesse, a interrogue, a oriente. A phronesis é o modelo dessa articulação porque ela é, precisamente, o saber que não existe fora do agente que o exerce — um saber que é, ao mesmo tempo, um modo de ser. E a hermenêutica de Gadamer aponta para a mesma estrutura no domínio da compreensão: compreender genuinamente é ser transformado pelo que se compreende, é deixar que o texto ou a tradição ou o outro falem de modo que o que me era estranho se integre no horizonte do que sou.

A questão que Afrânio coloca — o que vale o pensamento que não se faz vida? — não é retórica. É uma questão que a fragmentação moderna tornou urgente. Quando o logos se separa do eros e da ética, quando o verdadeiro se separa do belo e do bom, o pensamento pode tornar-se tecnicamente brilhante e a vida pode tornar-se materialmente confortável, mas a sabedoria — esse bem antigo e raro que os gregos chamavam de sophia e os confucianos de ren — se perde. E com ela se perde algo que nenhuma especialização disciplinar pode repor: a capacidade de habitar o tempo com inteireza. Ei, Catarina Rochamonte, talvez você se interesse.

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