sexta-feira, 9 de outubro de 2026

OESP

 “Desnorteado depois da pancada nas urnas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu um salve "urgente" nas redes sociais com três "recados" à militância petista. Primeiro, que tenham "humildade" e "não falem mal do eleitor que não votou na gente". Depois, que sua candidatura é "a única antissistema" e que a "promiscuidade" do Supremo Tribunal Federal (STF) foi jogada nas suas "costas". Por fim, que o crime organizado atua como uma "multinacional" e que lugar de bandido é na "cadeia". Ou seja, Lula quer que o eleitor esqueça quem ele sempre foi: arrogante, não humilde; associado ao "sistema", sobretudo ao STF; e leniente com o crime organizado.


Recorde-se que o PT "antissistema" que Lula acaba de inventar recebeu cinco dos últimos seis mandatos presidenciais. Por 18 anos, negociou orçamentos, costurou coalizões, manuseou estatais, distribuiu subsídios e aparelhou gabinetes por toda a República. Nos bastidores, engendrou grossos esquemas de corrupção, como o mensalão e o petrolão. O Congresso, que até outro dia era xingado de "inimigo do povo" pelos petistas, hoje é amigo do PT, embrulhando no atropelo, pelas mãos dos aliados de Lula nas presidências da Câmara e do Senado, pacotes eleitoreiros bancados pelo contribuinte. Uma legenda assim pode reivindicar muita coisa, exceto a credencial de rebelde em Brasília.


O governo escandalizado com a "promiscuidade" do STF passou quatro anos recorrendo a ele ora como polícia da democracia, para perseguir adversários, ora como terceira casa legislativa, para abater legislações que o desagradavam e empurrar goela abaixo as que o interessavam. Na campanha, suas tropas de choque togadas meteram todos os dedos na balança eleitoral. O presidente que agora se diz preocupado com o "critério" de indicação ao STF é o mesmo que indicou seu advogado pessoal.


Em 2022, Lula declarou que a vitória da tal "frente ampla", que o colocou na Presidência, não era sua nem do PT, mas de um "imenso movimento democrático" contra o bolsonarismo. Tão logo se aboletou no Planalto, o hoje "humilde" Lula escanteou aliados, governou só com o PT e deu as costas a eleitores centristas, abraçando as pautas da esquerda antediluviana. Quatro anos depois, roga aos seus bate-paus que tratem com carinho os independentes de cujos votos agora precisa desesperadamente.


Chega a ser um insulto à inteligência e à memória. Em 2013, quando o PT vivia o auge do poder e da arrogância, a musa intelectual das esquerdas, Marilena Chauí, explicou num evento com caciques petistas, entre palmas da plateia e risos de Lula, que "odeia a classe média", porque ela é um "atraso de vida", "petulante" e "terrorista"; uma "abominação cognitiva", "ética" e "política", "porque ela é fascista". Eis a velha pedagogia petista: quem vota no PT é esclarecido; quem não vota é "fascista". Pior: se for pobre, é ingrato, razão pela qual o "pobre de direita", que não vota no PT, já virou personagem folclórico nos tratados da intelligentsia petista.


Tal como o milagre da recente conversão em massa dos petistas à religiosidade popular, a autocrítica tem hora marcada: a das eleições. Mas São Lula está há tanto tempo embriagado de si mesmo que nem sequer sabe o que é humildade. A mesma postagem que a cobra da militância afirma que "não temos que procurar defeito entre nós". Talvez porque, na sua cabeça, não há o que procurar.


O chefão petista pede agora três semanas de amnésia coletiva. A respeito da segurança pública, por exemplo, quer que o País inteiro esqueça que seus governos nada fizeram contra as organizações criminosas e que a militância lopetista continua a glamourizar bandidos como heróis da luta de classes ou a retratá-los como subproduto das injustiças sociais. Tudo para tentar conquistar um eleitor já vacinado contra as imposturas de Lula.


O nome elegante dessa estratégia é "reposicionamento". O vulgar é oportunismo. Lula pode trocar de discurso, de aliados, de inimigos, de princípios e até de biografia como quem troca de roupa. Mas não pode trocar de povo, e o recado das urnas ao presidente é que o brasileiro está farto de ser tratado como trouxa. Assim como a humildade dos petistas, a paciência do eleitor também tem prazo de validade.”


- Editorial Estadão

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Sergio Garschagem

 Fiquei impressionado - sério! - com a repercussão das minhas experiências nos EUA, entre os anos de 1973/74. Motivou comentários mil. 

Observo que há muitos amigos que viveram nos EUA, no Canadá ou em países europeus, e que foram para lá como adeptos do socialismo, parece que nada apreenderam destas suas experiências. Alguns destes amigos e conhecidos fizeram mestrados e doutorados em países democráticos mas retornaram ainda com as velhas ideias socialistas mofadas.

Tenho um amigo de longa data com três doutorados em diferentes países democráticos e de economias abertas mas que, em recente depoimento na  internet declarou voto ao Lisinácio. Este presidente engana quando afirma ter criado 15 universidades. Aqui em Curitiba ele mudou para Universidade o nome do Instituto Tecnológico, que funcionava há décadas. Fácil criar universidades mudando nomes.

Em meu mestrado em Ciência Política, na Unieuro em Brasília, apenas um dos professores era adepto da economia de mercado, com doutorado na Universidade de Chicago. Li todos os livros indicados por eles e os que mais me fizeram a cabeça eram os aconselhados pelo mestre formado em Chicago, famosa pela formação de profissionais com ideias liberalizantes.

Um dos professores ficou muito chocado quando descobriu que eu não era socialista, Ele não conseguia entender o que lhe parecia ser uma incongruência. Respondia a ele que incongruente era trabalhar em um jornal econômico, mantido por empresários, sendo um verdadeiro socialista. 

O próprio Roberto Marinho empregava repórteres socialistas. "Deixe os meus comunistas em paz", disse ao ex-presidente Médici. O dono de O Globo explicava que se abrisse o jornal para jornalistas de direita corria o risco de perder o poder. 

No Brasil os governos se intrometem em tudo. O Estado é mastodôntico. Basta lembrar que 75% das notícias publicadas diariamente na nossa imprensa têm origem nos Três Poderes, em Brasília. O percentual indica a dependência do país ao governo, quando deveria ser ao contrário. O governo atendendo os interesses de quem trabalha e gera impostos.

É comum lermos os depoimentos de criadores tecnológicos norte-americanos, como Steve Jobs e outros, de que começaram as suas empresas milionárias nas garagens de suas casas. 

Isso seria impossível  no Brasil. Digo por experiência própria. Anos atrás fui convidado para trabalhar como assessor de imprensa de uma Associação federal. Salário muito bom para a época, mas sem carteira de trabalho assinada. Teria de me tornar um MEI (Micro Empresário Individual) para ter nota fiscal ao receber os meus proventos mensais. 

Enfrentei sozinho a enorme burocracia, o que me levou a contratar um contador especializado, que me cobrou R$ 800,00 para providenciar a papelada. Uma boa grana na época.

Coloquei como endereço comercial, a nossa casa em um condomínio rural. Afinal, apesar de micro empreendedor em assessoria de imprensa, só tinha mesmo um chefe e empregador, com quem deveria trabalhar diariamente, em sala a mim destinada.

Tudo correu bem no primeiro mês. Recebi meus proventos, entreguei a NF ao empregador e... recebi uma multa de R$ 800 porque não poderia cadastrar a minha microempresa em um endereço residencial, mesmo que rural. A MEI deveria ter, obrigatoriamente, um endereço comercial, para não incomodar os vizinhos. 

Aleguei ao fiscal que trabalhava redigindo textos em computador, que era - e ainda é - um equipamento silencioso. Aleguei ainda que os meus vizinhos também usavam computadores e trabalhavam em suas casas. 

- Então, por que não posso ter em minha casa, ou em minha garagem, como os americanos, o meu endereço comercial?.

Repetiu o tal fiscal, no mesmo tom professoral, que eu deveria alugar uma sala  em área comercial, e que, como ele bem sabia, ficaria vazia. Aleguei também que ele iria lá e, como a sala estava sempre vazia, deixaria ouras multas por baixo da porta. Sem contar que teria de pagar, além do aluguel, as taxas de condomínio, de água e luz. Nem assim o homem amoleceu a sua alma dura, burocrática e fiscalizadora.

Mas, como todos nós sabemos, a burocracia brasileira se apega a detalhes de somenos importância. Como esta de que não se pode abrir uma empresa na garagem de casa, se não morarmos em uma área comercial.

Ah! Uma boa amiga, arquiteta, solidária com estes meus perrengues fiscais, me emprestou o endereço de sua sala e estúdio, em área comercial. Mas se esqueceu de informar o empréstimo do endereço à recepcionista. O fiscal, claro, foi lá bisbilhotar. A pobre recepcioonista, claro, disse ao fiscal do trabalho que eu não trabalhava naquele endereço. Outra multa de R$ 800. 

Bem, ainda bem que os tais fiscais do trabalho pararam de me perseguir e pude trabalhar em paz pelo prazo de um ano de vigência do tal contrato, sem qualquer endereço registrado. 

Bem, o tal contrato foi suspenso na data aprazada, coincidentemente quando alguém alegou ao presidente da tal Associação que pegaria mal e teria manchetes negativas caso a imprensa descobrisse que, em um dos Três Poderes, havia funcionários que trabalhavam sem a carteira de trabalho assinada. Nem eu, talvez por ser parte interessada, tinha pensado nesta hipótese.

Bem, como o presidente não assinou a minha carteira, corri e contratei o mesmo contador para dar baixa na tal microempresa individual, o que me custou outros mil reais (inflação!) e uma promessa: jurei a mim mesmo que nunca mais abriria outra MEI.

Lulo-petismo e o banco Master

 *Áudios de advogado a Vorcaro mostram insistência para que Mantega defendesse Master a Lula; ouça*

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Banqueiro buscou presidente para defender interesses do Master, citou que era necessário acionar ‘Alexandre’ e disse que Hugo Motta repassou informações de Galípolo. Planalto afirmou que Lula só se encontrou uma vez com Vorcaro e negou favorecimento; outros citados negam irregularidades


BRASÍLIA E SÃO PAULO- Mensagens de áudio do celular de Daniel Vorcaro, obtidas pelo Estadão, mostram que o banqueiro e seu então advogado Walfrido Warde insistiram em 2025 com o ex-ministro Guido Mantega para que se encontrasse pessoalmente com o presidente Lula. O objetivo do encontro seria defender o Banco Master em relação aos questionamentos que o banco já enfrentava no Banco Central.


Lula e Vorcaro se encontraram em dezembro de 2024. Os diálogos mostram que o banqueiro tentou com insistência fazer seus intermediários chegarem a Lula no ano seguinte. O BC vetou a venda do Master ao BRB em setembro de 2025 e, posteriormente, decretou a liquidação do banco de Vorcaro em novembro,


Guido Mantega foi contratado por Vorcaro como consultor por R$ 14 milhões para tratar de assuntos ligados ao governo federal. Segundo apurou o Estadão, o ponto de honra do banqueiro seria tentar fazer chegar a Lula e a outros integrantes do governo que o banco estava sendo injustiçado pelo BC e que as carteiras de crédito repassadas ao Banco Regional de Brasília (BRB) tinham o valor declarado pelo Master. Vorcaro acabaria preso no mesmo ano sob suspeita de fraude nesses ativos.


Procurado, o Planalto afirmou em nota que o presidente se reuniu apenas uma vez com Vorcaro, mas não respondeu se houve conversas com Mantega ou Warde sobre o Banco Master 


Nas conversas, Vorcaro também mencionou que considerava ter o apoio do Supremo Tribunal Federal (STF), do presidente Lula, da Câmara dos Deputados e do Senado para conseguir aprovar no Banco Central a venda do Banco Master ao BRB. Por isso, ele afirmou que um diretor do BC contrário ao negócio estava “indo contra” essas quatro instituições.


As conversas mostram como Vorcaro tentou mobilizar integrantes dos Três Poderes para pressionar o BC a aprovar a operação envolvendo o Banco Master.


Nos diálogos, Vorcaro e Warde tratam de viabilizar encontros de Guido Mantega com o presidente Lula para defender os interesses do Banco Master.


Em 23 de julho de 2025, Warde tentou telefonar para Vorcaro e menciona ao banqueiro que estava com o então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro. “Preciso falar. Atende. To com Marcola”, escreveu. Após um desencontro, Warde enviou um áudio a Vorcaro dizendo que Mantega estava em viagem ao exterior mas que seria importante o banqueiro enviar um avião para buscá-lo para conversar com Lula.


“Irmão, deixa te falar, o Guido está em Londres. Só daqui dez dias, mas eu acho que seria o caso de você mandar teu avião lá buscar ele e trazer ele pra encontrar o presidente, veja aí o que você consegue fazer, conversa com ele”, afirmou Warde. Ouça o áudio:


Pouco depois, Warde encaminha ao banqueiro duas outras mensagens, sem identificar o autor. “Descobri o seguinte aqui: o pr falou com guido ontem por telefone, guido informou que esta em londres”, afirma a primeira. “Pr disse que vai chamar assim que retornar”, completa. Trechos dessas mensagens foram divulgados pelo jornal O Globo.


Dois dias depois, Warde enviou outro áudio para Vorcaro dizendo que precisa fazer uma videoconferência deles dois com Guido Mantega para orientar o ex-ministro sobre o Banco Master. Sem mencionar nominalmente Lula, Warde disse: “É urgente, ele vai falar com você sabe quem no domingo”. Ouça o áudio:


*Às 14h18, ele insiste: “Vc pode em 10 minutos falar comigo e Guido?”.*


*Uma hora depois, eles fazem uma conversa telefônica de 23 minutos de duração. “Parabéns. Importante call. Vai dar certo”, escreveu Warde após a ligação. “Muito obrigado”, respondeu Vorcaro.*


Além de acionarem Guido Mantega, Vorcaro também insistiu para que o próprio Walfrido tentasse falar pessoalmente com Lula. No dia 31 de julho, escreveu ao advogado. “Você precisa conversar com o chefe. Única chance nossa”, afirmou.


*Warde mencionou que estava tentando falar com Marcola, o então chefe de gabinete de Lula. “To indo. Marcola em reunião. Já lhe dou notícias”, escreveu. “Ele precisa escutar da sua boca. Que não tem problema nenhum e que o dano que estão causando é irreversível”, disse Vorcaro. “Vou resolver. Vamos desarmar tudo isso”, respondeu Warde.*


*Vorcaro sugere acionar ‘Alexandre’ e cita informações recebidas de Hugo Motta*



Nas conversas durante o período de análise do negócio no BC, Vorcaro mencionou ao advogado Walfrido Warde por diversas vezes a necessidade de obter a interferência de Lula em seu favor. No diálogo de 23 de julho de 2025, diante da dificuldade em viabilizar um encontro do ex-ministro Guido Mantega com Lula para tratar do assunto, Vorcaro sugeriu acionar uma outra pessoa para entrar em campo. “Alexandre”, escreveu a Warde, sem deixar claro se era uma referência ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Trechos dessas conversas foram divulgados anteriormente pelo jornal O Globo.


Vorcaro também relatou ter recebido informações do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sobre uma conversa com o presidente do BC, Gabriel Galípolo. No diálogo de Vorcaro com Motta, o presidente da Câmara afirma que Galípolo iria à casa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), após uma reunião que tratava do Master no dia 17 de julho de 2025. O diálogo não deixa claro se Motta também participou dessa conversa. “Galípolo ficou de ir lá pra casa de Davi quando encerrasse a reunião”, escreveu Motta a Vorcaro, às 20h56. Às 21h55, Motta telefona a Vorcaro e conversa com ele por dois minutos.


Às 22h14, Vorcaro repassou a Warde as informações recebidas. “Galípolo acabou reunião agora. Inventou nova desculpa. Que agora tem erros contábeis. Falou pro Hugo. Não dá mais. Eles não vão fazer”, disse o banqueiro, em uma sequência de mensagens. Depois disso, Vorcaro disse a Warde que deveriam ir para o embate com o BC e pede que o advogado avise Lula. “Avise presidente amanhã e vamos pra guerra”, escreveu Vorcaro. “Vou levar a conhecimento do presidente”, respondeu Warde.


Mais tarde nesse mesmo dia, às 23h16, Vorcaro passou a criticar a atuação do então diretor do BC Renato Gomes, que se posicionou contra a venda do Master ao BRB. Ele sugeriu a Warde que solicitassem a “suspeição” de Renato Gomes. Foi nesse momento que o banqueiro disse que o representante da autoridade monetária estava “*indo contra*” o apoio que ele tinha no STF, no Congresso Nacional e na Presidência da República.


Em 23 de julho de 2025, *Warde conversou com Vorcaro sobre a necessidade de mobilizar Guido Mantega para conversar com Lula, mas passou a discutir um plano alternativo após saber que o ex-ministro estava no exterior. “*Vamos dar um jeito*”, escreveu às 15h49. Vorcaro responde às 15h51 com um nome: “*Alexandre*”. O banqueiro não deixa claro se era uma referência ao ministro Alexandre de Moraes. Warde apenas respondeu: “*Sim. Vou pavimentar*”.


Procurado, Hugo Motta afirmou por meio de sua assessoria, que sua atuação no caso foi dentro da atividade parlamentar. “O contato com o empresariado e representantes da sociedade brasileira é inerente ao exercício da atividade de qualquer parlamentar. Os diálogos publicados não exteriorizam, portanto, qualquer tipo de mácula à minha atuação parlamentar, sendo certo que todos os meus contatos mantidos com integrantes do setor privado sempre foram pautados pela institucionalidade e pela probidade. Confio nos órgãos responsáveis pelas investigações, a quem cabe responder pelas apurações.” A assessoria de Alcolumbre não se manifestou. Moraes também foi procurado por meio da assessoria do STF, mas não se manifestou.


*Posicionamento do Palácio do Planalto*


Conforme já amplamente noticiado, o presidente Lula encontrou-se uma única vez com Daniel Vorcaro, em 4 de dezembro de 2024. Vorcaro havia ido ao Palácio do Planalto acompanhado do ex-ministro Guido Mantega e o encontro com o presidente não estava previamente agendado. Da conversa também participaram o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e Gabriel Galípolo, então diretor de Política Monetária e atual presidente do Banco Central. Na ocasião, Vorcaro afirmou sentir-se alvo de perseguições, e o presidente respondeu que eventuais denúncias deveriam ser analisadas tecnicamente pelo Banco Central. Não houve nenhum outro contato entre o presidente e Daniel Vorcaro. Cabe lembrar ainda que foi durante o atual governo que o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master e Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre a instituição.


https://www.estadao.com.br/politica/audios-de-advogado-a-vorcaro-mostram-insistencia-para-que-mantega-defendesse-master-a-lula-ouca/

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Daniella Marques

Daniella Marques leva o legado de Paulo Guedes à campanha de Flávio Bolsonaro.

Edilson Salgueiro para a Oeste:

Aos 13 anos, ainda longe da Faria Lima e mais longe ainda de Brasília, Daniella Marques tinha o hábito de pôr os planos no papel. A menina nascida em Barra Mansa, município localizado no sul do Rio de Janeiro, não economizava nas metas. “Quero ter US$ 1 milhão”, escrevia frequentemente no diário. Conseguiu. A ambição vinha de uma família de classe média. O pai construiu carreira no Banco do Brasil, onde começou como escriturário. A mãe era professora da rede estadual.

Daniella nasceu em 16 de outubro de 1979. Formou-se em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, concluiu pós-graduação em Finanças no Ibmec e entrou no mercado financeiro. Antes dos 30 anos, já havia feito fortuna. Passou oito anos na Mercatto Asset, uma das principais gestoras de recursos do país, da qual se tornou sócia e chefe do setor de renda variável. Em 2013, a Mercatto se uniu a outras duas empresas do setor: a BR Investimentos, fundada por Paulo Guedes, e a Trapezus Asset Management. Essa operação deu origem à Bozano Investimentos. Daniella tornou-se sócia do futuro ministro da Economia e passou a responder pelas áreas de risco, compliance e operações.

A relação profissional entre os dois se estendeu até 2018. Na época, Daniella estava no topo da carreira. Tinha rendimentos anuais na casa dos milhões de reais, carro blindado e vida confortável no Rio. Foi quando tudo mudou. Em julho daquele ano, Guedes levou Daniella ao lançamento da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência pelo PSL, no Centro de Convenções SulAmérica, na capital fluminense. De acordo com o economista, a então sócia se impressionou com o ambiente, as músicas, as placas, as faixas e o entusiasmo dos cidadãos. Ao fim do evento, Daniella pediu para integrar o projeto. “Quero ir para Brasília te ajudar a transformar o Brasil”, disse.

Separada e com um filho de 4 anos, Daniella deixou o Rio e se mudou sozinha para a capital federal. Trocou os rendimentos milionários do mercado financeiro por cerca de R$ 25 mil mensais no serviço público. Depois da vitória de Bolsonaro, Guedes montou uma equipe de 21 dos chamados “supersecretários”. Daniella, nomeada para chefiar a Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia, era a única mulher do grupo. Em Brasília, passou a ser chamada de “superego” de Guedes.

Atuação sem holofotes

Entre antigos colegas de governo, Daniella é lembrada pela capacidade de ler o ambiente político. Essa habilidade se tornou especialmente útil para Guedes, que chegara a Brasília com uma agenda extensa e pouca experiência na política. Daniella passou a ajudá-lo na interlocução com parlamentares, em que uma frase mal colocada podia comprometer a aprovação de propostas importantes. Agia dessa forma sem buscar holofotes. Não gostava de aparecer.

Ela tinha acesso direto a Guedes e despachava com Bolsonaro mesmo quando o ministro não estava presente. Esse protagonismo cresceu sobretudo quando a relação entre Guedes e Rodrigo Maia, então presidente da Câmara, atravessava sucessivos atritos. Daniella servia de ponte. Entre outros projetos de relevância, participou das articulações no Congresso para a aprovação da reforma da Previdência, em 2019, e da PEC dos Precatórios, em 2021.

Mas a atuação de Daniella nem sempre se restringiu aos bastidores. Em abril de 2019, Guedes foi à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara para debater a proposta de reforma da Previdência apresentada pelo governo. Na sessão, o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) afirmou que o ministro era “tigrão” com aposentados e professores e “tchutchuca” com privilegiados e banqueiros. Guedes reagiu. A sessão virou tumulto. Daniella saiu em defesa de Guedes e discutiu com a deputada Maria do Rosário (PT-RS). A parlamentar acusou a assessora do ministro de tê-la agredido e pediu a intervenção da Polícia Legislativa. Daniella acabou conduzida pelos seguranças, mas nenhuma ocorrência foi registrada.

Em fevereiro de 2022, Daniella ganhou mais espaço no Ministério da Economia. Deixou a função de assessora de Guedes para comandar a Secretaria Especial de Produtividade e Competitividade, uma das principais áreas da pasta. Ali, passou a cuidar de políticas voltadas à produtividade e ao ambiente de negócios. Mas durou pouco tempo. Apenas cinco meses depois, Daniella enfrentaria um desafio ainda maior.

Uma mulher na Caixa

Pedro Guimarães deixou a presidência da Caixa Econômica Federal em junho de 2022, depois de denúncias de assédio sexual e moral. O governo precisava escolher um substituto para comandar um dos maiores bancos do país em meio à crise. Escolheu Daniella, a primeira mulher a ocupar o cargo mais alto da instituição. Ela já começou anunciando mudanças. Disse que as denúncias seriam investigadas “com independência, com rigor, com seriedade” e que, se comprovadas, haveria punições. Além disso, criou o Diálogo Seguro Caixa, canal voltado ao acolhimento das funcionárias, à apresentação de denúncias e ao recebimento de sugestões. Nos primeiros 30 dias, as funcionárias passaram a ter um canal direto com a nova presidente. “Sou mulher, entendo o que é ser mulher no ambiente de trabalho”, disse às colaboradoras.

Controvérsias também marcaram a trajetória de Daniella à frente da Caixa. Na campanha eleitoral de 2022, o banco começou a conceder empréstimos a beneficiários do Auxílio Brasil, programa de transferência de renda que havia substituído o Bolsa Família no governo Bolsonaro. As parcelas eram descontadas diretamente do benefício. Na época, a iniciativa foi questionada pelo Tribunal de Contas da União, que pediu investigação sobre os empréstimos.

Esse assunto ressurgiu em agosto deste ano, durante uma entrevista de Daniella ao jornal Folha de S.Paulo. Na ocasião, a ex-presidente da Caixa reprovou o aumento de gastos e a expansão de crédito promovidos pelo governo Lula em ano eleitoral. Uma das entrevistadoras lembrou que Bolsonaro também havia ampliado gastos e crédito em 2022 e citou os cerca de R$ 5 bilhões em consignados do Auxílio Brasil liberados pela Caixa entre os dois turnos daquela eleição. A jornalista ainda formulava a pergunta quando Daniella a interrompeu. “Que foram arquivados, né?”, respondeu a entrevistada, referindo-se aos questionamentos do TCU. “Vamos ser corretos na pergunta.” Antes de devolver a palavra à jornalista, arrematou: “Obrigada por ser factual. Se fizer pergunta, detalha”.

De volta ao setor privado

O governo Bolsonaro terminou em dezembro de 2022. Daniella deixou a Caixa em janeiro do ano seguinte e retornou ao setor privado. Ainda em 2023, passou a integrar o grupo de serviços financeiros Legend Capital, inicialmente como integrante do conselho. Mais tarde, chegaria à presidência da empresa.

A parceria profissional com Guedes seguiu na nova casa. O ex-ministro também havia ingressado na Legend em 2023 e assumido a presidência do conselho de administração. Daniella, contudo, voltava à iniciativa privada com uma trajetória própria: havia presidido a Caixa e trabalhado no primeiro escalão do Ministério da Economia.

Nos bastidores da Faria Lima, a executiva ganhou um apelido que resume a reputação de firmeza construída nesse percurso: “Dama de Ferro”. A alcunha remete a Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica que se tornou mundialmente conhecida pelo mesmo epíteto. Daniella também é chamada de “Paulo Guedes de Saias”, referência à parceria entre os dois e à afinidade na defesa de uma agenda econômica liberal.

Esse currículo abriu caminho para a entrada de Daniella na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Guedes havia sido procurado, mas não demonstrou interesse em retornar a Brasília e incentivou o senador a buscar integrantes da antiga equipe do Ministério da Economia. Daniella aceitou. Ela compõe o núcleo duro da campanha do Zero Um. Lá, participa da formulação do programa econômico. Daniella olha para as contas do país como quem examina um balanço: quanto o Estado deve, quanto gasta e que recursos tem à disposição para reorganizar as finanças. Nesse cálculo entram cerca de 760 mil imóveis da União, avaliados em mais de R$ 1,5 trilhão. Como solução, Daniella propõe obter recursos com parte desses ativos e destiná-los à redução da dívida pública, que ultrapassa R$ 9 trilhões.

O mesmo pente-fino alcançaria as despesas. Segundo a chefe da campanha econômica de Flávio, cerca de 45 estatais custam em torno de R$ 30 bilhões por ano aos cofres públicos, enquanto a administração federal reúne 22,5 mil cargos comissionados. “Privatização ou não é consequência”, observa, ao explicar que as estatais precisam ser reavaliadas periodicamente. “A lógica não é necessariamente privatizar tudo.”

A conta que Daniella pretende fechar é de um corte de R$ 190 bilhões em despesas, o equivalente a cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Para chegar lá, defende reduzir ministérios, combater supersalários e mudar a regra fiscal. Propõe ainda medidas para aumentar a produtividade, reduzir a burocracia, ampliar a digitalização dos serviços públicos e melhorar o ambiente de negócios.

É assim que Daniella liga as contas públicas à vida das famílias. Ela explica que, quando o governo gasta muito mais do que arrecada e aumenta a dívida, os efeitos inevitavelmente chegam ao bolso dos brasileiros. Juros altos encarecem o financiamento da casa, do carro e as compras parceladas. A inflação faz o dinheiro render menos no supermercado. “Quem não cuida das contas não cuida das pessoas”, costuma dizer em entrevistas.

O legado continua

A vida também mudou fora dos escritórios. Daniella se casou novamente e tornou-se mãe pela segunda vez, aos 45 anos. Chama Arthur, o filho mais novo, de “milagre”. Católica, costuma usar escapulários e fala abertamente sobre a importância da religião. “A fé é a base de tudo”, ressalta.

Nem o velho hábito de pôr os objetivos no papel desapareceu. Daniella garante que continua escrevendo o que pretende alcançar, como fazia ainda menina, aos 13 anos. Uma das metas daquela época era ter US$ 1 milhão. Teve êxito.

Agora, mais de três décadas depois, Daniella dá outro sentido à ambição. Quer retribuir o que conquistou na carreira e associa a volta à vida pública ao desejo de deixar um legado para os dois filhos. Mesmo com a rotina intensa da campanha, tenta reservar ao menos uma hora do dia para Arthur e Pedro Henrique, o primogênito.

Ao falar sobre o país que gostaria de deixar para os brasileiros, Daniella recorre à própria experiência como mãe. Afirma que cria os filhos para que estudem, cresçam e, no futuro, possam “voar” sozinhos. É a mesma lógica que tenta levar para a política: o Estado deve amparar quem precisa, mas também oferecer condições para que as pessoas conquistem autonomia.

Em 2018, Daniella disse a Guedes que queria ir a Brasília para ajudá-lo. Oito anos depois, pode retornar à capital federal para carregar o legado do ex-ministro.

Uma derrota cantada

 Eu continuo esperando um diagnóstico "corajoso", honesto, de um cientista político sobre a realidade do país. Muitos, pela necessidade do "pertencer", de não serem cancelados, continuam neste muxoco q presenciamos no pós primeiro turno. 


São vários fatores a explicarem a derrota do PT. O q derrubou a campanha do Lula não foi apenas a campanha do Flávio Bolsonaro, mas também um "sentimento anti PT", legítimo, "encroado" entre os corações e mentes da sociedade brasileira em todos os seus estratos. 


O crescimento da religião evangélica também ajuda a explicar isso, na sua batalha "ética e moral". É entre aspas mesmo, pq eu não gosto deste movimento neopentecostal (para mim, é tudo charlatão, vendedor de fé, exploradores), mas é uma realidade. 


É importante termos em mente, além dos vários erros de campanha, q o lulo-pestismo está desgastado e envelhecido. E possui uma mancha indelével, q é o seu histórico pesado de corrupção (Mensalão, Lava Jato, aposentados do INSS, Master, etc) e isso não é pouca coisa. Não deve ser naturalizado ou relativizado. São recursos desviados q poderiam financiar escolas e hospitais. Vão para o bolso dos "companheiros". 


E tbem me causa asco o "populismo vagabundo" praticado, de esmola para os mais fragilizados. 


Programas de governo ou projetos de poder pessoal? Infelizmente, o segundo. E 


as gastanças em viagens internacionais reforçam isso, né Janja tatibitati...?? (muito chatinha, por sinal).

Merval Pereira



RECOMENDO MUITO, AMIGOS QUERIDOS.




Orgulho e preconceito

Dirigentes do PT têm a pretensão de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção.

Por Merval Pereira

06/10/2026 04h30




Sempre se soube que o Brasil é um país conservador, mesmo que seja governado pela quinta vez por um presidente de esquerda (três vezes Lula e duas vezes Dilma). A supremacia surpreendente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial, no domingo, não quer dizer, porém, que a maioria dos cidadãos seja de extrema direita. Assim como as vitórias de Lula não comprovam que a maioria daqueles momentos era de esquerda, agora também a extrema direita não define a maioria dos que votaram em Flávio.




Lula só foi eleito presidente, nas três vezes anteriores, porque voltou-se para o centro. Do “Lulinha, Paz e Amor” ao apelo a um governo de união nacional para proteger a democracia, adaptou sua agenda pública ao centro, dando lugar até à direita em certos momentos. A insinuação agora de que pode nomear o vice Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda num eventual quarto mandato vai nessa direção.




Talvez seja tarde demais, pois um dos seus erros fundamentais foi vender um governo de união nacional e entregar um governo petista como os demais que montou, com exceção do primeiro, que, sob a égide do ex-ministro Antonio Palocci, foi inteligente para manter-se ao centro, continuando a política econômica do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Assim como o economista Joaquim Levy foi engolido pela máquina do PT quando nomeado ministro da Fazenda da então presidente Dilma Rousseff, também Alckmin terá o mesmo destino se Lula conseguir dar a volta por cima e vencer a eleição no segundo turno.




Talvez a razão mais profunda para o desgaste do governo do PT seja exatamente esta, a pretensão de seus dirigentes de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção. O cansaço com Lula vem desse sentimento de subalternidade com que os não petistas são tratados por seus governos. Ou são manipulados pelas benesses sociais que o governo distribui, ou são relegados a segundo plano.




Há um sentimento de desprezo pelos não convertidos, que transmite uma sensação de não pertencimento a essa parte da sociedade. Lula tem sido incapaz de governar para todos, de ampliar sua base de apoio, trata com superioridade condescendente os que não o seguem. Nem ele nem o PT tentam entender os que os criticam, considerando-os inimigos, nem sequer adversários. A arrogância esteve presente até as últimas semanas da campanha, enquanto Lula considerava uma afronta à sua história a previsão de que poderia perder para Flávio.




O desprezo pelos que consideram inferiores contrasta com o fervor com que trata os excluídos. Se tivesse a mesma empatia com os que discordam de suas políticas, talvez pudesse encontrar o diálogo que o alçaria à altura dos estadistas. Não falo dos que o consideram comunista ou dos extremistas que conseguiram manipular a direita e os centristas. Exemplar dessa arrogância petista é a frase de Lula:




— Se vocês tivessem de escolher entre mim e um gênio, é uma coisa. Mas não é isso que está na mesa.




Claro que Flávio não é um gênio, longe disso, mas também Lula não é imbatível. O que falta a ele e aos seus é tentar entender por que votaram no outro, e não nele. Lembro-me de quando Lula tinha mais de 80% de aprovação, e seus acólitos provocavam:




— Em que planeta vivem os críticos?




Viviam neste planeta que foi se formando à medida que o governo Lula os foi desprezando e se esqueceu de ampliar sua base política para fechar-se numa redoma com os seus.




A união nacional que mobilizou os eleitores independentes na eleição de 2022 foi um estelionato eleitoral. Os que representavam a centro-direita em seu ministério foram relegados a segundo plano, assim como no governo Dilma Rousseff, a ponto de o vice-presidente Michel Temer ter se queixado por escrito de que era tratado como “um vice decorativo”. O mesmo acontecera com Levy, e aconteceu agora com as ministras Marina Silva e Simone Tebet.

Sergio Garschagen

 De Sergio Garschagen.

Relato interessante e valioso.

Também fui exchange student e fez muito sentido.


"Anos 70. Eu era contra a ditadura militar. Simpatizava com as esquerdas. Em suma, seguia, sem saber, a máxima do estadista francês George Clemenceau; "Aquele que aos 20 anos não é socialista não tem coração, mas aquele que continua socialista aos 40 anos, não tem cérebro".

Creio ter perdido a ilusão quando fui para os Estados Unidos com a então namorada, Regina, onde nos casamos.

Para sobreviver trabalhei como faxineiro noturno na fábrica de tratores John Deere, em Waterloo/Cedar Falls, no estado de Iowa.

Na primeira semana de trabalho fui cercado por três ou quatro outros trabalhadores que me dirigiram perguntas básicas: 

- Você é refugiado político da ditadura brasileira?

Respondi que não. Estava no país para aprender  o idioma. 

- Você sabe que tira o trabalho de um americano? 

Sim. Sabia, mas seria por pouco tempo, pois não pretendia ficar nos EUA mais quer um ano. 

-  ok. Se fosse um refugiado político iríamos trata-lo mal como um covarde. 

Eram típicos red necks locais, simplórios,  que após as perguntas me convidaram para sentar à mesa com eles. Sinal de que fora aceito. Até então me sentava sozinho no refeitório, na hora do lanche. 

Também costumava me sentar ao lado de uma companheira negra, simpática, de riso fácil,  enorme de gorda que queria me apresentar aos filhos. Acho que ela me via como um ET e por isso queria me mostrar à família. Brasil? Que planeta é este? Ria muito quando eu dizia que não iria ao bairro dela sozinho. Era perigoso para um branquelo. 

Só ousava ir ao bairro negro com o Fred, mineiro moreno que se passava por mexicano. Íamos, nos fins de semana,  aos bares onde se apresentava grupos de jazz.  Era de bom tom pagar uma rodada de cerveja, nas mesas  coletivas. 

Mas foi na Universidade de Cedar Falls que comecei a me livrar das ideias socialistas. Sei lá como, meio na cara de pau, arranjei uma bolsa para o curso de inglês para estrangeiros. Aulas no curso de Literatura Americana, onde sofria para acompanhar as aulas. Fui convidado pela professora duas vezes para ler um trecho de uma obra.   Na segunda leitura um jovem americano pediu a palavra e disse:

- Na sua primeira leitura não entendi uma única palavra. Hoje entendi muitas palavras. Seu inglês melhorou muito. Parabéns. 

Morri de vergonha ao me lembrar que anos antes, no Liceu "Muniz Freire", a classe inteira riu da pronúncia do português de um menino americano, do intercâmbio cultural do American Fields.

Fiquei chocado também com duas palestras na universidade: a primeira da Ku Klux Klan e a réplica, na semana seguinte, dos Panteras Negras. Auditório repleto de estudantes negros e brancos, todos em silêncio absoluto. Ao final dos discursos de ódio das duas correntes opostas, nenhuma vaia, nenhum aplauso.

Nesta época fizera um bom amigo na universidade: o professor cubano Nodarse, a quem procurei para entender a razão das duas palestras de ódio. Para minha surpresa, ele disse que estava surpres, decepcionado mesmo, era com a minha pergunta. 

- Sérgio, uma universidade forma os futuros dirigentes de um país. Eles devem conhecer todos os fatos políticos, bons ou ruins, com que terão de lidar no futuro. Por isso estas palestras.

E concluiu: estudante que vaiar ou tentar proibir estas manifestações podem ser expulsos. Fazem parte da grade curricular.

Sempre me lembro desta aula do professor Nodarse quando leio que estudantes brasileiros proíbem, com vaias e quebra-quebra,  palestras de convidados que eles não gostam. Sergio. Moro, à época da Lava-jato não conseguiu falar na PUC. Acho que foi no Rio de Janeiro.

Não é à toa que não temos um única universidade no ranking das 100 melhores do mundo. 

Mas, apesar da bronca que levei, o  que me deixou muito envergonhado, o professor Nodarse me convidou para trabalhar com ele, legalmente, com direito a green card, no Departamento de Espanhol da universidade. Os seus alunos ficavam fascinados com a semelhança da língua espanhola com o nosso. Português. Muitos conversavam comigo em espanhol e entendiam a resposta em português. 

Nodarse era um ex-comunista ligado aos irmãos Castro. Disse-me que marcharam juntos desde Sierra Maestra até Havana. Foi preso por um desentendimento com Raul Castro e colocado em um barco, por Fidel, com outros cubanos, muitos doentes, para Miami. 

De dia prestava depoimentos à CIA; à noite sua casa era  apedrejada por cubanos fugidos do regime.  Por isso seguiu para Iowa, bem longe de Miami. Um dia desabafou comigo:

-  Hoje lamento os anos perdidos  como comunista."

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Ódio autorizado

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 *Ódio autorizado* 


Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial


"Aconteceu no Bom Fim.

Não em Berlim, 1938. Em Porto Alegre, 2026. No corredor de um supermercado.


Uma jovem berrava "sionistas, genocidas, vermes".

Um homem parou. Não se escondeu. Disse: "Eu sou judeu e sou sionista".

Foi o suficiente para liberar o esgoto.

"Verme." "Nazista." "Judeu de merda."


Veio a ameaça. Depois, a ordem de despejo com o “vai embora daqui”.

E as pessoas aplaudiram.

É aqui que a gente apodreceu.

Nunca mais?


Quando "judeu de merda" é gritado em público e a resposta é aplauso, o problema já não é só quem grita. É quem bate palma e ainda se acha moralmente superior.


Existe uma militância que não sabe nada sobre judaísmo. Nada sobre sionismo. Nada sobre Israel. Menos ainda sobre Oriente Médio.

Mas sabe de cor quem tem que odiar hoje.


Estudar dá trabalho. Honestidade intelectual também. Pertencer é fácil. E, para muita gente, pertencer importa muito mais do que pensar.

A tribo te entrega três palavras, aponta o inimigo e te dá um certificado de gente boa. Você terceiriza a consciência, humilha o vizinho e volta pra casa achando que salvou o mundo. Horror.


Goebbels conhecia essa engenharia. Primeiro você transforma o judeu em verme. Depois aparece o idiota útil convencido de que esmagar verme é virtude.


Não sei o que aquela mulher pensa sobre as atrocidades contra civis em 7 de Outubro. Sei o que demonstrou ali.


Diante de um judeu que nunca tinha visto, ela já sabia exatamente como tirar a humanidade dele.

A barbárie não precisa de tanque. Precisa de voluntários.


Chega de covardia semântica.

Criticar Netanyahu é política. Debater Gaza, com fatos e dados, é legítimo e necessário.

"Judeu de merda" é antissemitismo.

Puro. Cru. Nojento.


Se fosse "preto de merda" ou "viado de merda", a indignação seria imediata e ruidosa.

Mas quando é judeu, pode. Basta colar "Palestina Livre" por cima do preconceito e o ódio ganha certificado de virtude.


Chega de nota de repúdio.

Eu quero B.O., investigação e processo. Com o crime provado, quero condenação na forma da lei. 


No Brasil, antissemitismo pode configurar crime de racismo. Racismo é imprescritível.

Digo honestamente. Não sei como reagiria se alguém me chamasse de "judeu de merda" nessas circunstâncias. Não partiria para a violência. Isso eu sei. Mas também não iria embora. 

Chamaria a polícia. Registraria ocorrência. Iria até o fim. Não deixaria aquilo morrer no corredor de um supermercado como se nada tivesse acontecido.


Há uma hora para desprezar o insulto. E há uma hora em que desprezá-lo significa ajudar a normalizá-lo.

Essa hora passou. Transbordou.

Sou judeu.

Não vamos baixar a cabeça. Não vamos pagar humilhação como pedágio para existir. Não vamos recuar um centímetro do Bom Fim, de Porto Alegre ou do Brasil.


O ódio já perdeu a vergonha.

Agora vai ter que aprender a ter medo da lei. Não há outra saída.

Porque tolerância com o intolerável também é uma forma de autorização."

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Balanço eleitoral ...de um amigo

 Algumas alegrias indescritíveis desse primeiro turno:


Jose Dirceu não se elegeu deputado federal por SP, outros figurões também ficaram de fora: Rui Falcão, Vicentinho, Paulo Teixeira🎉


Eduardo Cunha não se elegeu deputado federal por MG 🎉


Barbalhos derrotados no PA🎉 


Renan Calheiros não se elegeu senador por AL e de quebra, seu filho perdeu para governador 🎉


O Maranhão disse 'não' às oligarquias de Sarney e  Dino🎉


A surra em SP foi avassaladora 🎉


Grandes puxa sacos de Painho receberam um recado duro das urnas (Tebet, Marina, Paes, Manuela, Benedita, Gleisi, Leila do vôlei, Thronicke, dentre outros) 🎉


Novo rompeu com folga a cláusula de barreira e terá 10 deputados e 3 senadores, está maior que o falecido PSDB 🎉


Randolfe Rodrigues não foi reeleito senador pelo AP 🎉


Ciro Nogueira não foi reeleito senador pelo PI🎉 


Tiritica não foi eleito deputado federal pelo CE 🎉


Aécio Neves não se elegeu senador por MG, Beto Richa não se elegeu deputado pelo PR🎉


Raquel Lyra eleita governadora em PE, vencendo outro puxa saco de Painho. 🎉 


Nem tudo são flores. Não dá para ganhar todas, algumas notícias que eu não gostei:


BA decepciona, reelegendo um petista no primeiro turno contra ACM Neto e dois senadores lulistas. 🙁


No Ceará, torcia por Ciro Gomes contra o governador petista. Sempre contra o PT... Não deu, foi por pouco 🙁


SC errou a mão. Trocar Espiridiao Amim por Carlos Bolsonaro.. Não dá. 🙁


Agora a cereja do bolo será daqui a 3 semanas. Minha previsão é uma vitória por 52x48.

domingo, 4 de outubro de 2026

Gramsci

 Antônio Gramsci e o marxismo


1 Um leitor atento manifestou-me o seu interesse num artigo meu sobre A. Gramsci, a publicar aqui em breve.


Nada me deixaria mais satisfeito. Não sou marxista, como todos os leitores sabem, mas é sempre gratificante escrever umas palavras sobre aquele que foi o teórico mais interessante e vigoroso do marxismo, muito, mas muito mais lúcido do que Lenine e Trotsky e então com o «Zé Serralheiro» (alcunha que os neo-realeiros coimbrões davam amorosamente a Estaline) e com o Mao nem há comparação.


Não vou alinhavar umas banalidades sobre a figura de Gramsci. Merece-me respeito demais.


Gramsci, que foi sempre dirigente do partido comunista italiano, escreveu sobre a perspectiva de uma revolução socialista nos países capitalistas europeus. Percebeu desde muito cedo que a teoria tinha de ser adaptada a uma estratégia «frentista», erradicando a estafada tese da «classe contra classe» que dominou o Komintern até tarde e que deu maus resultados, aspecto em que Gramsci se separou de alguns dos seus correligionários como Bordiga, que apostava num feroz anti-parlamentarismo.


Para ele, a estratégia frentista decorria não de uma simples questão estratégica eleitoralista e moderada, cujas vantagens o Komintern acabou por compreender e adoptar. Não: o frentismo era para Gramsci uma questão teórica central. Não era uma questão de mais uns votos. E porquê? Porque compreendeu logo que a luta política nas sociedades capitalistas europeias mais ricas do seu tempo não podia limitar-se ao levantamento da classe operária sobre as ruínas do capital nem explicada apenas pela radical divisão de classes entre capitalistas e trabalhadores, titulares de interesses radicalmente opostos. Compreendeu que para derrubar o capitalismo seria necessário que o proletariado e seus aliados, sempre sob a direcção do partido comunista, teria de fornecer ao todo social um caldo cultural e ideológico credível e consistente, sem dúvida que influenciado pela leitura de Maquiavel, que tanto comentou, e que lhe lembrava que o poder nunca vive só da força e que carece do consentimento.


Mas este novo projecto ideológico só medraria se substituísse os valores dominantes na sociedade burguesa do seu tempo, bem enraizados e servidos por uma multidão de «aparelhos ideológicos» (termo mais tarde cunhado por Althusser, seu confesso admirador), desde a escola, ao exército, à igreja, à imprensa, à família tradicional, à comunicação social, entre outros. A este difuso poder cultural chamou Gramsci «hegemonia».


A hegemonia garante o amplo e diversificado poder da sociedade burguesa. O poder seria não apenas o estritamente político resultante do domínio do aparelho do estado civil e militar, mas seria também o cultural, moral e ideológico. Também este fazia parte dos fundamentos primeiros da sociedade civil burguesa e não apenas a propriedade privada dos meios de produção. A hegemonia vivia de dar ao particular da cultura burguesa uma validade universal. A figura da retórica clássica que lhe corresponde é a sinédoque (tomar a parte pelo todo). Para contrabalançar a hegemonia burguesa seria necessário assentar a hegemonia revolucionária, o que vai colocar o acento tónico na luta pela cultura.


Claro está que tal poder (dito aqui abreviadamente cultural) não se toma com ocupações de fábricas e de latifúndios, com a autogestão, nem com milícias armadas, apesar de Gramsci nunca ter desdenhado a importância política destas iniciativas no clima de pré-guerra civil que se vivia naquela época em Itália, conhecida pelo Biennio Rosso (1919/20). Não. O poder cultural toma-se fornecendo alternativas credíveis, o que demora o seu tempo. A guerra que se segue não é de confronto, é «de posição», como uma guerra de trincheiras, termo também gramsciano. Ao fazer do objecto da acção revolucionária a luta pela hegemonia cultural (em sentido amplo) Gramsci valorizou a «prática» (transformadora da realidade cultural) como critério da acção política. Levou a prática revolucionária para fora do sindicato e do comité. O seu objectivo é demonstrar que as ideias que alimentam a sociedade burguesa em que vivemos não são abstracções naturais nem são verdades eternas mas apenas o invólucro em que nos vendem as representações mentais que alimentam a hegemonia de uma classe definida pela sua posição no circuito da produção.


2 A atenção dada por Gramsci à superestrutura cultural (direito, religião, arte, ensino, educação, civismo, etc…) não condiz com a posição de Marx. Este nunca deu atenção nenhuma à necessidade de uma guerra cultural. Fiel às sua premissas, Marx entendeu sempre que uma vez estabelecido o poder comunista e alteradas as relações de propriedade no quadro da ditadura do proletariado, a substituição da cultura por outra viria como que naturalmente. Nada mais coerente: se sempre afirmou, ao contrário de Hegel, que a consciência era uma simples consequência das condições materiais da produção, como bom discípulo que era da materialista antropologia feuerbachiana, uma vez alteradas aquelas, a consciência seguir-lhes-ia os passos. Nunca lhe passou pela cabeça que no coração da culta Europa a luta política teria de começar pela esfera da cultura.


3 Mas para lutar pela hegemonia o partido comunista não pode actuar sozinho. Tem de fazer alianças estratégicas com os sectores da burguesia mais impressionáveis (pequena burguesia liberal, católicos progressistas, funcionários, quadros médios e tutti quanti), e de mobilizar, tal como a burguesia faz, «intelectuais orgânicos» das classes hostis ao capital que passam a ser o cimento dos novos valores culturais (Gramsci nunca escondeu a sua admiração pelos padres católicos, designadamente os jesuítas, na reproducão do caldo ideológico burguês). As alianças são indispensáveis na luta contra a hegemonia burguesa, tanto mais que, como o próprio lembra, a própria burguesia mais instalada faz o mesmo: serve-se sempre da sua influência hegemónica para arrecadar todos os apoios úteis.


Esta estratégia frentista foi mais tarde adoptada na teorização de N. Poulantzas e de E. Laclau e C. Mouffe, que se ufanam da mais completa teoria das complexas relações entras as classes que sustentam o estado capitalista. Tais relações dizem-nos que a estrutura da sociedade burguesa é demasiado complexa para depender apenas dos interesses do capital e exibe uma autonomia relativa dos factores culturais que impede a sua redução aos meros interesses daquele, chegando ao ponto de nem sempre os secundar.


4 Mas despontava um problema. Ao focalizar a luta nos aspectos culturais e políticos, Gramsci esqueceu, segundo alguns dos ses detractores, a velha tese dogmática da dependência das estruturas políticas e culturais (ditas superestruturas) das estruturas económicas da sociedade, em que Marx tanto insistiu, e que dá predominância à luta pelo domínio das primeiras, posto que as superestruturas como que cairiam depois por si. Neste aspecto, dizem aqueles, os leninistas e o maoísmo foram mais coerentes porque fixaram primeiro o poder político e económico do proletariado industrial e agrícola e só depois se preocuparam com a destruição da hegemonia cultural burguesa.


Percebendo claramente a questão e os perigos dogmáticos da sua ousada construção, Gramsci resolveu o dilema através da noção de «bloco histórico». Esta noção diz-nos que no seio da sociedade concreta em que vivemos a infraestrutura económica e a superestrutura cultural vivem em comunhão e não separadamente. Formam um bloco. Convivendo dentro de uma estrutura unitária, a economia nem sempre determina só por si as ideias e as políticas. Estas têm vida própria e um papel activo na sustentação do poder. Mas Gramsci nunca aceitou, em puridade, que a cultura se alimentasse de si própria, como se fosse uma ideia, esquecendo a sua função que é servir de cimento aglutinador do poder do grande capital, estrategicamente unido ou não aos seus sequazes.


5 Concluindo, o expresso reconhecimento às superestruturas (na linguagem marxista) de uma ontologia própria e distinta deu amargos de boca aos marxistas mais puristas. É que é a estratégia para a tomada do poder que está em causa. Lenine nunca a teria aceite. Na verdade, Gramsci fez uma ruptura epistemológica no marxismo. Acabou com a sobredeterminação da esfera cultural e moral pela base económica. Foi este o contributo imorredouro de Gramsci. A questão de saber se isto o levou ou não para fora do marxismo será abordada no fim.


6 Está hoje em moda repescar nos textos de Engels, vindos a lume na sua maioria já depois da morte do «mouro» (alcunha amigável de Marx), a admissibilidade da autonomia relativa da superestrutura relativamente à base económica, tão vulgarizada pela «teoria crítica» da razão capitalista difundida pela «Escola de Frankfurt» com M. Horkheimer, T. Adormo e H. Marcuse, entre outros, no seu altar, com largas consequências nos campus norte-americanos. O objectivo é permitir uma leitura não economicista e obreirista de Marx,


L. Althusser propõe mesmo uma distinção entre a esfera «dominante em primeira instância» (que pode ser a cultural) e a «determinante em última instância», que seria sempre a económica, e os seus epígonos não andam nada longe disto. A linguagem é que por vezes difere.


Pessoalmente esta habilidade dialéctica nunca me impressionou. Quem pela primeira vez me chamou a atenção para ela foi um colega meu, infelizmente já falecido, no café Avenida de Coimbra em 1973. Dormi mal nessa noite a tentar digeri-la e li logo o Lire le Capital mas fiquei céptico. Penso que a honestidade intelectual é uma virtude.


7 Gramsci constatou que se as estruturas sociais como o capitalismo são o produto da história, também o desenvolvimento da história se faz no interior das estruturas sociais que temos, como nos indica a sua referida tese do «bloco histórico», e estas não estão dispostas como Marx abstractamente entendia. Se as estruturas sociais da Europa do capitalismo avançado são diferentes do que eram na Rússia, no Camboja e na China, também a acção revolucionária teria de ser outra. Mas ao desvalorizar a luta económica, Gramsci desviou-se do marxismo, pois que, segundo bem viram os seus detractores, acabaria por transformar o comité central do partido comunista num salão literário, alheio à ferrugem. E como, do meu ponto de vista, só há marxismo ortodoxo, Gramsci, em boa verdade, saiu de lá e transformou-se naquilo a que Lenine chamaria um filósofo «idealista».


E foi este o destino dos seus continuadores. Se Althusser nunca largou a sobredeterminação da luta política pela esfera económica, de modo a não fugir a Marx (ser militante do partido comunista francês oblige: não se podia irritar Suslov), insistindo sempre em que a lógica da sobredeterminação bastava para salvar o precioso determinismo económico de Marx, se N. Poulantzas aceitou que o poder político burguês vive hoje de e para uma complexa rede de recíprocas influências de classes e que é cada vez mais autónomo relativamente à economia e afastado do proletariado, já E. Laclau e C. Mouffe aceitaram pacífica e finalmente que os conceitos necessários para compreender os confrontos sociais de hoje não pertencem ao património marxista. São outros e não passam por fazer da economia o motor da sociedade nem da luta política.


Chega a ser cómico ver os desertores do marxismo a tentarem compreender a sociedade actual fora do marxismo: uns apresentam uma concepção de sociedade tão fragmentada e desgarrada que não há nada que alicerce valores colectivos, outros, na mesma onda, (Lyotard) têm dela uma concepção wittgensteiniana baseada na presença de uma pluralidade de «jogos de linguagem» incomensuráveis entre si, o que impossibilita qualquer reconstrução política. Safam-se os alemães J. Habermas e sobretudo K.-O. Apel, com as suas magníficas teses da comunicação geral e da pragmática transcendental, que viram completamente costas ao marxismo, mas têm de ficar para outra vez.


Afinal aquilo a que Marx chamava superestrutura não é superestrutura nenhuma, muito menos agarrada ao modo de produção dominante na sociedade. Os níveis da luta política são diferentes e contraditórios e requerem até práticas políticas divergentes, impossíveis de reduzir a uma comum estratégia de base economicista.


Rio-me à brava quando olho para os pequenos e médios intelectuais tugas convencidos que são marxistas. Já não são, só que ainda não sabem e andam desnorteados em busca de uma paternidade um tanto vadia que teima em lhes não aparecer.

Marcelo Guterman

 Esse post foi escrito, mais ou menos como está a seguir, no dia 15/09, após aquele espetáculo circense que presenciamos no STF. Decidi não publica-lo no dia, deixando-o dormir na gaveta para amadurecer a ideia ou, quem sabe, esquecê-la. O gol de mão do STF/TSE no caso do debate da Globo, no entanto, foi a gota d’água que me fez, finalmente, tomar a decisão de publicá-lo. Aí está, portanto. Divirtam-se.


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Na véspera do 2o turno de 2022, escrevi um post explicando o meu voto em Jair Bolsonaro (havia votado em Luis Felipe D’Ávila (Novo) no 1o turno). A minha linha de argumentação, à época, foi puramente econômica: dos dois modelos em disputa, minha avaliação pessoal é que a agenda do então presidente, por mais falhas que tivesse, era superior ao do desafiante. Já tínhamos experimentado o desastre petista na economia com a Dilma, e nunca caí no canto da sereia do pragmatismo de Lula.


Esta eleição de 2026, no entanto, é diferente. Se eu havia investido tempo e energia para desenvolver um racional para o meu voto, dessa vez o voto será com base em outro órgão do corpo humano que não o cérebro: o fígado. Meu voto, ainda no primeiro turno, será para Flavio Bolsonaro.


Deixe-me explicar não o racional do voto, mas a sua trajetória, do meu cérebro para o meu fígado, ao longo desses meses.


Tudo começou em dezembro do ano passado, quando Bolsonaro pai escolheu o 01 como seu candidato. Pensei: não vou ser refém dessa pantomima. Quem Jair Bolsonaro pensa que é, ao apontar um desqualificado como o seu filho, e achar que vou atrás sem pensar. Pela primeira vez na vida, pensei, vou anular meu voto para presidente no 2o turno.


E fiquei com essa escolha durante meses. Até que os episódios envolvendo os ministros do STF começaram a provocar em mim uma sensação dolorosa de impotência. Como pode ministros com as canetas mais poderosas do país fazerem o diabo e continuar tudo como dantes no quartel de Abrantes? É isso então? São inimputáveis? Podem fazer o diabo, inclusive mudando regras na mão peluda, só para se protegerem e favorecerem o seu campo político?


Foi daí que, no início envergonhadamente, e depois descaradamente, uma ideia começou a tomar forma no meu fígado: não, não sou impotente. Tenho um instrumento que pode, se não dar um jeito, pelo menos dar uma lição nesse pessoal. E esse instrumento é o voto. É pouco, é quase nada, mas é melhor do que nada.


Eu sei que isso que eu vou falar agora é xadrez 4D, mas não deixa de ser divertido pensar que, talvez, Jair Bolsonaro tenha sido mais esperto do que pareceu a princípio ao escolher seu filho. Ele o escolheu não somente por ser da família, mas também por ser uma completa nulidade. Se Flávio ganha a eleição, a humilhação para Lula e sua trupe será completa. Imagine o incumbente, com a caneta de presidente na mão, com o apoio tácito do STF, ser derrotado pelo filho inepto de um cara que está na prisão? Impagável.


Fosse Tarcísio o candidato, a derrota de Lula faria parte do jogo. Tarcísio é extremamente inteligente, excelente administrador, teria o apoio maciço do Centrão a zero de jogo, enfim, seria um adversário à altura. Já Flávio, bem, a sua única credencial é ter o sobrenome Bolsonaro. Lembrando a antológica definição do general Mourão, se o sobrenome do Flávio fosse bananinha, provavelmente estaria agora em algum emprego obscuro por aí. Toda a sua carreira política foi feita na cola do pai, e sua performance no Senado foi pífia, para dizer o mínimo. Mas é justamente a sua desqualificação que o credencia não para ser presidente, mas para aplicar um corretivo em toda essa gente. É a própria definição do Cacareco.


Alguns dirão que é uma irresponsabilidade eleger alguém para o mais alto cargo da República justamente pela sua desqualificação. Ao que eu respondo: ultimamente, quando eu ouço a palavra “República”, tenho uma mistura de ataque de risos e náuseas. A República Brasileira já foi devidamente avacalhada, não será a eleição de um Bolsonaro que piorará o que não dá para ser pior. (Eu avisei no início que a decisão foi feita com o fígado).


Não vou pedir compreensão de ninguém para o meu voto.


Antibolsonaristas soltarão fogo pelas ventas, pois Bolsonaro é o diabo na terra. Para estes, só digo que quero mais é ver o parquinho pegando fogo.


Bolsonaristas soltarão rojões, cumprimentando-me pela minha escolha. Para estes, digo que estou escolhendo o candidato deles não porque seja o melhor, ou mesmo o menos pior, mas porque é o pior. Quanto mais ruim, mais feia e ridícula será a derrota desse sistema em torno de Lula.


Isentões, meus companheiros de jornada política, lamentarão, pois ambos os candidatos são péssimos, no que eu concordo e, racionalmente, o voto nulo seria mais adequado. Mas, lembrem-se, minha decisão foi feita com o fígado, não com o cérebro.


E se Lula ganhar? Bem, se Lula ganhar, ganhou. Sinceramente, I couldn’t care less. Eu terei feito a minha parte em tornar a sua vitória mais difícil e, de certa forma, humilhante, porque, lembre-se sempre, do outro lado está Flávio Bolsonaro, um nada. Uma vitória apertada já será uma derrota, muito pior que em 2022, quando do outro lado da disputa estava o presidente da República.


Não tenho a mínima ilusão de que Flávio fará um “bom governo” se eleito, ou que trabalhará para termos um Supremo decente. No final do dia, ele comerá na mão do sistema, como fez o seu pai. Mas não peçam coerência para o meu fígado. Meu voto visa tão somente a pequena satisfação de imaginar a cara de bunda do Gilmar Mendes no dia da apuração. Só isso.

OESP

Intolerável intolerância progressista

Editorial, O Estado de S. Paulo (01/10/2023)


Cada vez mais a esquerda iliberal se crê autorizada a empregar todo e qualquer meio, solapando a ordem jurídica e o processo democrático, para impor seus fins messiânicos


Está em curso uma campanha, em boa parte promovida pelos integrantes do Executivo, de discriminação e no limite criminalização das pautas de direita, como se a disputa entre progressistas e conservadores fosse uma batalha existencial da civilização contra a barbárie.


A pretensão do PT ao monopólio do bem e da verdade é constitutiva. Expoentes da direita sempre foram demonizados como “fascistas” e “inimigos do povo”. Mesmo a outros progressistas a oferta do partido se resume à vassalagem ou à apostasia. Toda crítica é desmoralizada como conspiração das “elites”. Ainda hoje o partido exige reparações pelo “golpe” do Legislativo e do Judiciário em Dilma Rousseff e por sua “perseguição política” a Lula e outros “guerreiros do povo brasileiro” flagrados em tramoias antirrepublicanas, como no mensalão e no petrolão.


O jihadismo esquerdista encabeçado pelo lulopetismo frequentemente foi propagado por setores que, marcados, por razões históricas e sociológicas, por uma hegemonia progressista, funcionam como sua caixa de ressonância, como a academia, redações ou a chamada classe artística. Na última geração, a intolerância maniqueísta das vanguardas da “luta de classes” foi inflamada pelas pautas identitárias da nova esquerda.


Para a esquerda iliberal, as responsabilidades individuais são dissolvidas em “estruturas” de opressão. Nesse estado de espírito paranoico, não basta não ser racista, misógino, homofóbico; quem não é ostensivamente “anti”, quem não milita pela causa, quem não faz rituais de expiação pelo mero fato de ter uma determinada cor de pele, pertencer a um gênero ou ter uma orientação sexual é desmoralizado como uma peça da máquina de opressão. A política é submetida a emoções tribais e quem questiona a pureza ideológica dos redentores deve ser disciplinado, punido ou mesmo eliminado do debate público por tribunais midiáticos e campanhas de “cancelamento”.


Considerem-se alguns debates recentes, como a exploração de novas fronteiras petrolíferas, a demarcação de reservas indígenas ou a legalização do aborto. Em todos esses casos, não há uma disputa inequívoca entre o bem e o mal, mas zonas de conflito entre bens juridicamente tutelados. No caso da exploração de petróleo na Margem Equatorial, por exemplo, há uma equação entre riscos ambientais e ganhos socioeconômicos; no caso das reservas indígenas, entre os direitos dos povos originários e os de proprietários (muitas vezes indígenas aculturados) de boa-fé; no caso do aborto, entre a autonomia das mulheres e a vida do nascituro. Além do mérito, há a questão da competência para arbitrar esses conflitos, por exemplo, entre o Legislativo e o Judiciário.


Mas os progressistas iliberais se creem portadores de verdades absolutas e condutores da História legitimados a empregar quaisquer meios para a consumação de seus fins. O mero questionamento é denunciado como “violência”. A reação em defesa de direitos plausivelmente legítimos é anatematizada como reacionarismo. As teses de quem advoga por explorar as riquezas do petróleo, por garantir as propriedades de agricultores ou por preservar a vida do nascituro não são meramente objetadas, com base na Constituição, em função de supostas lesões a direitos do meio ambiente, dos indígenas ou das mulheres, mas recriminadas como ataques de predadores desalmados.


Isso exprime uma visão da vida pública típica de um Estado confessional, do tipo que o liberalismo veio a superar com a instauração do Estado Democrático de Direito e o princípio de que o progresso humano deve ser conquistado por debates, negociações e reformas. A direita iliberal representa uma ameaça a esse marco civilizacional, como se viu no 8 de Janeiro. Mas, ao equiparar todos os seus críticos a “extremistas” dignos de serem alijados da vida pública, a esquerda iliberal também é uma ameaça, não tanto pelos seus ideais, em princípio tão legítimos quanto os de seus adversários, mas pelos seus métodos: a intimidação, a censura, a ruptura, a imposição. Numa democracia, essa intolerância é intolerável.

sábado, 3 de outubro de 2026

Amilton de Aquino

 E chegamos à eleição mais estranha de todos os tempos. Todo mundo cabisbaixo, tentando fugir de polêmicas, sem debates, sem regras, com juízes atuando descaradamente como cabos eleitorais, uma oposição mais suja que pau de galinheiro e um presidente idem, acuado, fazendo o diabo para se reeleger, empurrando uma bomba fiscal para os próximos anos que pode cair no colo dele mesmo e, claro, nas costas da população, especialmente de quem rala o dia inteiro para pagar a conta.


Uma eleição decidida pelo medo de um dos polos, em que um se “limpa” na sujeira do outro e vice-versa.


E, neste mar de incertezas, três certezas — ou quase certezas:


1) Não existe mais espaço para uma terceira via moderada. Na era das bolhas, só há espaço para quem consegue chamar atenção de alguma forma, mesmo recorrendo a hipérboles.


2)  Renan Santos vai ficar em terceiro lugar, a única candidatura com uma militância de fato capaz de fazer alguma diferença na reta final, com chance de se tornar uma alternativa de fato a atual polarização. As de Caiado, Cury e Zema tendem a desidratar ainda mais.


3) Quem assumir terá um mandato difícil.


Se for Lula, será um mandato ainda mais impopular, com uma conta de juros de R$ 1,1 trilhão ao ano, agora com uma tendência de alta ainda maior, depois do festival de “bondades” nas semanas que antecederam a eleição. Um Lula ainda mais escorado no STF, que tende a passar por cima de tudo, ainda mais com mais quatro indicações do PT para reforçar sua tropa na instituição que dará a última palavra (passando por cima, inclusive, da Constituição, como já tem acontecido sucessivamente) durante as próximas décadas.


Se for Flávio, um mal menor, pois, além de representar alguma chance de pelo menos estabilização da dívida, haveria ainda uma chance de dar uma equilibrada no STF. Digo uma chance porque, embora tenha se falado muito por aí das tais “quatro vagas” que o próximo presidente vai indicar, na prática, só uma delas ocorrerá no início do mandato — e isso se Lula não inventar uma manobra de emergência para fazer a indicação da vaga do “Bessias” ainda neste ano, algo que ele vai tentar se perder.


Dos outros três, o pior deles, Gilmar Mendes, só no finalzinho do mandato. Os outros dois, Fux e Cármen Lúcia, só depois de 2028.


Ou seja, as duas substituições que de fato Flávio faria em meados do mandato não mexeriam no placar da maioria que Lula já tem hoje no STF e que poderá ficar ainda mais consolidada caso consiga completar a vaga remanescente até o final de dezembro.


Portanto, se Flávio for o eleito, governará na coleira do pior STF de todos os tempos. Pelo menos, desta vez, além de um Bolsonaro mais moderado, parte da imprensa já percebeu o monstro que ajudou a criar no STF, o que seria um fator que tenderia a dar uma equilibrada no jogo.


Enfim, continuaremos, na melhor das hipóteses, num mar de incertezas. Certeza mesmo é que continuaremos pagando muito imposto para sustentar uma das piores elites da humanidade.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Um ato terrorista q não se consumou

 *Pela primeira vez em mais de 20 anos, alguém tentou sequestrar um avião com destino a Israel.* 


_Milagrosamente, o agressor, um piloto de Omã, foi dominado antes de conseguir concluir sua missão._


A região inteira prendeu a respiração quando o voo matinal da Flydubai, de Dubai para Tel Aviv, emitiu um sinal de emergência, acionou o código de sequestro e pareceu desviar de sua rota sobre o espaço aéreo saudita. A tensão na região se dissipou, quase dando lugar a um riso aliviado, quando os primeiros relatos atribuíram o incidente a uma briga entre os dois pilotos. Esse riso, porém, logo desapareceu à medida que avaliações de segurança e depoimentos de passageiros revelaram que o copiloto havia esfaqueado o comandante repetidas vezes. 


O terrorista então assumiu os controles e direcionou a aeronave para o solo, perdendo quase 20.000 pés de altitude em pouco mais de um minuto, até que vários tripulantes e passageiros forçaram a entrada na cabine de comando e o imobilizaram. 


Muitas pessoas ficaram feridas durante a ação. 


O avião fez um pouso de emergência em Tabuk, no noroeste da Arábia Saudita, onde os passageiros agora aguardam que Israel os leve de volta para casa.


A motivação específica e a afiliação do agressor ainda não foram confirmadas, mas Israel trata o incidente como um ato de terrorismo.


Ao contrário de muitos sequestros na longa história de Israel, o de hoje teve um final feliz. 


O episódio ocorreu, além disso, poucas semanas após o 25º aniversário do sequestro mais letal da história.


Muitas perguntas permanecem. Como esse homem obteve autorização para pilotar a aeronave? O que exatamente o motivou? E o que isso significa para o futuro das viagens aéreas no corredor de voo mais movimentado de Israel?


A El Al suspendeu seus voos regulares para os Emirados Árabes Unidos em março de 2026 devido a ameaças à segurança e não os retomou desde então. É possível que o agressor pretendesse criar uma ruptura nessa aliança crucial. Apenas ontem, Benjamin Netanyahu alertou, em um discurso na principal base aérea das Forças de Defesa de Israel (FDI), que "nossos inimigos tentarão nos atacar". "Não mexam conosco", advertiu ele. "Nosso braço longo os alcançará em qualquer lugar e a qualquer momento."


No entanto, não foi o punho vingador da Força Aérea de Israel nem um resgate heroico realizado por forças especiais que frustrou a ameaça de hoje.  Foi a coragem de israelenses comuns. Havia uma possibilidade muito real e trágica de que eu estivesse escrevendo um artigo completamente diferente hoje. Com o capitão lutando para sobreviver, o sistema de direção avariado e uma asa danificada, foi graças à bravura de um pequeno grupo de passageiros e tripulantes que quase 180 vidas foram salvas. Hoje, no quinto dia de Sucot, recitaremos as palavras do Hallel com fervor redobrado: “Este é o dia que o Senhor fez; alegremo-nos e regozijemo-nos nele.” – Amit Segal


https://x.com/AmitSegal/status/2105250626040926320


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Os fatos chegam sempre atrasados

 Os fatos chegam atrasados

Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial 


Primeiro escolhemos. O candidato chega depois.

Entre os eleitores de menor escolaridade, Lula tem 49%, Flávio Bolsonaro, 29%.

Seria a prova definitiva da superioridade política do diploma, não fosse um detalhe devastador. 

Conheço, e como conheço, doutores capazes de defender disparates com bibliografia, nota de rodapé e absoluta convicção.

Diploma aumenta repertório, não vacina contra estupidez.

A explicação é bem menos confortável.

Ninguém chega sozinho à urna. Leva os pais, a renda, o bairro, o medo, a religião, o emprego que teve, o dinheiro que faltou, a ajuda que recebeu, a raiva que guardou e a turma à qual aprendeu a pertencer.

O candidato chega por último. Para milhões, Lula não é um político. É uma biografia emprestada. Emprego, consumo, proteção, a lembrança de uma época em que a vida pareceu melhorar. Para outros, é também a memória da corrupção, das condenações depois anuladas e de uma história judicial que o país ainda interpreta de maneiras opostas.

Memória não gosta de auditor.

A rejeição trabalha no mesmo escritório.

Flávio carrega um sobrenome que entra na sala antes dele, junto com a pecha do autoritarismo bolsonarista. Lula carrega uma biografia que fecha a porta depois. Há quem rejeite antes de ouvir e quem absolva antes de julgar.

Os argumentos chegam depois. Advogados contratados pela sentença.

O Datafolha desta semana cometeu uma pequena indecência estatística: Lula e Flávio com os mesmos 45% de rejeição.

Iguais no número, diferentes na bagagem. Em Flávio, o sobrenome chega primeiro. Em Lula, uma longa biografia já está sentada à mesa. Não é equivalência. É simetria de trincheiras.

Faço parte da estatística, sem qualquer pretensão de neutralidade.

Entre os dois, minha rejeição a Lula decide meu voto. Flávio não precisa me entusiasmar.

Também carrego uma biografia para a urna.

Chamamos isso de escolha porque reconhecimento tribal ficaria feio na urna.

O grande engano é imaginar que um fato novo encontra uma cabeça disponível. Não encontra. O imóvel já tem inquilino.

Se favorece meu candidato, é prova. Se o desmente, é perseguição, contexto, sabotagem, imprensa, juiz, mercado, sistema. Para o adversário, evidentemente, contexto não existe. Embora a biografia política de Lula dispense apresentações.

Não é burrice. Seria fácil demais.

Um fato não disputa com outro fato. Disputa com uma biografia. Biografias são péssimas perdedoras.

A democracia fez uma aposta: diante dos fatos, revisaríamos nossas escolhas. A aposta não envelheceu bem.

Fizemos o contrário. A escolha vem pronta. Depois contratamos os fatos para defendê-la.


Alex Pipkin

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Diário




 Em recesso amigos. Aparecerei esporadicamente. Viajando hoje para a formatura do filho. Fechando um ciclo, dar de melhor ao nosso filhote, sem exacerbar, sem irresponsabilidade. Educação top pq eu sabia q ele ia usufruir. Valores, princípios e condutas. 

Colocarei aqui um Diário de viagem. 

Vamos em frente.

domingo, 27 de setembro de 2026

Elio Gaspari



A íntegra: Elio Gaspari

Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada"




Lula errou em 2023

Quando derrotou Jair Bolsonaro por uma margem pequena de votos, Lula leu mal o resultado

Lula 3.0 não cultivou o arco democrático que o elegeu




Em 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro por uma margem pequena de votos, Lula leu mal o resultado. O que era uma vitória apertada vinda de um arco democrático, o PT e Lula tomaram como uma consagração.




Consagração foi, afinal o sujeito passou quase dois anos na cadeia acusado de corrupção e se elegeu presidente pela terceira vez. É vitória para ninguém botar defeito, mas não é suficiente. Lula 3.0 não cultivou o arco democrático que o elegeu. A diferença entre o arco democrático e a coligação governista pode ser testada pelo lugar onde fica o ex-ministro Pedro Malan. Ele pertence ao arco, mas não pertence ao bloco que poderia ser chamado de governista.




O PT desperdiçou a oportunidade de governar com uma coligação mais inteligente e criativa do que a pobre polarização em que se caiu.




Faltando dez dias para o primeiro turno, ele acordou. O eleitor também acordou. Se não é ele, é Bolsonaro. O antipetismo que elegeu o ex-capitão em 2018 encolheu em 2026, até porque surgiram fatos que alimentam um antibolsonarismo. No início de outubro de 2018, Bolsonaro tinha 32% das preferências, segundo o Datafolha. O petista Fernando Haddad tinha 21%. Aquele Brasil bolsonarista desmanchou-se, mas não acabou.




Lula vive um paradoxo, é o candidato que vai melhor nas pesquisas, mas seu governo é mal avaliado por 40% contra e 34% a favor, segundo o último Datafolha.




Lula revelou um certo cansaço com a campanha. Não era fadiga física, era cansaço do modo campanha. Um sinal desse cansaço é o bordão desafiador: "É esse país que vocês querem?". O eleitor sabe que é ele quem manda, não é preciso ser desafiado.




De certa maneira, Lula foi capturado pela polarização bolsonarista. Podendo ampliar sua base, estreitou-a ou engordou-a, recorrendo ao centrão.




Faltou criatividade ao petismo, mas ele teve a sorte de ganhar um adversário incapaz de formular uma ideia nova ou de buscar um novo aliado.




Tarcísio no 1º turno

Uma eventual vitória do governador Tarcísio de Freitas no primeiro turno pode atrapalhar a vida de Flávio Bolsonaro no segundo turno. Sobretudo se, no dia 25 de outubro, der praia.




A carta das apostas

As casas de apostas que compraram outorgas ao governo por R$ 2,5 bilhões vão brigar na Justiça para recuperar a franquia ou receber o dinheiro de volta.




Os deuses do jogo maltrataram as casas de apostas. Jogaram no colo da justiça a proteção às casas de tavolagem.




Era tudo o que a magistratura não precisava.

sábado, 26 de setembro de 2026

Papo de Economista Semanal

Papo de Economista Semanal


Atravessamos esta semana de olho nas pesquisas para a eleição majoritária do dia 4 e também atento ao comportamento do conflito no Oriente Médio.


Vejamos o que foi destaque.


1) No Oriente, a grande dúvida é saber quanto EUA e Irã cederam para ambas as partes no “liberar” do estreito de Ormuz. Nesta semana, algum avanço houve nas tratativas e com isso o barril de petróleo recuou 6%.


O Brent encerrou a sexta-feira (25) em queda de 2,8%, a US$ 97,44 o barril, acumulando recuo de 6,2% na semana — o maior em meses.


2) A contribuir, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, apresentando aos EUA uma proposta com prazo de sete dias para reabrir o Estreito de Ormuz e retomar negociações.


3) Na sexta-feira(25), por aqui, saiu a prévia do IPCA de setembro, que subiu 0,70% — bem acima da deflação de 0,40% em agosto. Maior impacto individual veio da energia elétrica residencial, que disparou 7,42% com o fim do bônus de Itaipu. Em 12 meses, o IPCA-15 avançou de 4,24% para 4,47%.


4) Este resultado, talvez, reforce a percepção de que o Copom deve ser mais cauteloso no ciclo de cortes da Selic. A leitura oficial do IPCA de setembro, prevista para outubro, será determinante para o Copom na reunião de novembro.


5) Neste cenário, o Ibovespa operou sem rumo, “de lado”, fechando a 183.476,86 pontos, queda de 0,96% — a segunda perda semanal consecutiva. Já o dólar fechou a R$ 5,18, com alta de 0,72% na semana.




6) No “front político”, a disputa segue apertada entre Lula da Silva e Flavio Bolsonaro. No entanto, percebe-se alguma perda de tração do primeiro e reação do segundo. E tudo piorou para o primeiro diante de novas gravações de personagens do STF e do entorno do governo Lula. Realmente. Daniel Vorcaro é um “arquivo vivo”.




Boa Semana a todos!

Millor sobre Lula



“”Millôr Fernandes sobre Lula:




“A ignorância subiu-lhe à cabeça. Ele acha que sabe tudo, mas não sabe nada".




"Lula chegou ao limite extremo da soberba. E ultrapassou-o".




"O Brasil é o único país em que os ratos conseguem botar a culpa no queijo".




"Lula, um líder aspirando cada vez mais pompa tropeçando cada vez mais nas circunstâncias".




Esse negócio da bebedeira dele foi ridiculo. Ele disse que decidiu expulsar jornalista como exemplo. Para quê? Para que todo mundo fique com medo de escrever coisas negativas sobre ele?"




"Lula é um túnel no fim da luz".




"Freud ficaria besta com Lula; é o ego maior do mundo".




"Lula tem um grande passado pela frente".”




- da TL do Isaac Averbuch / via Alessandro Gagnor Galvão

OESP

 “Desnorteado depois da pancada nas urnas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu um salve "urgente" nas redes sociais com trê...