O erro fundamental da mobilidade social
Sempre me disseram que a vida é injusta, que é preciso lutar pela vida, por ter um lugar ao sol. Mas hoje penso que isso é uma grande mentira. Os termos desta luta são uma grande mentira. Desde novo que convivo com os burgueses da minha cidade, pessoas muito pouco preocupadas com essa luta. Sempre vi uns a safar-se sem haver razões objectivas para isso.
Vejo agora que a ideia de elevador social é uma piada. Há uns que têm lugares marcados no último andar desde que nasceram. Outros que chegaram lá pelas ligações, uns tiveram que pisar muita gente para entrar no elevador. A classe média é uma mentira pegada. A primeira vez que cheguei ao topo percebi logo a farsa. Esta ideia de mobilidade social é uma treta. Mesmo que entres no elevador e metas o dedo no último andar, a subida é sempre provisória. E o convite para desceres à base já está firmado.
A verdadeira mobilidade social reside em dois aspectos individuais e noutro que tem a ver com a engrenagem do mundo. O primeiro aspecto é ter capital. O segundo é ter cultura. É que se és um escravo do dinheiro estás tramado. Tens de ter ativos, casa, património, um negócio, acções e talvez ouro. Tens de ter ativos que valorizem com a inflação. Sem isso és refém de um mestre que está sempre a depreciar. O dinheiro que entra no salário é sempre adiar a precariadade. Andas sempre com a corda ao pescoço.
O segundo ponto é a cultura. E quando digo cultura não é só saber apreciar a beleza estética de um quadro ou de uma estátua grega. É saberes as forças que movem o intelecto humano, a realidade fundamental que é transversal a todas as culturas. O essencial do génio humano. É saber Dante e Dostoievski não como emblemas de estatuto mas como forças de pensamento. Seres rico e não teres cultura é miserável.
Dito isto, é preciso notar se és refém de sinais exteriores de riqueza tens sempre um problema. O dinheiro que ganhas não serve para criar património mas para ter estatuto. E isso deixa-te sempre num pequeno passo à beira do abismo. És um Sísifo num jogo absurdo de aparências. Conheço muitos indivíduos que fazem da sua vida a exploração das vaidades humanas, da eterna tendência para seguir atalhos e a inclinação humana para a crendice. Essas figuras são de fugir. A sua única oferta é um rodízio de distracções. Esquece essa gente. Só fazem perder tempo.
Por fim, se levas a sério tudo isto. A tua missão é simples. Guardar riqueza, guardar conhecimento e guardar sabedoria. Mas para esse processo faça sentido tens de passar este legado à próxima geração. Caso contrário o teu esforço acaba em pó. É isto a mobilidade social: manter a chama viva e passar o legado para a geração seguinte. É por isso que há famílias poderosas. Estas linhagens estão a repetir este processo há centenas de gerações.
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