quarta-feira, 27 de maio de 2026

BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: IPCA-15 testa os limites do BC*


… O mercado tenta calibrar até onde vai o risco geopolítico no Oriente Médio e qual será o tamanho da conta inflacionária da guerra. Os novos ataques entre Estados Unidos e Irã voltaram a elevar dúvidas sobre a estabilidade do cessar-fogo e sobre a normalização do Estreito de Ormuz, mantendo o Brent perto de US$ 100 e reacendendo apostas de juros mais altos por mais tempo no mundo. Em Nova York, enquanto as ações seguem comprando inteligência artificial e renovando recordes, os juros continuam comprando guerra. No Brasil, o foco se volta hoje para o IPCA-15 de maio, em meio à percepção de que os núcleos e os serviços seguem desconfortáveis para o Banco Central.


JURO COMPRA GUERRA – O mercado voltou a reduzir apostas em uma solução rápida para o conflito no Oriente Médio, após novos ataques entre Estados Unidos e Irã reacenderem dúvidas sobre a estabilidade do cessar-fogo e a normalização do tráfego no Estreito de Ormuz.


… O Brent voltou a se aproximar de US$ 100 depois de os Estados Unidos realizarem ataques classificados como “autodefesa” no sul do Irã, mirando plataformas de lançamento de mísseis e embarcações com capacidade de espalhar minas.


… Em resposta, Teerã acusou Washington de violar o cessar-fogo em vigor, afirmou que “nenhuma agressão ficará sem resposta” e disse ter derrubado um drone americano, enquanto o líder supremo Mojtaba Khamenei também fazia alertas.


… Segundo o iraniano, “as nações e terras da região não serão mais um escudo para as bases americanas”.


… Apesar do discurso oficial da Casa Branca defendendo a continuidade das negociações, investidores passaram a enxergar uma distância maior entre um eventual acordo formal e uma paz efetivamente estável na região.


… O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou estar pronto para firmar um “acordo digno” com os Estados Unidos, enquanto Marco Rubio admitiu que um entendimento ainda pode levar “alguns dias” para ser concluído.


… As negociações seguem travadas em pontos considerados centrais, como a liberação de US$ 24 bilhões em ativos iranianos congelados, o destino dos estoques de urânio enriquecido e as condições de navegação pelo Estreito de Ormuz.


… O Comando Central dos Estados Unidos desmentiu relatos de retomada da escolta naval no estreito, reforçando a percepção de que o fluxo marítimo segue vulnerável, mesmo após o Irã afirmar que permitiu a passagem de 25 embarcações comerciais nas últimas horas.


… O presidente Donald Trump cancelou viagem a Camp David e decidiu realizar reunião com todo o gabinete na Casa Branca nesta quarta-feira, poucas horas depois da escalada envolvendo embarcações iranianas e alvos militares no Golfo.


… No pano de fundo, Israel ampliou operações no Líbano, enquanto o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, afirmou que uma “série” de altas de juros pode voltar à mesa caso a guerra pressione ainda mais a inflação global.


… A nova tensão trouxe perdas aos ativos domésticos; já em Nova York, as bolsas ignoraram parcialmente a guerra, com o avanço das ações ligadas à inteligência artificial levando o S&P 500 e o Nasdaq a novos recordes na volta do feriado de Memorial Day (abaixo).


CONSEGUIU A FOTO – Mesmo com uma guerra na agenda, Trump encontrou tempo para receber Flávio Bolsonaro na Casa Branca e o senador aproveita para transformar a reunião em demonstração de prestígio internacional e consolidação de sua pré-candidatura ao Planalto.


… Para ele, o fato de ter sido recebido no Salão Oval é prova de que existe “uma alternativa séria, sólida e confiável” ao governo Lula.


… Flávio disse ainda que apresentou ao presidente americano propostas ligadas à exploração de minerais críticos e terras raras no Brasil, defendendo uma parceria estratégica entre os dois países caso seja eleito.


… O senador também afirmou que pediu a Trump que PCC e Comando Vermelho sejam classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas – assumindo uma postura polêmica atribuída à extrema-direita e que pode atingir a soberania do Brasil.


… Segundo Flávio, a conversa durou cerca de 1h40 e incluiu comentários de Trump sobre Jair Bolsonaro, além da entrega de uma “challenge coin”, medalha usada pelas Forças Armadas americanas como símbolo de reconhecimento.


… O encontro acontece em meio à repercussão da relação entre Flávio e Daniel Vorcaro, financiador do filme Dark Horse, que atingiu a sua candidatura ao Palácio do Planalto, conforme mostraram as últimas pesquisas eleitorais.


BRB & MASTER – O desenho para uma solução da crise do Banco de Brasília está fechado e ganha grande espaço na mídia.


… União e Governo do Distrito Federal avançaram em um acordo preliminar para viabilizar a capitalização do BRB, mas a solução ainda depende da adesão do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e de um sindicato de bancos públicos e privados.


… O desenho discutido no STF prevê um empréstimo bilionário ao GDF junto ao FGC, com fiança de bancos e contragarantias atreladas aos repasses do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).


… O governo federal deixou claro que não haverá aval direto da União para a operação, principal ponto de resistência da Fazenda desde o início.


… Em contrapartida, a União se comprometeu a flexibilizar os limites do Programa de Ajuste Fiscal do Distrito Federal para permitir uma operação de crédito acima do teto atual, hoje limitado a cerca de R$ 900 milhões.


… O valor em discussão gira em torno de R$ 5 bilhões, embora o pedido original do GDF ao FGC tenha alcançado R$ 6,6 bilhões.


… O BRB tenta fechar um rombo provocado pelas operações envolvendo o Banco Master e trabalha contra o tempo para recompor índices mínimos de capital exigidos pelo Banco Central.


… Em documento enviado ao BC e anexado ao processo no STF, o banco informou que está submetido a um termo de comparecimento do regulador e tem até o dia 29 para apresentar medidas de recomposição patrimonial.


… Além do empréstimo, o GDF tenta levantar recursos por meio da securitização de dívida ativa via FDIC, enquanto o BRB busca alterar as condições de letras financeiras subordinadas para reforçar capital principal.


… O termo de conciliação também prevê que o GDF terá de adotar medidas de ajuste fiscal como contrapartida para viabilizar o socorro ao BRB e estabelece que recursos recuperados de atos ilícitos ligados ao caso serão direcionados para liquidar a operação de auxílio ao banco.


… Apesar do avanço das negociações, interlocutores envolvidos nas tratativas afirmam que a solução ainda está longe de ser concluída e depende da avaliação econômica e jurídica do FGC e das instituições financeiras que participariam do consórcio.


… Uma nova reunião entre União, GDF, Banco Central, AGU e BRB está marcada para amanhã, quinta-feira, no STF, enquanto a CAE do Senado aprovou convocação do presidente do banco, Nelson de Souza, para depor sobre a crise na próxima semana.


ESCALA 6X1 – O presidente da comissão especial, deputado Alencar Santana (PT-SP), afirmou que a PEC será votada no colegiado nesta quarta-feira, às 10h, e, segundo o presidente da Câmara, Hugo Motta, o texto pode ir ao plenário já amanhã, quinta-feira.


… O avanço acelerado da proposta provocou reação do setor produtivo, que passou a pressionar por mais tempo de discussão e criticou a condução do debate. Representantes empresariais reuniram-se ontem com Davi Alcolumbre.


… Alertando para impactos sobre emprego, produtividade e competitividade, disseram que a mudança tem caráter “eleitoreiro”.


… O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, criticou a tramitação da proposta na Câmara e afirmou que o tema está sendo tratado de forma “irresponsável” e “açodada”. Segundo ele, a discussão mistura jornada semanal e modelo de escala.


… Afirmando que a proposta ignora diferenças entre setores, defendeu que mudanças continuem sendo tratadas por negociação coletiva.


… No Senado, parlamentares avaliam que Davi Alcolumbre não deve travar a tramitação da PEC, diante da pressão eleitoral em torno do tema e da proximidade das eleições de outubro, mas o período de transição para as novas normas pode voltar à pauta.


CURTAS DA POLÍTICA – Mais duas pesquisas eleitorais para a disputa presidencial serão divulgadas hoje, do site Jota e Indexa (10h).


AÉCIO. O PSDB e o Cidadania formalizaram convite para que Aécio Neves dispute novamente a Presidência da República em 2026. O deputado afirmou estar “disposto” e “preparado” para a candidatura, embora tenha evitado confirmar decisão definitiva neste momento.


MOVE BRASIL. CMN aprovou mudanças nas regras do programa, ampliando de 60 para 120 meses o prazo de financiamento para renovação da frota de ônibus e micro-ônibus. Segundo a Fazenda, a medida busca reduzir o valor das parcelas.


PROFESSORES. O Senado aprovou ontem reajuste de 5,4% no piso salarial dos professores da educação básica da rede pública, elevando o valor para R$ 5.130,63. O texto também redefine a fórmula de reajuste do piso com base na inflação e na evolução das receitas do Fundeb.


COMBUSTÍVEIS. Projeto que cria mecanismo de compensação tributária para reduzir o impacto da alta dos combustíveis deve ser votado hoje…


… O texto permite usar receitas extraordinárias do petróleo para compensar reduções de tributos federais sobre combustíveis fósseis, em meio ao choque provocado pela guerra no Oriente Médio…


… O relatório preserva vantagens tributárias para biocombustíveis, flexibiliza regras de compensação de créditos de PIS/Cofins para o etanol e obriga o governo a demonstrar o impacto das medidas nas contas públicas.


MAIS AGENDA – A quarta-feira traz como destaque o IPCA-15 de maio, em meio à tentativa do mercado de medir até que ponto o alívio da gasolina consegue compensar a pressão persistente dos núcleos de inflação, em um ambiente contaminado pelo choque do petróleo.


… O IBGE divulga o indicador às 9h e a mediana das Projeções Broadcast aponta desaceleração para 0,56% em maio, após alta de 0,89% em abril, enquanto a taxa acumulada em 12 meses deve subir para 4,59%, acima do teto da meta.


… A expectativa é de descompressão relevante em Transportes, puxada pela queda da gasolina, mas com pressão ainda importante em alimentação, energia elétrica e principalmente nos serviços – forte preocupação do Banco Central.


… A média dos núcleos deve desacelerar apenas marginalmente, de 0,47% para 0,46%, reforçando a percepção de inflação qualitativamente ainda desconfortável para o Copom seguir com o ciclo de flexibilização monetária.


… Economistas destacam que serviços subjacentes, alimentação fora do domicílio e itens intensivos em mão de obra seguem pressionados, enquanto a alta do petróleo e o risco de prolongamento da guerra no Oriente Médio mantêm o viés inflacionário no radar.


… Às 14h30, o Banco Central divulga o fluxo cambial semanal e o Tesouro apresenta o relatório mensal da dívida pública de abril.


LULA – Na agenda corporativa, o presidente participa no Amazonas de evento da Petrobras e da Transpetro para o anúncio de investimentos de R$ 2,8 bilhões no Estado até 2030, incluindo retomada de aportes em Urucu.


NO EXTERIOR – A agenda de indicadores é mais esvaziada, mas investidores acompanham a conferência do Banco do Japão, que reúne dirigentes do Fed, BCE, BoE e FMI em Tóquio, com a participação de Philip Jefferson, Austan Goolsbee, Lorie Logan e Lisa Cook.


JAPÃO – Em discurso preparado para a conferência do BoJ, o presidente do BC japonês, Kazuo Ueda, alertou na noite de ontem que os choques de energia causados pelo petróleo podem se espalhar pela inflação subjacente.


… Segundo ele, um impacto inicialmente temporário pode se tornar duradouro e se propagar pela economia, ao afetar salários, expectativas e preços. Os comentários acontecem a três semanas da próxima decisão de juros.


TODO DIA ELE FAZ TUDO SEMPRE IGUAL – Quando o mercado acha que um acordo de paz está a um triz de sair, Trump ou o Irã dão um jeito de baixar a convicção sobre um desfecho próximo da guerra de quase três meses.


… O otimismo voltou a ser colocado à prova pelos ataques pontuais dos americanos contra lançadores de mísseis do Irã, interpretados como “flagrante violação” do cessar-fogo pelo Teerã: “nenhuma agressão ficará sem resposta”.


… A piora na percepção de risco sobre a guerra puxou o petróleo Brent novamente para perto dos US$ 100, com o barril para entrega em julho escalando 3,58%, para US$ 99,58, e resgatando o receio do choque sobre a inflação.


… Antes de o conflito estourar, no fim de fevereiro, a estimativa para a Selic terminal rodava em torno de 12%, mas de lá para cá o estresse foi tanto, que agora a aposta majoritária no mercado financeiro é de 14% no final do ano.


… Só cresce a sensação de que a taxa básica ficará mais alta por mais tempo para acomodar o efeito inflacionário da guerra. Ontem, o Citi elevou a previsão para a Selic deste ano (13,25% para 13,75%) e IPCA de 2027 (3,7% para 3,9%).


… Segundo o banco, o Copom elevou o tom hawkish em sua comunicação no último encontro de política monetária, em abril, destacando ainda um processo de desancoragem das expectativas de inflação em horizontes mais longos.


… Na avaliação do Citi, os subsídios do governo envolvendo os preços dos combustíveis podem limitar o impacto no consumidor no curto prazo, mas não reduzem a tendência de inflação acima da meta no médio e longo prazos.


… Ouvido pelo Broadcast, o economista-chefe da Porto Asset, Felipe Sichel, advertiu que o câmbio, que até aqui vinha funcionando como um importante aliado para o alívio da inflação, pode virar um ponto de incerteza.


… “O câmbio já não está conseguindo performar tão bem. O dólar acima de R$ 5 deixa de ser um fator positivo.”


… O que se tem notado nos últimos dias é que o real mudou um pouco o padrão e já não tem conseguido faturar tanto quanto antes as investidas de alta do petróleo. O dólar completou ontem seis pregões acima de R$ 5,00.


… Os sinais renovados de tensão no Oriente Médio levaram a moeda a subir de leve (+0,17%), cotada a R$ 5,0274.


… De olho na inflação, os juros futuros corrigiram parte da queda da véspera: Jan/27 subiu a 14,065% (de 14,006%); Jan/28, 13,835% (13,698%); Jan/29, 13,815% (13,674%); Jan/31, 13,895% (13,801%); e Jan/33, 13,970% (13,899%).


MUNDO À PARTE – Em Nova York, o boom da Inteligência Artificial falou mais alto do que a cautela com a guerra e o medo de que o Fed antecipe uma alta do juro para dezembro, garantindo recordes históricos do S&P 500 e Nasdaq.


… O setor de tecnologia voltou a brilhar: Micron disparou 19,29% e atingiu a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado, depois de o UBS triplicar o preço-alvo para a fabricante de chips de memória, de US$ 535 para US$ 1.625.


… O novo target representa valorização de aproximadamente 115% em relação ao fechamento de sexta-feira. Outra estrela do dia foi a Qualcomm, que saltou 4,48%, após fechar acordo com a dona do TikToK para fornecer chips de IA.


… Na volta do feriado do Memorial Day, o Nasdaq avançou 1,19%, aos 26.656,18 pontos, e o S&P 500 subiu 0,61%, para 7.519,12 pontos. Só o Dow Jones fechou em baixa, de 0,23%, mas segue acima dos 50 mil pontos (50.461,68).


… Descolado do otimismo de Wall Street com as gigantes de tecnologia, o Ibovespa reproduziu o perigo da interrupção da trégua entre os Estados Unidos e o Irã. Caiu 0,69%, a 176.589,03 pontos, com giro de R$ 22,4 bilhões.


… Os bancos corrigiram o rali da véspera. BB ON caiu 2,49% (R$ 21,11), Bradesco PN perdeu 1,27% (R$ 17,84), Itaú PN registrou queda de 0,64% (R$ 40,06), Santander unit recuou 1,16% (R$ 27,32) e BTG unit, -0,72% (R$ 55,50).


… As ações da Vale também recuaram (-0,62%; R$ 83,07), em dia de queda firme do minério de ferro (-1,95%).


… O desempenho da bolsa só não foi pior em razão das ações da Petrobras (ON, +0,41%, a R$ 48,89; e PN, +0,09%, a R$ 43,44), sustentadas pelo petróleo, ainda que tenham mostrado fôlego reduzido, comparadas à commodity.


… Apesar de os novos ataques no Oriente Médio terem relembrado a onda inflacionária, os juros dos Treasuries voltaram do feriado em queda: Note de dois anos a 4,042% (de 4,122%) e de 10 anos, a 4,493% (de 4,559%).


… No câmbio, o dólar reprecificou os riscos e subiu contra suas três principais moedas rivais. O iene caiu a 159,32/US$, o euro teve queda marginal de 0,05%, para US$ 1,1635, e a libra perdeu 0,38%, a US$ 1,3451.


CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS afirmou que não há decisão ou informação relevante relacionada ao terreno da Refit…


… A manifestação ocorreu após questionamento da CVM sobre reportagem envolvendo possível desapropriação da área da antiga refinaria de Manguinhos.


AZUL. A companhia informou que terá ADSs listadas na Nyse American a partir de 1º de junho. A empresa reiterou expectativa de migrar para a New York Stock Exchange em julho, após saída do mercado OTC.


USIMINAS. A BlackRock passou a deter participação equivalente a 9,8% das ações preferenciais da companhia, incluindo derivativos.


ONCOCLÍNICAS. A companhia negou proposta concreta de aporte de R$ 500 milhões, mas confirmou que avalia internamente eventual recuperação extrajudicial…


… A empresa afirmou que mantém conversas preliminares com credores conduzidas pela BR Partners.


CEMIG. A Aneel aprovou reajuste médio de 6,5% nas tarifas da Cemig-D, com vigência a partir do dia 28…


… Já a proposta de revisão tarifária da CELESC-D prevê alta média de 11,77% e entrará em consulta pública.


ORIZON. A companhia aprovou a 9ª emissão de debêntures, no valor de R$ 150 milhões.


BANCO DO NORDESTE. O banco fechou acordo com a Tokio Marine para distribuição de seguro residencial híbrido, sem exclusividade.

Bankinter Portugal Matinal

 Análise Bankinter Portugal 


NY +0,6% US tech +1,7% US Semis +5,5% UEM -1,1% España -0,5% VIX 17% Bund 2,98%. T-Note 4,49%. Spread 2A-10A USA=+45pb B10A: ESP 3,40% PT 3,34% ITA 3,70% FRA 3,66% Euribor 12m 2,78% (fut.12m 3,071%) USD 1,164 JPY 185,3 Ouro 4. 508$. Brent 99,6$. WTI 93,9$. Bitcoin -1,6% (76.001$). Ether -1,5% (2.076$). 


:: SESSÃO: Deverá vir marcada por um tom de consolidação. Não há, por agora, novidades decisivas na frente geoestratégica, embora o mercado continue pendente da possibilidade de um acordo entre o Irão e os EUA, que ajudaria a estabilizar ainda mais o preço do petróleo e a reduzir parte da incerteza recente. Com o petróleo bruto a movimentar-se perto dos 100$/barril e as yields ainda contidas, com o Bund <3,0% e o T-Note <4,50%, o mais provável é que as bolsas se movam hoje sem uma direção especialmente definida, numa sessão mais de espera do que convicção. 


A agenda macro do dia tem pouca capacidade para mudar o rumo. Após a decisão do RBNZ em manter taxas de juros (2,25%), em linha com o esperado, e umas referências asiáticas sem demasiada leitura para o mercado global, a atenção continuará no PCE americano de amanhã e nas inflações preliminares europeias de sexta-feira.


Neste contexto, e depois de uma sessão, ontem, em que Wall St. voltou a apoiar-se na força da tecnologia e dos semis para continuar a marcar máximos, dá a sensação de que o mercado entra numa fase mais exigente. A realidade é que as avaliações começam a estar mais questionadas e que, a partir destes níveis, já não basta inércia positiva para continuar a avançar com a mesma facilidade. O mercado já descontou uma temporada de resultados claramente melhor do que o esperado e também assumiu que a macro resistiu mais do que o esperado. Por isso, a secção em alta seguinte precisa de novos catalisadores que permitam justificar múltiplos mais exigentes e sustentar avanços das bolsas sem que a fragilidade do movimento aumente. 


O mais razoável seria uma fase de consolidação dos níveis alcançados. Não terá de ser interpretado como um sinal negativo, mas como um ajuste saudável após uma subida intensa e focada em alguns setores muito concretos. Para que o mercado possa retomar uma tendência em alta mais sólida, seria desejável um reajuste adicional nas expetativas de inflação, de forma às obrigações poderem respirar um pouco e as yields relaxarem. Esse movimento seria especialmente importante, porque permitiria aliviar a pressão sobre umas avaliações que, em determinados segmentos, voltam a exigir bastante perfeição em crescimento e lucros. 


FIM

Xico Graziano

 Minha mãe Ignez, 96 anos, perguntou-me outro dia, ao visitá-la em Araras (SP): “Como faço para saber se aquilo que a gente lê na internet é verdadeiro ou falso?”.

Tomei como exemplo um fato ocorrido recentemente na Argentina. Um açougueiro da cidade de Trelew, situada a 1.300 km de Buenos Aires, na Patagônia, teve a ideia de vender carne de burro. Preparou uns cortes, fez uma linguiça e, com ajuda de um pequeno restaurante, divulgou a novidade. O preço, barato, menos da metade da carne bovina, agradou. Vendeu 500 kg em 2 dias.

Alguém, malicioso, politizou o sucesso da iniciativa. Escreveu na rede social que o governo de Javier Milei tinha empobrecido o povo, levando os argentinos a abandonarem a parrilha, substituindo-a pela carne de burro para sobreviver. Culpa da direita. Viralizou.

Irritada, a Casa Rosada, sede do governo federal, utilizou seu perfil “Escritório de Resposta Oficial” no X para esclarecer que a notícia sobre a carne de burro refletia um caso isolado na Patagônia. Não tinha nada a ver com a política econômica. A polêmica correu a nação. Estava em jogo a imagem do país.
O assunto repercutiu no Brasil. No ambiente polarizado e tóxico do debate nacional, o burro argentino serviu de estopim para a guerra de narrativas entre os extremos. O ICL (Instituto Conhecimento Liberta), ligado à esquerda, tendo como sócio o influencer Felipe Neto, publicou em manchete: “Argentinos recorrem à carne de burro contra a fome durante crise econômica no país”.

O pessimismo provocado pela notícia se chocava com o otimismo dos índices econômicos, conforme mostrado por relatório do Banco Mundial. O equilíbrio das contas públicas e a forte queda da inflação traziam sinais de prosperidade no país. Em resumo: combatendo o caos populista, o governo Milei tem conseguido o milagre de salvar a Argentina.

Se você ler a história completa saberá que é simplesmente mentira que o consumo de carne de burro tenha estourado na Argentina. Na realidade lá ocorreu, como também no Brasil, uma forte elevação no preço da carne bovina.

O consumo doméstico de carnes na Argentina, somando o conjunto delas –avícola, suína e bovina– cresceu 3,85% em 2025, situando-se ao redor de 115 kg/hab/ano. Está acima do consumo médio per capita brasileiro, de 100 Kq/hab/ano. A carne bovina, entretanto, cedeu espaço às demais carnes na Argentina, caindo perto de 5 kg per capita/ano.

Tenha apreço pelo saber. E tome muito cuidado com a desinformação. Pesquise sempre a FONTE da informação.
(https://lnkd.in/dTDHwjSb)

A inteligência artificial e a humanidade

 A inteligência artificial e a humanidade

Encíclica de Leão XIV aborda IA não como ameaça apocalíptica, mas teste moral. O maior risco não é de máquinas que pensem como humanos, mas que humanos pensem como máquinas
26 mai. 2026
Estadão Editorial
A humanidade voltou a construir torres para conquistar o paraíso. Não de pedra, mas de dados, chips, modelos matemáticos e plataformas capazes de escrever textos, reconhecer rostos, prever comportamentos, moldar a atenção e influenciar decisões em escala planetária. Em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas, Leão XIV adverte que a questão crucial da era da inteligência artificial (IA) não está na potência dessas ferramentas, mas no tipo de civilização que se organiza ao redor delas. Estamos diante da alternativa entre “construir uma nova Torre de Babel” ou erguer uma comunidade em que técnica e dignidade permaneçam reconciliadas.
Não há tecnofobia nem entusiasmo ingênuo. Tecnologias não devem ser nem demonizadas nem idolatradas. O papa reconhece que a IA pode ampliar capacidades humanas, reduzir sofrimento, acelerar descobertas científicas, melhorar vidas. Mas adverte que a tecnologia não é neutra: “Toda escolha de design reflete uma visão de humanidade”. Sistemas automatizados embutem prioridades, incentivos, critérios de eficiência e concepções implícitas sobre o que merece atenção, recompensa ou exclusão.
Esse ponto instala a discussão num terreno mais fecundo do que as fantasias sobre robôs conscientes ou máquinas rebeldes. A questão é antropológica. Uma civilização orientada pela lógica algorítmica tende a reinterpretar a experiência humana segundo categorias de cálculo, previsão e otimização. “Para um algoritmo, um erro é uma falha a ser corrigida; para uma pessoa, porém, o erro pode ser catalisador de uma transformação profunda.”
Algoritmos corrigem desvios para maximizar resultados. Pessoas amadurecem por meio de limites, arrependimento, experiência e responsabilidade. A inteligência artificial pode simular linguagem, raciocínio e criatividade. Não possui consciência moral, vulnerabilidade ou capacidade de sacrifício. Não há amor artificial. “Nenhum sistema computacional pode criar um coração capaz de se entregar.” A observação pode soar teológica, mas toca um nervo crucial numa cultura fascinada por transformar seres humanos em projetos permanentemente aperfeiçoáveis.
Dados, infraestrutura computacional, plataformas digitais e modelos de IA estão sob controle de um número reduzido de governos e corporações. Quem controla esses sistemas influencia consumo, reputação, trabalho e imaginação coletiva. A encíclica descreve esse ecossistema como uma infraestrutura invisível, aparentemente neutra, mas carregada de escolhas morais e políticas.
A Rerum novarum (1891), de Leão XIII, surgiu quando a máquina ameaçava reduzir trabalhadores a engrenagens descartáveis. A Revolução Industrial reorganizou o trabalho. A revolução digital reorganiza percepção, julgamento, linguagem e relações sociais. O risco não se limita à exploração econômica, mas alcança a própria ideia de ser humano.
Plataformas digitais moldam a percepção coletiva da realidade. “A verdade é um bem comum”, insiste o papa, num momento em que sistemas generativos diluem a fronteira entre autêntico e sintético. No mercado de trabalho, ganhos extraordinários de produtividade convivem com formas silenciosas de precarização e fragmentação social. Na guerra, a automação promete decisões mais rápidas e precisas enquanto aliena a responsabilidade moral e reduz seres humanos a padrões estatísticos.
Nada disso leva o pontífice a defender freios obscurantistas ao desenvolvimento tecnológico. A encíclica aponta noutra direção: prudência institucional, transparência, responsabilidade e controle democrático sobre sistemas capazes de alterar radicalmente a vida social.
Babel, afinal, nunca simbolizou excesso de conhecimento, mas excesso de soberba. O risco maior da inteligência artificial está menos em máquinas que se pareçam conosco, e mais numa sociedade que enxergue a si mesma segundo a lógica das máquinas. Leão lembra que “um rosto humano que pede para ser contemplado permanece no centro da nossa história”. A advertência cristológica, lida em registro antropológico, é uma síntese provocadora para um tempo fascinado por sistemas capazes de processar volumes infinitos de informação e cada vez mais esquecido de contemplar aquilo que continua irredutivelmente humano.

Kurt Vonnegut

 Perturbadores, livros de Vonnegut dos anos 1960 espelham Gaza e Ucrânia hoje


ALCIR PÉCORA


[RESUMO] No final dos anos 1960, o escritor Kurt Vonnegut Jr. emergiu como referência da contracultura ao fundir sátira e ficção científica numa prosa alucinada, modo com que expôs a longa marcha de horrores no século 20. Relançados agora no Brasil, dois de seus principais romances, ambos de humor sombrio, indagam por que a estupidez é tão constante em nossas sociedades e dizem muito sobre como, ainda hoje, normalizamos a barbárie.


Os dois livros do escritor norte-americano Kurt Vonnegut Jr. (1922–2007) que reli agora — "Mãe Noite", publicado em 1961, e "Matadouro-Cinco", de 1969 — pertencem a um momento de consolidação de sua carreira.


Vonnegut tornou-se uma das figuras centrais da ficção norte-americana do pós-guerra ao fundir sátira e ficção científica numa prosa tão deliciosa de ler como insuportável de entender, com o perdão do oxímoro.


Mas, de fato, oxímoros nunca faltaram na descrição de críticos como Jerome Klintowitz ou Robert. Tally Jr., que pensavam os romances dele como sombriamente cômicos, e cujo uso da ficção científica era, antes de tudo, uma completa exposição dos horrores da civilização do século 20. Vonnegut tornava estranhamente cômica e, ao mesmo tempo, irrespirável a distopia real do seu tempo.


Acrescento que, para mim, que o leu na adolescência, no Brasil, os seus livros representavam uma espécie de emanação da contracultura — claro, não da mesma maneira que Ken Kesey, Timothy Leary ou John Sinclair —, mas numa posição próxima à de autores de ficção científica como Arthur C. Clarke, Frank Herbert e até Robert Heinlein, com a diferença óbvia de que Vonnegut era muito menos interessado no futuro do que eles.


O certo é que, nos anos 1960, a excitação paranoica da Guerra Fria e o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã acabavam com as ilusões a propósito do longo casamento entre patriotismo, capitalismo, igreja, tecnologia e aparato militar.


E uma vez que esses votos sinistros estão sendo renovados agora mesmo, em todo o mundo — e, aqui, na forma intrinsecamente ridícula do bolsonarismo —, é preciso louvar o senso de ocasião da Intrínseca ao reeditá-lo, ainda que as edições não tragam aparato crítico.


O centro da imaginação alucinada de Vonnegut estava ancorado numa pergunta dura: o que faz com que a estupidez e a abjeção continuem a se manifestar tão sistematicamente nas sociedades? Em "Mãe Noite", essa questão avança a partir da fórmula algo sentenciosa de que "somos aquilo que fingimos ser". O interesse dela é que dissolve a crença reconfortante de que exista, sob uma máscara social forçada, uma identidade íntegra, preservada daquilo que o sujeito mostra em seus atos concretos.


Assim, o protagonista do romance, Howard W. Campbell Jr., é um americano que foi criado, viveu e se casou na Alemanha nazista, tornando-se ele próprio um funcionário importante da propaganda do regime, conquanto trabalhasse secretamente como espião para os aliados.


No entanto, o nazismo adquire um papel tão habitual em sua vida que o próprio Campbell, morando em Nova York depois da guerra, percebe que já não tem direito de imaginar que não foi aquele que passou a vida toda fingindo ser. A impostura, aqui, revela-se não como o ser de um outro, do qual pudesse se diferenciar, mas como o processo de fabricação do seu próprio ser.


E como a impostura marca o ser de Campbell, também o nazismo ganha uma feição de farsa ideológica sem grandeza alguma, incapaz de possuir transcendência, mesmo a do mal, mais ou menos na linha de Hannah Arendt.


Não há metafísica na miséria, por assim dizer. Para Vonnegut, a eficácia política do horror moderno reside justamente em seu rebaixamento: na repetição de slogans, no grotesco gritado do palanque, na pobreza mental transformada em espetáculo de crença e de patriotismo. Não há grandeza nenhuma nesses excessos, apenas representação pública fajuta do que Campbell, dramaturgo e propagandista, acaba sendo de verdade.


O papel que ele representa quotidianamente e a eficácia da sua fala pública se enovelam a tal ponto que já não há nenhum sujeito exterior àquilo que ele faz ou diz. O romance resiste, portanto, a qualquer moral fundada na distinção reconfortante entre parecer e ser: uma máscara não encobre nada, ela conforma perfeitamente o rosto encoberto e expõe o ridículo do mascarado.


A base da invenção de "Matadouro-Cinco" não está muito distante disso, apenas a crise da identidade se expande para o próprio limite da linguagem da catástrofe. O protagonista do romance é um soldado norte-americano, Billy Pilgrim, o qual, exatamente como ocorreu com Vonnegut, é aprisionado pelos alemães e levado para Dresden.


A cidade alemã não oferecia nenhum perigo para os aliados, não guardava nenhum contingente militar ou empresa bélica; no entanto, Dresden foi palco de um dos mais atrozes bombardeios aliados da Segunda Guerra, feito com bombas convencionais, mas suficientes para assassinar milhares de pessoas.


Hoje se contabiliza em torno de 25 mil o número de mortos no bombardeio, incluindo idosos, mulheres e crianças, que obviamente nada tinham a ver com objetivos militares. Toda a cidade se tornou escombros, ou, na imagem cruelmente irônica de Vonnegut, uma "paisagem lunar".


No romance, porém, o horror do bombardeio não chega ao leitor como evento traumático em bruto, mas mediado por relatórios, prefácios, estatísticas, justificativas estratégicas, patriotadas e conversas moles de todo tipo. Assim, a memória de Billy já nasce ferida por essas mediações e o que ele viveu realmente está, por assim dizer, circuitado por elas.


A extraordinária abertura de "Matadouro-Cinco" deriva justamente dessa percepção do curto-circuito: antes que a história de Billy Pilgrim realmente comece, o narrador se demora na dificuldade de escrevê-la; e, quando afinal começa, começa duas vezes, pois já não é possível acreditar na inocência de um ponto de vista inaugural seguro.


A partir daí o plot do romance é bem extravagante: Billy sobrevive ao bombardeio, volta aos Estados Unidos, casa-se com uma herdeira rica, tem um casal de filhos e parece a normalidade em pessoa, descontado o tempo que passou internado num hospital psiquiátrico para tratar os traumas da guerra. A certa altura da sua vida, porém, Billy sofre um acidente com o ônibus da sua firma de optometria e é o único sobrevivente.


Depois disso, embora "depois" seja uma palavra destruída pelo romance e jamais possa ser entendida como "por causa disso", Billy passa a contar em programas de rádio e de televisão a sua vida entre os extraterrestres. Diz ele que, no dia do casamento da sua filha, fora abduzido por alienígenas vindos do planeta Tralfamadore e levado para um zoo intergalático, para onde também é conduzida uma atriz famosa, com a qual acaba tendo um bebê.


E isso não é tudo: Billy diz que aprendeu com os tralfamadorianos a se "descolar" da ordem do tempo, o que lhe permite visitar, quantas vezes quiser, todos os momentos da sua vida. É como se todos eles, incluindo o momento de sua morte, estivessem on-line todo o tempo, e ele pudesse revivê-los, vezes e vezes sem fim.


A fórmula que abre o segundo capítulo já é impactante; permitam-me citá-la em inglês, pois há uma razão para isso: "Listen: Billy Pilgrim has come unstuck in time". Na tradução de Daniel Pellizzari para a edição da Intrínseca, ficou assim: "Escuta só: Billy Pilgrim ficou solto no tempo".


Bem lida essa fórmula, ela equivale ao programa formal do livro todo: a experiência do bombardeio de Dresden arranca o sujeito da crença numa sucessão temporal contínua e inteligível. Para perceber isso, a expressão inglesa é bem mais precisa: "unstuck" indica que um encaixe foi rompido, e não que se ganhou algum meio para uma travessia mais livre, como "solto" poderia dar a entender.


Assim, quando "viaja" no tempo, Billy se desprende do regime que ligava uma experiência à outra, com aristotélicos começo, meio e fim da narrativa, passando a enxergar a sucessão como mera ilusão, pois tudo está lá indefinidamente para sempre.


O mais relevante a perceber aqui, porém, é que, em Vonnegut, o trauma não admite qualquer regime edificante. É verdade que recebe um tratamento literário, como um tipo muito especial de ficção científica, mas é, simultaneamente, um tratamento esvaziado de qualquer fascínio tecnológico típico do gênero.


Bem diferentemente disso, a ficção do trauma o converte basicamente num instrumento de leitura moral da história. Talvez esteja aí o ponto em que o romance guarda afinidade com a geração hippie, que o leu devotadamente.


Ela também lia ficção científica, e não apenas para sonhar viagens interestelares escapistas, mas sobretudo como modo de estranhar a normalidade criminosa do presente do Vietnã — o que faz pensar que hoje poderíamos reler "Matadouro-Cinco" para estranhar a invasão da Ucrânia, o massacre de Gaza, o bombardeio do Irã, e tantos outros atos criminosos notórios que recebem normalização propagandística no Instagram.


O sarcasmo de Vonnegut, porém, diferentemente do dos hippies, não está interessado em celebrar uma expansão da consciência. Ele registra, em tom de aporia, o quanto a própria crítica da civilização podia conviver com destroços humanos irredutíveis a qualquer utopia compensatória.


Daí o relevo extraordinário dos bordões e tantas outras pequenas fórmulas linguísticas do romance. Talvez seja meio chato deter-se nessas miudezas, mas elas são fundamentais no livro. O melhor exemplo é a expressão em inglês "So it goes", que aparece dezenas de vezes.


Na tradução de Pellizzari, ela fica "É assim mesmo", que não está mal, mas que talvez possa ser melhorada. Sem dúvida, é bem melhor do que a de Cássia Zanon, de 2005, da L&PM, que a traduz por "Coisas da vida" e cai numa armadilha, pois o narrador não comenta os eventos desafortunados com sabedoria resignada; registra-as com automatismo alienado, como se a frequência da matança tivesse já mecanizado o próprio idioma da reação.


Daí vem outro exemplo formular reiterativo importante, que é "And so on", que Pellizzari e Zanon traduzem ambos por "E assim por diante", fórmula que é talvez um pouco mais organizada do que a do inglês, pois, a rigor, "And so on", combinado com o anterior "So it goes", produz um sintagma tão bobo como "É isso", "E por aí vai", "Etc."


As expressões simplesmente prolongam séries, e, no caso, como uma continuação indefinida de fatos absurdos e indescritíveis. Outro exemplo de pequena fórmula abstrusa empregada no romance é "Listen", que marca a entrada brusca num regime de narração, que já começa quebrado, pois a voz já não está ali, mas apenas o registro escrito.


E outro ótimo exemplo é o "Poo-tee-weet?" que fecha o livro sem oferecer sentido algum, apenas ecoando uma pergunta sem resposta. A onomatopeia do canto do passarinho figura a ruína do discurso articulado diante do massacre vivido por Billy.


Com esses exemplos, quero dizer que a força de "Matadouro-Cinco" nasce justamente do emprego dessa gramática precária. Vonnegut quer encontrar formas verbais pobres, desajeitadas, quase sem sentido, que tornem perceptível nelas mesmas o total colapso da existência em face do crime cometido em Dresden.


Aquela guerra não foi nenhuma briga de mocinhos contra bandidos: foi um massacre horrendo em que cada lado desceu o mais baixo que pôde para destruir o oponente. Em termos críticos, o mais impressionante é perceber que essa gramática precária, enquanto procedimento literário, é o exato oposto de querer ornamentar a experiência extrema com invenções espirituosas ou expressões poéticas elevadas.


Isso não quer dizer que o romance renuncia à comicidade ou à literatura, pois ele continua mortalmente engraçado e dono de uma rara pegada literária. No entanto, essas expressões quebradas retiram da piada qualquer inocência recreativa. O riso que produz é o de uma consciência em crise obrigada a reconhecer que a catástrofe moderna se torna ainda mais abjeta quando dispõe de todos os clichês adequados para a sua veiculação pública anestesiada.


Nesse ponto, "Mãe Noite" e "Matadouro-Cinco" convergem absolutamente. No primeiro, a propaganda mostra que o sujeito tende a ser reduzido ao papel que representa; no segundo, que a memória da destruição já chega até nós contaminada pelos códigos com que a sociedade se apressa a arquivá-la.


"Não olhe para trás", alerta o episódio bíblico da destruição de Sodoma e Gomorra. Mas Campbell e Billy são como a mulher de Ló e não como os "justos" que se salvam: eles olham para trás e viram estátuas de sal, para sempre.


É por isso que, em ambos, a linguagem comparece menos como instrumento de comunicação do que como meio constitutivo da experiência histórica do horror. E o horror não existe primeiro, puro, para "depois" ser descrito. Ele continua operando através dessas vozes, máscaras, relatórios, slogans, fórmulas, bordões, autoencenações etc.


É nesse sentido também que Vonnegut se distingue dos demais distopistas, que projetam uma arquitetura do futuro. É impossível para um leitor de Vonnegut Jr. elevar ou transferir o seu mundo para uma ideia de sociedade futura. O que ele faz é uma exposição satírica do quanto o presente histórico se organiza segundo procedimentos correntes de desumanização. A tartamudice de sua prosa é o método pelo qual ele nos devolve o real, deformado o bastante para que enfim se reconheça a miséria da verdade.


Antes de terminar, queria deixar uma dica aos futuros leitores de Vonnegut: os seus vários livros têm muitas recorrências internas, reaparições de nomes, lugares-comuns, personagens e motivos reiterados, formando uma espécie de rede móvel. "Matadouro-Cinco", em particular, reinscreve personagens já conhecidos de outros livros, incluindo o Howard Campbell de "Mãe Noite", de sorte que a leitura da obra inteira vai produzindo uma espécie de vizinhança ficcional, um circuito de ecos, pode-se dizer, no qual cada romance parece lateralmente reabrir um outro.


Talvez seja então possível dizer que, para quem o leu nos anos 1970, Vonnegut oferecia uma combinação rara. De um lado, trazia a língua da ficção científica, já consagrada por autores que falavam aos jovens. De outro, sabotava por dentro a promessa compensatória de qualquer imaginação tecnológica triunfante.


O seu alvo era a guerra, mas a guerra enquanto forma avançada da "racionalidade" capitalista, na qual a mercadoria era o princípio difuso de achatamento do humano. Dessa forma, Vonnegut evidenciava a comicidade sinistra com que a sociedade do capital aprendeu a explicar o inexplicável dos desastres que causa.


Relidos hoje, "Mãe Noite" e "Matadouro-Cinco" ainda são romances perturbadores. Continuam a mostrar, cada um a seu modo, que o problema da guerra não é apenas a barbárie que ela efetua, mas a facilidade com que as suas piores catástrofes adquirem linguagens correntes e narrativas normalizadas.


Em "Mãe Noite", o sujeito torna-se aquilo que encena repetidamente, e, portanto, a máscara designa o "eu". Em "Matadouro-Cinco", a catástrofe só pode ser dita por uma linguagem de resíduos; o trauma arruína a fala que, por sua vez, torna-se a onomatopeia do massacre.


Enfim, os dois romances deixam claro que a literatura, especialmente depois do século 20, já não pode pretender inocência formal, porque as próprias formas —as do discurso político, da publicidade, do relatório acadêmico, da filosofia edificante, da psiquiatria, da fantasia tecnológica, do jornalismo, do testemunho, da identidade, da autoficção etc. etc.— já foram contaminadas por dentro pelo problema moral proposto por Vonnegut.


As bombas já caíram e continuam a cair; crimes hediondos foram cometidos contra a humanidade e continuam a sê-lo, como se não fosse nada demais, assimilando o horror à normalidade. Por isso mesmo a família humana faz o maior sucesso no zoo de Tralfamadore.


Mãe Noite

Preço R$ 69,90 (240 págs.)

Autoria Kurt Vonnegut

Editora Intrínseca

Tradução André Czarnobai


Matadouro-Cinco

Preço R$ 69,90 (240 págs.)

Autoria Kurt Vonnegut

Editora Intrínseca

Tradução Daniel Pellizzari


Alcir Pécora

Professor titular de teoria literária da Unicamp


Foto: O escritor americano Kurt Vonnegut - Reuters/Reuters


FSP 23.05.2026

terça-feira, 26 de maio de 2026

News XPress

 News XPress

XP Política & Macro Strategy



Brasil

 

O presidente Lula avançou ontem em um acordo com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, para a votação da PEC que acaba com a escala 6x1 de trabalho, principal bandeira eleitoral do Planalto para este ano (https://tinyurl.com/3k9u45vx). 

 

A proposta prevê a redução da jornada de 44 horas para 40 horas semanais, com dois dias de folga por semana e sem corte de salários, pontos colocados como “inegociáveis” por Motta. A mudança será implementada de forma escalonada, em um período de transição de um ano – com uma redução de 2 horas semanais ainda em 2026, 60 dias da promulgação da PEC, e o restante após 12 meses. Ao mesmo tempo, Motta indicou que o Congresso deverá discutir uma legislação complementar para flexibilizar a contratação de trabalhadores via MEI e revisar os limites de faturamento da categoria, numa tentativa de mitigar impactos sobre setores intensivos em mão de obra. A expectativa é que a PEC seja votada, tanto na comissão especial quanto em plenário, nesta semana (app: https://bit.ly/4vdEIkA | desktop: https://tinyurl.com/278bqdhy). 

 

Uma vez aprovada na Câmara, a proposta segue para o Senado, onde ainda não há definição sobre o calendário de tramitação, mas as negociações em torno da matéria já começam a ganhar tração. Os jornais reportam que o setor produtivo deve buscar o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, na tentativa de viabilizar mudanças no texto, como um período de transição mais longo (https://bit.ly/4fHCeX1 e https://bit.ly/4dILQON) – o relator, deputado Leo Prates (Republicanos), defendia uma transição de dois a quatro anos, mas o governo pleiteava um período mais curto, bem como a implementação imediata de algumas medidas. Apesar do alinhamento entre Motta e Lula, empresários estariam apostando no mal-estar entre Alcolumbre e o governo para conseguir avançar nas tratativas (https://tinyurl.com/mr2mt7et). 

 

O Planalto, por sua vez, também já estaria atuando para evitar que a matéria trave nas tensões que marcaram a relação com o Senado nos últimos meses (https://bit.ly/4fIRCSV). Apesar da pressão do setor empresarial, a leitura é que Alcolumbre não deve impor resistência à proposta, diante de seu forte apelo popular (https://bit.ly/4dwt8eh). Com isso, a ideia do governo é que os primeiros efeitos da medida já possam ser sentidos antes do primeiro turno das eleições, potencializando seu efeito nas urnas (https://bit.ly/3PGnJbu). 

 

Ainda assim, a avaliação na cúpula do Executivo, segundo a Folha, é que, mesmo com uma eventual rejeição do texto no Congresso, o presidente Lula sairá vitorioso do debate. Mesmo que seja derrotado, o petista poderia dizer na campanha que defende os trabalhadores e seus adversários, não (https://bit.ly/4v24uYW). Seria uma forma de reforçar o discurso antissistema que está elaborando para a disputa eleitoral (https://tinyurl.com/29vbaejl). 

 

Em paralelo, o governo publicou na noite de ontem decreto e portaria que viabilizam a subvenção a produtores e importadores de gasolina no valor de R$ 0,44 por litro, com vigência de dois meses. Na sexta-feira, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, afirmou que a subvenção teria um impacto de R$ 2,4 bilhões no período. Já em relação ao diesel, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa, disse que não estão descartadas a extensão de prazo de medidas ou até mesmo a ampliação da subvenção (https://bit.ly/4tWxPmI).

 

Flávio Bolsonaro também segue em busca de uma agenda positiva para deixar para trás o desgaste recente em sua campanha (https://bit.ly/3Q2HcTR). Para isso, o senador desembarcou ontem nos Estados Unidos, onde espera ter uma reunião com o presidente Donald Trump. Entre interlocutores, a previsão é que ele seja recebido pelo mandatário americano nesta terça-feira, embora o encontro não tenha sido oficialmente confirmado pela Casa Branca (https://bit.ly/4u0BqQp). 

 

Já a CNN afirma que a reunião poderia ser realizada com o vice-presidente JD Vance, não com Trump (https://bit.ly/3PIpnsY), mas que integrantes do PL temem o risco de que a agenda, caso frustrada, possa ser usada por partidos de esquerda como munição para desgastar ainda mais a imagem do pré-candidato (https://tinyurl.com/235zjb9z). Entre os compromissos previstos para Trump nesta terça, estão um check-up médico pela manhã e três “reuniões políticas” internas no Salão Oval à tarde (https://bit.ly/3PDZVoG). 

 

Monitor de pesquisas: Pesquisas Boas Ideias e PoderData podem ser divulgadas a partir de quinta e sexta-feira, respectivamente. 

 

Agenda BCB: Presidente e diretores não possuem agendas abertas ou com o mercado. 

 

Agendas de Lula e Durigan: Durigan concede entrevista ao Valor, às 14h. Também se reúne ao longo do dia com o deputado Aguinaldo Ribeiro, com a presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, e com a ministra Esther Dweck. A agenda de Lula não havia sido divulgada até a publicação deste material. 

 

Agenda local de dados: Às 8h30 o BC publica o BoP de abril, com o mercado antevendo déficit em conta corrente de USD 150 mi e IDP de USD 5,4 bi e a XP, USD 700 mi e USD 5,0 bi, respectivamente. Às 10h30 o Tesouro divulga os editais do leilão de NTN-B e LFT.

 

Internacional

 

Donald Trump avaliou que as negociações com o Irã estão “avançando muito bem” e chegou a cogitar a possibilidade de o urânio iraniano ser transferido para outro local que não os EUA – mas voltou a fazer ameaças caso não haja entendimento entre os dois países. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do país asiático, Esmaeil Baghaei, afirmou que as negociações avançaram em “muitas questões”, apesar de estarem longe da assinatura do acordo (https://bit.ly/4a7zAGk). 

 

Agenda internacional de dados: Nos EUA, às 9h15 serão divulgados os dados semanais do ADP  e, às 11h, os dados de maio da confiança do consumidor do Conference Board. Às 14h teremos leilão de títulos de 2 anos.

 

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Bons negócios!

 

XP Política & Macro Strategy

BDM Matinal Riscala

 *Bom Dia Mercado*


Terça Feira,26 de Maio de 2.026.


*Wall Street volta operando a trégua*


… Nova York volta do feriado de Memorial Day repercutindo as expectativas de que um acordo entre Estados Unidos e Irã pode estar próximo. Nesta terça-feira, ataques dos Estados Unidos a instalações de mísseis iranianos induziram o petróleo a corrigir a queda na abertura dos negócios asiáticos, após devolver 7% na véspera, antecipando a reabertura de Ormuz. Ainda há riscos envolvendo temas mais sensíveis. O mercado continua operando os highlights da guerra. A agenda no Brasil prevê dados do setor externo. Já a votação do fim da escala 6X1, que prevê a redução da carga horária semanal para 40 horas, sem redução dos salários, com transição de 14 meses, foi adiada para amanhã. Nos Estados Unidos, o destaque é a confiança do consumidor do Conference Board.


AINDA HÁ RISCOS – O mercado continua ampliando as apostas em uma distensão no Oriente Médio, após novas sinalizações de avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã, mas o cenário ainda está longe de um consenso definitivo.


… À noite, forças americanas realizaram ataques no sul do Irã. Os alvos incluíram barcos que tentavam instalar minas e plataformas de lançamento de mísseis. Apesar da ofensiva, Trump disse que as negociações “prosseguem bem”.


… Ele indicou flexibilidade em relação ao destino do urânio enriquecido iraniano, admitindo inclusive a possibilidade de destruição do material dentro do próprio Irã, sob supervisão internacional.


… A sinalização deve ser interpretada pelo mercado como um gesto de concessão em um dos pontos mais sensíveis da negociação nuclear. Ao mesmo tempo, persistem os principais focos de impasse. Israel voltou a endurecer o discurso sobre o Líbano.


… Netanyahu prometeu ampliar ataques contra o Hezbollah e autoridades iranianas seguem afirmando que qualquer acordo precisa incluir cessar-fogo em todas as frentes do conflito, incluindo a atuação israelense contra grupos apoiados por Teerã na região.


… O mercado também monitora relatos de que Washington tenta transformar a trégua em um rearranjo diplomático mais amplo no Oriente Médio, pressionando Arábia Saudita e Catar a aderirem aos Acordos de Abraão e reconhecerem Israel.


… Mas sauditas e catarianos condicionam qualquer avanço à criação de um Estado palestino, o que Israel não aceita.


… Apesar do alívio, portanto, investidores seguem operando um ambiente altamente dependente de manchetes e sujeito a reversões rápidas.


… As próprias negociações continuam cercadas por condicionais envolvendo o controle do Estreito de Ormuz, o programa nuclear iraniano, a atuação do Hezbollah no Líbano e a liberação de recursos iranianos congelados no exterior.


… Em resumo, o mercado trabalha com um cenário de redução do risco extremo de interrupção prolongada do fluxo de petróleo pelo Estreito, mas ainda sem elementos suficientes para sustentar uma leitura de solução definitiva para o conflito no Oriente Médio.


ESCALA 6X1 – O relator da comissão especial da Câmara, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), apresentou nesta segunda-feira o parecer da PEC que reduz a jornada semanal de trabalho de 44h para 40h e amplia o descanso semanal remunerado para dois dias.


… O texto, construído em acordo com o governo Lula e o presidente da Câmara, Hugo Motta, prevê uma transição de 14 meses e mantém a vedação de qualquer redução salarial – um dos pontos mais sensíveis da proposta.


… O setor empresarial segue pressionando, sob argumento de aumento relevante de custos trabalhistas e necessidade de novas contratações.


… O relatório estabelece uma primeira redução de 44h para 42h semanais 60 dias após a promulgação da PEC. Depois de um ano, a carga máxima cairá para 40h. O texto também prevê dois dias de folga remunerada por semana, sendo um deles preferencialmente aos domingos.


… O texto também tenta acomodar preocupações do setor produtivo ao prever regras específicas para MEIs, micro e pequenas empresas, além da discussão sobre flexibilização de contratações e eventual reajuste do teto de faturamento do microempreendedor individual.


… Esse tema enfrenta resistência da equipe econômica pelo impacto fiscal.


… Outro ponto flexibiliza o controle de jornada para trabalhadores com ensino superior e remuneração acima de dois tetos e meio do INSS, hoje em torno de R$ 21 mil. Nesse caso, o controle de horas poderá ocorrer apenas por liberalidade do empregador ou por acordo coletivo.


… Hugo Motta afirmou que há “ampla convergência” entre Câmara e governo sobre os pilares da proposta — redução da jornada, fim da escala 6×1 e manutenção dos salários — e que o prazo de transição busca equilibrar a pressão dos trabalhadores com a adaptação das empresas.


… Economistas ouvidos pelo Valor avaliam, porém, que o período de transição ainda é curto e alertam para riscos de aumento de custos, maior rotatividade e avanço da informalidade, sobretudo entre trabalhadores de menor qualificação.


… A votação do texto, que aconteceria ontem na comissão especial da Câmara, foi adiada para amanhã (10h).


GALÍPOLO VS DURIGAN – O debate em torno da PEC 65 ganhou novo ruído político, após o ministro da Fazenda, Dario Durigan, contradizer publicamente o presidente do BC, Gabriel Galípolo, sobre o grau de envolvimento da equipe econômica na formulação do texto.


… Galípolo afirmou receber com “estranhamento” as críticas ao relatório do senador Plínio Valério, dizendo que a proposta “veio justamente da equipe econômica”, numa tentativa de reduzir o conflito dentro do governo em torno do novo desenho institucional para o BC.


… Horas depois, Durigan rebateu, afirmando que o texto apresentado no Senado não foi fechado pela Fazenda. Segundo ele, a equipe econômica teria apresentado uma alternativa focada em resolver o problema orçamentário do BC sem provocar aumento da dívida pública.


… A divergência gira em torno do modelo previsto na PEC 65, que transforma o Banco Central em uma entidade pública de natureza especial, transferindo a instituição para o setor público financeiro.


… Nesse desenho, os títulos do Tesouro mantidos na carteira do BC passariam a ser contabilizados como dívida, motivo da preocupação.


… Além da discussão sobre o impacto contábil da proposta, o embate também expõe sensibilidades políticas em torno do grau de autonomia e da governança futura da autoridade monetária.


UMA FOTO COM TRUMP – O senador Flávio Bolsonaro desembarcou em Washington na expectativa de uma possível reunião com Donald Trump, em meio ao desgaste provocado pelas revelações envolvendo conversas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.


… Segundo aliados, a intenção do entorno bolsonarista é garantir uma foto dele com o presidente americano, na tentativa de reforçar seu capital político em meio à crise. O encontro, porém, ainda não foi confirmado oficialmente pela Casa Branca.


… Interlocutores próximos afirmam que Flávio “foi convidado” para uma agenda no governo americano, mas admitem receio de eventual adiamento, diante da instabilidade da agenda de Trump, concentrada nas negociações envolvendo o Irã e o Oriente Médio.


… A articulação da viagem é atribuída ao irmão Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde o ano passado e mantém relação próxima com setores do trumpismo mais ideológico. Eduardo também é alvo de investigação no Brasil.


LULA É O PLANO A – Lideranças do PT voltaram a reforçar nesta segunda-feira que o presidente segue como candidato à reeleição, após o início do tratamento preventivo de radioterapia no couro cabeludo para reduzir o risco de recorrência de um câncer de pele.


… Integrantes do partido afirmam que Lula não tem restrições médicas, manterá a agenda de trabalho normalmente e deve intensificar as viagens pelo País no segundo semestre, já em ritmo mais forte de pré-campanha.


… O tratamento deve durar cerca de três semanas e terminar antes do início oficial da campanha eleitoral.


… Nos bastidores, dirigentes petistas evitam ampliar publicamente a discussão sobre o tratamento para não alimentar especulações sobre eventual mudança de planos na disputa presidencial. A orientação interna é afastar qualquer hipótese de substituição de candidatura.


… “Lula é o candidato, não tem plano B”, resumiu uma liderança do partido ao Valor.


… O PT avalia que preservar a imagem de vitalidade política e capacidade operacional do presidente será central para evitar ruídos, num momento em que o cenário eleitoral começa a ganhar tração com novas pesquisas e movimentações da oposição.


BTG-NEXUS – Nesta segunda, nova pesquisa mostrou Lula com 47% contra 43% de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno, no limite da margem de erro. No primeiro turno, Lula aparece com 40% e Flávio com 35%, reforçando a polarização entre petismo e bolsonarismo.


PESQUISAS DA SEMANA – A corrida presidencial ganha nova rodada de monitoramento nesta semana, com divulgação de levantamentos de diferentes institutos em meio ao aumento da tensão política envolvendo a pré-campanha de Flávio Bolsonaro.


… Amanhã, quarta-feira, serão divulgadas as pesquisas Jota e Indexa. Na quinta, sai o levantamento Meio/Ideia. Já na sexta-feira, serão publicados os números do PoderData e da Veritá, enquanto a Vox Brasil divulga pesquisa nacional no domingo.


… Além dos nomes consolidados para a disputa presidencial, alguns levantamentos vão testar cenários alternativos com Michelle Bolsonaro, Fernando Haddad, Tereza Cristina, Joaquim Barbosa e Aécio Neves, refletindo o ambiente ainda aberto para definição de candidaturas.


… Estrategistas políticos avaliam que as próximas rodadas podem ajudar a calibrar o impacto inicial da deterioração recente da imagem de Flávio, embora ainda exista cautela sobre movimentos mais estruturais no cenário eleitoral.


MAIS AGENDA – A terça-feira traz como principal destaque doméstico a divulgação das estatísticas do setor externo de abril pelo Banco Central, enquanto no exterior investidores acompanham os números de confiança do consumidor americano.


… Às 8h30, o BC publica os dados de transações correntes e Investimento Direto no País (IDP).


… A mediana das Projeções Broadcast aponta déficit de apenas US$ 100 milhões em conta corrente em abril, após rombo de US$ 6 bilhões em março, no que pode marcar o melhor resultado desde outubro de 2023.


… O desempenho é explicado principalmente pelo superávit robusto da balança comercial, impulsionado pelos embarques de soja e petróleo em meio aos efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os preços da commodity.


… Parte do mercado, inclusive, trabalha com possibilidade de superávit nas transações correntes no mês.


… Para o IDP, a mediana das estimativas aponta entrada líquida de US$ 5,55 bilhões em abril.


… Economistas observam, porém, que a escalada geopolítica recente elevou cautela global com investimentos, reduzindo parcialmente o fluxo para emergentes, apesar da percepção ainda favorável em relação ao Brasil.


… No exterior, o principal evento do dia será o índice de confiança do consumidor dos Estados Unidos medido pelo Conference Board, às 11h.


… O dado ganha relevância em uma semana marcada também pela divulgação do PIB americano revisado e, principalmente, do PCE, medida de inflação preferida do Federal Reserve – ambos na quinta-feira.


… A agenda internacional ainda traz, o índice de atividade do Fed de Chicago (9h30), falas do presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, em painel com o presidente do Banco do Japão, Kazuo Ueda (21h), além dos números de lucro industrial da China (22h30).


VAI DAR BOM? – A julgar pela queda livre do petróleo ontem, com o Brent abaixo de US$ 100 e WTI querendo furar US$ 90, o investidor decidiu mergulhar na aposta do acordo de paz preliminar com possível reabertura de Ormuz.


… Antes mesmo que um plano tenha sido anunciado, o mercado já começa a fazer os cálculos sobre que faixa de suporte o barril pode testar. Apesar do otimismo, o que se diz é que dificilmente o Brent valerá menos de US$ 80.


… As perdas de estoques e a produção interrompida no Oriente Médio devem demorar para ser compensadas. Assim, mesmo que a guerra acabe hoje, a percepção é de impacto prolongado, que não acabará do dia para a noite.


… Mas ontem o tombo foi pesado: o contrato do Brent para agosto desabou 6,78%, a US$ 93,42. O WTI não operou no pregão regular, por conta do feriado nos EUA, mas derreteu 6,58% na sessão eletrônica, negociado a US$ 90,24.


… O choque inflacionário do petróleo virou atualmente o fiel da balança para a política monetária global, com os grandes BCs todos em compasso de espera, de olho no Irã, para decidir se antecipam ou não um aperto do juro.


… Por aqui, o mercado confia que, independentemente de o conflito acabar logo ou não, vem pelo menos mais um corte da Selic pelo Copom em junho, embora a taxa básica possa continuar em patamar elevado por mais tempo.


… Ontem, o boletim Focus apontou nova piora na expectativa do IPCA para este ano (de 4,92% para cima de 5%, a 5,04%), indicando que a inflação continua resistente, mesmo em um ambiente de juros ainda bastante altos.


… Ainda no Focus, a estimativa de inflação para 2027 oscilou marginalmente, de 4% para 4,01%. A de 2028, que na última sexta-feira foi foco de atenção dos diretores do BC na reunião trimestral com economistas, seguiu em 3,65%.


… O fato de as expectativas não terem sofrido deterioração neste prazo pode, eventualmente, deixar o Copom mais à vontade para seguir com os cortes, ainda mais se os Estados Unidos e o Irã progredirem para um acordo definitivo.


… Durante a coletiva à imprensa, ontem, sobre o Relatório de Estabilidade Financeira do segundo semestre de 2025, Galípolo ponderou que as projeções de inflação para horizontes mais curtos estão contaminadas por duas variáveis.


… De um lado, o choque de oferta do conflito no Irã; de outro, o choque de oferta relativo ao El Niño. Disse ainda que a política monetária vem funcionando e colocando o crescimento mais próximo do nível potencial.


… A volta do apetite por risco com as notícias sobre os planos diplomáticos para a reabertura do Estreito de Ormuz promoveu ontem uma forte queima de prêmios na curva dos juros futuros, em sessão marcada pela baixa liquidez.


… No fechamento, o contrato de DI para janeiro de 2027 marcava 14,025% (de 14,077% no ajuste anterior); Jan/28,  13,725% (contra 13,835%); Jan/29, 13,710% (de 13,851%); Jan/31, 13,840% (13,970%); e Jan/33, 13,930% (14,063%).


ZONA DE ARREBENTAÇÃO – A guerra vive um de seus momentos mais decisivos, com o mercado torcendo para que a aproximação entre Trump e o Irã desta vez não morra na praia e nem entre para a coletânea de frustrações.


… O alívio de risco no exterior levou o dólar a furar momentaneamente ontem o suporte psicológico dos R$ 5 na mínima intraday, a R$ 4,9943. Mas a moeda desacelerou o fôlego de queda no fechamento, a R$ 5,0190 (-0,18%).


… Ao Broadcast, o economista-chefe da BGC Liquidez, Felipe Tavares, estimou que, em um “cenário benigno”, que leva em conta “eleição favorável para a oposição e fim da guerra”, a taxa de câmbio poderia recuar para R$ 4,84.


… Já no adverso, com “reeleição de Lula, piora da perspectiva fiscal e extensão da guerra”, o dólar atingiria R$ 5,24.


… Economistas do BTG ressaltam que o real se beneficiou até bem recentemente da escalada do petróleo e que ainda há espaço para novas apreciações, mas o trade eleitoral começará a pegar mais forte daqui em diante.  


… Diante deste risco, o banco prevê um cenário mais desafiador até outubro, com dólar a R$ 5,10 no final do ano.


… Lá fora, o sentimento de que “agora vai” e de que esta guerra acaba relaxou a moeda americana. O índice DXY recuou 0,26%, para 98,978 pontos. O euro subiu 0,35%, para US$ 1,1646, e a libra avançou 0,58%, a US$ 1,3509.


… Também o iene conquistou terreno, a 158,92 por dólar. Na noite de ontem, o vice-presidente do BC japonês, Ryozo Himino, disse que o BoJ continuará apertando a política monetária, mas o momento dependerá do risco.


… Muitos economistas e investidores esperam aumento das taxas na próxima reunião, em junho, à medida que mais formuladores de políticas se tornam cautelosos com a chance de aceleração da inflação devido ao petróleo caro.


… A derrocada do barril ontem destoou da longa sequência de pressão recente e pesou para as ações da Petrobras nesta segunda, mas o Ibovespa acabou poupado de perdas, porque foi sustentado pelo ânimo dos papéis dos bancos.


… Sem a referência de Nova York e com a liquidez global reduzida a apenas R$ 14,2 bilhões por conta do feriado americano de Memorial Day, o Ibovespa fechou em alta de 0,91%, na máxima do dia, aos 177.815,72 pontos.


… Três ações do setor financeiro fecharam no pico do dia: Bradesco PN (+2,55%, a R$ 18,07), Santander unit (+1,99%, a R$ 27,64) e BTG unit (+3,65%, a R$ 55,90). Itaú PN subiu 2,26%, para R$ 40,32, e BB ON, +3,39% (R$ 21,65).


… As ações da Vale ganharam 0,59% (R$ 83,59), apesar da estabilidade do minério de ferro (+0,06%), enquanto os papéis da Petrobras caíram forte (ON, -2,91%, a R$ 48,69; e PN, -2,43%, a R$ 43,40) com o petróleo derretendo.


CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS aprovou nova composição do Comitê de Auditoria Estatutário (CAE). Foram eleitos Renato Galuppo e Marcelo Gasparino da Silva, membros independentes do conselho de administração…


… Também seguem no comitê, os membros externos Eugênio Tiago Chagas Cordeiro Teixeira e Newton de Araujo Lopes. Renato Campos Galuppo assumirá seu mandato como membro e presidente do CAE a partir de 10 de julho…


… Ele sucederá Fábio Veras de Souza, que deixa os cargos de membro externo e presidente interino.


BRAVA ENERGIA. Ecopetrol lançou OPA voluntária para assumir controle da empresa, ao preço de R$ 23 por ação…


… A estatal colombiana pretende adquirir 25% do capital da companhia e elevar participação para 51%. O leilão da oferta ocorrerá em 25 de junho na B3.


COPASA. A privatização da companhia recebeu propostas da Equatorial e do consórcio formado por Equipav, GIC, Itaúsa e Aegea, segundo fontes do Valor e Broadcast. A Sabesp ficou de fora. Os envelopes serão abertos amanhã.


COPEL. A controlada Elejor formalizou repactuação de parcelas de R$ 420,6 milhões devidas de Uso de Bem Público (UBP) das usinas Santa Clara e Fundão.  


JHSF. A companhia lançou o Fasano Yachts, nova frente de negócios voltada à hospitalidade de luxo no mar, com frota inicial de 12 iates na Sardenha.


RAÍZEN. Credores já não contam mais com eventual aporte de R$ 500 milhões de Rubens Ometto na companhia, segundo a Coluna do Broadcast. A expectativa, porém, segue de acordo com credores até 9 de junho.


SÃO MARTINHO. A companhia encerrou o 4Tri da safra 2025/26 com lucro de R$ 172,85 milhões, alta anualizada de 64,6%. O Ebitda ajustado somou R$ 1,094 bilhão, avanço de 41,9%…


… A receita líquida cresceu 29,1%, para R$ 2,245 bilhões.


AZZAS 2154. A companhia afirmou não haver decisão sobre eventual cisão ou segregação de ativos entre Alexandre Birman e Roberto Jatahy.


ORIZON. Tarpon Gestora e TPE Gestora reduziram participação para 4,45% do capital da companhia.


PARANAPANEMA. A companhia homologou aumento de capital de R$ 85,2 milhões por meio da conversão de créditos em ações, conforme previsto no plano de recuperação judicial.


LUPATECH. A companhia protocolou pedido de homologação de recuperação extrajudicial para reestruturar passivo de R$ 295,4 milhões…


… A proposta já conta com apoio de credores que representam 55,4% dos débitos trabalhistas e 42% dos créditos quirografários.

BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: PIB no Brasil e esperança de acordo na guerra* … O mercado inicia a sexta-feira tentando sustentar a expectativa de um acord...