segunda-feira, 30 de março de 2026

Leitura de domingo

 *Leitura de Domingo: Governo deve pagar mais de R$ 1 tri em juros apesar de cortes na Selic*


Por Eduardo Laguna e Arícia Martins


São Paulo, 24/03/2026 - A dívida pública deve continuar cobrando uma conta trilionária em juros, apesar do início, na semana passada, do ciclo de cortes da Selic. Enquanto o alívio na parcela que acompanha as variações da Selic deve vir aos poucos, dada a tendência de redução lenta dos juros de referência, o restante da dívida, mais sensível ao risco fiscal do que às decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), continuará sendo refinanciado a um custo elevado.


As projeções de mercado coletadas pelo Banco Central (BC) indicam que, após atingir 7,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, a despesa com juros da dívida pública deve subir mais um pouco, para 8% em 2026. A partir daí, a tendência é de retração gradual, mas sem retorno à média histórica de 6% ao longo de todo o horizonte de projeções, que se estende até 2035.


Levando em conta as previsões para o PIB, isso significa que, por mais dois anos (2026 e 2027), o setor público seguirá com uma fatura de R$ 1 trilhão em juros a pagar. O ano passado foi o primeiro em que a marca foi superada, ainda que os ganhos excepcionais do BC com swaps cambiais tenham impedido as despesas financeiras de serem ainda maiores. Como essa contribuição não deve se repetir, a cifra deve ter um acréscimo de R$ 30 bilhões em 2026 (veja abaixo a evolução).


Embora inclua os governos estaduais, as prefeituras e as empresas estatais, excluindo a Petrobras, o grosso dessa conta - 88% do total - é do governo central, formado por Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central (BC).


  

Juros da dívida pública

Ano

R$ milhões

% PIB


2021

448.391,19

4,98


2022

586.426,69

5,82


2023

718.293,72

6,56


2024

950.422,85

8,07


2025

1.007.553,10

7,91


2026

 1.037.864,95 

8,00


2027

 1.003.389,02 

7,60


2028

 981.642,92 

7,29


2029

 985.158,30 

7,17


2030

 967.048,47 

6,90


Fonte: BC. Dados a partir de 2026 calculados pela Broadcast a partir de projeções de mercado



O custo da dívida pública é hoje mais sensível às decisões de política monetária, dado que mais da metade do endividamento (54%) está indexado à Selic. Porém, os conflitos no Oriente Médio, levando a uma escalada nos preços do petróleo, fizeram o BC iniciar os cortes de juros de forma mais gradual do que o mercado esperava até poucos dias antes da última reunião do Copom.


O restante da dívida, avaliam economistas, continuará sendo trocado, por mais algum tempo, a juros superiores às taxas dos títulos em vencimento. Ainda que favoreça as emissões a taxas prefixadas, o ciclo de afrouxamento foi aberto pelo BC com os juros de referência no maior nível em quase duas décadas. Somado ao prêmio cobrado pelo investidor para financiar a dívida brasileira, o resultado é uma taxa de rolagem ainda salgada.


Economista do Santander e especialista em contas públicas, Ítalo Franca observa que o estoque da dívida pública, que tem um custo médio de 12% em doze meses, está sendo substituído por captações que pagam 13,7%. "Mesmo considerando nossa projeção de Selic em 11,5% no próximo ano, a redução do custo médio da dívida deve ocorrer de forma gradual", comenta.


O diretor de investimentos em renda fixa da Inter Asset, Ian Lima, acrescenta que, mesmo em queda, a taxa de juros incide sobre uma dívida que dobrou de tamanho nos últimos oito anos, ultrapassando já a marca de R$ 10 trilhões, o equivalente a 78,7% do PIB. "A despeito de a taxa média cair, o volume total [da dívida] não vai dar muito alívio."


Para Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos, o custo da dívida segue alto porque, além da Selic em nível elevado, a curva de juros também está pressionada. "Fazendo um déficit primário com custo alto e com crescimento econômico mediano, é difícil reverter essa trajetória", avalia Vital.


Contatos: eduardo.laguna@estadao.com; aricia.martins@estadao.com


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