*Editorial O Globo*
*Moraes e Toffoli devem explicações com urgência*
*Não podem pairar dúvidas sobre as relações de Daniel Vorcaro com altas figuras da República*
As últimas revelações sobre o caso Master impõem aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), o dever de dar explicações urgentes e, acima de tudo, convincentes. As mensagens trocadas por Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, reveladas pela colunista do GLOBO Malu Gaspar, são o desdobramento mais grave do caso desde que ela própria noticiou o contrato milionário do escritório de familiares de Moraes com o Master — jamais desmentido nem explicado. Ao mesmo tempo, as transações imobiliárias de Toffoli e seus familiares com o grupo de Vorcaro seguem envoltas em dúvidas.
De acordo com investigações da Polícia Federal, a troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes se estendeu pelo dia 17 de novembro de 2025, quando o banqueiro foi preso. Conversas extraídas do celular de Vorcaro sugerem que ele informava Moraes sobre as negociações para venda do Master e mostram que falou também sobre o inquérito sigiloso da Justiça Federal de Brasília que o levaria à prisão. Nas mensagens, enviadas na forma de imagens de visualização única, Vorcaro por duas vezes pergunta a Moraes se havia novidade e questiona: “Conseguiu bloquear?”. Naquele mesmo dia, foi anunciada a operação fajuta de venda do Master para o grupo Fictor. Horas depois, Vorcaro foi preso, e o Master liquidado.
Moraes negou em nota ter recebido mensagens de Vorcaro e afirmou tratar-se de “ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o STF”. Quando O GLOBO noticiou que ele encontrara o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar do caso Master, Moraes afirmou que a pauta se restringira “exclusivamente” às sanções da Lei Magnitsky, aplicadas pelos Estados Unidos. Diante das mensagens trocadas em novembro, ele não tem mais como negar a relação com Vorcaro.
A PF não dispõe dos prints das respostas de Moraes, mas sua existência ficou registrada, levantando várias dúvidas. Que diziam as mensagens? Por que foram enviadas com tantos cuidados? Eram frequentes? Que queria Vorcaro ao procurar Moraes? Por que ele, e não sua mulher, Viviane Barci de Moraes, advogada com quem mantinha contrato milionário por serviços vagamente definidos? Que nível de amizade havia entre os dois? Tais dúvidas não devem ser encaradas como ofensas, mas como questões de interesse da sociedade, a quem mesmo ministros do Supremo devem explicações, afinal não estão acima da lei.
Já haviam ficado no ar dúvidas sobre as relações entre Toffoli e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro envolvido no escândalo. Toffoli demorou a admitir ser sócio da empresa que vendeu sua parte no resort Tayayá, no Paraná, a um fundo de Zettel. Afirmou nunca ter recebido dinheiro, mas isso não basta. Ele foi relator do caso Master, sobre o qual decretou sigilo quase absoluto, e tomou medidas questionáveis. Só saiu do caso quando veio à tona a sociedade no Tayayá. Ainda há fatos a esclarecer.
Ministros do STF não podem se dar o direito de omitir explicações. Elas em nada prejudicam o papel crucial da Corte na defesa da democracia quando o país sofreu tentativa de golpe de Estado. Esse feito está gravado na História, como O GLOBO já afirmou em editoriais. O fato de Vorcaro e seus cúmplices estarem presos mostra que as instituições funcionam, mesmo quando vivem crises. Mas, enquanto tudo não é esclarecido, seria de bom-tom que Moraes e Toffoli se declarassem suspeitos em todas as votações relacionadas ao caso Master. Não podem pairar dúvidas sobre as relações de Vorcaro com figuras tão relevantes da República.
https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial/coluna/2026/03/moraes-e-toffoli-devem-explicacoes-com-urgencia.ghtml
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