*Autoridades do setor elétrico questionam ocorrência de crise de liquidez no mercado*
Por Luciana Collet
São Paulo, 02/04/2026 - Profissionais que atuam no mercado livre de energia, especialmente no segmento de comercialização, têm alertado sobre a redução da liquidez das operações de compra e venda de energia. A situação, multifatorial, envolve preços futuros de energia cada vez mais altos, a estratégia de grandes geradoras com energia descontratada, necessidade de ajustes do balanço energético de produtoras eólicas e solares em função dos cortes demandados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e maior aversão a risco - inclusive risco de crédito de contraparte.
A situação tem levado algumas empresas, principalmente entre aquelas chamadas independentes (que não estão ligadas a grandes grupos de energia), a enfrentar dificuldades para cumprir contratos, o que acarretou em pedidos de renegociações.
Autoridades setoriais admitem a possibilidade de fiscalizar potenciais excessos de alguns agentes, como um abuso de poder econômico de grandes geradoras com volume expressivo de energia descontratada e que estariam "segurando lastro", como denunciam alguns profissionais. No entanto, a visão inicial é de que não está claro que efetivamente exista uma crise de liquidez.
"Se há essa percepção, é muito justo que a gente olhe para o cenário e tente investigar, achar soluções", disse o diretor de Segurança de Mercado da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), Eduardo Rossi, admitindo, porém, não ter certeza sobre a efetiva existência de tal crise.
Durante evento realizado nesta sexta-feira, em São Paulo, ele defendeu a necessidade de trilhar um caminho de avaliação que passaria, antes de tudo, por definir os indicadores e parâmetros que caracterizam uma crise de liquidez no mercado de energia e entender os impactos para o sistema elétrico e para o consumidor, em especial caso ela leve a uma quebra de diversas empresas.
"É esse caminho que a gente tem que endereçar para conseguir fazer essa discussão evoluir", disse, acrescentando, ainda, a necessidade de propor soluções que permitam a criação de um ecossistema com maior liquidez.
Presente no mesmo evento, o diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Gentil Nogueira, também disse não ter visto, até o momento, elementos técnicos suficientes que demonstrem que haja uma crise de liquidez no mercado. Ele questionou o argumento de alguns agentes de que empresas estaria segurando lastro de energia com objetivo de impulsionar os preços artificialmente, o que estaria gerando a crise.
"O fato de alguém segurar o seu lastro está aumentando o preço? O preço é calculado por modelo [computacional]", argumentou.
Ele se referiu ao preço de liquidação das diferença (PLD), utilizado para liquidar sobras e déficits de energia dos agentes e usado como referência nos contratos de curto prazo. Os preços nas negociações bilaterais no mercado livre costumam incluir um spread sobre o PLD, mas a avaliação é que os atuais patamares desse indicador podem estar inibindo o fechamento de operações, tendo em vista interesses conflitantes entre compradores, que consideram muito elevados para os padrões históricos, e geradores, que podem optar por liquidar mensalmente ao PLD.
"Me falta ainda algum grau de caracterização de forma mais objetiva e não só a narrativa construída sobre essa crise de liquidez", disse. "Eu não estou dizendo se isso existe ou não existe, só estou falando que eu não consigo ainda identificar", acrescentou.
O diretor de Plataforma de Energia, Regulação e Institucional da Serena, Bernardo Bezerra, argumentou, porém, que, quando um gerador segura sua oferta de energia, isso afeta as expectativas de preços para daqui seis meses a um ano. "Toda a questão é que, como a gente está no mercado de contratos, e os agentes tem obrigação de contratar e se antecipam para fechar esses contratos antes do momento de liquidação, isso pode gerar uma crise de falta de lastro", disse.
Para a diretora de Regulatório e Planejamento Estratégico da Auren Energia, Priscila Lino, o lastro disponível pode não ser tão grande quanto o mercado estimava. Ela citou questões que passaram a ser consideradas pelas geradoras, ao calcular sua energia disponível, como a necessidade de gerenciar risco hidrológico (GSF, no jargão setorial) para ativos focados no mercado livre; a criação de um hedge para os cortes de geração renovável (curtailment), além das incertezas relacionadas ao crescimento da geração distribuída e comportamento do mercado com a liberalização do ambiente de comercialização livre para a baixa tensão.
"Tem um balanço de lastro com variáveis que, de fato, tiram papel do mercado, e talvez esse excedente de energia que a gente imagine que tenha, ele na prática, no mundo contratual, talvez não seja tanto assim, e veio mais uma percepção de prêmio por uma liquidez que é faltante no mercado", disse.
Sem uma visão muito clara sobre o que pode ser apenas uma "narrativa" e o que efetivamente pode ser abuso de poder econômico, a Aneel já solicitou aos agentes do setor que encaminhem à Aneel eventuais informações que posam servir como indicação de comportamento desleal.
Segundo o diretor-geral do órgão regulador, Sandoval Feitosa, a agência vai verificar eventual ocorrência de "movimento de concentração, de abuso de poder econômico ou algo do gênero" e citou convênios existentes com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como alguns dos instrumentos existentes para verificar essas situações.
Contato: Luciana.collet@Estadão.com
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