*Master usou empresa ligada a cartel de licitações em desvio*
Fornecedora de kits escolares, artigos para o Exército e cisternas tomou crédito atípico e repassou R$ 385 milhões a fundo da Reag
Por Alex Ribeiro — De São Paulo 16/03/2026 05h03
O Banco Master usou uma empresa ligada a um cartel de licitações públicas para fazer o desvio de R$ 385 milhões de recursos captados de depositantes para fundos administrados pela Reag, revela um levantamento feito pelo Valor em documentos públicos, a partir da comunicação do Banco Central ao Ministério Público sobre operações de crédito supostamente fraudulentas.
*A EBN Comércio, Importação e Exportação Ltda. e o seu controlador, Julio Manfredini🚨*, têm forte atuação em licitações para fornecimento de uma ampla gama de produtos, incluindo kits de uniformes escolares, livros, calçados para o Exército e até cisternas para o alívio da seca no semiárido nordestino - diretamente ou por meio de consórcios com outras empresas.
Em pelo menos um caso a licitação foi resultante de emendas impositivas de bancada no Congresso, que incluíram um pedido direto do então senador do Maranhão Roberto Rocha (Republicanos) para que fosse usada uma ata específica de registro de preços para a compra de 500 cisternas para o Estado.
Uma comunicação de indícios de crimes enviada pelo Banco Central ao Ministério Público em novembro relata que a EBN obteve um empréstimo no Banco Master sem justificativa econômica aparente. Na sequência, a empresa transferiu R$ 385 milhões para o fundo D Mais, administrado pela Reag.
A partir daí, os recursos foram realocados por meio de uma cadeia de fundos, em uma operação que teria servido para desviar o dinheiro para outras finalidades. Essa transação integra um conjunto de operações envolvendo 36 empresas, cujos nomes foram revelados pelo Valor, que teria provocado um desvio total de R$ 11,5 bilhões do Banco Master.
*🚨Manfredini é sócio-administrador da EBN, segundo registro na Junta Comercial de São Paulo (Jucesp).*
*Essa empresa - e o próprio Manfredini 🚨- têm ligações com a Capricórnio S/A, que em 2021 foi condenada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) por cartel em licitações públicas destinadas à aquisição de uniformes e kits de materiais escolares para alunos da rede pública de ensino que atuou em São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Goiás, entre 2007 e 2012.*
Esse caso deu origem também a um processo criminal em São Paulo sobre suposto crime à lei de licitações, que foi extinto em 2025 porque a Justiça entendeu que o Ministério Público não individualizou as condutas de cada um dos réus. Há também um processo civil por improbidade administrativa, que segue correndo em São Paulo.
Outro processo, no Tribunal de Contas da União (TCU), sobre licitações no Exército, mostra que a Capricórnio era a única acionista da EBN na sua constituição, quando era sociedade anônima - *e que a EBN é sua sucessora, mantendo endereço e 70% do quadro de funcionários. Manfredini foi diretor-presidente da Capricórnio.*
Segundo levantamento feito pelo Valor, a EBN participou de licitações e assinou contratos com o Exército entre 2016 e 2024 para fornecer equipamentos como barracas, uniformes e calçados. Não há suspeitas sobre esses contratos, mas a área técnica do TCU chegou a investigar falhas na fiscalização de calçados entregues pela EBN, sem aplicar nenhuma sanção.
Em pelo menos um caso a licitação foi resultante de emendas impositivas de bancada no Congresso
Além das licitações diretas, a EBN também se associou em cinco consórcios, e sócios de alguns deles são objeto de investigação, incluindo supostas irregularidades no fornecimento de livros didáticos no Rio de Janeiro.
A EBN formou o Consórcio EC - sobre o qual não há nenhuma suspeita de irregularidades documentada - ao lado da CSL Educacional, empresa citada em investigações da Operação Calvário, cujo sócio, Márcio Nogueira Vignoli, foi preso durante a apuração e responde em liberdade.
Um dos contratos da EBN envolve o fornecimento de cisternas no Maranhão, e se destaca por ter sido originado por emendas impositivas de bancada e pelo direcionamento que ocorreu no tipo de edital que deu origem à aquisição, no valor de R$ 2,4 milhões, em 2017.
O senador Rocha, então no PSDB, enviou um ofício ao presidente da Companhia de Desenvolvimento do São Francisco (Codevasf) falando sobre a destinação de R$ 5 milhões em emendas parlamentares para compra das cisternas e solicitou que a empresa manifestasse interesse na ata de registro de preços nº 24/2017 do Instituto Federal de Educação do Ceará (IFCE), campus Maracanaú.
Isso, na prática, fez com que a compra, inicialmente estimada em 2.400 cisternas, mas com a compra efetiva de 500, tomasse carona numa licitação muito menor, feita pelo IFCE, que visava a comprar 50 tanques de armazenamento para o instituto. A princípio, não há irregularidade nesse expediente, que economiza recursos processuais - o que chama a atenção é a solicitação ter partido de um político, e não das áreas técnicas da Codevasf.
O procedimento também exigiu discussões entre os técnicos da Codevasf, porque fugia do padrão do programa Água para Todos, em que a política de distribuição de cisternas segue prioridades definidas. Ao final, as cisternas foram doadas para associações sem fins lucrativos, como sindicatos rurais, que depois fizeram a distribuição das unidades para as famílias beneficiadas.
A EBN afirma que o empréstimo do Master ocorreu de forma absolutamente lícita e foi destinado a obter capital destinado para adquirir uma grande empresa do setor têxtil. Os recursos foram parcialmente aplicados no fundo D Mais, administrado pela Reag, então uma instituição considerada idônea no mercado, para não deixar o recurso parado.
“A negociação não seguiu adiante por pontos divergentes não superados, além da complexidade societária”, diz, em nota. Portanto, a EBN liquidou o empréstimo junto ao Banco Master.
Além de licitações diretas, EBN se associou em cinco consórcios, e sócios de alguns deles são objeto de investigação
A Capricórnio tem estrutura independente em relação à EBN, diz a nota da empresa, e foi proposta uma ação anulatória em relação à decisão do Cade. “As ações penais e de improbidade foram todas decididas, até o momento, em favor da Capricórnio.”
Sobre os consórcios, disse que a EBN fez a avaliação por meio de mecanismos de compliance. “No ato de realização do consórcio, a EBN não teve relação com pessoas jurídicas cujos dirigentes foram investigados ou processados criminalmente.” No caso das cisternas, a empresa diz que houve aprovação por todos os órgãos de controle e nega qualquer relação que esteja em desacordo com estrita regularidade.
O senador Roberto Rocha afirma que a adesão à ata de registro de preços do IFCE foi uma decisão administrativa para viabilizar a execução das emendas dentro do cronograma orçamentário, já que a liberação dos recursos ocorre, em geral, no fim do ano. O parlamentar diz que o projeto seguiu as normas técnicas da Codevasf e as exigências legais das emendas impositivas, que seu gabinete manteve contato institucional apenas com o IFCE e que não houve relação com a empresa vencedora da licitação.
A Codevasf diz que não realizou adesão a uma ata de registro de preços cuja licitação já havia sido realizada, mas sim que ainda seria realizada, com ampla concorrência e aquisição dos bens pelo menor preço. “As comunicações entre órgãos para manifestação de intenções de compra são usuais”, afirma.
“Tratando-se de recurso proveniente de emenda parlamentar, a indicação dos beneficiários compete ao autor da emenda”, diz em nota. Ainda assim, diz, adotaram-se parâmetros análogos aos do Programa Água para Todos, o que contribuiu para que a destinação dos recursos priorizasse famílias em situação de vulnerabilidade.
O IFCE afirma que o campus Maracanaú atuou apenas como órgão gerenciador da ata de registro de preços, conduzindo regularmente o pregão e a gestão da ata. Segundo o instituto, a adesão por outros órgãos é permitida em edital e na legislação, cabendo ao órgão aderente - no caso, a Codevasf - analisar a adequação técnica, os quantitativos e a disponibilidade orçamentária. O IFCE diz ainda que não houve empenhos da Codevasf na vigência da ata e que o processo seguiu trâmite regular, com parecer jurídico favorável.
O Exército informa que os contratos com a EBN estão disponíveis no Portal da Transparência e que, até o momento, não foram identificados indícios de irregularidades ou falhas na fiscalização. Afirma ainda que não há processos ou auditorias em andamento no TCU envolvendo contratos com a empresa.
A defesa do controlador do Master, Daniel Vorcaro, disse que não iria se manifestar sobre o tema. A Reag não havia respondido ao pedido de outro lado até o fechamento desta edição, assim como as empresas que compõem os consórcios com a EBN.
https://valor.globo.com/google/amp/financas/noticia/2026/03/16/master-usou-empresa-ligada-a-cartel-de-licitacoes-em-desvio.ghtml
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