segunda-feira, 4 de novembro de 2024

News 03 0411

 NEWS - 04.11


Lula se reúne hoje com Haddad e Rui Costa para discutir corte de gastos; veja medidas / Previdência deve ficar fora de limite para crescimento de despesas obrigatórias. Ministro cancelou viagem para trabalhar em pacote, após disparada do dólar  - Um dos pontos que será discutido é uma forma de enquadrar certas despesas obrigatórias no limite de crescimento de gastos previsto no arcabouço fiscal, de até 2,5% acima da inflação. Segundo fontes, porém, despesas com Previdência devem ficar fora desse limite. O presidente Lula ainda avalia se o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, entrará nessa conta.- O Globo 4/11


Eliane Oliveira /  Bruno Rosa / Manoel Ventura


Após pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, diante da disparada do dólar, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, cancelou a viagem que faria à Europa e vai se dedicar à agenda de corte de gastos. Ele se reúne hoje com Lula e com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e deve tratar do assunto.


Um dos pontos que será discutido é uma forma de enquadrar certas despesas obrigatórias no limite de crescimento de gastos previsto no arcabouço fiscal, de até 2,5% acima da inflação. Segundo fontes, porém, despesas com Previdência devem ficar fora desse limite. O presidente Lula ainda avalia se o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, entrará nessa conta.


Mesmo que o benefício não seja enquadrado no limite de despesas, um projeto com novas regras para sua concessão e manutenção está sendo elaborado, com exigências de prova de vida, reconhecimento facial e biometria. O objetivo é evitar fraudes. Também está sob análise aumentar de 30% para 60% a parcela do Fundeb que conta para o piso de gastos com educação. Devem entrar no piso emendas parlamentares para o setor e o programa Pé-de-Meia.


Como O GLOBO mostrou na semana passada, na lista de alívio nas despesas obrigatórias também está a desobrigação de execução dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, que chegarão a R$ 10 bilhões em 2025. ProAgro e seguro-defeso também deixariam de ser despesas obrigatórias. Além disso, mudanças no seguro-desemprego e no abono salarial do PIS/Pasep estão sendo considerada.


Haddad tinha embarque marcado para a Europa na tarde de hoje e voltaria apenas no sábado. Ele passaria por Paris (França), Londres (Reino Unido), Berlim (Alemanha) e Bruxelas (Bélgica), onde se reuniria com autoridades e conversaria com investidores.


Há duas semanas, a equipe econômica vem intensificando as discussões sobre o pacote de corte de gastos, depois de sinalizar que ele seria anunciado após as eleições de outubro. Por conta da incerteza quanto às propostas e a própria ida do ministro para a Europa, o dólar encerrou a sexta-feira valendo quase R$ 5,87, maior patamar desde maio de 2020. No ano, a moeda acumula valorização de 21%.


Volatilidade do câmbio


O ministro já vem buscando apoio de parlamentares para aprovação do pacote de gastos. Em encontro com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e senadores, na última quinta-feira, defendeu medidas para facilitar a gestão das despesas do governo de forma a estabilizar a dívida e fortalecer o arcabouço fiscal.


Haddad já disse que será necessária uma proposta de Emenda à Constituição (PEC) para avançar com as propostas. Para isso, o governo deve aproveitar uma PEC que prorroga um mecanismo chamado de Desvinculação de Receitas da União (DRU), já em tramitação, para “acoplar” as ações de corte de gastos.


Em seu formato atual, a DRU permite que o governo gaste livremente 30% das receitas com contribuições e taxas vinculadas a despesas e órgãos. O mecanismo existe há décadas e vem sendo prorrogado porque ajuda na gestão do caixa do governo — embora não seja, hoje, um instrumento para cortar gastos.


Ontem, após visitar a sala de monitoramento do Enem, Lula foi perguntado sobre o corte de gastos e o cancelamento da viagem de Haddad, mas se negou a responder:


— Não vou discutir nenhum assunto que não seja educação (...). Nem mais nada. Nem EUA, nem Venezuela, nem Nicarágua, nem Rússia, nem China — disse Lula, que também foi indagado sobre a crise entre Brasil e Venezuela.


Para especialistas, o cancelamento da viagem de Haddad representa uma sinalização positiva sobre a preocupação do governo com o corte de gastos, mas coloca pressão para que o ministro entregue um pacote fiscal coerente com as necessidades do país.


— Não adianta nada ter cancelado a viagem e não apresentar nada. O mercado está sedento por informações sobre a questão fiscal, até porque ele precisa dessa previsibilidade. É importante que o corte de gastos seja alinhado com as expectativas e que tenha coerência com 2024 e, principalmente, com 2025. Sem isso, o mercado pode se estressar ainda mais. Não dá para descartar a possibilidade de um dólar a R$ 6 — afirma Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus.


Os analistas se dividem quanto ao comportamento do dólar no curto prazo, em meio às eleições americanas. Para o economista Istvan Kasznar, da Fundação Getulio Vargas, pode haver mais volatilidade.


— O dólar pode subir, e já está em alta não apenas por este motivo (adiamento do corte de gastos), mas pela insegurança institucional e pelas evidências de um governo que se fragilizou demais com as últimas eleições. É provável que o mercado interprete essa sinalização como instabilidade, e a volatilidade cambial deverá continuar.


Ele reconhece que o cancelamento da viagem de Haddad indica mudança de prioridade, mas ressalta que é preciso ter clareza sobre a reforma fiscal. Já para Carlos Braga Monteiro, CEO do Grupo Studio, um compromisso concreto do governo com a agenda de corte de gastos pode aliviar a pressão sobre a moeda americana.


— Ao permanecer no Brasil, Haddad transmite sinal de prioridade para temas econômicos domésticos, o que pode gerar um efeito positivo imediato sobre o dólar, reduzindo a volatilidade da moeda.


Veja quais as medidas em estudo pela equipe econômica para cortar gastos / Governo prepara PEC para poder remanejar o orçamento, acalmar o mercado e conter dívida pública- Folha SP 3/11


Adriana Fernandes


Para acalmar o mercado e investidores externos, o governo federal prepara uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) com medidas de cortes de gastos. O assunto não é consenso entre os apoiadores do presidente Lula, contrários a ideias de redução de investimentos e pessoal.


Parte dos analistas vê resistência do próprio Lula a esta agenda. Em visita ao Inep (Instituto Nacional de Pesquisa Educacionais) neste domingo (3), ele se recusou a comentar o assunto.


Na última sexta-feira (1º), o dólar chegou a R$ 5,869, o maior patamar desde maio de 2020, nos primeiros meses da pandemia de Covid-19.


Em encontro com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad buscou apoio para à PEC que ainda está em elaboração. Haddad defendeu a necessidade de uma medida que autorizasse o remanejo do orçamento para estabilizar a trajetória da dívida pública e mostrar ao mercado o compromisso do governo com a questão fiscal.


O ministro cancelou viagem à Europa para se concentrar nas medidas a serem anunciadas.


Veja abaixo as medidas em estudo pela equipe econômica:


LIMITE E GATILHO


Um limite global para as despesas obrigatórias, que seguiria o mesmo índice de correção do arcabouço fiscal (expansão de até 2,5% acima da inflação ao ano) com gatilhos de correção, como revelou a Folha. Caso os gastos obrigatórios (exceto benefícios da previdência) avancem acima desse patamar, os gatilhos seriam acionados para ajudar a manter a trajetória de despesas sob controle. As medidas de ajuste em estudo pelo governo poderiam compor a lista de gatilhos ou ser implementadas de forma avulsa. É possível também combinar ambos os formatos. Não está previsto gatilho para a política de salário mínimo, que hoje garante uma correção acima da inflação.


 


FUNDEB


Aumento de 30% para 60% da parcela dos recursos do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) que é contabilizada no piso constitucional da Educação. A chamada complementação ao Fundeb –abastecido por uma combinação de recursos federais, estaduais e municipais– é uma obrigação da União quando os demais entes não atingem determinados indicadores financeiros estabelecidos, que incluem um valor anual por aluno. Contabilizar um valor maior para esse fim poderia, em tese, reduzir a pressão para atingir o piso da educação com o espaço das despesas discricionárias. A Fazenda quer incorporar os gastos do programa pé-de-meia na complementação do Fundeb.


 


FNDCT


Desobrigar a execução dos recursos do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), hoje obrigatória. Pela regra atual, os recursos do fundo não podem ser bloqueados. Para 2025, o orçamento é de R$ 10,3 bilhões —R$ 4 bilhões a mais que o previsto para este ano. Sem a obrigação, o governo teria espaço para reduzir despesas.


 


SEGURO-DESEMPREGO


É uma das principais medidas estudadas. Uma das propostas prevê descontar das parcelas do benefício o valor da multa sobre o FGTS. A avaliação é que, quanto maior o salário do trabalhador, maior tende a ser seu saldo no fundo de garantia e, consequentemente, o valor da multa —que seria abatido das parcelas, segundo a proposta.


 


SUPERSALÁRIOS


A ideia é buscar um acordo no Congresso para aprovação do projeto de lei que regulamenta os supersalários para limitar a poucas exceções (conhecidos como penduricalhos) o pagamento fora do teto remuneratório do funcionalismo, que tem como base o salário dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), atualmente em R$ 44 mil. O projeto que tramita no Senado contém 32 exceções, o que pode tornar a proposta inócua. Os penduricalhos se somam aos vencimentos dos servidores e acabam permitindo o pagamento dos salários em valores muitos superiores ao teto.


 


ABONO SALARIAL


Redesenhar o abono salarial (espécie de 14º salário concedido ao trabalhador com carteira assinada que ganha até dois salários mínimos). A proposta é fazer com que a regra de concessão seja a renda familiar per capita e limitar o benefício a um por família.


 


BPC E AUXÍLIO-DOENÇA


Novas medidas de aperto nas regras de acesso ao BPC (Benefício de Prestação Continuada), concedidos à pessoas com deficiência e idosos com mais de 65 anos de baixa renda, e do auxílio-doença.


 


SEGURO-DEFESO


Criação de um limite para os gastos com o seguro-defeso, benefício pago a pescadores artesanais durante o período em que a atividade é proibida para preservar a reprodução dos peixes. Em seu formato atual, a política é uma despesa obrigatória, vinculada ao salário mínimo (hoje em R$ 1.412), e quaisquer pessoas que preencham os requisitos têm o benefício concedido. A ideia é propor uma lógica semelhante à do Bolsa Família: o programa tem um orçamento definido, e se o número de pedidos for maior que o espaço fiscal, forma-se uma fila de espera. Novas concessões só são feitas quando há recursos disponíveis.


 


PROAGRO E SUBSÍDIOS


Medidas para diminuir subsídios com custos previstos no Orçamento. Entre eles está o Proagro, seguro rural voltado a pequenos e médios produtores. O aperto recente feito nas regras é considerado insuficiente. A ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, defende uma nova regra para cortar por ano uma parcela dos chamados gastos tributários (incentivos tributários).


 


PISOS DE SAÚDE E EDUCAÇÃO


O presidente Lula é resistente à mudança nos pisos constitucionais de saúde e educação, que impõem uma aplicação mínima de recursos nas duas áreas. Mas uma ala da equipe econômica ainda vê uma janela para aprovação da medida, com apoio dos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e da Câmara, Arthur Lira (AL-PP). Por outro lado, outra ala do governo considera essa mudança mais difícil, já que ela tem pouco impacto no curto prazo e elevado custo político para sua aprovação. Gatilhos de desindexação, que imponham uma correção menor (apenas pela inflação) a políticas hoje vinculadas ao salário mínimo, também são considerados difíceis de avançar.


 


DRU


Prorrogar a DRU (Desvinculação de Receitas da União). O instrumento, que hoje permite ao governo usar livremente 30% das receitas com impostos e taxas vinculados a despesas, acaba no final deste ano. Há uma discussão no governo para fazer uma DRU transitória sob novos termos, que permita remanejar os recursos carimbados para a área de saúde e educação, que hoje estão blindados.


 


Lula pediu a Haddad que cancelasse viagem para evitar “mundo da especulação” / Avaliação do governo veio após dólar renovar máximas e chegar a maior patamar desde pandemia, fechando em R$ 5,87 na última sexta-feira (1º)- CnnBrasil 3/44


Cristiane Noberto / João Nakamura


O pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ficasse em Brasília foi para evitar “o mundo da especulação”, segundo um ministro próximo ao chefe do Executivo, ouvido pela CNN.


Haddad estava com viagem marcada para a Europa durante toda a próxima semana e só retornaria a Brasília no dia 11 de novembro.


O roteiro do ministro aconteceria em meio à volatilidade no mercado, que espera por um pacote de cortes de gastos robusto e eficiente desde o meio do ano. A avaliação do governo veio após o dólar renovar as máximas e chegar ao maior patamar desde a pandemia, fechando em R$ 5,87 na última sexta-feira (1º).


Segundo o auxiliar do presidente, a prioridade é fechar essa proposta, “se não fica o mundo da especulação”.


Embora tenha dado a ordem para manter o ministro da Fazenda em Brasília, debruçado sobre o texto, Lula não quis comentar a decisão.


Após visitar as instalações da sala de monitoramento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste domingo (3), o presidente foi questionado sobre o pacote e se limitou a dizer que não comentaria nenhum assunto além de educação.


“Eu não vou discutir nenhum assunto que não seja educação. Mais nada. Nem Estados Unidos, nem Venezuela, nem Nicarágua, nem Rússia, nem China. Hoje é Enem”, disse.


A pressão dos agentes de mercado e investidores começou a ser intensificada em agosto, quando Haddad e a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, passaram a dizer que apresentariam um projeto para dar sustentabilidade ao arcabouço fiscal.


Na época, Tebet disse que Haddad teria planos de “A a Z” para endereçar o assunto e que seriam apresentados em momentos oportunos.


Naquele mês, a equipe econômica chegou a apresentar um projeto de revisão de gastos para 2025, que mira especialmente a Previdência Social, Bolsa Família e remanejamentos orçamentários em ministérios, cuja expectativa de retorno é de R$ 25,9 bilhões. Mas para o mercado, não é suficiente para mostrar o compromisso do governo com a regra das contas públicas em vigor.


Em entrevista à imprensa na semana passada, Haddad chegou a dizer que “entende a inquietação do mercado”, mas que “tem gente especulando em torno de coisas”.


Em outro momento, após reunião da Junta de Execução Orçamentária (JEO), que reúne ministros que tomam decisões sobre o orçamento, Haddad disse que já estava uma “forçação boba” a quantidade de questionamentos da imprensa sobre a questão.


Haddad busca apoio


A primeira reunião oficial para apresentar as novas medidas para o presidente Lula aconteceu na semana passada e contou com Haddad e seus secretários, além do ministro da Casa Civil, Rui Costa e do futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.


Na ocasião, o ministro afirmou que foi possível chegar a uma “convergência” com a Casa Civil, no intuito de apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) com as medidas estruturais. Segundo ele, também há “consenso” no governo sobre o crescimento das despesas.


“A dinâmica das despesas obrigatórias tem que caber dentro do arcabouço. A ideia é fazer com que as partes não comprometam o todo que o arcabouço tem, a sustentabilidade de médio e longo prazo”, disse na ocasião.


Agora, além de redigir o texto, Haddad também precisa do cálculo político com o Congresso Nacional, já que parte das medidas que estão sendo pensadas também afetam emendas parlamentares.


Na última quinta-feira (31), o ministro foi à Residência Oficial do Senado para conversar com o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e outros senadores sobre a regulamentação do mercado de carbono, que deve ser votada essa semana.


Segundo interlocutores presentes na ocasião, Haddad aproveitou o momento para falar aos parlamentares sobre a proposta do governo que será encaminhada.


O senador Efraim Filho (União-PB) disse que os parlamentares presentes disseram ao ministro que o corte de gastos é “um tema importante para endereçar a preocupação com a responsabilidade fiscal e as ações do governo” e que Haddad vai “avançar em uma alternativa nesse sentido”.


Já a própria articulação do governo com os parlamentares só deve começar quando a proposta estiver “concreta”.


 


Com Haddad em Brasília, equipe econômica deve “acelerar” pacote de cortes de gastos nesta semana / O ministro ainda deve apresentar a proposta final do presidente Lula antes delas serem, de fato, confirmadas- CnnBrasil 4/11


Cristiane Noberto / João Nakamura


O cancelamento da viagem do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, à Europa nos próximos dias vai dar uma pressão adicional para que a equipe econômica “acelere” a proposta do pacote de cortes de gastos nesta semana, segundo interlocutores do chefe da pasta.


Apesar de se manter cauteloso quanto às medidas e, por vezes, não confirmar o que vem sendo ventilado em bastidores, a expectativa é de que o chefe da equipe econômica comece a dar mais pistas do que está por vir.


O ministro ainda deve apresentar a proposta final de Lula antes dela ser, de fato, confirmada. Nesta segunda-feira (4), Haddad também se encontra com o presidente no Palácio do Planalto, às 9h, e o assunto tende a estar na mesa.


Ainda assim, a notícia de que Haddad vai ficar em Brasília debruçado nas propostas fiscais dividiu economistas ouvidos pela CNN.


Para o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, a decisão de evitar uma viagem internacional em um momento sensível para as contas públicas foi acertada.


À CNN, ele reforçou que, nesse contexto, a presença do ministro da Fazenda ao lado do presidente da República é essencial para discutir medidas que promovam a estabilidade econômica. Para ele, a decisão era esperada e se alinha ao bom-senso, dado o cenário desafiador.


“Desde a Constituição de 88, todas as medidas de ajuste fiscal foram de natureza temporária. À medida que a rigidez piora, demanda medidas que ataquem a causa. Mas nunca há ambiente para isso. Apenas há suspensão de alguns gastos, mas nada definitivo. Acho meritório o trabalho da equipe econômica, as coisas só não avançam nesse sentido estrutural por conta de resistências no PT e no governo. A ausência do ministro nesse momento seria equivocada. O mercado vinha criando esperança.”


Segundo o estrategista-chefe do grupo Laatus, Jefferson Laatus, o cancelamento da viagem foi uma resposta ao “recado do mercado”, mas que isso deve vir com ações concretas para ter o alívio esperado e duradouro.


“O mercado está sedento por informações sobre a questão fiscal. O mercado precisa dessa previsibilidade para fazer preço. Não adianta nada cancelar a viagem sem apresentar nada concreto. Se o pacote fiscal não vier com o rigor esperado e com coerência a longo prazo, a situação pode piorar. O dólar pode até chegar a seis reais”, afirmou.


Porém, o recuo teria vindo tarde demais para José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos.


Em meio a esse cenário de expectativa do mercado pelas medidas de contenção, Camargo aponta para uma “total desconsideração com a economia brasileira” por parte do ministro da Fazenda.


“Quanto ao pacote, melhor esperar para ver o que vai sair. Não estou otimista. Seria necessário algo como controle de gastos sociais ou mudança na política do salário mínimo. Algo realmente forte. Mas, minha avaliação é bem negativa”, pontua o economista-chefe da Genial Investimentos.


Na terça-feira (29), Haddad havia sinalizado que o prazo de envio para as medidas estava em aberto, e que a definição do pacote dependia do aval de Lula.


Sem dar detalhamentos sobre o que está por vir, o ministro voltou a ser questionado no dia seguinte sobre a contenção de gastos, ao que criticou ser uma insistência “boba” do mercado e da imprensa.


Mesmo com o cancelamento da viagem, o mercado segue no escuro e vivendo essa tensão pré-revisão de despesas.


Desse modo, apesar de ter algum alívio com a decisão de Haddad ficar no Brasil, nada muda entre os investidores, que seguem em alerta até “o anúncio de fato do pacote”, segundo Paulo Gala, professor da Fundação Getúlio Vargas e economista-chefe do Banco Master.


 


Viagem cancelada de Haddad não basta para tranquilizar mercado e frear dólar, dizem analistas / Economistas consideram que permanência do ministro até traz sinal positivo, mas cenário ainda depende de anúncio de ajuste fiscal- Folha SP 4/11


Leonardo Vieceli


O cancelamento da viagem do ministro Fernando Haddad (Fazenda) à Europa não deve ser suficiente para acalmar sozinho o mercado financeiro e provocar uma grande queda do dólar nos próximos dias, dizem economistas consultados pela Folha.


Segundo eles, a permanência de Haddad no país até traz uma sinalização positiva para o andamento do pacote de ajuste fiscal, mas a melhora do humor do mercado ainda depende do anúncio de medidas concretas que possam promover a redução de gastos.


Parte dos analistas ainda vê resistência no entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em levar adiante essa agenda.


Os economistas também afirmam que a desvalorização do real ante o dólar está atrelada em grande parte a incertezas das eleições presidenciais nos Estados Unidos, algo fora da alçada do governo brasileiro.


Na sexta (1º), a moeda americana disparou a R$ 5,869, o maior patamar desde maio de 2020, período marcado pela pandemia de Covid-19.


"Depois de quase dois anos de uma situação fiscal muito mal-encaminhada, é difícil imaginar que o mercado vai se acalmar porque o presidente [Lula] pediu para o ministro [Haddad] ficar aqui", diz Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados.


"Acalmar o mercado é algo que vai acontecer se vierem medidas realmente importantes do ponto de vista fiscal", acrescenta.


Haddad iria para a Europa nesta segunda (4) e retornaria ao Brasil no sábado (9). Porém, com o cancelamento da viagem, a expectativa é de que o ministro se dedique a medidas do pacote de corte de gastos.


A assessoria do Ministério da Fazenda informou neste domingo (3) que Lula pediu para o ministro permanecer em Brasília.


"Havia uma certa clareza de que o Palácio do Planalto tinha uma resistência muito grande em fazer alguma coisa mais consolidada do ponto de vista fiscal", afirma Vale.


"Então, simplesmente o Haddad ficar aqui para continuar as conversas não significa que o presidente vai ceder", completa.


Lula se recusou a falar sobre a definição das medidas do pacote de corte de gastos neste domingo, em visita ao Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais).


Questionado sobre o tema, o presidente disse que não iria discutir nenhum assunto que não fosse sobre educação, referindo-se à prova do Enem 2024, que tem a primeira parte neste domingo.


Alex Agostini, economista-chefe da agência classificadora de risco Austin Rating, considera que a permanência do ministro não é suficiente para afastar toda a preocupação do mercado financeiro, porque o foco neste momento é a incerteza com as eleições nos Estados Unidos.


"Só demonstra que de fato é uma preocupação que o governo começa a ter com maior foco, coisa que aparentemente não tinha, até porque o Lula sempre ficava ali desdenhando do controle fiscal. Era meio que uma seara em que o ministro Haddad estava tentando brigar quase sozinho", diz Agostini.


"Parece que caiu a ficha no governo federal de que, de fato, a gente vai sofrer muito se tiver essa desvalorização contínua [do real]. Agora é esperar para ver quais são as medidas", acrescenta.


A economista Juliana Inhasz, professora do Insper, também ressalta que a pressão na taxa de câmbio está associada em parte a questões fora do alcance do governo brasileiro, como as eleições americanas.


Pesquisas de intenção de voto indicavam empate técnico entre Donald Trump e Kamala Harris na corrida eleitoral dos Estados Unidos. No mercado de apostas, porém, as chances de um retorno do republicano à Casa Branca marcavam 66%, segundo a plataforma Polymarket.


As promessas econômicas de Trump incluem aumento tarifário sobre importações, especialmente chinesas, e um possível corte de impostos —medidas que são vistas como inflacionárias e que podem influenciar o Fed (Federal Reserve) a manter juros elevados por mais tempo, o que fortaleceria o dólar.


"Ainda que o mercado entenda que pode ficar mais calmo com essa tentativa dele [Haddad] de mostrar, de sinalizar, que está à frente dessa gestão, existem outros fatores que vão pressionar", diz Juliana.


"Nesse aspecto, vai ser imprescindível o auxílio do Banco Central para conseguir segurar o dólar", acrescenta.


"Dada a magnitude da deterioração, que é diária e ininterrupta, nada mais racional e lúcido do que [Haddad] ficar no país e endereçar algo estrutural e efetivo, que no mínimo interrompa a profunda piora dos fundamentos", avalia Gabriel Barros, economista-chefe da ARX Investimentos e ex-diretor da IFI (Instituição Fiscal Independente) do Senado.


Segundo ele, o tempo para procrastinação é inexistente diante da piora do perfil da dívida pública. "Estamos com 55% da dívida bruta selicada [atrelada à variação da taxa Selic] e cada vez mais curta", alerta.


O especialista em contas públicas lembra que o colchão de liquidez do Tesouro Nacional está sendo consumido em meio a ausência de medidas críveis e estruturais do lado fiscal.


"A incerteza fiscal é tão aguda que os prêmios na curva de juros não param de subir. É preciso ter senso de urgência, não conseguiremos empurrar o problema por mais seis meses", afirma.


O economista Alexandre Espirito Santo, da Way Investimentos, avalia que a permanência de Haddad no Brasil pode ser positiva porque os mercados estavam "muito tensos" com a possibilidade de o pacote fiscal ser adiado em razão da viagem.


"Pelo menos tem uma expectativa de que possa vir alguma coisa essa semana. Mas não adianta [a permanência] se não vier nada, aí vai ser uma decepção ainda maior", pondera Espirito Santo, que também é coordenador de Economia e Finanças na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).


Colaborou Adriana Fernandes, de Brasília


 


HADDAD NO BRASIL TENDE A ALIVIAR ABERTURA DO MERCADO, MAS COBRANÇA POR MEDIDAS SEGUIRÁ FIRME- Broadcast 3/11


Por Bruna Camargo e Maria Regina Silva


São Paulo, 03/11/2024 - A decisão do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de cancelar a viagem que faria à Europa ao longo desta semana é bem vista por especialistas consultados pelo Broadcast, que esperam uma reação positiva dos mercados amanhã. Segundo nota divulgada pela Fazenda nesta manhã, o ministro permanecerá em Brasília para tratar de "temas domésticos" a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A expectativa agora é de que haja um anúncio de medidas fiscais em breve.


O cancelamento da viagem foi uma surpresa "bem" positiva, segundo Bruno Takeo, estrategista da Potenza Capital. Ao mesmo tempo, indica que o governo se sensibilizou, dado o recente estresse dos mercados financeiros no Brasil em meio ao anúncio da ida do ministro ao continente europeu. "O dólar superou R$ 5,80 e os juros explodiram. O cancelamento mostra que o governo se sensibilizou, indica um senso de urgência", afirma Takeo.


Por conta da indefinição com o fiscal, na sexta-feira, dia 1º, o dólar à vista fechou no segundo maior nível da história, a R$ 5,8694, em alta de 1,53%, com avanço forte dos juros futuros. O Ibovespa recuou 1,23%, aos 128.120,75 pontos, o menor nível de fechamento desde 7 de agosto, então aos 127,5 mil pontos.


"De forma geral é uma sinalização positiva para o mercado e para o Brasil. Visto que a situação está mais delicada, ver o governo focado em trazer uma resposta concreta e rápida é importante", concorda o economista da Manchester Investimentos, Thiago Lourenço. "Essa sinalização de Lula pedindo para o Haddad ficar vem num bom momento. O mercado precisa ter a presença dele aqui voltada para controlar os gastos", diz Gustavo Riess, sócio e assessor da Ável Investimentos.


Para Gabriel De Biase Berenguer, presidente executivo (CEO) da RJ+ Asset, o governo priorizou os desafios econômicos internos e evitou um possível estresse adicional aos mercados. Ele diz que a reação dos mercados na abertura de amanhã pode ser favorável, mas as ações concretas dos próximos dias seguem no radar. "Se efetivamente essa postergação da viagem se dá para ter algum anúncio em relação ao fiscal, isso é bastante positivo", reforça Rodrigo Moliterno, head de Renda Variável da Veedha Investimentos.


Na mesma linha, Pedro Moreira, sócio da One Investimentos, afirma que o cancelamento da viagem em si não deve trazer grande alívio. "[O mercado] quer resoluções práticas e concretas, anúncios, não mais promessas. Isso controlaria a parte de especulação que estamos tendo, as pressões em cima do câmbio e da inflação", afirma. "Só remarcar [a viagem] não muda nada, dado a calamidade que está", observa Gabriel Meira, especialista e sócio da Valor Investimentos. E, para Gustavo Jesus, sócio da RGW Investimentos, "cada vez que o governo adia a questão, menos paciência o mercado tem".


Mas a expectativa de Takeo, da Potenza, é de que a abertura dos ativos brasileiros amanhã seja atenuada, pois o governo pode anunciar o pacote de corte de despesas nos próximos dias, em vez de fazer isso apenas na semana seguinte. Ele pondera, no entanto, que os ativos ainda podem não devolver todo o prêmio de risco, uma vez que os investidores e os agentes querem algo concreto.


De acordo com o economista-chefe do BV, Roberto Padovani, com o cancelamento da viagem, o governo anunciará alguma medida fiscal para reduzir as despesas da máquina pública. E, segundo o analista da Empiricus Research, Matheus Spiess, esse anúncio pode vir logo, talvez até o dia 8 ou 9. O estrategista-chefe do Grupo Laatus, Jefferson Laatus, por sua vez, vê chance de algo sair já amanhã. "Imagine a pressão que não ficou em cima do Haddad, que teve de cancelar a viagem. Provavelmente terá de fazer algum anúncio nesta segunda-feira", estima. Mas, se o anúncio não agradar, Laatus decreta: "É dólar a R$ 6,00".


O economista-sênior da Tendências Consultoria, Silvio Campos Neto, afirma que só mesmo um anúncio de medidas que levem à percepção de responsabilidade fiscal mudará a dinâmica dos ativos brasileiros. "Se houver, é o que realmente vai mudar, mesmo que de forma tardia", afirma.


Em meio a tensão nos mercados, economistas pedem um pacote de corte de gastos estruturante / Economistas defendem que pacote vá além de medidas pontuais para que se crie uma narrativa mais construtiva / O volume de propostas que vêm sendo aventadas nos últimos dias, bem como os desmentidos da equipe econômica, dificulta a projeção do que pode surgir no anúncio final. Apesar das incertezas, no entanto, um pacote que gire em torno de R$ 30 bilhões passou a ser tratado como o patamar mínimo ou "ponto focal" das expectativas de analistas, embora o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já tenha dito desconhecer como esse número projeção chegou ao noticiário.  Valor 3/11


Marcelo Osakabe


As incertezas sobre o pacote de revisão de gastos prometido pela equipe econômica têm elevado a tensão nos mercados locais, e economistas afirmam que o governo precisa ir além de medidas pontuais para virar o jogo e trazer uma narrativa mais construtiva para 2025 e os próximos anos.


O volume de propostas que vêm sendo aventadas nos últimos dias, bem como os desmentidos da equipe econômica, dificulta a projeção do que pode surgir no anúncio final. Apesar das incertezas, no entanto, um pacote que gire em torno de R$ 30 bilhões passou a ser tratado como o patamar mínimo ou "ponto focal" das expectativas de analistas, embora o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já tenha dito desconhecer como esse número projeção chegou ao noticiário.


Ainda que os cortes venham a se aproximar dos R$ 30 bilhões, o anúncio pode decepcionar a depender da composição das medidas, segundo o economista do Itaú Unibanco Pedro Schneider. Em sua avaliação, se o anúncio for, essencialmente, um reempacotamento de anúncios já feitos, como o combate a fraudes em programas como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e a contabilização de emendas parlamentares para fins do mínimo da saúde, a recepção dos investidores pode ser ruim.


"São medidas que estão mais relacionadas aos R$ 26 bilhões em cortes para 2025 já prometidos pela equipe econômica em julho. Não é um esforço novo.”


Ele considera, porém, que para chegar a esses R$ 30 bilhões, o governo precisará lançar mão de novas medidas, de caráter pontual. Entre elas, mudanças nas regras do seguro-desemprego e da multa do FGTS, dos critérios de enquadramento do abono salarial e também o aumento do porcentual da complementação da União ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos Profissionais de Educação Básica (Fundeb) para fins de cumprimento do piso da educação.


"Para surpreender o mercado, o ideal é trazer algo estrutural, na linha do que o ministro Haddad tem apontado", continua Schneider. "A questão é que mesmo isso está aberto a interpretação. Um teto de crescimento igual ao do arcabouço fiscal [de 2,5%, descontada a inflação] para despesas significativas, como saúde, educação e benefícios, eu acho positivo. Para linhas como a despesa do funcionalismo, por outro lado, é negativo, porque ela cresce menos do que 2,5% normalmente."


O economista no entanto, se coloca no grupo que espera um pacote contendo propostas já anunciadas e algumas de caráter pontual. "A gente acha difícil vir medidas estruturais, embora reconheça que o ministro tem sinalizado esforço nesse sentido."


Roberto Secemski, economista-chefe para o Brasil do Barclays, também foca na qualidade das medidas anunciadas, mais do que o valor do pacote em si. "É compreensível que se procure um número como forma sucinta de representar o tamanho do esforço. Mas ele também precisa ser analisado em relação ao que representa em termos de corte de gasto ou somente de diminuição da velocidade de crescimento da despesa obrigatória.”


No primeiro grupo, explica, estão propostas como a redução do abono salarial e aperto das regras do BPC, mas também desindexação de aposentadorias e outros benefícios ao salário mínimo — medida que foi vetada pelo presidente Lula. No segundo, alternativas como mudanças na contabilização do Fundeb e também nas emendas parlamentares para o piso da saúde.


Dobrar a parcela que a União contabiliza para fins do mínimo da educação de 30% para 60% liberaria cerca de R$ 17 bilhões em gastos obrigatórios em 2025, exemplifica Secemski. Este espaço, no entanto, tenderia a ser ocupado por outras despesas discricionárias, já que o limite global para o crescimento das despesas vem do arcabouço fiscal.


"Medidas desse tipo representam uma reorganização que diminui a pressão do aumento do gasto obrigatório. Essa racionalização é bem-vinda, mas reforça apenas a primeira perna do arcabouço, que é o limite de gastos. A segunda é a meta de resultado primário e, quando se pensa no objetivo final da política fiscal, que é chegar à estabilização da dívida e, com isso, conquistar credibilidade, apenas a primeira perna não atinge, sozinha, esse objetivo", resume.


Para Secemski, é um raciocínio que pode ser transportado para o momento do bloqueio ou contingenciamento de gastos. "Propostas como a que envolve o Fundeb reduzem o ritmo de crescimento das despesas obrigatórias e, com isso, a necessidade de bloqueios. Mas não garantem a redução da despesa total do governo, então não diminuem a necessidade de contingenciamentos, que visam atender a meta de resultado primário", diz. "E esses contingenciamentos continuarão sendo decididos a cada bimestre, no relatório de receitas e despesas, e sujeitos à vontade e à capacidade política de cada momento."


Essa é uma crítica, segundo ele, que também pode ser dirigida à proposta de criar um limite de crescimento de 2,5% sobre todas as despesas, outra ideia que passou a circular recentemente. "Criar gatilhos de teto sobre os gastos obrigatórios sem enfrentar as causas desse crescimento é como criar um arcabouço dentro do arcabouço. Isso não resulta em ganho imediato de credibilidade, porque no fundo permanece o aumento inexorável dos gastos com salário mínimo e benefícios indexados", afirma. "O ideal seriam medidas mais perenes, como desindexar benefícios do mínimo."


Ítalo Franca, chefe de política fiscal e estudos especiais do Santander, tem uma avaliação um pouco diferente. Em sua opinião, medidas estruturais que visam o médio prazo são importantes, mas o foco, neste momento, é dar mais segurança de que a regra de despesa será cumprida já no ano que vem.


Ele pondera que alterações de caráter mais estrutural, como um teto de 2,5% para a valorização do salário mínimo, certamente melhoram a perspectiva no médio prazo, mas a economia imediata não é tão relevante, algo como R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões no próximo ano. Da mesma forma, aplicar o teto para os mínimos de saúde e educação também não gera grande economia no curtíssimo prazo, abaixo de R$ 5 bilhões.


"O ideal é que medidas de curto e médio/longo prazo caminhem juntas, mas a gente sabe que medidas mais estruturantes levam seu tempo", ressalta o economista. Ele acrescenta que o encaminhamento do pacote via Proposta de Emenda Constitucional (PEC), como o governo já indicou que fará, constitui um desafio adicional e eleva o risco de torná-la efetiva apenas em 2026.


O Santander defende a aprovação de um pacote de R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões para 2025 e 2026, mas Ítalo considera imprescindível a sinalização de uma economia de ao menos R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões somente no próximo ano. "É um valor mínimo que traria visibilidade sobre o tema. Mas é preciso mais, algo entre R$ 15 bilhões e R$ 30 bilhões apenas para 2025.”


"Estamos em um ponto de inflexão. Quanto maior o pacote, mais significativa a ancoragem que o governo vai conseguir fazer em relação ao fiscal e maior o efeito sobre o prêmio de risco que se vê no mercado hoje", resume Franca.


Economista-chefe a AZ Quest, Alexandre Manoel avalia que o único gatilho para uma melhora da percepção dos mercados sobre a situação fiscal do Brasil é o governo sinalizar um horizonte para do déficit fiscal.


"A despesa primária como proporção do PIB saiu de 18% no governo Jair Bolsonaro, está perto de 20% por causa de despesas extraordinárias, como os gastos no Rio Grande do Sul, mas o atual governo deve entregar perto de 19%. Já a receita líquida, descontadas transferências, saiu de 17% do PIB e chegou hoje a 18,5%. Então existe, estruturalmente, um déficit primário de 0,5% do PIB. O que o governo precisa fazer é fechar esse déficit", resume.


Até pela quantidade de opções aventadas nas últimas semanas, o ex-secretário dos ministérios da Fazenda e da Economia entre 2018 e 2020 prefere não apontar quais medidas poderiam ser adotadas para atingir o objetivo. Ele salienta, no entanto, que o importante é que o governo comece a fazer escolhas de política pública.


"O problema é que desde 2023, o atual governo não deu sinais de respeito à restrição orçamentária. O ministro Haddad reclama que assumiu várias receitas obrigatórias que vieram sem indicação de fonte, como Fundeb e Bolsa Família, mas o governo anterior, a despeito disso, compensava esse maior gasto com escolhas como a não valorização real do salário mínimo e a suspensão dos mínimos da saúde e educação.”


Em relatório a clientes, o HSBC sugere que alterações em abono salarial, seguro-desemprego e auxílio doença, BPC e Fundeb podem garantir uma economia de até R$ 40 bilhões. "Um anúncio do tipo seria positivo para o mercado, não por causa do valor em si, mas porque teriam caráter duradouro, impactando os orçamentos de 2026 em diante", diz o relatório assinado pelo economista Daniel Lavarda.


O economista ressalta que um corte desse tamanho não altera o cenário "pouco construtivo" do banco para a dinâmica da dívida brasileira, mas assegura que o crescimento real da despesa não exceda o limite de 2,5% até pelo menos 2026.


Por outro lado, segue, "um resultado negativo seria um conjunto de medidas opacas, cujos impactos são difíceis de medir. Neste caso, o pacote seria recebido com ceticismo pelos mercados mesmo que chegue a R$ 30 bilhões a R$ 50 bilhões."


Após aprovação de Galípolo, BC deve aumentar ritmo de alta de juros, diante de dúvidas fiscais e dólar alto / Copom se reúne nesta semana. Em setembro, o comitê retomou o ciclo de alta com um aumento de 0,25 pp- O Globo 4/11


Thaís Barcellos


O Banco Central deve pisar no acelerador e aumentar o ritmo de alta de juros na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana, a primeira reunião após a aprovação de Gabriel Galípolo para comandar a instituição em 2025. Com preocupações fiscais e o dólar nas alturas, a expectativa é de que Copom eleve a taxa Selic em 0,50 ponto percentual, de 10,75% para 11,25% ao ano, nesta quarta-feira, de acordo com as expectativas do mercado. A decisão deve unir os nove diretores, inclusive Galípolo e o atual presidente, Roberto Campos Neto.


Em setembro, o comitê retomou o ciclo de alta com um aumento de 0,25 pp. De lá para cá, o cenário é de inflação mais acentuada, com a alta do dólar, e há mais ceticismo com o ajuste fiscal. No último encontro do Copom, o câmbio considerado foi de R$ 5,60, mas a moeda americana fechou em quase R$ 5,87 na sexta-feira passada, o segundo maior valor nominal da história.


A fraqueza do real é resultado de aspectos externos e locais. No âmbito internacional, pesam as dúvidas sobre o resultado das eleições americanas, especialmente devido ao crescimento das chances de vitória do republicano Donald Trump. Aqui, sem novidades sobre um pacote de medidas para conter a expansão dos gastos públicas, aumentaram os temores em relação à sustentabilidade do arcabouço fiscal e da dívida.


Além disso, dados no Brasil reforçaram um cenário de economia sobreaquecida, o que tende a elevar os preços. As expectativas de inflação se distanciaram ainda mais da meta de 3,0%. Para 2024, o mercado financeiro passou a prever estouro do limite superior da meta, de 4,5%. Para 2025, subiu de 3,95% para 4,0%. Já para o final de 2026, a mediana é de 3,60%.


Economia aquecida


Na Tendências Consultoria, a expectativa é de aumento da Selic a 11,25% nesta semana, seguido de mais duas altas de 0,50 ponto percentual e uma de 0,25 pp, encerrando o ciclo de aperto monetário em 12,50%.


— Com essa piora adicional de ambiente na margem e a renovação dos números fortes do mercado de trabalho, o Copom precisa dar uma resposta mais firme. Ou seja, acelerar o ritmo de aperto é o que deve ser feito agora — explica o sócio da consultoria Silvio Campos Neto.


Para o economista, além do mercado de trabalho, o Copom deve destacar a deterioração dos ativos brasileiros, principalmente do câmbio.


— Lá fora, o mês de outubro foi mais negativo, com os temores de um Fed mais cauteloso e o "Trump trade". No mínimo, o BC deve alertar para estas maiores incertezas externas, que voltaram a pesar. O câmbio pressionado com economia aquecida e expectativas desancoradas é sempre mais perigoso para a inflação.


Nesse contexto, Silvio Campos Neto avalia que o comitê deve dar algum sinal de que é mais provável seguir no ritmo de 0,50 pp nos encontros seguintes, mas evitando um maior comprometimento.


A Terra Investimentos também espera que Selic atinja 11,25% nesta quarta, mas passou a prever um aumento para 13,00% até o fim do ciclo diante da economia sobreaquecida, do "persistente" descolamento das expectativas de inflação e "da falta de visibilidade em relação à política fiscal".


A instituição também pontua que a nova composição do Copom anda precisa ser testada. Na prática, nesta reunião, o BC terá dois presidentes aprovados, embora só um empossado — algo inédito.


Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Galípolo recebeu o aval do Senado para comandar a autoridade monetária, mas só vai assumir o cargo após o fim do mandato de Campos Neto, em 31 de dezembro. Em janeiro, também devem chegar ao BC três novos diretores, e as indicações de Lula ao órgão serão maioria.


Para o economista-chefe da Terra Investimentos, João Mauricio Rosal, a conjuntura atual indica uma unanimidade da decisão sobre a Selic, o que trará pouca informação sobre a nova diretoria.


— Minha preocupação maior é quando esses novos passarem a ter maioria, no inicio do próxima ano --— disse, sobre possível interferência de Lula.


O economista da Tendências afirma que todos os membros do Copom devem estar igualmente preocupados com o cenário atual:


— A responsabilidade é de todos e até aqui o Galípolo demonstra estar ciente disso. Mas claro que incertezas sobre o comportamento do BC ao longo do tempo ainda persistem.

News 02 0311

 NEWS - 03.11


Haddad busca apoio de senadores para PEC de corte de gastos / Governo quer DRU transitória para manejo do orçamento até a estabilização da trajetória da dívida pública- Folha SP 2/11


Marianna Holanda / Adriana Fernandes


O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), aproveitou uma reunião com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e outros senadores na quinta-feira (31) para buscar apoio à PEC (Proposta de Emenda Constitucional) em elaboração pelo governo com medidas de corte de gastos.


No encontro, Haddad defendeu a necessidade de uma medida para autorizar transitoriamente o manejo do orçamento até a estabilização da trajetória da dívida pública em relação ao PIB (Produto Interno Bruto).


A área econômica do governo discute aproveitar a PEC para prorrogar a DRU (Desvinculação de Receitas da União) para incluir as medidas de corte de despesas, segundo pessoas a par das discussões no governo


A DRU, que hoje permite ao governo usar livremente 30% das receitas com impostos e taxas vinculados a despesas, acaba no final deste ano. Há uma discussão no governo para fazer uma DRU transitória sob novos termos, que permita remanejar os recursos carimbados para a área de saúde e educação, que hoje estão blindados.


O tema principal do encontro era o projeto de regulamentação do mercado de carbono —governo e Congresso buscam acordo para votá-lo antes da COP 29 (29ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), que ocorrerá entre os dias 11 e 22 de novembro no Azerbaijão.


Segundo relatos, a PEC do governo surgiu na conversa, e os parlamentares sinalizaram apoio a medidas para controlar os gastos.


A reunião ocorreu na residência oficial do Senado. Contou com a presença do senador Efraim Filho (União-PB), do ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais), e dos relatores do projeto do mercado de carbono na Câmara, Aliel Machado (PV-PR), e no Senado, Leila Barros (PDT-DF).


"Há uma grande preocupação com o aumento da dívida pública em relação ao PIB. É preciso qualificar o debate e buscar o equilíbrio fiscal pelo lado das despesas e não pelo lado de arrecadar", disse à Folha o senador Efraim Filho (União-PB), um dos participantes da reunião.


Segundo ele, a recepção dos senadores foi positiva à necessidade de medidas de cortes de gastos.


Os detalhamentos da proposta ainda estão sendo acertados. Apesar da pressão de investidores e de integrantes do mercado financeiro, o presidente Lula (PT) não tem pressa para apresentar as medidas, segundo auxiliares.


A proposta foi discutida amplamente com ele pela primeira vez nesta semana, em uma reunião no Palácio da Alvorada.


As previsões de crescimento da dívida para um patamar superior a 80% do PIB têm alimentado as incertezas fiscais e levado a uma escalada dos juros futuros e do dólar, que fechou nesta sexta-feira (1) cotado a R$ 5,869, o maior patamar para a moeda norte-americana desde o início da pandemia.


A forte alta veio em resposta à proximidade das eleições presidenciais dos Estados Unidos e à tensão sobre uma possível vitória de Donald Trump. Há ainda preocupação sobre o rumo das contas públicas brasileiras.


Como os parlamentares já sinalizaram o esgotamento da agenda de aumenta de arrecadação para o ajuste fiscal, há uma avaliação entre lideranças parlamentares de que o espaço hoje é maior para mudança em medidas nas regras de correção dos pisos de saúde e educação, que foram defendidas pela área econômica, mas que sofrem resistências do próprio presidente Lula.


O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), sinalizou em entrevista à Folha apoio às mudanças nas vinculações de receitas para as duas áreas. Ele disse que "vem alertando para um problema sério", que é o impacto dos pisos de saúde e educação e também da vinculação ao salário mínimo dos benefícios da previdência nas despesas públicas.


"Não estou entrando no aspecto se é justo ou não. Só que eles aumentam a despesa e pressionam muito o discricionário [despesas que o governo pode ou não executar, de acordo com a previsão de receitas, como custeio e investimento]. A saúde no último ano aumentou R$ 50 bilhões. Isso pressiona todo o recurso discricionário do governo, investimento e tudo. O teto vai ser pressionado. O arcabouço está aí e tem que cumprir as metas", afirmou Lira.


 


Atenção total- Lauro Jardim – O Globo 3/11


Fernando Haddad tem dito a interlocutores que tem até o dia 14 de novembro para ter a atenção total de Lula para definir a PEC do corte de gastos. Porque, depois disso, vem feriado, G20 e a visita de Xi Jinping a Brasília.Mas nesta semana é Haddad quem não dará total atenção ao pacote: vai viajar à Europa.


 


Alckmim defende corte de gastos e fim da reeleição a Jorge Kajuru- O Globo 2/11


Por Naira Trindade — Brasília


Geraldo Alckmin vai defender o corte de gastos e o fim da reeleição, com um mandato de cinco anos a partir de 2030, em entrevista a Jorge Kajuru, no seu retorno à Rede TV. A entrevista vai ao ar amanhã, às 22h30 , no PODK Liberados. Alckmin é o primeiro convidado e a intenção é levar Lula no próximo.


 


Oposição critica viagem de Haddad à Europa em meio a indefinições sobre corte de gastos / Parlamentares ouvidos pela CNN avaliam que momento atual é de "crise"- CnnBrasil 3/11


Cristiane Noberto / Danilo Moliterno


Em meio à incerteza sobre a entrega de um pacote de corte de gastos do governo, deputados de oposição reagiram à viagem do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para a Europa na próxima semana.


Parlamentares ouvidos pela CNN criticaram a ausência do chefe da equipe econômica no momento que avaliam ser de crise.


O vice-líder da oposição na Câmara, Marcel Van Hattem (Novo-RS), afirma que o governo “não cumpre o próprio arcabouço” e diz que, antes de viajar para “vender” o Brasil lá fora, Haddad “precisa arrumar a casa”.


“O governo, infelizmente, está cumprindo a cartilha do PT: gasto sem responsabilidade e desrespeito com qualquer tipo de trava. Não cumprem nem o próprio arcabouço fiscal que criaram, muito mais frágil do que o teto de gastos anteriormente vigente. Haddad vai ao exterior vender o quê, para quem? Precisa arrumar a casa primeiro, mas a viagem talvez demonstre justamente isso: que aquilo que deveria ser prioridade não será feito.”


Já o vice-líder do PL, deputado Domingos Sávio (MG), diz que o país está enfrentando uma “grave crise econômica” e atribui isso à “gastança irresponsável” da administração atual.


De acordo com ele, apesar do aquecimento da atividade privada e do esforço da população, o governo continua a agravar o déficit fiscal, com projeções preocupantes para os próximos anos.


“Fazer uma viagem para a Europa, no momento em que todos esperavam dele uma atitude concreta para apresentar soluções para o equilíbrio fiscal, sem sequer apontar um compromisso importante que esteja agendado, comprova o que todos nós sempre alertamos: o governo do PT não mostra responsabilidade com o interesse do país. Não tem limite com a gastança, não se dispõe a fazer sacrifícios, não se dispõe a fazer cortes que garantam um equilíbrio fiscal, e é isso que, infelizmente, faz com que o país perca uma grande oportunidade, enquanto o Brasil poderia ser a bola da vez”, afirmou.


Procurada pela CNN, a assessoria do Ministério da Fazenda não respondeu.


Para o presidente da Frente Parlamentar do Empreendedorismo (FPE), deputado Joaquim Passarinho (PL-PA), Haddad não vai, de fato, entregar um pacote de cortes de gastos “viável”.


“Primeiro, eu não acredito que o Haddad vai, de fato, trazer um pacote de cortes de gastos viável. Não é o que está no DNA deste governo, este tipo de medida. Acho que a viagem dele à Europa demonstra falta de compromisso com essa agenda. […] A gente não viu ninguém do governo defendendo, de fato, essa agenda, porque, de novo, não está no DNA deles. Reduzir os gastos poderia levar eficiência para a economia. E não bastaria apresentar o pacote, se não articular. Não dá para acreditar que a base do PT apoiaria um pacote como este”, afirmou.


O vice-líder da minoria na Câmara, Rodrigo Valadares (União-SE), também criticou a viagem do titular da Fazenda e pontuou a alta do dólar, que atingiu a marca de R$ 5,90, a maior alta desde a pandemia, como um dos fatores de preocupação.


“A alta do dólar para R$ 5,90 é uma tragédia anunciada, e Haddad resolve viajar no meio dessa crise. Essa decisão evidencia um governo sem direcionamento, que negligencia o impacto do câmbio na vida das pessoas. A economia brasileira precisa de um ministro presente, e não de alguém que foge das responsabilidades”, disse.


Agentes econômicos têm pressionado o governo para apresentar medidas que sejam viáveis para a sustentabilidade das regras fiscais do país. Isso porque, na avaliação deles, o governo tem feito ajuste das contas apenas pelo lado das receitas, enquanto os gastos continuam a aumentar.


Na última terça-feira, Haddad afirmou que não tinha um prazo para apresentar as propostas, o que fez com que o dólar começasse a trajetória de alta, fechando em R$ 5,87 na sexta-feira (1º).


 


Há sinais claros de descontrole das contas do governo, e ajustes não devem ocorrer neste ano, dizem economistas / Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, só deve ocorrer um ajuste fiscal mais significativo em 2025- CnnBrasil 3/11


Carol Raciunas


Na última semana, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que ocorre uma “forçação boba” para que o governo apresente ao Congresso um conjunto de medidas para corte de gastos.


A conduta do atual ministro tem sido questionada por parte do mercado. Para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, Haddad foi hábil em aprovar a reforma tributária e alguns ajustes na arrecadação, mas o grande ajuste que ainda falta é nos gastos.


Para o economista, mesmo que Haddad sinalize querer lidar com o ajuste dos gastos, existe uma resistência do governo.


“Já se vão dois anos, é difícil imaginar que um grande ajuste fiscal vai acontecer ainda. Vai ser algum paliativo de corte de gastos para 2025, talvez na casa de R$ 50 bilhões, que levaria o déficit para 0,25% do PIB.”


Vale destacou ainda que, sob estas condições, só deve ocorrer um ajuste fiscal mais significativo em 2025.


“Até 2026 devemos ter uma alta de 12 pontos percentuais na dívida pública bruta. Sem nenhum cenário de crise, isso não se justifica”, apontou.


Para Daiane Gubert, head de assessoria de investimentos da Melver, a situação atual também não está favorável para a economia brasileira.


“Existem sinais claros de descontrole fiscal e a consequência já é totalmente percebida. Ela é ditada pelo mercado com títulos da dívida pública rondando os 13% e inflação a cerca de 7%”.


As medidas atuais, segundo Gubert, devem ter impacto generalizado. “O risco, o dólar e a inflação sobem. E, com isso, esse círculo vicioso deprime a economia brasileira”, avalia.


 


Opinião do Estadão - Protelando o ajuste fiscal / Sem data para a revisão de gastos, governo tenta ganhar tempo com PEC para prorrogar a DRU- Estadão 3/11


Por Notas & Informações


Se ainda havia alguma esperança de que o governo anunciaria de uma vez um pacote de revisão de gastos públicos, a viagem do ministro Fernando Haddad à Europa pôs por terra qualquer chance de que isso ocorra no curto prazo. Defensor de medidas que fortaleçam o arcabouço fiscal, Haddad passará a semana fora do País e voltará apenas no dia 9 de novembro. Durante sua ausência, é improvável que as discussões avancem e que um plano concreto seja divulgado.


O contexto reforça a falta de prioridade com que o tema é tratado pelo presidente Lula da Silva, o que, a bem da verdade, não surpreende ninguém. A questão é que o governo gerou expectativas de que algo havia mudado e de que o presidente estava convencido sobre a necessidade do pacote para recuperar o grau de investimento, sobretudo após melhora da nota de crédito brasileira pela Moody’s, a primeira desde 2017.


Mas o País continua andando em círculos em debates cuja solução o governo tenta adiar. O arcabouço fiscal, que limita o avanço dos gastos a um crescimento real de 2,5% ao ano, tem sido incapaz de frear a velocidade de algumas das principais despesas do governo. O teto não vale para os pisos constitucionais da Saúde e da Educação, vinculados às receitas, nem para os benefícios previdenciários, cujo piso acompanha a variação do salário mínimo.


Ambas as políticas tendem a consumir um espaço cada vez maior no Orçamento e a estrangular as despesas discricionárias. Esse diagnóstico não vem de hoje, mas do fim de agosto do ano passado. Na votação do arcabouço fiscal, os pisos constitucionais, cujo crescimento havia sido limitado à inflação desde 2017 com a aprovação do teto de gastos, voltaram a acompanhar as receitas, que têm tido um desempenho expressivo neste ano.


Em paralelo, o Congresso aprovou a medida provisória enviada pelo Executivo que tornou lei a política de valorização do salário mínimo. Além das aposentadorias e pensões, o mínimo também é piso para benefícios assistenciais, abono salarial e seguro-desemprego e pressiona cada vez mais as despesas.


Já faz, portanto, mais de um ano que a equipe econômica sabe disso e tenta consertar as falhas estruturais do arcabouço fiscal, enquanto parte do governo age como se esses problemas não existissem. Há quem acredite que essas despesas não deveriam se adaptar ao arcabouço, mas que o arcabouço é que precisa mudar para dar um jeito de comportá-las.


Foi esse mesmo dilema que enfraqueceu o teto de gastos até levá-lo à inanição. A mais nova esperança da equipe econômica é aproveitar a prorrogação da Desvinculação de Receitas da União (DRU), que depende da aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), para incluir medidas que enfrentem gastos estruturais no texto.


Flexibilizar a alocação de recursos e permitir seu uso para outras finalidades certamente ajudará o governo, mas não resolverá o problema de fundo. Desde 1994, quando ainda se chamava Fundo Social de Emergência (FSE), a DRU tem sido desidratada e seu alcance, cada vez mais reduzido. Será preciso ir além dessa vez.


 


Análise: Alta do dólar ameaça se tornar fonte de pressão inflacionária relevante / Na semana anterior ao Copom, moeda americana termina cotada perto de R$ 5,87- Valor 2/11


Sergio Lamucci


A alta do dólar caminha para se tornar mais uma fonte de pressão inflacionária relevante, num momento em que o mercado de trabalho aquecido permite aumentos maiores dos preços de serviços e as cotações dos alimentos passaram a subir com mais força, especialmente devido a problemas climáticos. Com as incertezas persistentes sobre a trajetória das contas públicas e o cenário externo adverso para países emergentes, a moeda americana saiu de R$ 5,4469 no fim de setembro para R$ 5,8698 na sexta-feira (1º), uma alta de 7,8%. No ano, o salto do dólar já é de 21%.


Na semana que vem, o Comitê de Política Monetária (Copom) vai se reunir para definir o rumo da Selic, e a aposta dominante é numa aceleração do ritmo de alta para 0,5 ponto percentual (p.p.) – em setembro, o colegiado do Banco Central (BC) elevou a taxa em 0,25 ponto, de 10,5% para 10,75% ao ano.


Se o câmbio se consolidar na casa de R$ 5,70 ou R$ 5,80, as projeções de inflação vão subir, especialmente para 2025, o que pode levar o BC a estender o ciclo de alta da Selic. Até o momento, o consenso de mercado do Boletim Focus, do Banco Central (BC), aponta um dólar de R$ 5,45 no fim deste ano e de R$ 5,40 no fim do ano que vem.


O economista Fábio Romão, da LCA Consultores, dá uma medida de como uma moeda americana mais cara influenciaria as suas estimativas para a inflação. Se em 2025 o dólar ficar na média em R$ 5,70, em vez dos R$ 5,30 que ele espera atualmente, a previsão para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2025 sobe de 4% para 4,6% — ou seja, acima do teto da banda de tolerância da meta, de 4,5%. No caso da projeção para o IPCA deste ano, um dólar cotado a R$ 5,70 até dezembro faria a estimativa da LCA aumentar de 4,5% para 4,6%. A consultoria prevê um câmbio de R$ 5,50 no fim de 2024.


A moeda americana tem sido impulsionada, de um lado, pela incerteza fiscal, especialmente porque não há uma estratégia do governo para conter a expansão das despesas obrigatórias. Nesse cenário, as projeções para a dívida pública são de alta contínua ao longo dos próximos anos, sem perspectiva de estabilização como proporção do PIB. A dívida bruta, que terminou 2022 em 71,7% do PIB, deve fechar 2026 em 84,1% do PIB, um aumento de 12,4 pontos percentuais em quatro anos, prevê a Instituição Fiscal Independente (IFI).


Nesta semana, em meio a informações desencontradas, a equipe econômica indicou que vai apresentar medidas de ajuste das contas públicas por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC). Não está claro, porém, o que será apresentado, e nem quando isso vai ocorrer. Uma opção que deve ser usada é aproveitar a necessidade de prorrogar a Desvinculação de Receitas da União (DRU), mecanismo que dá mais flexibilidade ao governo para manejar o orçamento, incluindo outras iniciativas para enfrentar o problema fiscal. Outra ideia cogitada é definir para as despesas obrigatórias um limite de alta de 2,5% acima da inflação, o teto de crescimento de gastos do arcabouço fiscal.


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é que baterá o martelo sobre as medidas a serem anunciadas. Como ele tem mostrado resistência a iniciativas de cortes ou redução do ritmo de crescimento de gastos, a expectativa é que o pacote a ser apresentado não seja dos mais ambiciosos. Na sexta-feira (1), também azedou o humor dos investidores a informação de que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, vai viajar para a Europa na semana que vem. Com isso, as medidas não deverão sair nos próximos dias.


Pressão externa


Além das incertezas sobre as contas públicas, a alta do dólar no mercado internacional e o aumento das taxas dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) têm contribuído para pressionar o câmbio por aqui. O movimento do dólar e dos juros de longo prazo nos EUA reflete a percepção de que o ex-presidente Donald Trump é ligeiramente favorito para vencer Kamala Harris na eleição presidencial, pela avaliação de que o republicano deve adotar políticas que tendem a gerar mais inflação. Para países emergentes como o Brasil, significa mais pressão sobre o câmbio e sobre os juros.


Esses fatores têm levado à alta do dólar por aqui, num movimento que parece exagerado quando se analisa a situação das contas externas e a diferença já elevada entre os juros externos e internos. Uma eventual vitória de Kamala nas eleições americanas pode gerar alguma valorização da moeda brasileira, avalia Romão. As incertezas em relação às contas públicas brasileiras, porém, parecem ser o principal motivo para a alta do dólar. Para que haja um recuo mais significativo da moeda americana, é preciso que o governo anuncie medidas mais firmes para combater a expansão das despesas obrigatórias, o que continua a ser uma grande incógnita. A consolidação da moeda americana em níveis elevados teria efeitos negativos sobre os índices de preços e as expectativas de inflação, com consequências evidentes sobre o ciclo de alta da Selic.


Aluguéis e passagens aéreas mais caras


A pressão do dólar mais caro aparece de modo claro nos bens industriais, diz Romão. Para ele, os preços desses produtos devem subir 2,4% neste ano e 3% no ano que vem. São variações não muito fortes, mas que representam uma aceleração em relação ao 1,1% registrado pelo grupo no ano passado. Se o dólar se mantiver na casa de R$ 5,70 ou R$ 5,80, as estimativas para a inflação dos bens industriais vão, obviamente, subir. Romão lembra ainda que uma moeda americana mais alta também influenciaria os preços de alguns serviços – os aluguéis corrigidos pelo Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M), por exemplo, poderiam sofrer alguma pressão, já que o indicador é bastante afetado pela alta do dólar – o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) tem peso de 60% no IGP-M. O dólar caro também pode bater na formação de preços das passagens aéreas, nota o economista da LCA.


Há também impacto do câmbio sobre os alimentos, mas o que tem mais impulsionado os preços desses produtos é a questão climática, afirma Romão. O grupo alimentação no domicílio, que teve deflação de 0,5% em 2023, pode subir mais de 7% neste ano, com influência significativa dos preços das carnes. A seca e os incêndios em áreas produtos adicionaram pressão às cotações da carne bovina – e antes do que se esperava.


Para completar, os serviços mais sensíveis à demanda ganharam força no IPCA-15 deste mês. No acumulado em 12 meses, esse grupo acelerou de 4,61% em setembro para 5,08% em outubro. Um mercado de trabalho aquecido ajuda a explicar o comportamento desses serviços.


Nesse cenário, ainda que não haja um quadro inflacionário explosivo, um dólar nas alturas é tudo o que a economia brasileira não precisa. O cumprimento da meta de 3% ficará ainda mais distante, e mais juros poderão ser necessários para combater pressões sobre os preços.


 


 


Piora no cenário econômico fará BC acelerar ritmo de alta da Selic para 0,5 ponto, dizem economistas/ Risco fiscal e desvalorização do câmbio colocam pressão sobre decisão do Copom nesta quarta (6)- Folha SP 3/11


Nathalia Garcia


Com a piora no cenário econômico nos últimos 45 dias, o Copom (Comitê de Política Monetária) deve acelerar o ritmo de alta de juros nesta quarta-feira (6) para 0,5 ponto percentual, elevando a taxa básica Selic a 11,25% ao ano.


Economistas ouvidos pela Folha veem necessidade de um choque maior de juros para levar a inflação para a meta devido a uma série de fatores, sobretudo ao risco fiscal.


Depreciação cambial, diante de incertezas no ambiente internacional com as eleições nos EUA, piora adicional nas expectativas de inflação e resiliência da atividade econômica colocam pressão adicional sobre a decisão do colegiado do Banco Central.


Na última sexta (1º), a cotação do dólar chegou a R$ 5,868, refletindo a inquietação do mercado financeiro enquanto o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não anuncia seu pacote de medidas de corte de gastos. Isso somado às incertezas acerca da votação eleitoral nos EUA, com a possibilidade de vitória de Donald Trump.


No encontro de setembro, o Copom considerou em seu cenário de referência o dólar a R$ 5,60. A forte alta da moeda americana em um curto espaço de tempo traz impacto para as expectativas de inflação, que seguem se distanciando do centro do alvo de 3% –com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.


Claudio Ferraz, economista-chefe para Brasil do BTG Pactual, avalia o cenário para política monetária como bastante desafiador e diz que o distanciamento das expectativas de inflação da meta vem de um longo período.


"Desde o ano passado, quando se discutiu o tema da revisão da meta, ficou uma cicatriz. Isso acabou se avolumando nas preocupações com o cenário fiscal e o ritmo de crescimento das despesas bastante significativo", afirma.


Na visão dele, um "mero anúncio" do governo não será suficiente para convencer o mercado e melhorar as projeções. "Os detalhes vão ser muito importantes. Mas, no estágio atual, é importante não só os detalhes, mas o avanço concreto das medidas", diz.


O BTG admite rever seu cenário para o tamanho total do ciclo de alta de juros caso persistam as dificuldades no cenário fiscal e o ambiente externo fique mais adverso. Quanto à comunicação, Ferraz espera que o Copom deixe seus próximos passos em aberto.


Para Leonardo Costa, economista do ASA, um dos motivos para o BC optar por uma alta de juros mais intensa é a inflação corrente –especialmente a de serviços–, que continua em um patamar bastante elevado. Olhando à frente, ele ressalta o reflexo do choque inflacionário sobre o preço dos alimentos como motivo de preocupação.


No horizonte, aponta também a questão fiscal como principal ameaça. "Ainda tem muita dúvida se o arcabouço se mantém de pé e não parece ter sido endereçado o risco fiscal de continuidade de crescimento da dívida pública", diz.


Em agosto, a dívida bruta do Brasil ficou em 78,5% do PIB (Produto Interno Bruto). Já são 14 meses consecutivos de alta, trajetória iniciada em junho de 2023. O governo Lula já vê a dívida bruta acima de 81% do PIB a partir de 2026, último ano do mandato do presidente.


Heron do Carmo, professor da FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo) e especialista em inflação, afirma que não está descartada a possibilidade de o índice beirar 5% neste ano. No cálculo, ele leva em consideração a base comparativa de 2023, com IPCA mais baixo na reta final do ano, e a tendência de alta de preços de alimentos, principalmente da carne.


Conforme o boletim Focus da última segunda (28), o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) deve terminar o ano em 4,55%, acima do teto da meta perseguida pelo BC. Para 2025 e 2026, os analistas projetam 4% e 3,6%, respectivamente.


No "caldeirão", o professor vê pressões inflacionárias vindas de um crescimento mais forte da economia, de um cenário internacional "confuso" e da deterioração da situação fiscal.


"Tem que pelo menos gerar um resultado que faça com que a relação dívida/PIB não aumente no ritmo que vem aumentando e dar previsibilidade adiante. [...] É simplesmente ajustar a trajetória de gasto. Isso tem que ser feito o mais rápido possível, porque senão vai comprometer a trajetória da inflação para frente", diz.


Andrea Damico, economista-chefe da Armor Capital, afirma que a nova rodada de depreciação cambial impõe pressão adicional na inflação no curto e médio prazo.


Se Trump for eleito presidente dos EUA, ressalta que a agenda inflacionária do candidato republicano pode atrapalhar o ritmo de corte de juros do Fed (Federal Reserve) e dar ainda mais força ao dólar ante as moedas de economias emergentes, como a do Brasil.


Ela também destaca que o país passa por um momento de vulnerabilidade por elevação do prêmio de risco [rentabilidade adicional cobrada pelos investidores no Brasil].


"O mercado está nessa ansiedade para conhecer o pacote fiscal e, do outro lado, o governo está ainda nessa fase de negociação e não dá muita clareza de quando vai ser anunciado. Então, existe um certo choque de expectativas e realidade", diz.


Em eventos em Washington, os membros do BC alertaram repetidas vezes que o risco fiscal adicionou prêmios às expectativas e aos preços de ativos e que, se não houver um choque positivo nas contas públicas, não será possível diminuir a Selic.


Além da questão fiscal, Rafael Cardoso, economista-chefe do departamento de Pesquisa Econômica do banco Daycoval, joga luz sobre a "dupla face" do mercado de trabalho aquecido e seu efeito sobre a inflação. "Se os salários para os trabalhadores é renda e, portanto, sanciona a demanda, da ótica do empresário, salário é custo", afirma.


Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desemprego do Brasil marcou 6,4% no terceiro trimestre. O órgão associou a queda da desocupação ao cenário de atividade econômica e avaliou que há um aquecimento da economia via consumo.


Diante de todos os fatores que dificultam o trabalho do BC, Cardoso espera unanimidade entre os membros do Copom em torno de uma alta de 0,5 ponto percentual.


Para ele, é difícil ter uma divergência com voto favorável à manutenção do ritmo de 0,25 ponto e vê chance de discussão sobre um choque ainda mais intenso. "Mas entendo que diretores deveriam não gerar ruído nesse momento e reafirmar unanimidade", acrescenta.


 


Selic teria de subir a 15% para a inflação convergir para a meta, diz XP Asset / Em seu cenário básico, gestora projeta a taxa de juros em 13% em meados do próximo ano- Valor 3/11


Gabriel Caldeira


Para que a inflação convirja para a meta de 3% dentro do horizonte relevante da política monetária, o Banco Central teria de aumentar a taxa Selic para, pelo menos, 15% no atual ciclo de aperto monetário, observa o economista-chefe da XP Asset Management, Fernando Genta, cuja projeção oficial aponta para um juro básico bem menor que esse nível, em torno de 13% em meados do próximo ano.


Na visão de Genta, o ciclo de aperto teria de compensar não só a política fiscal expansionista, como também o efeito do último ciclo de queda dos juros, que levou a taxa Selic de um pico de 13,75% para 10,5% entre agosto de 2023 e maio deste ano.


“Não acho que esses 15% são exagerados. O problema é o quanto de desinflação a gente tem que colocar numa economia que está crescendo acima do seu potencial”, diz o economista, que já foi secretário adjunto no Ministério da Economia. Para ele, o BC vai optar por uma convergência mais longa da inflação à meta, com um ciclo de aperto mais contido.


No cenário-base da XP Asset, a Selic deve subir para 13% até a primeira metade de 2025, em um ritmo de elevação de 0,5 ponto percentual — a começar pela reunião do próximo dia 6. “Quando eu olho o atual conjunto de informações, acho que ele deveria fazer ainda mais rápido, mas as sinalizações dos diretores não vão nessa direção”, afirma o economista, para quem o BC deve manter os juros nos níveis mais altos desse ciclo até o fim do ano que vem.


Na avaliação de Genta, mesmo com uma política monetária mais restritiva dentro das projeções do relatório Focus, as estimativas de inflação do BC devem apresentar nova deterioração quando forem apresentadas na próxima semana.


Em um ambiente de “dinâmica de atividade forte no Brasil, expectativas desaconradas e inflação corrente acima da meta”, o Copom tem os ingredientes necessários para acelerar o ritmo da alta de juros, diz Genta. Isso não significa, porém, que a comunicação deve adotar um tom mais duro que indique o ritmo de 0,5 ponto como padrão daqui em diante.


“Uma vez que o presidente do BC (Roberto Campos Neto) insiste em dizer que há excesso de prêmio [nos ativos], me surpreenderia alguma coisa no comunicado que sinalizasse uma aceleração”, diz Genta. Para ele, são “confusas” as observações recentes de Campos Neto sobre a possibilidade de algum exagero no prêmio de risco fiscal precificado pelo mercado.


“O hiato do produto [medida de ociosidade da economia] foi substancialmente revisado para cima. O BC apontou a política fiscal, o mercado de crédito e o mercado de trabalho — que derivam do expansionismo fiscal — como as principais causas. Se o BC realizou essa mudança abrupta por causa do fiscal, tenho muita dificuldade em entender o presidente do BC falando que o mercado está exagerando o prêmio de risco”, enfatiza o economista da XP Asset.


Cenário econômico para o BC ficou mais desafiador desde setembro, diz Bahia Asset / Gestora carioca projeta taxa de juros em 13% em meados do próximo ano- Valor 2/11


Gabriel Caldeira


A desancoragem contínua das expectativas de inflação em relação à meta de 3%, um mercado de trabalho ainda aquecido e a incerteza externa derivada da eleição presidencial nos Estados Unidos formam um conjunto de fatores que torna o cenário atual mais desafiador para a condução da política monetária em comparação com a conjuntura da última reunião do Copom, em setembro, na avaliação do economista-chefe para Brasil do Bahia Asset Management, Luiz Felipe Maciel.


Por isso, Maciel acredita que o BC acelerará o ritmo do ciclo de aperto monetária a 0,5 ponto percentual na próxima quarta-feira, 6 de novembro, e, com altas de igual magnitude, levará a Selic para 13% no ano que vem, mantendo a taxa nesse nível ao menos até o fim de 2025.


“[O BC] Vai ter que continuar a falar duro para tentar trazer as expectativas de inflação para a meta o mais forte que conseguir”, diz Maciel. O economista espera que as projeções de inflação do Copom subam mais na semana que vem, mesmo com o relatório Focus contemplando uma Selic mais elevada. Ele destaca a taxa de câmbio, que depreciou, e a força do mercado de trabalho, que pressiona os salários e tende a dar mais fôlego à inflação de serviços.


Além disso, Maciel não enxerga uma diminuição do estímulo fiscal relevante em 2025, o que deve manter a economia aquecida e a inflação, pressionada. “Há estímulos em benefícios à população mais propensa a gastar. Tem uma injeção fiscal ainda em curso, estados e municípios também estão gastando”, diz. Se o governo entregar um ajuste fiscal relevante, no entanto, o BC poderia ter algum alívio. “Seria um primeiro sinal concreto, desde que o governo assumiu, de que os gastos podem ser menores.”


De qualquer forma, na conjuntura econômica atual, o balanço de riscos da inflação aponta para juros ainda mais elevados do que a projeção de 13% do Bahia Asset, avalia Maciel. “Com a taxa de desemprego indo a 6%, todo mundo vai ter que revisar as projeções de inflação”, avalia.


 


José Roberto Mendonça de Barros- Desaceleração da China é inevitável- Estadão 3/11


Retomo meu último artigo: a desaceleração da China é inevitável e terá grandes consequências na arena global e em nosso País. Vejam os leitores que há várias semanas o governo chinês vem soltando medidas para reativar os mercados, sem grande sucesso.


Outro indicador do ceticismo dos analistas, com o qual concordo e que reputo importante, é a fraqueza do mercado de petróleo. Mesmo com todo o pacote chinês, a cotação do Brent não descola dos US$ 70 por barril. A demanda por óleo vem sendo revisada para baixo e parece claro que, ante o mínimo sinal da possibilidade de um cessar-fogo no Oriente Médio, veremos os preços irem para a faixa dos US$ 65 – vale lembrar que a Arábia Saudita começará a bombar mais produto a partir de setembro. Não será a demanda chinesa que vai sustentar o mercado.


Mas, a meu ver, a acelerada queda da população e seu envelhecimento são o centro do problema. Os jovens não querem ou postergam os filhos porque têm idosos para sustentar e têm receio de não poder pagar os custos de uma boa educação, especialmente em um momento de alto desemprego dos recém- formados. A projetada queda de 200 milhões de pessoas até 2054 é sem precedentes num país onde a renda per capita ainda é baixa. O temor de ficar velho antes de ficar rico parece ter fundamento.


Com isso, o consumo interno tende a crescer mais lentamente, ao contrário do que acontece em outros países da Ásia, até porque parte dos investimentos estrangeiros antes canalizados à China agora busca Índia e outros destinos na região.


Ao mesmo tempo, a preocupação com segurança tem limitado a expansão de empresas inovadoras. As exportações também terão mais dificuldades de crescer porque, especialmente nos países ricos, uma ativa política de bloqueio de comércio está se desenvolvendo. Isso é particularmente visível no segmento de carros elétricos e de matérias-primas básicas.


Somando tudo, a economia chinesa irá desacelerar lentamente para a faixa de 4% ao ano. Por outro lado, a população americana seguirá crescendo: a ONU estima que, entre 2023 e 2050, passará de 343 milhões para 380 milhões de habitantes.


O consumo e o PIB vêm se expandindo de forma robusta e o progresso técnico tem sido impressionante.


Apostar que a China será a ganhadora na arena global, sobrepujando um “império decadente”, parece um lance excessivamente ousado. Melhor faria o Brasil cultivar relações amistosas e construtivas com todos os líderes globais.


 


Infraestrutura: BNDES acumula R$ 78 bilhões em aprovações de crédito ao setor / Maior parte R$ 40,8 bilhões) foi concedida entre janeiro e setembro deste ano- Painel S.A- Folha SP 3/11


O BNDES retomou o apoio aos projetos de infraestrutura e, de janeiro e 2023 a setembro deste ano, aprovou R$ 78,3 bilhões, mais do que os R$ 67,9 bilhões acumulados entre 2019 e 2022.


Somente neste ano, o banco deu aval para R$ 40,8 bilhões em crédito ao setor –8% mais do que todo o ano de 2023 (R$ 37,6 bilhões). Na série histórica, iniciada em 1995, o maior valor aprovado para a infraestrutura foi registrado em 2014 (R$ 50,8 bilhões).


Hoje, o banco compete com instituições comerciais no financiamento à infraestrutura. Mesmo assim, busca ampliar essa carteira, especialmente com a nova política industrial, que permite oferta de juro subsidiado (TR, a Taxa Referencial) para projetos ligados à transição energética, por exemplo.


"As obras de infraestrutura, do saneamento às rodovias, são essenciais para impulsionar outros setores, estimular a produção industrial e escoar a produção agrícola", disse o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.


Com Diego Felix


 


Indústria retoma espaço no BNDES sob Lula e ensaia ultrapassar o agro / Movimento é observado após plano de crédito e subsídios voltado ao setor e melhora na atividade- Folha SP 3/11


Fábio Pupo


Após o governo Lula (PT) lançar um plano de crédito e subsídios à indústria, o volume de empréstimos aprovados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) ao setor é o maior em relação ao total em oito anos. De acordo com a instituição, o volume liberado de janeiro a setembro supera o montante destinado ao agronegócio –algo que não se via desde 2016.


O movimento é observado em meio à melhora da atividade no setor e à maior procura por financiamento após a criação das linhas do plano Nova Indústria Brasil, lançado em janeiro. A demanda dobrou neste ano, na comparação com um ano antes.


Apesar de a fotografia ser comemorada pelos representantes da iniciativa privada, o cenário para o ano que vem ainda é visto com cautela. Entre as causas, estão desde motivos já presentes há muitos anos –como a falta de competitividade e a concorrência com a China– até fatores mais recentes como o atual ciclo de aumento da taxa básica de juros (a Selic).


José Luis Pinho Leite Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, afirma que a instituição está em um processo de gradual retomada do apoio ao setor após os números observados nos últimos governos.


"Nos anos anteriores aos do governo do presidente Lula, a indústria foi totalmente deixada de lado. O BNDES deixou de apoiar o setor industrial no sentido não só de financiamento, porque diminuiu muito, mas também deixou de ter uma diretoria que olhava para a indústria", afirma.


Ele diz que, no acumulado de janeiro a setembro, o setor contou com 27% de todo o crédito aprovado pelo BNDES –em comparação, a agropecuária ficou com 26%. No mesmo período do ano passado, a ordem era inversa. O campo ficou com 31% e as fábricas, com 18%.


"Estamos nos reaproximando do setor industrial sem deixar de apoiar os outros. Não queremos deixar de apoiar o agro nem a infraestrutura", afirma. "O agro também demanda máquinas e equipamentos do setor industrial. Não queremos deixar de apoiar isso".


A maior aprovação, no entanto, não aproxima os números aos do passado. Em meados dos anos 1990, por exemplo, a indústria liderava as aprovações e chegou a obter mais de 50% dos recursos concedidos pela instituição (ao longo dos anos, a infraestrutura passou a ser a campeã).


"Você não sai do nada e volta ao que era lá em 2010, no governo Lula, que era 40% [de aprovação para a indústria]. Você vai caminhar aos pouquinhos. E é isso que nós estamos fazendo", afirma Gordon.


Os números observados até meados do ano mostram que os segmentos de alimentos e bebidas (25% do total à indústria), mecânica (18%), química e petroquímica (12%) e transportes (12%) lideram as aprovações no setor.


A maior atenção à indústria vem no momento em que o BNDES como um todo tem emprestado mais. Nos últimos 12 meses até junho (último período com dados completos consolidados), foram aprovados R$ 208 bilhões aos diferentes setores. O valor representa o dobro do verificado dois anos antes (a preços constantes).


O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, destacou em evento no Palácio do Planalto o momento de aumento de investimentos do setor. "Depois de muito tempo, presidente [Lula], é a primeira vez que a indústria lidera o crescimento nesse último trimestre. E o investimento lidera o crescimento", disse na quarta-feira (30).


Mário Sérgio Telles, superintendente de Economia da CNI (Confederação Nacional da Indústria), afirma que o aumento que vem sendo observado neste ano é influenciado pela atividade mais aquecida no país e por um "efeito psicológico" gerado pelo plano do governo —com empresas buscando mais o BNDES devido ao anúncio.


"O BNDES tinha se fechado bastante para todos os setores e as aprovações tinham caído muito", diz. "É um momento de inflexão importante, com demanda maior, um mercado de trabalho crescendo e concessões de crédito avançando. As aprovações para a indústria cresceram significativamente em 2023 e estão crescendo neste ano em relação ao mesmo período do ano passado", afirma.


Apesar disso, ele faz ressalvas sobre a condição geral do setor e afirma que o custo de financiamento é apenas um dos grandes problemas da indústria. "Não é um momento espetacular. Longe disso", afirma.


Dados compilados pela CNI mostram que produção, faturamento, emprego e intenção de investimento na indústria cresceram nos últimos meses. A utilização da capacidade instalada, por outro lado, mostra uma melhora em agosto ainda com margem de elevação sem pressão nos preços.


"Você tem problema tributário, custo de energia, custos de infraestrutura e, vamos lembrar, nos últimos 15 anos tivemos a crise do Lehman Brothers e um crescimento muito grande da concorrência chinesa. Essa conjunção de fatores é que resultou nessa perda de competitividade da indústria brasileira", afirma.


Robson Gonçalves, economista e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), diz que os números vistos agora não necessariamente representam uma tendência e que o país vive um cenário de desindustrialização.


"O BNDES sozinho não conseguiria mudar isso. Você precisaria de uma política industrial. O governo anunciou uma; mas, depois disso, as importações de aço e vidro, por exemplo, aumentaram. O material de construção vindo do exterior praticamente dobrou em relação há alguns anos. Isso é desindustrialização", afirma.


Para ele, o cenário é de incertezas. "A demanda de recursos de longo prazo do BNDES exige que haja projetos de investimento. E, para que haja esses projetos, as empresas têm que ter um horizonte de investimento no qual confiam", diz.


"O que está tendo é um ambiente de negócios de incerteza do cenário internacional, de política econômica, das brigas recentes entre governo e Banco Central, de briga entre Legislativo e Judiciário. Nada disso ajuda."


Empresas fazem até rodízio de equipes por falta de mão de obra qualificada / Apenas na construção, reclamação por escassez de mão de obra é a maior em dez anos, aponta FGV; queixa atravessa setores- Folha SP 3/11


Douglas Gavras


Reflexo de um mercado de trabalho aquecido, a falta de mão de obra qualificada no país tem desafiado diferentes setores a buscarem alternativas para manter e aumentar a produção.


Em setembro, o Brasil abriu 247.818 vagas formais, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, com saldo positivo em todos os estados.


O cadastro considera apenas vagas formais e mostra que o setor de serviços liderou essa abertura de oportunidades, com 128,4 mil postos, seguido pela indústria (59,8 mil), comércio (44,6 mil) e construção (17 mil). A agropecuária perdeu 2.000 postos.


Mas agora, assim como na década passada, a construção civil é um dos primeiros a sentir os efeitos da falta de trabalhadores capacitados, e a série histórica de uma sondagem feita com empresas pelo FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) ajuda a dimensionar o problema.


Em setembro deste ano, 29,4% dos empresários da construção apontaram a escassez de mão de obra qualificada como fator que limita o desenvolvimento de negócios —é o patamar mais alto desde o fim de 2014.


Os anos pré-crise de 2014 a 2016 foram de aquecimento do mercado imobiliário —e a consequente falta de trabalhadores. Os jornais na época registravam oferta de vagas para engenheiros recém-formados, a vinda de profissionais de outros países e aumentos salariais para toda a cadeia da construção.


"Desde o ano passado, a falta de mão de obra qualificada voltou a ganhar relevância e se manteve como limitação para as empresas", diz Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos de Construção do FGV Ibre.


"O período até 2013 foi de grande crescimento do setor imobiliário, com Minha Casa, Minha Vida, obras da Copa e das Olimpíadas. Era uma economia que estava crescendo. Agora, o ritmo é mais lento, mas as preocupações do setor começam a crescer."


Em julho, a instituição perguntou ao setor o que as empresas estavam fazendo para contornar a dificuldade de contratação. No total, 33,1% disseram ter aumentado a remuneração, 51,5% investiram em treinamento e 46% adotaram rodízio de equipes, deslocaram trabalhadores entre obras, por exemplo.


De acordo com Gustavo Siqueira, vice-presidente de recursos humanos para América Latina na fabricante para o mercado de construção Saint-Gobain, o foco está em reter e atrair profissionais qualificados por meio de um ambiente de trabalho positivo, desenvolvimento de colaboradores e ações concretas.


O grupo oferece trilhas de desenvolvimento contínuo para competências técnicas.


"Buscamos sempre manter as contratações como prioridade em nossas atividades, mesmo trazendo cada vez mais tecnologia e inovação ao setor. Nossas estratégias de desenvolvimento de pessoas não só preenchem as lacunas de habilidades, mas também contribuem para a retenção e motivação da nossa equipe", diz.


Segundo Tatiane Cardoso de Paula, diretora de RH da Saint-Gobain Canalização, o grupo também tem investido em treinamentos e iniciativas de desenvolvimento, entre as quais um programa de mentoria para jovens talentos da organização.


Apesar do problema, Castelo ressalta que é preciso olhar em perspectiva e considerar que o mercado de trabalho aquecido reflete o contexto de investimentos já realizados.


"A tendência é que a construção permaneça aquecida ainda por algum tempo, mas o aperto nas regras de crédito imobiliário e o aumento dos juros devem ter um efeito de arrefecimento lá na frente."


O mercado de consumo mais forte também anima as calçadistas, apesar de uma redução prevista no comércio internacional com a queda das compras da Argentina e a concorrência com os asiáticos.


"O nosso problema também é a falta de mão de obra capacitada", diz João Marcelo Fernandes, gerente de Recursos Humanos da Kidy. Após o período crítico durante a pandemia, ele conta que a marca produz 16 mil pares por dia, e surgiu a necessidade de contratar pessoal.


Com isso, a fabricante optou por renovar cargos, deixando-os mais atrativos para que os funcionários mais novos permaneçam na empresa e busquem posições internas, além de contar com um programa de capacitação do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).


"Temos planos para 40 novos aprendizes, com um programa de apadrinhamento." As medidas para contornar a falta de profissionais com múltiplas capacitações ainda incluem formar auxiliares que em determinado período vão para as mesas de corte, serigrafia e injeção. Também há incentivo à formação universitária da equipe, diz.


Dados da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) a partir do Caged mostram que o setor encerrou agosto com saldo positivo de 12,4 mil postos.


"A falta de pessoal capacitado está acontecendo no nosso e em outros setores. Quando há uma dificuldade de contratação, o problema tem origens positivas, mas pode ser uma dor de cabeça", diz o presidente-executivo da entidade, Haroldo Ferreira.


"É similar ao que ocorreu até 2013, o que mudou é que hoje há também possibilidade do candidato ir trabalhar nas plataformas digitais —e isso é uma concorrência para indústria de transformação."


"Com a indústria 4.0, ocorreu um boom tecnológico e a necessidade de mão de obra que nós temos, ligada à tecnologia, é a mesma que o supermercado e o mercado financeiro têm", diz João Alfredo Delgado, diretor-executivo de Tecnologia da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos).


A indústria passou a concorrer com todos os setores pelo mesmo tipo de profissional, avalia.


Segundo ele, as empresas do setor têm investido em programas de aprendizagem industrial e buscam se aproximar da mão de obra mais jovem. "Não sei se a geração Z quer uma carreira de longo prazo, mas ela ainda tem uma visão distorcida da indústria. Vejo pelos meus filhos, que adoram jogos, mas não percebem que o maior parque de diversões é a indústria, onde eles podem receber para programar robôs reais."


Semana de leilões tem R$ 24 bi de investimento em rodovias, saneamento e escolas / Economistas avaliam que União e governos estaduais tiveram bons resultados com certames, apesar de falta de concorrência no Piauí- Foha SP 3/11


Pedro S. Teixeira


A série intensa de leilões realizada ao longo da semana terminou nesta sexta-feira (1º) com arrecadação de R$ 3,76 bilhões pela União e os governos de São Paulo e Piauí, além da garantia contratual de R$ 24,15 bilhões em investimentos em escolas, rodovias e saneamento.


As empresas, em contrapartida, poderão explorar pedágios em Minas Gerais e São Paulo, a cobrança pelo serviço de água e esgoto no Piauí e a venda de bilhetes lotéricos em território paulista.


Os resultados foram considerados positivos para os governos estaduais e o federal por economistas consultados pela Folha.


Para o fundador da Inter.B Consultoria, Claudio Frischtak, avançar nas concessões é fundamental para tratar do déficit em saneamento básico e infraestrutura. "O Estado brasileiro não tem os recursos para investir e é necessário atrair o capital privado."


O professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP Paulo Feldmann defende que os leilões geram melhores propostas para a administração pública do que as licitações, mas ressalva que o governo precisa ter cautela para manter concorrência. "O caso da Eletropaulo, da qual eu fui presidente na época da privatização, mostra que a concessão pode gerar um monopólio ruim para o consumidor."


Nas últimas semanas, se intensificaram as críticas à distribuidora de energia Enel pelos prolongados períodos sem luz em São Paulo após tempestades. No fim do mês passado, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) intimou e empresa num processo relacionado ao apagão que afetou 3,1 milhões de clientes na Grande São Paulo e deixou residências até seis dias sem luz.


Nos leilões da B3 nesta semana, o menos disputado foi o relacionado à concessão dos serviços de água e esgoto do em 222 municípios do Piauí, que teve apenas uma proposta, da Aegea, que já administra o saneamento da capital, Teresina. O grupo ofereceu um desconto de 1% sobre a tarifa básica mais o pagamento da outorga mínima de R$ 1 bilhão, saindo ganhador do certame.


"O caso do saneamento é idêntico ao da eletricidade, são poucas empresas no mercado e menos ainda com interesse de atuar em locais afastados", diz Feldmann.


Frischtak, por outro lado, avalia que as condicionantes do marco do saneamento básico farão a companhia ampliar o atendimento a regiões descobertas há anos pela estatal Agespisa. "O valor da outorga é pouco relevante, ajuda os cofres dos estados, mas o que interessa é ter um serviço mais capacitado para o usuário e isso é garantido pela concessão", afirma.


O ativo que gerou mais interesse foi a Rota Sorocabana, leiloada na quarta-feira (30), sob disputa de quatro concorrentes que já atuam no setor de infraestrutura.


O lance da concessionária CCR de R$ 1,601 bilhão representou um ágio de 168% sobre o lance mínimo estipulado pela Secretaria de Parceria em Investimentos do Estado de São Paulo, em R$ 597,5 milhões. Com volume de investimentos de R$ 8,8 bilhões e extensão de 460 km, a Rota Sorocabana faz parte dos 1.800 km de rodovias qualificadas no PPI-SP (Programa de Parcerias de Investimentos do Estado de São Paulo).


Nesta sexta-feira (1º), Tarcísio afirmou que sua equipe planeja atrair R$ 20 bilhões em investimento privado até o fim deste ano. "Estamos falando de uma gestão que vai trazer, em todos os setores, no industrial, na infraestrutura, mais de R$ 1 trilhão nos próximos anos."


O ministro Renan Filho (Transportes), que nesta semana ressaltou à Folha ter realizado mais leilões em um ano e meio do que Tarcísio nos quatro anos de governo Jair Bolsonaro (PL), comandou a venda dos direitos de exploração da Rota do Zebu. O trecho liga as cidades mineiras de Uberaba e Betim, na Grande Belo Horizonte. O certame se encerrou com o arremate da gestora Kinea, por um deságio sobre a tarifa básica de 15,3%. O projeto determina ainda R$ 4,4 bi em investimentos.


Atores conhecidos do público por outras atividades também se destacaram. A firma Engeform Engenharia Ltda, que gere os cemitérios de São Paulo, foi a escolhida pelo governo estadual para construir 17 novas escolas em um ano e meio. Será ainda responsável pela manutenção das sedes por 23 anos e meio.


O das escolas aconteceu na terça-feira (29), sob protestos dos sindicatos.


A previsão é que durante todo o contrato, o governo do estado pague R$ 3,38 bilhões para o consórcio. Em contrapartida, a empresa terá que investir, segundo cálculos do secretariado de Tarcísio, R$ 1,1 bilhão para a construção das escolas e gastar R$ 1,25 bilhão para a manutenção.


O certame já foi judicializado e chegou a ser suspenso pela Justiça, mas liminar sobre o tema foi derrubada pelo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Fernando Antonio Torres Garcia.


O leilão da Loteria do Estado de São Paulo, por sua vez, teve como protagonista o ex-secretário de Avaliação, Planejamento, Energia e Loteria do antigo ministério da Economia, Alexandre Manoel da Silva, que atuava sob o comando de Paulo Guedes. O certame abriu caminho para a criação da loteria estadual, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de 2020 permitir a concorrência dos entes federativos com a Caixa.


Ainda no governo de Michel Temer (MDB), em 2018, Silva representou a presidência no debate que levou à legalização das apostas esportivas no Congresso em dezembro daquele mesmo ano. Ele foi exonerado em março de 2020 em ato administrativo assinado pelo ex-ministro da Casa Civil Walter Braga Neto.


Com investimento português, Silva retorna ao tema das apostas, agora como ator interessado. O estado, que cobrará uma taxa de 35% sobre as receitas da loteria, espera levantar R$ 3,4 bilhões com a atividade com previsão de inauguração para 2025.


A cifra indica que os negócios devem render R$ 6,3 bilhões ao consórcio Aposta Vencedora liderado por Silva. O governador Tarcísio diz estar certo de que os valores serão ainda maiores.


Veja resultados dos leilões na B3:


Novas escolas em SP (lote 1)


Investimento: R$ 2,35 bilhões

Prazo: 25 anos

Custos para governo: R$ 3,38 bilhões

Serviço de esgoto e água do Piauí


Investimento: R$ 8,6 bilhões

Prazo: 35 anos

Outorga: R$ 1 bilhão

Rota Sorocabana (SP)


Investimento: R$ 8,8 bilhões

Prazo: 30 anos

Outorga: 1,601 bilhão

Rota do Zebu (MG)


Investimento: R$ 4,4 bilhões

Prazo: 30 anos

Deságio no pedágio: 15,3%

Loteria Estadual (SP)


Prazo: 15 anos

Outorga: R$ 600 milhões

Fontes: SPI (Secretaria de Parcerias em Investimentos de São Paulo), Governo do Piauí e Ministério dos Transporte


 


Sem licença para Foz do Amazonas, Petrobras volta a investir na Bacia de Campos para elevar reservas / Empresa prepara plano que deve superar US$ 22 bilhões para revitalizar região. Área, que já foi a maior produtora de petróleo e gás do país, completa 50 anos de descoberta neste mês- O Globo 3/11


Bruno Rosa


A Bacia de Campos, que já foi a principal região produtora de petróleo do país, completa neste mês 50 anos de sua descoberta prestes a recuperar um lugar de destaque na estratégia de crescimento da Petrobras.


Apesar do avanço do pré-sal na Bacia de Santos, a região entre o litoral do Rio e o do Espírito Santo voltou a figurar como aposta prioritária da estatal para elevar suas reservas em meio às incertezas sobre a licença ambiental para explorar a área chamada de Foz do Amazonas, na Margem Equatorial, no litoral norte do país, que já foi negada uma vez.


Na semana passada, um parecer de técnicos do Ibama recomendou a rejeição do recurso da Petrobras, mas o órgão encaminhou novos questionamentos à estatal antes de decidir.


Enquanto responde, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, quer acelerar os investimentos na revitalização da Bacia de Campos, que levou a Petrobras a desenvolver alta tecnologia de produção em águas profundas e colocou a estatal no mapa global do petróleo.


Com essa fronteira petrolífera, em dez anos a companhia triplicou sua produção, até então majoritariamente terrestre, passando de 200 mil barris por dia para 600 mil entre 1974 e 1984.


Agora, segundo a própria Magda, especializada em engenharia de reservatórios, há um potencial de tirar dali a mesma quantidade de óleo e gás produzidos desde os anos 1970, com novos poços, técnicas de revitalização de poços maduros e o reaproveitamento de plataformas, cujas aposentadorias foram suspensas.


Na indústria do petróleo, obstáculos geológicos impedem a retirada de todo o conteúdo dos reservatórios. A Petrobras avalia que é possível tirar mais.


— A produção de Campos tem hoje um fator de recuperação de 17% no seu total. Entendemos que pode produzir nos próximos 40 a 50 anos quem sabe a mesma quantidade de petróleo que produziu até hoje. Estamos voltados para o aproveitamento da Bacia de Campos — disse Magda, recentemente em evento.


A executiva quer acelerar um plano de revitalização da bacia, que ganha corpo desde a década passada, quando a companhia era liderada por Graça Foster. O antecessor de Magda, Jean Paul Prates também iniciou esforços na região, que hoje responde por 20% da produção própria da estatal, cerca de 450 mil barris por dia.


Levando em conta as áreas já em produção, a intenção é alcançar 600 mil até 2028. Para isso, a expectativa é que a Bacia de Campos receba investimentos superiores aos US$ 22 bilhões do último plano de negócios da Petrobras, que está finalizando o novo, para o período 2025-2029, e deve apresentá-lo em dezembro.


Uma das iniciativas é a instalação de cinco novas plataformas nos campos Marlim Leste/Sul, Jubarte, Albacora, Barracuda-Caratinga e Raias Manta e Pintada. A Petrobras já tem hoje em Campos 37 plataformas e 327 poços em 14 campos. Prevê 100 novos poços, que serão interligados às novas unidades de produção e às já instaladas.


Nove áreas devem passar a receber aportes, e a empresa vai buscar novas oportunidades nos campos de produção. “O programa de revitalização da Bacia de Campos é o maior de recuperação de ativos maduros em águas profundas no mundo”, limitou-se a Petrobras em nota.


Enquanto aguarda o sinal verde do Ibama na Margem Equatorial e avança nos estudos do potencial da Bacia de Pelotas, no litoral sul do país, Magda tem dado o tom da nova estratégia que envolve tirar mais de Campos: “Toda gota de petróleo importa”.


Custo é desafio


Recentemente, a executiva revelou que a estatal iniciou estudos para reaproveitar em Campos plataformas que seriam descartadas, como P35, P37, P47 e P19.


Segundo o gerente-geral da Unidade de Negócios de Exploração e Produção da Bacia de Campos da Petrobras, Alex Murteira Celen, a P-51, uma plataforma do tipo submersível, também terá sua vida útil estendida em Marlim Sul.


Ela produz 30 mil barris diários a 175 quilômetros de Macaé em uma profundidade de 1.250 metros. Terminaria a vida útil em 2034, mas, com reforma e manutenção, ficará no mar até 2052. Já estão aprovados investimentos de US$ 600 milhões até 2048.


Luiz Hayum, analista principal de E&P da Wood Mackenzie, vê desafios do plano, sobretudo, na contratação de novas plataformas, cujos preços subiram 40% desde 2021:


— Vemos dificuldades para contratar novas plataformas. Esses projetos (de revitalização) têm margens (de lucro) menores, pois não são tão rentáveis quanto os do pré-sal, e há pouco espaço para absorver custo maior. Soma-se a isso a falta de licença para Foz, o início do estágio exploratório na Bacia de Pelotas e o menor volume de descobertas no pré-sal nos últimos anos. Estamos vendo um problema de renovação de portfólio. Assim, a Petrobras vê novas oportunidades nos campos maduros.


Outros especialistas veem na Bacia de Campos espaço para recuperação adicional, também em curso nas áreas de outras petroleiras, como Shell, Brava, Prio e Equinor. Estima-se que, até hoje, só cerca de 15% de todo o petróleo depositado na região foram extraídos, metade da média de outras regiões produtoras no mundo, como o Golfo do México e o Mar do Norte, que superam 30%, segundo avaliação de Hayum.


Especialistas lembram que, com as novas tecnologias para vencer obstáculos geológicos, a produtividade das áreas em Campos pode elevar o volume recuperável para 40%.


A Petrobras cita o caso do campo de Marlim, onde está a P-51. Com a revitalização, estima ali 860 milhões barris adicionais: “O número considera o total a ser produzido até 2048, previsto para o final do prazo de concessão. Antes da revitalização, a expectativa era de que a produção de Marlim se encerrasse em 2025 com a devolução”, diz a empresa.


Fronteira tecnológica


Segundo consultores, uma vantagem em termos de custo é perfurar novos poços onde já há infraestrutura. Além disso, a Petrobras está na fronteira de tecnologias para revitalizar campos, como as novas técnicas de sísmica 3D e 4D, que capta informações constantemente e permite conhecer a trajetória do petróleo no reservatório, o uso de inteligência artificial na reavaliação de estratégias e a reinjeção de gás e água para facilitar a extração.


Para Rodrigo Almeida, analista do Santander, projetos de revitalização estarão cada vez mais presentes no Brasil, na Petrobras e nas outras petroleiras. Esse esforço não era feito porque havia sempre uma nova fronteira de alta produtividade adiante.


Campos, por exemplo, levou a Petrobras a deixar campos terrestres em segundo plano e acabou passando pelo mesmo ocaso com a descoberta do pré-sal e o deslocamento da maior parte da produção para a Bacia de Santos nos anos 2000.


— Na Europa, a recuperação é maior pois é a única opção. Por isso as empresas desenvolveram técnicas para maior extração. Agora, vemos esse esforço aqui, para otimizar o que temos diante do impasse na Foz do Amazonas.


 


Bacia de Campos pode ter 25 novos blocos leiloados em 2025 / Seis áreas estão no polígono do pré-sal e serão concedidas no regime de partilha de produção. Outras 19 devem ser licitadas modalidade de concessão de oferta permanente- O Globo 3/11


Bruno Rosa


A Bacia de Campos, hoje com 62 áreas produtoras e outros 17 blocos em fase de exploração, tem novas áreas a serem descobertas. No leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP) que deve ocorrer no ano que vem, serão incluídos seis novos blocos, que estão dentro do polígono do pré-sal, sob o regime de partilha.


Além disso, a ANP aprovou na última quinta-feira a indicação de 19 blocos exploratórios na Bacia de Campos para eventual inclusão na Oferta Permanente de Concessão.


Segundo Roberto Ardenghi, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), a busca por mais petróleo na Bacia de Campos é um movimento de todas as grandes petroleiras.


Para ele, com as novas técnicas de reaproveitamento e gerenciamento de reservatórios, a produção nos campos pode subir dos atuais 450 mil barris diários para 800 mil nos próximos anos.


— Está cada vez mais raro encontrar novas reservas. A última grande descoberta foi o pré-sal, há dez anos. Infelizmente ainda não temos licença para a Foz do Amazonas. Então, faz sentido estratégico focar na Bacia de Campos. A Petrobras possui tecnologia para aumentar essa produção. Campos tem um petróleo mais viscoso, o que dificulta a extração. Por isso, a parcela recuperável é menor (cerca de 15%) em comparação com onde o petróleo é mais leve, como no pré-sal. Com as novas técnicas de estimulação, podemos ver o volume recuperável chegar a mais de 40% — diz.


Ardenghi ressalta que o fato de já haver infraestrutura e conhecimento das reservas ajuda a reduzir os custos de operar na região:


— Campos é relevante. Se não fosse, a ANP não colocaria em leilão.


 


PT tentou relatoria do Orçamento, mas aceitou LDO em negociação de apoio a Motta / Parecer da Lei Orçamentária Anual de 2026 deve ficar com União Brasil- Painel – Folha SP 3/11


Danielle Brant/ Ranier Bragon


O PT tentou negociar a relatoria da LOA (Lei Orçamentária Anual) de 2026 em troca do apoio ao candidato Hugo Motta (Republicanos-PB) na disputa pela presidência da Câmara, mas acabou tendo que aceitar a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), segundo integrantes do partido.


Durante as negociações, o PT foi informado de que a relatoria da LOA deve ficar com o União Brasil, embora o MDB ainda pleiteie o posto. Por isso, o partido aceitou relatar a LDO, que fixa os parâmetros para elaborar e executar o Orçamento do ano seguinte.


Neste ano, a relatoria da LDO e da LOA ficaram a cargo dos senadores Confúcio Moura (MDB-RO) e Angelo Coronel (PSD-BA), respectivamente —os dois projetos precisam ser votados até o fim do ano sob pena de o governo iniciar 2025 com limites à execução orçamentária.


Além da LDO, a negociação pelo apoio de Motta envolveu a indicação a uma vaga no TCU e também a avaliação do partido de que era necessário dar governabilidade ao presidente Lula (PT) em seus dois últimos anos de mandato.

Ailton Braga

  Hoje, 02/02/2026, saiu no Blog do IBRE da FGV, artigo meu em que faço análise da interação entre política fiscal e política monetária, a p...