terça-feira, 30 de dezembro de 2025

ECONOMIA E MODELOS TEÓRICOS: O MAPA NÃO É O TERRITÓRIO, MAS É ESSENCIAL

 




Introdução
A realidade econômica é um caos de variáveis: bilhões de pessoas tomando decisões simultâneas sob influências políticas, biológicas e sociais. Tentar entender tudo de uma vez é impossível. É aqui que entram os Modelos Teóricos. Um modelo é uma simplificação deliberada da realidade que foca no que realmente importa para responder a uma pergunta específica. Como um mapa, ele ignora detalhes inúteis (como cada árvore da rua) para mostrar o que é vital (o caminho para o destino).

Profundidade Conceitual Simples
Segundo Vasconcelos e Garcia, a construção de modelos baseia-se em abstração e lógica. Para que um modelo funcione, ele utiliza dois componentes fundamentais:

Hipóteses Simplificadoras: Para isolar o efeito de uma variável, o economista utiliza a cláusula Ceteris Paribus (do latim, "tudo o mais constante"). Por exemplo, ao estudar o efeito do preço sobre a demanda, assumimos que a renda e o gosto dos consumidores não mudaram naquele instante.
Racionalidade (Homo Economicus): A maioria dos modelos clássicos assume que os agentes são racionais e buscam maximizar sua utilidade ou lucro. Embora a Economia Comportamental hoje questione isso, essa hipótese é um "ponto de partida" necessário para criar modelos previsíveis.

A Validade de um Modelo
Um modelo não é julgado por ser "realista" — pois nenhum é —, mas por sua capacidade de previsão e explicação. Se um modelo de oferta e demanda prevê corretamente que o preço do café subirá após uma geada, ele é útil, mesmo que ignore as emoções individuais dos produtores de café.

Impacto no Dia a Dia
O pensamento modelado é a base da inteligência de negócios moderna:

Business Plans e Projeções: Todo plano de negócios é um modelo teórico. Você assume hipóteses sobre o mercado, custos e conversão para prever o futuro. O sucesso depende da qualidade das suas premissas.
Simulações de Cenários: Gestores utilizam modelos para responder perguntas "e se?" (What-if analysis). Se o câmbio subir 10%, o que acontece com a margem? O modelo permite testar o impacto sem precisar que a crise ocorra de fato.
Evitando a Paralisia por Análise: Modelos ajudam a filtrar o ruído informativo. Em um mar de dados (Big Data), o modelo teórico diz quais KPIs (indicadores) são a causa e quais são apenas consequência.

Conclusão
Dominar Modelos Teóricos é o que confere precisão e honestidade intelectual ao debate. Sem modelos, somos apenas observadores de eventos aleatórios; com modelos, tornamo-nos analistas capazes de identificar padrões e tendências. O perigo não está em usar modelos simplificados, mas em esquecer que eles são simplificações. O bom estrategista sabe quando seguir o mapa e quando olhar pela janela.

Reflexão Pro Seu Dia
No seu planejamento atual, qual é a hipótese principal (o seu Ceteris Paribus) que, se mudar, invalidaria todo o seu modelo de negócio para o próximo ano?

REFERÊNCIAS:
Autor: Fernando Alencar é estudante de Economia na Universidade Federal de Santa Catarina, com formação em Geopolítica Interdisciplinar pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Seu grande sonho é democratizar o entendimento da economia e proporcionar um conhecimento econômico acessível, evidenciando as conexões entre a economia e diversas outras áreas profissionais.

Livro: VASCONCELOS, Marco Antonio Sandoval de; GARCIA, Manuel Enriquez. Fundamentos de economia. 6. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019.

Economistas q constroem modelos. mas não entendem a economia

 



As universidades estão formando economistas que conseguem construir modelos complexos, mas não compreendem adequadamente a economia.


Um relatório recente da Rethinking Economics descobriu que os currículos de economia em 16 das principais universidades do Reino Unido priorizam ensinar os alunos a "pensar como economistas" em vez de ajudá-los a entender como a economia realmente funciona.

As descobertas são impressionantes:

• A crise climática e as questões socioecológicas estão amplamente ausentes dos currículos econômicos. 75% das universidades não ensinam economia ecológica; Em vez disso, quando questões de sustentabilidade ecológica são ensinadas, o dano ambiental é considerado algo que precisa ser precificado nos mecanismos de mercado.

• A educação em economia não aborda desequilíbrios históricos e contemporâneos de poder. 55% das universidades não oferecem ensino significativo sobre questões de escravidão histórica, colonialismo ou neocolonialismo. História e ética estão ausentes dessas discussões.

• A economia neoclássica dominante domina as teorias econômicas ensinadas. Dos 480 módulos teóricos considerados, 88,3% incluíam o pensamento econômico neoclássico mainstream com foco em indivíduos racionais e interessados em si mesmos. Eles são quase totalmente ensinados por meio de habilidades técnicas quantitativas.

• A economia é ensinada isoladamente de outras ciências sociais. A disciplina da economia deve estar inserida nas ciências sociais, e os estudantes devem ser incentivados a aprender em outras disciplinas como política, sociologia, geografia e história, mas, na maior parte, permanece isolada.

É justo dizer que os diplomas em economia, em sua maioria, se tornaram exercícios de formalismo matemático — distanciando-se cada vez mais dos problemas econômicos do mundo real e de outras ciências sociais, que normalmente consideram inferiores.

Como Ha-Joon Chang escreveu recentemente em um artigo de opinião no FT: "A economia hoje se assemelha à teologia católica da Europa medieval: uma doutrina rígida guardada por um sacerdócio moderno que afirma possuir a única verdade. Dissidentes são evitados. Os não economistas são orientados a 'pensar como economistas' ou a não pensar de jeito nenhum."

Meu ensaio mais popular de 2025 examinou a crescente crítica à economia convencional. Link nas respostas.

Fabio Gallo

 Fábio Gallo, no Estadão do sábado, 27/12/2025, sobre a curiosa polêmica que capturou as discussões sobre o futuro do país.


••••••••••


Enquanto a Síria é eleita o país do ano, nós ficamos presos à polêmica das sandálias Havaianas. A revista britânica The Economist elegeu o país do Oriente Médio como o que mais evoluiu em 2025, o que mais avançou em termos políticos, sociais e econômicos. A publicação não elegeu o “país mais rico” ou o “mais poderoso”, mas aquele que mais evoluiu com mudanças profundas em várias dimensões da vida nacional.


Nos âmbitos político e social, a queda do regime de Bashar al-Assad e o fim de mais de 13 anos de guerra civil foram pontos de inflexão dramáticos na história recente da Síria. Outro aspecto foi o retorno de três milhões de refugiados e a normalização da vida após o fim do conflito e o início da transição política. Com a queda do regime, houve afrouxamento de sanções ocidentais, o que permitiu sinais de recuperação econômica - mesmo que ainda frágil.


O artigo também menciona a Argentina como um dos países que mais avançaram em 2025 por razões econômicas - com inflação em forte queda, redução da pobreza e reformas difíceis de implementar.


Caso aplicássemos o mesmo racional da revista, como seria descrita a evolução do Brasil em 2025? O País mostrou resiliência institucional, afinal mantivemos a democracia estável, instituições funcionando, a despeito dos arranhões do Supremo Tribunal Federal (STF) com alguns de seus ministros entrando em terreno para lá de pantanoso. Além disso, avançamos na reforma tributária e na transição energética.


O Brasil permanece uma democracia tumultuada, mas resiliente - e isso, em 2025, não foi trivial. Tivemos melhorias social e econômica moderadas, com inflação mais baixa, mercado de trabalho forte, investimentos na economia verde, mas ainda lidamos de forma temerária com a questão fiscal.


A COP-30 e acordos com a UE e China mostram um país que está aprendendo a usar seu peso - e suas florestas - como instrumentos de diplomacia. Mas, paradoxalmente, o País continua emocionalmente instável. Permanece marcado pela desconfiança estrutural, pela insegurança, pela crônica desigualdade e por um debate público inflamável.


Nenhum exemplo ilustra melhor essa contradição do que a polêmica das Havaianas. Uma campanha publicitária espirituosa protagonizada por Fernanda Torres desencadeou uma tempestade ideológica. Num país que aspira maior protagonismo global, a interpretação de um gesto metafórico virou debate nacional. A controvérsia, pequena, revela falha maior: a incapacidade de construir consenso mesmo em torno de expressões culturais simples.


O Brasil melhora - mas segue brigando com o próprio reflexo. Enquanto precisamos discutir produtividade, educação e crescimento, o pé que se usa para começar o ano vira questão nacional.

Josué Leonel

 *Dólar tem Ptax em meio a saídas; emprego e fiscal: Mercado Hoje*


Por Josue Leonel

(Bloomberg) -- O mercado local encerra o ano com foco no

câmbio, em sessão que define a Ptax de fechamento de dezembro em

meio às remessas de fim de ano, que mantêm o dólar pressionado.

Moeda subiu ontem ao nível R$ 5,57, em um ambiente de liquidez

reduzida, embora deva encerrar o ano com a maior queda desde

2016 - diante do corte dos juros do Fed e carry vantajoso.

Ibovespa também ruma ao melhor ano desde 2016. Agenda doméstica

traz dados que podem influenciar a leitura sobre atividade e

juros, com destaque para taxa de desemprego de novembro e o

Caged, além do resultado primário do setor público, após déficit

do governo central maior que o esperado.

No exterior, os mercados operam sem direção definida na

reta final do ano, em meio à baixa liquidez, enquanto as bolsas

globais caminham para o terceiro ano consecutivo de alta.

Investidores aguardam a ata do Fomc e ADP. No noticiário

corporativo, Azul divulga Ebitda ajustado de R$ 621,8 milhões em

novembro. Em Brasília, PF colhe depoimentos relacionados ao caso

Master e Jair Bolsonaro está estável após novo procedimento.

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*T

Às 7:33, este era o desempenho dos principais índices:

S&P 500 Futuro estável

STOXX 600 +0,4%

FTSE 100 +0,4%

Nikkei 225 -0,4%

Shanghai SE Comp. estável

MSCI EM +0,1%

Dollar Index -0,1%

Yield 10 anos +0,6bps a 4,116%

Petróleo WTI +0,2% a US$ 58,2 barril

Futuro do minério em Singapura -0,1% a US$ 105,7

Bitcoin +0,8% a US$ 87880,94

*T

Internacional

Mercados globais operam sem direção no fim do ano

* Bolsas internacionais seguem sem tendência definida na reta

final de 2025, em ambiente de baixa liquidez e ausência de

drivers relevantes

* Ainda assim, bolsas globais caminham para o terceiro ano

consecutivo de alta

** MSCI World acumula valorização próxima de 21% em 2025, no

melhor desempenho desde 2019

* No câmbio, o yuan onshore se fortaleceu abaixo do nível de 7

por dólar pela primeira vez desde 2023, enquanto o dólar opera

em leve queda frente a uma cesta de moedas

* Agenda do dia tem como principal destaque a divulgação da ata

da reunião do Fomc de dezembro, às 16:00, após o Fed realizar o

terceiro corte consecutivo de juros e sinalizar apenas uma

redução adicional em 2026

* Entre os dados previstos estão indicador de emprego privado

ADP e o PMI Chicago; China divulga PMIs à noite

* Nos mercados de commodities, prata e ouro ensaiam recuperação

após a forte correção recente, enquanto o cobre segue em alta e

caminha para a mais longa sequência de ganhos desde 2017,

sustentado pelo dólar mais fraco e preocupações com oferta

* Petróleo se mantêm em leve alta, com o mercado equilibrando

tensões geopolíticas envolvendo Venezuela, Rússia e Irã contra

preocupações com excesso de oferta global


Para acompanhar

Ptax no câmbio em meio à pressão por remessas; emprego e

fiscal

* Mercado de câmbio define hoje a Ptax o encerramento de

dezembro

* Ativos começaram ontem a última semana do ano pressionados,

com dólar e juros futuros em alta e Ibovespa em queda, em sessão

de liquidez tipicamente limitada

** Moeda fechou no nível dos R$ 5,57 em meio a remessas de

lucros, que levam o casado de dólar a ficar negativo pela

primeira vez em mais de um ano, o que sugere aumento da demanda

pela moeda no mercado à vista

*** Juros futuros curtos subiram e acompanham pressão no câmbio,

enquanto taxas mais longas operam estáveis

*** Ibovespa caiu em linha com bolsas em NY, mas ruma ao melhor

desempenho anual desde 2016; da mesma forma, dólar caminha para

maior maior baixa anual desde 2016

* IBGE divulga às 9:00 taxa de desemprego nacional de novembro,

estimativa 5,4%, anterior 5,4%

* Governo divulga Caged às 14:00; estimativa de criação de

76.650 empregos em novembro, anterior 85.147

* BC divulga às 8:30 resultado primário do setor público

consolidado de novembro; estimativa -R$ 14,3 bi, anterior +R$

32,4 bi

** Déficit primário do governo central divulgado ontem ficou em

R$ 20,2 bilhões, ante estimativa de resultado negativo de R$

13,2 bilhões em novembro

* Tesouro Nacional divulga às 14:30 o relatório mensal da dívida

de novembro

* Está previsto o vencimento de R$ 176,385 bilhões em LTNs em 1

de janeiro

* Mandatos dos diretores do Banco Central de Política Econômica,

Diogo Guillen, e de Organização do Sistema Financeiro e de

Resolução, Renato Gomes, terminam no fim do ano


Outros destaques

PF colhe depoimentos no caso Master; Bolsonaro estável

* A partir das 14:00, Polícia Federal colhe os depoimentos do

presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro, do ex-presidente do

BRB Paulo Henrique Costa e do diretor do Banco Central (BC),

Ailton de Aquino

* Após a coleta dos depoimentos, se a PF entender necessário

procederá fazer a acareação

* Tudo será acompanhado por um juiz auxiliar do gabinete do

ministro do STF, Dias Toffoli, e por um membro do Ministério

Público

* Jair Bolsonaro está em condição estável após um procedimento

para bloquear o nervo frênico e controlar uma crise de soluços,

disseram seus médicos a repórteres nesta segunda-feira.

** Bolsonaro ficará em observação por 48 horas e deverá

permanecer no hospital até quinta-feira, disseram os médicos

** Ele deverá ser submetido a uma endoscopia na terça ou quarta-

feira


Empresas

Azul, Localiza

* Azul diz que Ebitda ajustado de novembro foi de R$ 621,8 mi

* Localiza aprova criação de ações preferenciais e bonificação

* Blau aprova aumento de capital com bonificação ações de R$ 400

mi

* Moura Dubeux aprova dividendo de R$ 351,7 mi

Pedro Fernando Nery

 *A economia precisa de menos escândalos?*


Instabilidade política pode ser pior para o crescimento do que a própria corrupção


Pedro Fernando Nery


O fim do ano é um tempo de reflexões. Época do reencontro, da acareação. Pensamos nos erros e nos acertos. Porque há dias ruins, e há Dias Toffoli.


Recebi esse chiste no X. Há alguns meses fiz lá uma pergunta. Toffoli só foi mencionado em gracejos assim. A pergunta era “qual é o melhor ministro do STF?”. Houve mais de quinhentas respostas.


Lembraram ministros atuais ou que já saíram. Eloquentes ou discretos, progressistas ou conservadores. Mas ninguém votou em Toffoli.


Imediatamente pensei no tricolor que dizia que toda unanimidade é burra. Recordei dos políticos ostracizados que não aceitaram surfar no bolsonarismo nem implorar por validação da esquerda. Pensei em polarização e cancelamentos. Lembrei dos meus recreios no 2º ano do ensino médio. Pensei que “Sozinho como Toffoli” poderia ser uma expressão.


Se as cortes constitucionais foram pensadas para serem contramajoritárias, Toffoli é contraunanimitário. Há os que não gostam dele porque atrapalhou a ida de Lula ao enterro do irmão, porque anulou decisões da Lava Jato depois, porque tentou centralizar a investigação do INSS outro dia, porque decretou sigilo no caso Master agora.


E se Toffoli for quem está certo? Vamos fazer o exercício. Precisamos, afinal, de tantos escândalos? O Peru troca de presidente toda semana e não parece ir muito bem. Você me diz que o crescimento econômico precisa de boas instituições. Mas precisa de moralismo?


A Coreia está entre os piores em corrupção entre os ricos da OCDE, a Polônia entre os países da União Europeia e a China é a pior entre as grandes economias do mundo. São as histórias de crescimento econômico do século 21.


A impunidade é subestimada como ingrediente do crescimento, porque é difícil estabilidade econômica sem estabilidade política. Reza a lenda que com o fim da União Soviética a economia parou em alguns lugares porque não se sabia mais a quem subornar.


E se as empresas grandes atraem melhor capital humano que a média do setor público? A regulação será desenhada pelos cérebros “piores” e prejudicará o avanço natural da produtividade em emergentes com Estado grande. Qual a melhor forma do privado transmitir rapidamente a melhor informação ao público? Talvez seja por mecanismos de mercado, que são ilegais.


Para o regulador da corrupção, fica a difícil tarefa da calibragem. A corrupção endêmica é péssima, mas derrubar o único sistema de tomada de decisões da economia também é. Alguém precisa ter coragem para fazer um incêndio controlado.


Toffoli seria o meme do silent savior, o soldado que está apanhando enquanto as crianças dormem tranquilas na madrugada. Toffoli não é o herói que o Brasil queria, Toffoli é o herói que o Brasil merece.



https://www.estadao.com.br/economia/pedro-fernando-nery/economia-precisa-menos-escandalos/

Bankinter Portugal Matinal

 Análise Bankinter Portugal 


NY -0,35%, US TECH -0,50%, US SEMIS -0,24%, UEM +0,10% ESPAÑA +0,1% VIX +4,41% +0,6PB. BUND 2,83%, T-NOTE 4,11%, SPREAD 2A-10A USA=+65,5PB O10A, ESP 3,25%, ITA 3,50%. EURIBOR 12M 2,26% (FUT.12M 2,39%). USD 1,177. JPY 183.7. OURO 4.371$. BRENT 61,8$. WTI 57,96$. BITCOIN +0,2% (87.413,1$). ETHER +0,4% (2.946,5$).


SESSÃO: Ontem realização de lucros em Nova Iorque (-0,3%) e Europa praticamente plana. Tudo isto numa sessão sem grandes referências macroeconómicas, com o foco concentrado no frente geoestratégico: (i) Continuam as negociações para um acordo de paz entre Rússia/Ucrânia, mas as cedências territoriais permanecem o ponto de discórdia. Além disso, ontem a Rússia denunciou um suposto atentado contra a residência de Putin por parte da Ucrânia e avisou que revê a sua posição negociadora. Neste contexto, parece complicado alcançar um acordo a curto prazo. (ii) Os EUA intensificam os ataques na Venezuela. Trump afirma ter intervindo um cais supostamente usado para narcotráfico, na primeira operação terrestre em Venezuela reconhecida pelos EUA. E (iii) a China realiza manobras militares perto de Taiwan. Tudo isto levou a algum refúgio em obrigações: T-Note -1,8pb até 4,11%, Bund -3,2pb até 2,83%, embora surpreendentemente o ouro caísse -4,4% até 4.332$, após atingir máximos na semana passada (+18% na semana, +31% no mês).


Hoje nova jornada de transição, sem grandes referências numa semana a meio gás. Principalmente porque amanhã (Passagem de Ano) a Europa fecha às 14h e na quinta-feira (Ano Novo) não há mercados. Provavelmente as Minutas da Fed (reunião de 10 de dezembro) de hoje (20:00h) serão o mais relevante, embora seja pouco provável que tragam novidades. Na última reunião, a Fed cortou -25pb até 3,50%/3,75%, reveriu em alta as previsões de crescimento e anunciou a compra de Letras do Tesouro para manter liquidez suficiente no sistema. Agora o foco está em saber quem será o sucessor de Powell a partir de maio. O anúncio pode ser a surpresa da semana. Kevin Hassett, Diretor do Conselho Económico da Casa Branca, continua o favorito nas sondagens, embora Waller ou Warsh também estejam na lista. Em qualquer caso, será alguém inclinado a continuar a baixar as taxas, pelo que estimamos 3 cortes de taxas em 2026 — sempre que o emprego se deteriore mais do que o antecipado — até níveis de 2,75%/3,00%.


Em conclusão, hoje nova jornada de transição, com lateralização na ordem de -0,2%/+0,2%, volumes reduzidos e alguma consolidação, com o olhar já posto em 2026.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Carlos Alberto Sardemberg

 O exemplo que vem do Chile


A coluna de Carlos Sardenberg, publicada em O Globo nesta segunda-feira, me fez sentir inveja do Chile — um país que eu já admirava pela Concertación Democrática, responsável pela construção de uma democracia estável e por um bom desempenho econômico no período pós-Pinochet.


Os partidos da Concertación, pilares dessa estabilidade, foram destroçados, assim como o partido da centro-direita tradicional, pela onda antipolítica que acabou desaguando na eleição de Kast — da mesma forma que, no Brasil, a antipolítica levou à eleição de Bolsonaro.


Mas não foi isso que me fez, hoje, voltar os olhos para os Andes e sentir inveja do Chile. A coluna de Sardenberg informa que, entre outubro de 2024 e dezembro de 2025, três ministros da Suprema Corte chilena foram afastados de seus cargos: dois pelo Senado — um deles por unanimidade — e outro pela própria Corte.


Aí surge o primeiro grande diferencial do Chile quando comparado a nós, brasileiros. No país de Salvador Allende e Gabriel Boric, para afastar um magistrado não é necessário provar que ele — ou ela — praticou corrupção, nem que tomou decisões com o objetivo explícito de favorecer parentes ou amigos. Basta a aparência de parcialidade, além da existência de relações familiares ou pessoais impróprias.


Foi com base nesse critério que, em outubro de 2024, a própria Suprema Corte destituiu a juíza Angela Vivanco, que havia sido vice-presidente do tribunal. O motivo: relações impróprias com o advogado Luis Hermosilla — um dos mais famosos do país, com trânsito em governos de esquerda e de direita, além de membros do Poder Judiciário. A juíza afastada não foi flagrada negociando diretamente qualquer decisão. Ainda assim, o tribunal considerou inadmissível sua relação com o advogado, que, por meio dela, tinha acesso privilegiado ao que se passava na Corte.


O segundo membro afastado — esse pelo Senado, por pequena diferença de votos — foi o juiz Sérgio Muñoz. Esse episódio doeu na alma de muitos chilenos. Muñoz era um magistrado comprometido com os direitos humanos e a defesa do meio ambiente em várias de suas decisões. Não houve qualquer acusação que colocasse em dúvida sua honestidade pessoal. O motivo do afastamento foi o fato de sua filha, advogada, ter trabalhado para empresas envolvidas em grandes questões econômicas, inclusive regulatórias.


O terceiro caso, também por meio de uma “acusação constitucional”, resultou no afastamento, pelo Senado e por unanimidade, do juiz Diego Simpértingue. Ele e sua esposa foram flagrados pela imprensa em um cruzeiro no Mediterrâneo na companhia do advogado de uma multinacional com causas na Suprema Corte. O juiz perdeu o cargo porque não se declarou impedido de participar do julgamento de alguns desses processos.


Chego à conclusão de que o Chile nos humilha. Aqui, o Supremo Tribunal Federal alterou recentemente o entendimento sobre o impedimento de juízes — incluindo ministros — julgarem casos em que uma das partes seja cliente de escritório de advocacia no qual atue parente até o terceiro grau ou o cônjuge. A decisão ocorreu no contexto de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) ajuizada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) contra dispositivo do Código de Processo Civil (CPC).


Tão ou mais grave: membros do Supremo participam de eventos financiados por empresas com causas no STF e acham isso absolutamente normal. Também não veem problema em pegar caronas em jatinhos particulares, mesmo quando neles estão advogados de causas que irão julgar.


Quando o Supremo esboça medidas para delimitar de forma mais rígida a fronteira entre o público e o privado, interesses corporativistas incrustados na instância máxima do Poder Judiciário se sublevam e tentam boicotá-las. É o que assistimos agora diante da proposta do presidente do STF, ministro Edson Fachin, de o Poder Judiciário adotar um código de conduta para seus membros. Fachin é uma ilha de postura impoluta em uma Corte na qual alguns de seus integrantes não observam o decoro e o recato necessários.


Em certo sentido, o STF é também um espelho da sociedade. A maioria de nós acha natural — ou se acostumou, sem bradar — com práticas permissivas que, no Chile, gerariam um escândalo nacional. Nos acomodamos e não nos engajamos em boas causas, como a bandeira levantada por Fachin.


Para agravar, parte de nós distorce valores e transfere responsabilidades quando a jornalista Malu Gaspar traz à luz fatos que precisam ser passados a limpo.


De fato, é para morrer de inveja do Chile.

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