domingo, 21 de dezembro de 2025

O mapa da volatilidade do câmbio em anos eleitorais

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_No momento, mesmo após pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, níveis atuais de volatilidade implícita permanecem baixos, segundo a Jubarte Capital_


Por Gabriel Roca, Valor — São Paulo


Em um país como o Brasil, onde normalmente os ativos financeiros possuem correlação positiva — isto é, se movem em bloco na mesma direção —, a volatilidade implícita do câmbio pode ser um instrumento útil para se analisar como o mercado incorpora as informações sobre um evento futuro e incerto, como as eleições presidenciais. Segundo estudo realizado pela Jubarte Capital, historicamente a volatilidade da moeda brasileira tende a aumentar entre três e seis meses antes do pleito e, à medida que o dia da votação se aproxima, crescem os chamados “riscos de saltos” caso a disputa se mostre competitiva.


“A volatilidade implícita do real tem sido uma das primeiras a reagir a diversos riscos eleitorais”, afirma o chefe de pesquisa da Jubarte Capital, Benjamin Mandel.


De acordo com o profissional, há, na literatura de finanças, diversas maneiras de modelar como o risco eleitoral se incorpora à volatilidade. “A antecipação é o modelo mais simples, pois assume um aumento contínuo da volatilidade à medida que o evento se aproxima, permitindo também que a volatilidade reaja mais fortemente a más notícias do que a boas”, aponta.


Já a “intensidade de saltos” se refere à probabilidade que os mercados atribuem a um choque discreto no preço de um ativo e é geralmente considerada uma variá́vel ao longo do tempo. “Esse conceito tem a característica realista de permitir que a volatilidade aumente antes mesmo de o salto ocorrer, simplesmente como função do acirramento da disputa eleitoral”, explica.


Em um ano eleitoral típico, aponta Mandel, a volatilidade implícita do câmbio começa a se elevar antes da eleição presidencial, em vez de disparar apenas no momento do voto. Esse aumento da volatilidade, explica, costuma ser “convexo”, o que significa que a volatilidade cresce a uma taxa cada vez maior quanto mais equilibrada está a disputa entre os candidatos.


“À medida que a eleição se aproxima, o foco do mercado migra para o risco de saltos, à medida que aumenta a incerteza em torno de um resultado binário. Em suma, a volatilidade eleitoral no Brasil é impulsionada por uma combinação de antecipação, convexidade e risco de saltos”, aponta.


Ao observar para as disputas passadas, Mandel lembra que cada eleição acaba apresentando uma característica própria. “Em 2006 e 2010, por exemplo, a volatilidade implícita do real permaneceu em um padrão lateral e irregular até cerca de cinco meses antes da eleição, quando apresentou um breve pico e depois arrefeceu”, aponta.


Segundo ele, as transições de liderança à época — de Lula para Lula e de Lula para Dilma — continham elementos de risco de evento, mas, no fim das contas, apresentavam risco limitado de cauda em termos de política econômica. “O resultado foi uma baixa precificação de antecipação e de risco de saltos nos mercados de opções entre três e seis meses antes do pleito”, afirma.


Já em 2018, por outro lado, a eleição foi vista como uma ruptura de regime mais clara entre Bolsonaro e os governos anteriores; de forma semelhante a eleições passadas, a volatilidade começou a subir seis meses antes do evento, mas continuou acelerando de maneira convexa quase até o primeiro turno, à medida que as pesquisas se tornaram mais apertadas e o risco de saltos aumentou — atingindo um pico de 2,5 desvios-padrão.


“Em 2022, com dois candidatos amplamente conhecidos, a alta da volatilidade implícita foi menos convexa e mais persistente do que em 2018, mas ainda assim alcançou níveis comparáveis no dia da eleição, conforme as pesquisas se estreitaram”, lembra o profissional.


Mandel nota que o lançamento da pré-candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), há duas semanas, causou um aumento da incerteza política e da especulação de que a volatilidade eleitoral de mercado já esteja atualmente em curso.


“Ainda assim, os níveis atuais de volatilidade implícita permanecem baixos e, a mais de dez meses da eleição, isso ocorreria bem antes do padrão típico de alta da volatilidade, que costuma se materializar entre três e seis meses antes do pleito. Quando esse momento chegar, os padrões observados em eleições recentes sugerem alta convexidade e aumento do risco de saltos caso as pesquisas indiquem uma disputa apertada”, conclui.

Mercado de carnes

 *Carnes/EUA: Mercado de proteína animal contribui com US$ 57,3 bi para a economia, aponta estudo*


Por Jean Mendes


São Paulo, 21/12/2025 - A indústria de processamento de carne e aves contribui com US$ 57,3 bilhões para a economia dos Estados Unidos e fornece 584 mil empregos, segundo pesquisa do The Meat Institute (Instituto da Carne) dos EUA, divulgado ontem. O estudo também informa que toda a indústria de carne e aves, incluindo produção pecuária, alimentação animal, fabricação de equipamentos, transporte e outros, contribui com US$ 347,7 bilhões para a economia dos EUA, gerando cerca de 3,2 milhões de empregos.


"A indústria avícola e de carne é uma parte crítica e crescente da economia dos EUA, com uma importância descomunal para as economias rurais", disse a presidente e CEO do Meat Institute, Julie Anna Potts.


O estudo também mostra que a indústria de carne e aves paga US$ 12,5 bilhões em impostos locais, estaduais e federais nos EUA e tem um total de vendas na casa dos US$ 311 bilhões. A pesquisa fez um levantamento indireto dos setores, revelando que a contribuição econômica gerou cerca de US$ 77 bilhões em impostos.


"Nossas empresas associadas são muitas vezes os maiores empregadores em suas comunidades rurais, e seu impacto vai além dos empregos. Além dos impostos que pagam, elas investem em suas comunidades com generosas doações de alimentos e fazem contribuições financeiras e outras insubstituíveis para infraestrutura local, como moradia, espaços comunitários, escolas e cuidados infantis", diz Potts, em nota.


Contato: jean.mendes@broadcast.com.br


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Um retrato claro de poder econômico em uma imagem

 


Um retrato claro de poder econômico em uma imagem.


Poucos grupos concentram dezenas de marcas que fazem parte do dia a dia do consumidor. No supermercado parece concorrência. Na estrutura real, é escala, domínio de canal e eficiência financeira.

A lógica é:

• Marcas diferentes para públicos diferentes
• Um único grupo capturando volume, margem e recorrência
• O consumidor escolhe a marca, o capital escolhe o grupo

Quem entende essa dinâmica para de competir por preço e começa a competir por posicionamento.

No jogo grande, vantagem competitiva vem de portfólio, distribuição e percepção.

Negócio não é ter uma marca forte.
É ter várias, ocupando todos os espaços.

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Mercados emergentes entram em 2026 com expectativas elevadas após ano forte

O que pode estar em andamento é uma mudança mais estrutural nos fluxos globais de investimento, com gestores buscando diversificar para além dos EUA


Por Bloomberg


Os mercados emergentes estão prestes a iniciar 2026 como uma das apostas preferidas de Wall Street, com gestores de recursos apostando que um novo ciclo de entrada de investimentos está em curso. A corrida de capital para o setor neste ano a melhor desde 2009 considerando todos os ativos de mercados emergentes — é um sinal de que mais investidores estão voltando a alocar recursos em uma classe que ficou em segundo plano após anos de desempenho morno.


Pela primeira vez desde 2017, as ações de mercados emergentes superam as dos EUA; o diferencial entre os rendimentos dos títulos emergentes e os dos Treasuries americanos caiu para o menor nível em 11 anos; e estratégias de carry trade — que basicamente envolvem tomar empréstimos em ativos de menor rendimento para financiar compras em ativos de maior retorno — registraram os melhores ganhos desde 2009.


O entusiasmo pelo setor ficou evidente na recente conferência de investimentos do Bank of America em Londres. O banco reuniu 300 investidores em 170 encontros e encontrou praticamente nenhum pessimismo em relação aos mercados emergentes. O veredicto de David Hauner, chefe de renda fixa emergente do BofA, foi direto: “Os pessimistas de emergentes entraram em extinção”.


O que pode estar em andamento é uma mudança mais estrutural nos fluxos globais de investimento. Gestores de portfólio buscam diversificar para além dos EUA e, ao mesmo tempo, se mostram cada vez mais atraídos pelos avanços dos países em desenvolvimento na redução do endividamento e no controle da inflação.


É uma reviravolta que poucos previram. Até pouco tempo atrás, investidores evitavam essa classe de ativos após anos de retornos fracos e com o temor de uma guerra comercial liderada pelos EUA. Gestores tinham dificuldade para vendê-la a clientes, enquanto fundos hedge diziam enxergar as melhores oportunidades justamente em apostar contra os mercados emergentes.


“2025 foi um ponto de inflexão”, afirmou Sammy Suzuki, chefe de ações de mercados emergentes da AllianceBernstein, em Nova York. “Há um ano, a pergunta era se os mercados emergentes eram sequer investíveis, mas isso já não é mais algo que ouvimos.”


*Mais espaço para alta*


Bancos como JPMorgan Chase & Co. e Morgan Stanley se juntaram ao coro otimista, prevendo que os mercados emergentes se beneficiarão da fraqueza do dólar e do boom de investimentos em inteligência artificial. O JPMorgan projeta até US$ 50 bilhões em entradas em fundos de dívida emergente no próximo ano.


“Uma de nossas melhores ideias continua sendo manter dívida local de mercados emergentes”, disse Bob Michele, chefe global de renda fixa do JPMorgan Asset Management. “Devemos ter um pouco de valorização de preços, receber o carry e acreditamos que as moedas emergentes ainda têm algum potencial de alta.”


O Morgan Stanley também recomenda que clientes mantenham títulos em moeda local e aumentem posições em dívida emergente denominada em dólar. O BofA espera que os títulos emergentes em moeda forte repitam os retornos de dois dígitos deste ano.


Um fator-chave pode ser o posicionamento: apesar da valorização recente, os fluxos de investimento ainda são relativamente modestos. ETFs dos EUA focados em ações emergentes absorveram quase US$ 31 bilhões em 2025, segundo estimativas da Strategas Securities. Fundos de dívida emergente captaram mais de US$ 60 bilhões, de acordo com dados da EPFR Global compilados pelo BofA — mas isso vem após saídas de US$ 142 bilhões nos três anos anteriores. Ou seja, os mercados emergentes ainda estão sub-representados nos portfólios globais.


“O ano marcou o retorno dos alocadores de ativos após um período brutal de cinco anos”, disse Todd Sohn, estrategista sênior de ETFs e análise técnica da Strategas, em Nova York. “Muitos perceberam que estavam excessivamente expostos a ações americanas de grandes empresas de crescimento e buscaram diversificação global.”


Enquanto isso, a participação dos mercados emergentes nos principais índices globais de ações e títulos segue em alta. As ações ganharam mais de um ponto percentual de peso em relação aos mercados desenvolvidos, aproximando-se de 13% no índice Bloomberg World Large & Mid Cap, enquanto a dívida emergente também aumentou sua participação no Bloomberg Global Aggregate Total Return Index.


Para Rajeev De Mello, da Gama Asset Management, os investidores finalmente estão voltando a se engajar com os mercados emergentes, mas ainda há espaço para avançar rumo a um “sobrepeso mais significativo”.



*A questão do dólar*


A recuperação deste ano pode estar mascarando vulnerabilidades da classe de ativos. A China, presa a um ciclo deflacionário, pode representar um desafio ao exportar excesso de capacidade para outros países em desenvolvimento, pressionando as indústrias locais.


Mas o maior teste está no dólar. A queda de 8% da moeda americana neste ano ajudou a impulsionar os ativos emergentes, mas muitos acreditam que ela pode se recuperar caso o Federal Reserve entregue menos cortes de juros do que o esperado. Estrategistas do Citigroup, por exemplo, aconselham clientes a comprar apenas ativos emergentes capazes de resistir a uma eventual valorização do dólar.


Ainda assim, o banco projeta retornos totais de 5% para os títulos emergentes no próximo ano. Michele, do JPMAM, também mantém posições otimistas em ívida emergente; ele espera que os rendimentos reais “muito elevados” continuem atraindo investidores mesmo em um cenário de dólar mais forte.


Por ora, o dinheiro segue entrando: fundos de dívida emergente captaram US$ 4 bilhões na semana encerrada em 17 de dezembro, o maior fluxo semanal desde julho. E, se os mercados emergentes resistirem a mudanças no dólar e na política do Fed, investidores mais cautelosos podem se convencer de que uma realocação estrutural está de fato em curso, segundo Suzuki, da AllianceBernstein. “Essa incerteza oferece aos investidores uma janela de oportunidade para entrar”, disse ele. “Quando todos acreditarem nisso, pode ser tarde demais.”


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O Homem Que Venceu o Tempo e o Mercado

Ninguém quer ficar rico devagar, mas ele quis

Um marco histórico está para acontecer no mercado financeiro: Warren Buffett vai se aposentar aos 95 anos.

2025 deve ser o último ano de atuação ativa de Warren Buffett como CEO e chairman da Berkshire Hathaway, a lendária firma de investimentos do meio-oeste americano. Isso é relevante para o mercado financeiro não apenas porque se encerra a carreira do maior investidor da história, mas também porque se encerra uma forma específica de estar no mundo, de pensar o dinheiro, o tempo e a própria ideia de sucesso, que parece cada vez mais rara. A Carta de hoje é baseada nas impressões do investidor Seth Klarman sobre o “Oráculo de Omaha”, como ficou conhecido Buffett.

Num ambiente financeiro dominado por velocidade, narrativas, vaidade intelectual e uma ansiedade quase patológica por novidade (quem leu “Flash Boys”, de Michael Lewis, vai lembrar da disputa por quem ficava à menor distância da bolsa de valores e quem tinha os cabos ópticos de transmissão de ordens mais rápidos…), Buffett construiu sua fortuna fazendo algo “banal”: comprando negócios bons, pagando um preço razoável e esperando. Esperando por anos, às vezes por décadas… Esperando enquanto o mundo gritava, corria, se desesperava ou se apaixonava por modas passageiras.

Sua genialidade era silenciosa, quase provinciana, profundamente enraizada numa ética de trabalho, numa curiosidade constante e numa capacidade rara de não se distrair com aquilo que não importava. Ele nunca foi o arquétipo do gênio performático: não era um artista, um inventor, um visionário carismático de palco, um showman à la Trump. O próprio Buffett, inclusive, sempre descreveu o que fazia da maneira mais honesta possível: “investir é simples, mas não é fácil”.

Milhões de pessoas compram e vendem ações todos os dias, mas nenhuma fez isso melhor, de forma tão consistente e por tanto tempo quanto Buffett. E a parte mais surpreendente dessa história é justamente que não houve truque, não houve atalho, não houve genialidade mística: houve método, temperamento e uma relação quase filosófica com o tempo. O “Value investing” levado à cabo pelo menino disciplinado do meio-oeste americano.

Buffett começou cedo: aos 11 anos, comprou sua primeira ação. Ainda adolescente, vendia jornais, amendoins em estádios, produzia guias de apostas de corridas de cavalo e, aos 17, juntou dinheiro suficiente para comprar máquinas de pinball e instalou elas em barbearias, criando uma pequena máquina de fluxo de caixa antes mesmo de saber nomear esse conceito.

O ponto de inflexão veio quando ele encontrou Benjamin Graham, na Universidade de Columbia. Graham ensinava algo que hoje, em um mercado habitado por firmas de HFT, parece quase heresia: ações representam frações de negócios reais, e o mercado, apesar de parecer sofisticado, erra o tempo todo. Para Graham, preço é o que você paga e valor é o que você recebe. E Buffett não apenas aprendeu isso, ele internalizou o ensinamento e utilizou como norte nas suas decisões de investimentos.

“O Investidor Inteligente”: a Bíblia dos value investors

Quando abriu sua firma de investimentos, ainda jovem, Buffett parecia enxergar com nitidez algo que a maioria só aprende depois de errar muito: se você consegue identificar bons negócios e permanecer fiel a eles por tempo suficiente, os juros compostos fazem o trabalho pesado por você. Desde cedo, ele se comprometeu a operar dentro do seu círculo de competência, recusando a tentação de entender tudo e preferindo entender profundamente poucas coisas (algo diametralmente oposto à moda do “jalecos de especialistas” que as redes sociais geram nos dias atuais, não é mesmo?).

A compra da Berkshire Hathaway, originalmente uma empresa têxtil decadente, foi tida como um erro clássico de value investing: era um ativo barato, mas estruturalmente ruim. Ainda assim, foi desse erro que nasceu uma das estruturas de capital mais bem-sucedidas da história: Buffett transformou a Berkshire num veículo de capital permanente, alavancado por seguradoras e pelo conceito de float.

Float é um dinheiro que não é exatamente seu, mas que pode ser investido enquanto você espera o dia de honrar compromissos futuros. Esse detalhe técnico, aparentemente trivial, foi decisivo: o float permitiu a Buffett investir com horizonte longo, sem pressão de resgates, sem necessidade de agradar cotistas trimestralmente e sem a ansiedade típica do mercado. Com isso, ele construiu um conglomerado que reúne ferrovias, seguradoras, empresas de energia, indústrias e participações relevantes em empresas como Apple, Coca-Cola e American Express.

Buffett concentrou quase toda a sua riqueza em um único veículo: não diversificou para parecer sofisticado e diversificou apenas quando fazia sentido econômico. Para ele, diversificação excessiva sempre foi, no fundo, uma confissão de ignorância. Daí, inclusive, nasce uma de suas metáforas mais famosas: o cartão de 20 investimentos para toda a vida. Se você soubesse que só poderia tomar 20 decisões realmente importantes, pensaria com muito mais cuidado antes de agir e, quando agisse, faria isso com convicção. Buffett esperava a onda perfeita, e quando ela vinha, entrava com tudo, de corpo e alma.

Esse comportamento, porém, exige algo que é pouco discutido: temperamento. Value investing não é apenas técnica, é personalidade. Buffett comprava mais quando os preços caíam, sentia-se confortável quando os outros estavam em pânico, não buscava consenso e desconfiava profundamente quando suas ideias se tornavam populares demais. Enquanto outros perseguiam a disrupção, ele observava retorno sobre capital, geração de caixa e vantagens competitivas sustentáveis.

Buffett nunca tentou ficar rico rápido: não porque fosse moralmente superior, mas porque entendeu que ir devagar, de forma consistente, era mais seguro e, no fim, infinitamente mais lucrativo. O gráfico de sua riqueza ao longo do tempo é a ilustração perfeita do poder dos juros compostos: uma curva que sobe lentamente no início e, depois, quase desafia a intuição humana.

Buffett é paciente e entendeu que o tempo é o fator exponencial da riqueza

Durante décadas, Buffett foi a prova viva de que os mercados não são perfeitamente eficientes: enquanto teorias acadêmicas insistiam que ninguém poderia bater o mercado de forma consistente, ele o fez por quase três quartos de século. A reação da academia foi curiosa: tratá-lo como uma exceção estatística, um caso isolado, algo a ser explicado, e não algo a ser estudado (ah, a arrogância dos acadêmicos….). Buffett ironizava dizendo que quanto mais pessoas acreditassem na eficiência absoluta dos mercados, menor seria a concorrência para quem faz análise fundamentalista.

E tem algo mais impressionante ainda na sua trajetória: Buffett permaneceu quase que essencialmente o mesmo homem ao longo de toda a vida adulta. Viveu na mesma casa em Omaha, manteve amizades antigas, não colecionou símbolos óbvios de status (penthouses em cidades globais, carros importados de última geração, uma esposa nova a cada ano,etc). Comia hambúrguer, bebia Cherry Coke e via o dinheiro mais como uma forma de manter o placar do jogo do que como um passaporte para outra identidade.E quando decidiu fazer filantropia, fez em escala histórica, doando dezenas de bilhões de dólares, depois co-fundando o “Giving Pledge” e ajudando a criar um modelo de compromisso filantrópico que deve perdurar por gerações. Buffett demonstrou que dinheiro amplifica quem você já é.

O encontro anual da Berkshire Hathaway virou o Lollapalooza do mercado financeiro

Ele também foi, talvez sem perceber, um dos maiores educadores do capitalismo moderno: suas cartas aos acionistas são aulas de clareza mental, escritas como se fossem destinadas a um parente inteligente, mas leigo. Isso porque Buffett acreditava que entender algo de verdade significa conseguir explicá-lo de forma simples – novamente, algo diametralmente oposto à prática dos bancos de investimento de Wall Street, sempre sisudos e cheios de termos técnicos que, por muitas vezes, mais confundem do que explicam os pequenos investidores.

Agora, com sua aposentadoria, não perdemos apenas um investidor extraordinário: perdemos uma referência moral, um ponto fixo num sistema cada vez mais barulhento, ansioso e curto-prazista. Buffett é a lembrança viva de que disciplina, paciência, integridade e constância ainda funcionam: não apenas no mercado, mas na vida. Num mundo obcecado por atalhos e respostas imediatas, ele escolheu o caminho longo. E deu certo.

Suicidio dos farialimers

 *O SUICÍDIO RITUAL DOS FARINHALIMERS*


​Os farinhalimers brasileiros não cansam de surpreender pela sua vocação para o abismo. Não é difícil concluir que o maior inimigo do capitalismo no Brasil são os próprios capitalistas. É o que Plínio Corrêa de Oliveira diagnosticou com precisão e que Vladimir Lênin previu com cinismo diabólico: eles estão vendendo a corda com a qual serão enforcados.


Não estamos falando de erro de cálculo. Estamos falando de uma patologia. Quando o Santander financia o vilipêndio da fé no Queermuseu, ou quando a Natura decide que a melhor forma de vender perfume no Dia dos Pais é desconstruir a paternidade biológica com Thammy Miranda, o que vemos não é "marketing moderno". É a Mentalidade Revolucionária ocupando os conselhos de administração.


Essa gente sofre de uma "favelização mental" crônica. Ricos no bolso, mas indigentes no espírito, eles morrem de medo de parecerem "atrasados" diante da patota intelectual que os despreza. Para serem aceitos nos jantares de Paris, os Grão-Senhores do Brasil, nossos metacapitalistas, pagam o pedágio ideológico para a esquerda.


Os farinhalimers, na sua ingenuidade de "Inocentes Úteis" — termo que Plínio usava para descrever essa elite que colabora com a própria destruição —, acreditam que estão domesticando a onça. Ledo engano. Estão apenas caindo no velho truque da NEP (Nova Política Econômica) de Lênin.


Assim como os bolcheviques enganaram os investidores ocidentais fingindo moderação para salvar a economia soviética antes de confiscar tudo, o lulopetismo usa os farinhalimers para manter a máquina girando enquanto afia a guilhotina. Lula é mestre nisso: janta com os banqueiros e discursa para o MST. Uma lâmina da tesoura afaga o mercado, a outra corta as liberdades.


E os farinhalimers? Aplaudem, crentes que o "Lulinha Paz e Amor" é real.


O Magazine Luiza cria "apartheid do bem" com trainee segregado, a Mondelez (Bis) patrocina Felipe Neto para cuspir na cara de metade do país, e os grandes bancos impõem a Agenda 2030 e o crédito social ESG como se fossem ONGs, e não empresas.


Eles não entenderam nada. A Revolução não quer o dinheiro deles; quer o poder total, o "poder de matar", como dizia o texto clássico. Ao financiar a destruição dos valores que sustentam o Ocidente (família, fé, propriedade), os farinhalimers estão serrando o galho onde estão sentados.


Quando a "fase moderada" acabar e a tesoura se fechar, não adianta chorar. O carrasco não dá recibo, e a corda que compraram não aceita devolução.


Ou acordam enquanto há tempo, ou continuem patrocinando o próprio funeral.


​O caixão já foi encomendado -pela BlackRock, e tem logotipo ESG.

                                     https://x.com/orepublicano25/status/2002228153763213408?s=48

sábado, 20 de dezembro de 2025

Anatomia de uma fraude

 *Anatomia de uma fraude*


Como um desconhecido boêmio mineiro, com um histórico de fracassos empresariais, conseguiu liderar a maior fraude bancária da história do Brasil e prejudicar dezenas de milhares de funcionários públicos


19 dez 2025 - 10h16


Quando Daniel Vorcaro foi preso, estava sorrindo. As imagens da câmera de segurança do Aeroporto de Guarulhos (SP) mostram o diretor-presidente do Banco Master recebendo voz de prisão de um policial federal. O rosto parece entre o divertido e o incrédulo.


O executivo de 42 anos passava pelo controle de raio-X para embarcar em seu jato particular Falcon 7X, avaliado em R$ 200 milhões, que aguardava na pista com motores já ligados, pronto para decolar em direção à ilha de Malta, no Mediterrâneo.


Com camisa desabotoada até quase o umbigo, terno ajustado, cabelo com gel puxado para trás e celular na mão, deve ter achado tudo aquilo uma brincadeira. Ou estar confiante de que seus contatos poderosos em Brasília o libertariam em poucos minutos. Apenas o tempo de um telefonema.


Não foi assim. Cercado por 15 policiais federais, acabou sendo levado para o centro de detenção provisória da cidade aeroportuária, onde permaneceria por 12 dias. Aparentemente sem perder o sorriso, como mostram as fotos tiradas na prisão, nas quais aparece ao lado de um guarda armado de fuzil. De camiseta branca, boné verde do Los Angeles Dodgers e uma Bíblia de Estudo Almeida debaixo do braço.


Difícil saber se o riso era fruto da falta de noção sobre os acontecimentos ou da certeza da impunidade. Mesmo sendo o responsável pela maior crise bancária da história do Brasil, com um rombo de R$ 41 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — mais do que dobrando o escândalo do Bamerindus, que em 1997 tinha acumulado um passivo de pouco menos de R$ 20 bilhões. Sem contar os outros bilhões de reais perdidos no Master por fundos de pensão de empresas públicas estaduais, que deixarão dezenas de milhares de trabalhadores sem aposentadoria.


Daniel Vorcaro nunca conseguiu administrar algo. Estudante medíocre e boêmio, aos 19 anos recebeu do pai, um empreiteiro de Minas Gerais, uma empresa de educação chamada PQS Empreendimentos Educacionais Ltda. e outra de livros didáticos. Seu objetivo era tocar os negócios, juntando as duas operações. Fracassou e foi forçado a vender para uma rede de escolas de Belo Horizonte.


Voltou a trabalhar com o pai, até que se tornou sócio de um fundo de investimento de cemitérios, que também deu com os burros n’água. Foi investigado por manipulação do mercado, mas optou por encerrar o caso por meio de um Termo de Compromisso e pagou R$ 2,2 milhões para evitar punições adicionais.


Tentou construir um hotel de luxo em Belo Horizonte, utilizando incentivos concedidos pela prefeitura para aumentar a capacidade de hospedagem às vésperas da Copa do Mundo de 2014. Adquiriu um prédio abandonado em uma região decadente da capital mineira e assim começaram as obras para o Golden Tulip, uma torre de vidro de 37 andares, com heliponto, restaurantes, SPA e um centro de convenções de 7 mil metros quadrados. A obra, orçada em R$ 200 milhões, em parte com dinheiro público, tinha que estar pronta até o dia 30 de março de 2014. O dinheiro acabou e o hotel não foi concluído.


Vorcaro foi resgatado novamente pela construtora do pai, até que encontrou Saul Sabbá, dono do Banco Máxima, praticamente falido. A gestão fraudulenta de Sabbá tinha provocado um rombo tão grande no caixa que o Banco Central (BC) foi forçado a inabilitá-lo. A solução foi oferecer o Máxima para Vorcaro, que aceitou na hora.


Com outros dois sócios, o empresário injetou a liquidez mínima para que o Máxima voltasse a funcionar. Pediu autorização para o Banco Central para operar, mas só a obteve dois anos depois, em 2019, após inúmeras viagens a Brasília.


O golpe de sorte foi a mudança na estratégia do BC em relação ao mercado bancário, tradicionalmente muito concentrado no Brasil. Para favorecer a concorrência, autorizou naquele período um grande número de entidades de crédito, entre bancos e fintechs.  


O Master financiou vários eventos no Brasil e no exterior. Os convescotes reuniam empresários, políticos e, principalmente, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).


Em 2021, Vorcaro mudou o nome do banco para Master e começou a escalada. Em apenas cinco anos, a instituição passou de um patrimônio líquido de R$ 200 milhões para R$ 4,7 bilhões, com uma carteira de crédito que avançou de R$ 1,4 bilhão para R$ 40 bilhões. Um crescimento de quase 100% ao ano, todos os anos. Nenhum banco brasileiro, nas últimas três décadas, conseguiu ter uma expansão dessa magnitude em tão pouco tempo.


Isso deveria ter chamado a atenção de muita gente. Principalmente das autoridades de vigilância, e em especial pela forma como o Master captava recursos do mercado. O banco oferecia Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com juros 30% mais altos do que a concorrência.


O problema não era apenas a ousadia na remuneração de seus papéis, mas como os recursos captados eram aplicados. Com juros tão elevados, seria necessário investir em atividades com um retorno ainda maior para poder devolver o dinheiro aos clientes, algo muito difícil de ser encontrado no mercado. O Master fazia exatamente o oposto: desembolsava bilhões em empresas em recuperação judicial ou com sérios problemas econômicos, apostando que dariam a volta por cima e passariam a operar no azul. Não foi o que aconteceu e o banco não recebeu o dinheiro de volta.


Boa parte das empresas que receberam recursos do Master é controlada ou investida pelo empresário Nelson Tanure — entre elas, a Gafisa, a Oi, a Light — ou é de amigos dele, como a Ambipar. Tanure não aparece oficialmente como sócio do banco, mas a Polícia Federal e o Ministério Público Federal abriram um inquérito para verificar se Tanure seria o controlador real do Master. Relatórios técnicos e informações de mercado geraram a suspeita de que o empresário usaria uma série de fundos de investimento, denominados Aventti, Estocolmo e Banvox, para controlar indiretamente o banco.


Uma das operações que mais levantaram suspeitas sobre essa relação especial entre Tanure e o Master foi a compra de ações da Ambipar entre junho e agosto de 2024. Em poucas semanas, o valor dos papéis disparou mais de 800%, sem qualquer conexão com os resultados econômicos da empresa, que não conseguia produzir números positivos havia anos.


Segundo uma investigação aberta pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), foram realizadas operações coordenadas entre fundos associados ao Master e a Tanure na compra de ações da Ambipar, o que poderia se enquadrar no crime de manipulação de mercado. A suspeita é que essa operação tenha sido uma “troca de favores” que permitiu à empresa aumentar seu valor de mercado, elevou o patrimônio do Master e permitiu que Tanure conseguisse as garantias necessárias para outra operação: a compra da estatal paulista Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) em leilão.


*Amizades poderosas*


Além de Tanure, Vorcaro mantinha relações estreitas com o poder. Ele se gabava de ter feito “fortes amigos” em Brasília, de que “no Brasil não tem como andar se não tiver esse tipo de proteção” e de que, sem o apoio de poderosos, não estaria no lugar aonde chegou. “O networking é algo bem relevante para querer criar algum tipo de empreendimento”, disse durante uma palestra em 2024. “É necessário criar conexões que favoreçam seu negócio.”


Patrocinador de peso dos principais grupos de lobby do Brasil, como o Lide, do ex-governador João Doria, o Esfera, de João Camargo, e o Grupo Voto, de Karim Miskulin, o Master financiou vários eventos no Brasil e no exterior. Os convescotes reuniam empresários, políticos e, principalmente, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de outras cortes superiores.


Um dos mais falados foi o Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado no Hotel Peninsula, um dos mais luxuosos de Londres, em abril de 2024. Entre os convivas, os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, além do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, o procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. O evento, cujo objetivo era discutir problemas do Brasil, ocorreu a 9 mil quilômetros de distância e a portas fechadas.


O Master financiou também a Lide Brazil Conference de Nova York, em novembro de 2022, eternizada pelo infame “perdeu, mané, não amola” pronunciado pelo ministro Luís Roberto Barroso contra um manifestante. O Fórum Esfera Internacional de Paris, em outubro de 2023, e o de Roma, um ano depois, ou o Fórum Empresarial Lide no Rio de Janeiro, em agosto de 2024. Todos os eventos locados em hotéis de luxo contaram com a presença de Moraes, Mendes, Barroso e Dias Toffoli, entre outros.


Além das mordomias, Vorcaro frequentemente emprestava seus três jatinhos de luxo para os amigos poderosos de Brasília se deslocarem dentro e fora do Brasil. Mais do que isso, os contratava diretamente. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, imediatamente após ter deixado o STF, se tornou membro do Comitê Consultivo Estratégico do Master, assim como dois ex-presidentes do Banco Central, Henrique Meirelles e Gustavo Loyola.


Outra contratada pelo Master foi Viviane Barci, mulher do ministro Alexandre de Moraes. O escritório de advocacia dela receberia R$ 129 milhões ao longo de três anos por serviços prestados — um valor completamente fora dos padrões do mercado jurídico, principalmente pela inexistência de um escopo de atuação definido. Ela exercia a função desde janeiro de 2024.


O networking deve ter funcionado, pois Vorcaro foi liberado menos de duas semanas depois de ser preso e Dias Toffoli decretou sigilo máximo no processo do Master poucas horas após viajar de jatinho particular para Lima, no Peru, onde foi assistir à final da Copa Libertadores. No mesmo voo estava um dos advogados do Master, Augusto Arruda Botelho, ex-secretário de Justiça do governo Lula, que atua no processo defendendo o diretor de compliance do Banco, Luiz Antônio Bull.


Vorcaro tinha grandes aliados também no Legislativo, especialmente no centrão. É o caso do senador Ciro Nogueira (PP-PI), onipresente nos eventos patrocinados pelo Master, e que, em 2024, apresentou uma emenda para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC. O jabuti foi incluído na PEC da Autonomia Financeira do Banco Central e não passou despercebido, tanto que ganhou a alcunha de “Emenda Master” por favorecer diretamente títulos como CDBs, carros-chefe do banco.


*Outro episódio mostrou o tamanho da força do Master. Em julho de 2024, dois gerentes da Caixa Econômica Federal, feudo do PP, opuseram-se à compra de um lote de R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Master*. Foram sumariamente demitidos. A área técnica de Renda Fixa da Caixa Asset tinha desaconselhado a aquisição, classificando-a como “arriscada” e “atípica” para os padrões da instituição estatal. Mesmo assim, a diretoria queria proceder. Diante da repercussão, a aquisição foi abortada.


Mas o mais grave foi a tentativa de aprovar um projeto de lei que permitiria ao Congresso Nacional demitir integrantes da diretoria do BC. Apresentado pelo deputado Cláudio Cajado (PP-BA), teve o apoio dos líderes das bancadas do MDB, PP, União Brasil, PL, PSB e Republicanos. Não prosperou pela oposição do corpo técnico do Banco Central. O projeto foi protocolado poucos dias antes da decisão do BC sobre a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Sentindo que a autorização não seria concedida, muita gente no Legislativo atuou para pressionar o Banco Central. Não adiantou, e a operação foi vetada.


*Desespero e fracasso*


A aquisição do Master pelo BRB foi uma última tentativa de Vorcaro de salvar o banco. Em 2025, o Master teria que reembolsar R$ 12 bilhões de CDBs em vencimento. Diante dos sérios problemas de balanço que a instituição financeira apresentava, em dezembro de 2024, Vorcaro e seus sócios foram convocados pelo então presidente do BC, Roberto Campos Neto, para uma reunião em Brasília. Na ocasião, foram intimados a recapitalizar o Master com R$ 2 bilhões até o dia 31 de março, ou o banco seria liquidado compulsoriamente. Dinheiro que eles não tinham, ou não queriam desembolsar.


Milagrosamente, no dia 28 de março, o BRB anunciou ao mercado a compra do Master e, contextualmente, a injeção de R$ 2 bilhões. Exatamente o valor do aporte de capital exigido pelo BC — uma operação considerada no mínimo ilógica pelo mercado.


Raramente se viu um banco menor tentar absorver um banco de maior dimensão. Muito menos um banco estatal e regional como o BRB em relação a um banco privado e nacional como o Master. Mas a pressão do governo do DF, controlador do BRB, foi mais forte. Sem contar que o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, é apadrinhado por Nogueira e já havia ocupado uma vice-presidência da Caixa. A compra foi vetada pela justiça do DF por suspeitas de irregularidades, mas mesmo assim a Assembleia Legislativa local votou a toque de caixa uma lei autorizando a transação. Em setembro, o Banco Central proibiu a compra.


Mesmo com essas negativas, o BRB já tinha transferido cerca de R$ 12 bilhões para os cofres do Master com a compra de uma carteira de crédito que se descobriu ser fictícia. Vorcaro jurou ter adquirido a carteira de duas associações de servidores públicos da Bahia: a Asteba e a Asseba. Os contratos, contudo, eram atribuídos a pessoas físicas que residiam em outros Estados. As apurações do BC mostraram que os papéis foram comprados pelo Master de uma outra fonte, a Tirreno Promotoria de Crédito, considerada pela Justiça como uma empresa de fachada.


O dinheiro dos investidores financiou a dolce vita de um mineiro bon-vivant, que conseguiu — com a cumplicidade de muita gente — dar o maior golpe da história do Brasil.


Foi essa a razão que levou à prisão de Vorcaro no aeroporto de Guarulhos e ao afastamento do presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, em seguida demitido pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha.


*Fraude dos aposentados*


Mais uma vez, as maiores vítimas da fraude do Banco Master serão os brasileiros mais vulneráveis, como trabalhadores de empresas públicas de vários Estados e municípios brasileiros, que confiaram suas poupanças compulsórias a fundos de pensão que lhes deveriam garantir uma aposentadoria digna. Dezoito fundos de pensão de servidores públicos compraram papéis do Master muito além da cobertura oferecida pelo FGC, como mostrou a reportagem da edição 297 de Oeste. É o caso da Rioprevidência, responsável pela aposentadoria dos servidores do Estado do Rio de Janeiro, que aplicou quase R$ 1 bilhão em títulos do banco. Agora que o Master quebrou, receberá apenas R$ 250 mil.


A operação Compliance Zero está apurando se essas operações foram realizadas pela atratividade dos CDBs do Master ou por pressão dos amigos poderosos de Vorcaro. Empresas públicas e privadas também embarcaram nos papéis do Master, como a rede de tratamento de câncer Oncoclínicas, que investiu R$ 433 milhões, e a concessionária fluminense de saneamento Cedae, com R$ 200 milhões.


*Aparentemente, o Master usou recursos de fundos de pensão estaduais desde o começo de sua trajetória. Se a Justiça brasileira funcionasse, Vorcaro teria sido preso há pelo menos seis anos. Em 2019, um juiz federal de Rondônia decretou sua prisão em um processo por aplicações financeiras feitas pelo Instituto de Previdência Social dos Servidores Públicos do município de Rolim de Moura (RO), o Rolim Previ*. A ordem nunca foi cumprida. Vorcaro também tentou manter esse caso em segredo de Justiça, alegando que a exposição poderia prejudicá-lo. E conseguiu: ainda hoje o processo permanece inacessível.


*Luxo e ostentação*


Com a avalanche de dinheiro que ingressou no banco em pouco tempo, Vorcaro dedicou-se àquilo que melhor sabia fazer: ostentar uma vida de luxo. Nas redes sociais, o banqueiro aparecia constantemente surfando em praias paradisíacas, nos Alpes suíços ou em festas de altíssimo padrão. Sempre rodeado de mulheres deslumbrantes. “O principal item que eu posso falar sobre é ter um propósito”, disse em 2024, quando convidado para discursar na Brazil Conference do MIT de Boston. “Sem propósito, não tem meta, nem projeção de onde chegar.”


Em menos de cinco anos, Vorcaro comprou mansões no Brasil e no exterior por centenas de milhões de reais — como a de Trancoso, no litoral baiano, adquirida por R$ 280 milhões, rodeada por um enorme parque privativo de Mata Atlântica. Outra propriedade, em Miami, foi comprada por R$ 460 milhões — a transação mais cara já realizada na cidade americana. Também adquiriu três jatinhos Falcon 7X, Dassault Falcon 2000 e Gulfstream GV-SP por um valor total superior a R$ 1 bilhão.


Além disso, Vorcaro se tornou acionista do Atlético Mineiro, comprando 20% da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) que controla o time por R$ 300 milhões.


Sem contar as extravagâncias imobiliárias de um banco pequeno, mas com claros sinais de megalomania. Como a sede faraônica na Vila Olímpia, em São Paulo, ou o aluguel recorde no 830 Brickell Plaza, em Miami, prédio mais alto da cidade, no qual nunca ocupou o escritório de quase 2,5 mil metros quadrados. A mesma coisa em Londres, onde o Master alugou um espaço no 22 Bishopgate, o prédio mais alto e um dos mais exclusivos da capital britânica, em que nem sequer os bancões brasileiros ousariam se instalar.


O negócio começou a ficar grotesco quando se descobriu que Vorcaro tinha doado um apartamento de R$ 4,4 milhões para uma “sugar baby”, Karolina Santos Trainotti, cujo nome apareceu em uma operação contra o tráfico internacional de cocaína.


Vorcaro gastou cerca de R$ 20 milhões na festa de 15 anos da filha, realizada em agosto de 2023 em Nova Lima (MG). O evento viralizou com um bufê caríssimo, shows dos DJs Alok, The Chainsmokers, Dennis DJ, entre outros, e um bolo de R$ 25 mil, que chegou de avião de São Paulo. Para deixar os 500 convidados mais à vontade, o executivo asfaltou uma rua, deu vinhos Sassicaia e ofereceu diárias no Hotel Fasano aos vizinhos incomodados com o barulho.  


Aparentemente imune às críticas ou a preocupações, e mesmo com o Master no olho do furacão, Vorcaro decidiu festejar o Carnaval 2025 com pompa e circunstância. O banqueiro bancou um camarote na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, com 2,5 mil metros quadrados distribuídos em três andares, recheado de modelos internacionais e com chefs estrelados que prepararam pratos saboreados com bebidas de luxo. Custo total: R$ 40 milhões. A entrada era gratuita, desde que fosse amigo do dono.


Quando os credores do Master tentarem penhorar o patrimônio do banco para recuperar as perdas, dificilmente encontrarão algo. Boa parte acabou nas taças de champanhe, nas bandejas prateadas e nas luzes que iluminaram as noites infinitas de Daniel Vorcaro. O dinheiro dos investidores financiou a dolce vita de um mineiro bon-vivant, que conseguiu — com a cumplicidade de muita gente — dar o maior golpe da história do Brasil.


https://revistaoeste.com/revista/edicao-301/anatomia-de-uma-fraude/

Simon Schwartzman