sábado, 10 de janeiro de 2026

Leitura de sábado

 *Leitura de Sábado: Privatizações e gestões pró-mercado impulsionam estatais estaduais em 2025*


Por Camila Vech


São Paulo, 07/01/2026 - O ano de 2025 trouxe sinais opostos para as estatais: enquanto a pressão sobre commodities e crédito penalizou as federais Petrobras e Banco do Brasil, o quadro regulatório favorável, governadores alinhados ao mercado e a expectativa de privatizações impulsionaram as estaduais como a Copasa, a Sanepar, a Cemig e o Banrisul.


Para especialistas ouvidos pela Broadcast, a disparada tem menos relação com o controlador e mais com o vento setorial positivo, em especial no segmento de saneamento.


"Os governos estaduais podem ser responsáveis por uma parte relevante da explicação da alta de Sanepar e Copasa, não 100%, mas talvez 50%", diz Daniel Utsch, gestor da Nero Capital.


A ação Unit da Sanepar disparou 53% e o papel ON da Copasa saltou 125% no ano passado. Segundo Utsch, o ganho decorre tanto da expectativa por desestatizações quanto dos resultados já obtidos após privatizações bem-sucedidas no setor, como a da Sabesp.


A desestatização da companhia paulista é vista como uma referência no setor e o exemplo máximo de como o Marco do Saneamento é capaz de destravar investimentos bilionários.


A Copasa está na fila da privatização, com projeto aprovado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e expectativa de conclusão da operação ainda no primeiro trimestre de 2026.


A Sanepar também é mencionada pelo mercado como uma potencial privatização. O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), já negou a alienação da companhia, embora tenha adotado uma série de medidas rumo à desestatização, na leitura do mercado.


"A corrida para o governo estadual pode levar os investidores a esperar que a empresa se torne mais eficiente ou tome medidas para a privatização", diz o BTG Pactual, que incluiu a empresa na primeira carteira de recomendação de ações small caps do ano.


"Para Copasa e Sanepar, a visão é de que, privatizando, a probabilidade de ter um benefício grande é muito maior. A Sabesp é uma das grandes contribuições positivas de retorno do Ibovespa. O sucesso da privatização, somado ao novo marco legal de saneamento, fez com que o investimento privado resultasse em ganho de eficiência e aumento de penetração", explica Utsch. Desde a privatização, a Sabesp valorizou 60%.


O gestor da Nero cita Axia (ex-Eletrobras, desestatizada no governo de Jair Bolsonaro, em 2022) e Copel (privatizada em 2023 por Ratinho Junior) como outros exemplos positivos de privatização recente.


Mas mesmo empresas estaduais distantes da privatização tiveram boa performance na Bolsa em 2025.


No caso da mineira Cemig, a ideia de privatização encontrou um clima político desfavorável. Assim, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), propôs sua federalização para abater parte da dívida do Estado com a União. Há, contudo, resistência da ALMG.


O estrategista Ygor Araújo, da Genial, lembra que havia a chance de federalização também da Copasa, o que não se concretizou. "O mercado colocava esse risco no preço. Como não ocorreu com a Copasa, a privatização como solução para a dívida agradou o mercado", diz.


Mesmo assim, os papéis PN da Cemig, mais líquidos, subiram 18,5% em 2025. O racional por trás é que, apesar da frustração com a privatização, a companhia entrega uma boa gestão.


"Operacionalmente, as duas se comportam como empresas privadas: Copasa entrega metas de forma consistente e Cemig reforça governança com gestão técnica", observa Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.


Também longe de uma desestatização, o Banrisul subiu 63% em 2025, numa virada de chave após um 2024 marcado pela tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul.


A melhora conjuntural em 2025 já aparece nos números e, segundo os analistas, o banco deveria valer mais quando comparado aos pares. "O Banrisul tem gestão pró-mercado e fundamentos comparáveis. Quando olhamos esse ativo barato, a tendência é investir. Foi o que fizeram fundos de pensão, que trocaram Banco do Brasil por Banrisul", explica Lima, da Ouro Preto. O fluxo comprador também vem de investidores institucionais de olho no caixa e nos dividendos que devem crescer nos próximos anos, dado o valuation descontado.


Ano ruim para as federais


Enquanto as estatais estaduais tiveram um ano de destaque na Bolsa, as duas principais empresas listadas de controle da União amargaram perdas em 2025. A ação ON da Petrobras caiu 9,5%, enquanto a PN recuou 5,6%. O papel ON do Banco do Brasil cedeu 5,3%.


Mas Lima, da Ouro Preto, rejeita a tese de que o simples fato de serem estatais federais explique o mau desempenho de Petrobras e BB. Ele calcula que cerca de "80% da variação negativa de preço" desses papéis em 2025 resulta de fatores conjunturais, como petróleo barato e crise de crédito no agro.


A Petrobras sentiu o impacto da queda internacional do petróleo para a faixa de US$ 60, além de atuar em uma atividade totalmente dolarizada, o que testou a resiliência da petroleira.


O analista da Ouro Preto Investimentos diz que a petroleira historicamente está sujeita a três vetores de volatilidade: grau de interferência política, disciplina de capital e governança. "Mas nestes pontos, a Petrobras trouxe uma clareza maior", avalia.


Para Utsch, da Nero Capital, a empresa segue "operacionalmente eficiente, considerada uma das melhores do mundo" na extração offshore e já está desalavancada. "Interferências políticas, como manter o combustível no limite inferior da banda factível, e eventuais projetos de investimento considerados pouco rentáveis, teriam afetado o preço de forma muito comedida", avalia.


No caso do BB, o impacto nas ações decorre mais da conjuntura nacional de juros altos. A disparada da inadimplência entre pequenos e médios produtores rurais, após a flexibilização das regras de recuperação judicial, contaminou o balanço do banco, especialmente no Sul, elevando provisões e reforçando o peso das judicializações no agronegócio.


Somada a rumores sobre dividendos, Selic elevada e câmbio pressionado, a combinação derrubou as cotações, apesar da percepção do mercado de que a instituição tem menor interferência de Estado do que a Caixa Econômica Federal, por exemplo.


Contato: camila.vech@estadao.com


Broadcast+

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Simon Schwartzman

Amargo recuo do TCU

 O amargo recuo do TCU no caso Master

Pressionado pela opinião pública e por seus pares, Jhonatan de Jesus suspendeu inspeção no BC para apurar a liquidação do Banco Master, uma decisão que a cada dia parece mais acertada
9 jan. 2026
Estadão Editorial
O ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU), recuou da inspeção in loco que havia determinado na sede do Banco Central (BC), em pleno recesso, para verificar os documentos que embasaram a decisão pela liquidação extrajudicial do Banco Master. Pressionado por seus pares na Corte de Contas e isolado após perder o apoio público do presidente do órgão, Vital do Rêgo, o ministro acabou por acatar o recurso do BC e deixar para o plenário de ministros decidir sobre o caso.
No despacho, Jhonatan de Jesus não esconde o incômodo em ter de reconsiderar sua decisão. Na tentativa de manter alguma autoridade, o ministro sustentou que o Regimento Interno do TCU permitia que ele tomasse a decisão monocraticamente, ao contrário do que o BC alegava, ressaltou que o acesso a documentos sigilosos do caso era um pedido da área técnica, e não dele enquanto relator, e insistiu que poderia, se quisesse, rejeitar os embargos apresentados pela autoridade monetária de modo a garantir que a inspeção fosse realizada.
A despeito do longo preâmbulo, Jhonatan de Jesus alegou que a “dimensão pública assumida pelo caso, com contornos desproporcionais para providência instrutória corriqueira nesta corte”, o levou a dividir a responsabilidade sobre o caso com o plenário e aguardar o retorno dos trabalhos do tribunal, em meados de janeiro. Pudera. A imprudência do ministro colocou o TCU no centro da crise envolvendo o Banco Master e seu controverso controlador, Daniel Vorcaro.
A cada dia surgem novos fatos a corroborar a decisão do BC pela liquidação da instituição financeira. Como revelou o Estadão, o Master relatou ter firmado 338.608 contratos de crédito consignado entre outubro de 2021 e setembro do ano passado, mas deixou de apresentar documentos comprobatórios em mais de 250 mil deles, ou 74,3% do total. Relatório do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) encontrou um cenário de irregularidades sistemáticas que constitui “falha grave e insanável” e lança “dúvidas fundadas” sobre a existência jurídica e a validade do consentimento dos beneficiários.
Na tentativa de arregimentar a opinião pública a seu favor, o Master teria apelado até mesmo a influenciadores para atacar a credibilidade do Banco Central e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) nas redes sociais. O contrato continha cláusula de confidencialidade e multa de R$ 800 mil a quem revelasse detalhes do chamado “Projeto DV”, designação nada sutil com as iniciais do controlador do banco. Entre os argumentos sugeridos aos influenciadores estava justamente o pedido de explicações que o TCU fez ao BC sobre a liquidação, bem como insinuações de que tudo se devia ao desconforto da concorrência com o crescimento da instituição financeira do sr. Vorcaro.
Em contrapartida, não faltam economistas experientes a apontar os absurdos que envolvem o Banco Master. Ao Estadão, o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Marcos Lisboa demonstrou espanto com os ataques coordenados ao BC. “O Brasil enfrentou casos de descontrole em bancos privados com sucesso nos últimos 30 anos”, disse ele, “e eu nunca assisti a uma reação como essa”. Já o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga afirmou não haver qualquer sentido nas ações do TCU e do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro arrogou o processo do Master para a Corte e o colocou sob elevado grau de sigilo.
A reversão da liquidação, a essa altura, parece sepultada, mas é com a confusão em torno dessa possibilidade que Vorcaro contava para preservar seu patrimônio perante a Justiça dos EUA. Não à toa, sua defesa mencionou as ações do TCU para alegar que a decisão do BC não é definitiva. Debalde. Na noite de ontem, o juiz Scott M. Grossman, do Tribunal de Falências da Flórida, julgou válida a decisão do BC.
Se há algo que parece inabalável é a rede de contatos que o banqueiro construiu nos últimos anos. Parlamentares do Centrão articularam até uma proposta para permitir a demissão de diretores do BC pelo Congresso para constrangê-los a aprovar a compra do Master pelo BRB. Fato é que, quanto mais o tempo passa, mais surgem indícios favoráveis à liquidação do banco, o que só expõe os agentes públicos e levanta dúvidas sobre os motivos de tanta condescendência com Vorcaro e de tamanha falta de consideração com os clientes que ele prejudicou.

Anderson Nunes

 *ACORDO UE E MERCOSUL E REFORMA MINISTERIAL - MC 09/01/26*

*Por Anderson Nunes - Analista Político*


A sexta feira amanhece sob expectativa do voto decisivo do Conselho Europeu sobre o tratado com o Mercosul, dados de emprego dos EUA e o impacto do pedido de demissão de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça.

*VOTAÇÃO DO ACORDO UE E MERCOSUL*

O Conselho Europeu decide hoje o futuro do tratado comercial com o bloco sul americano sob forte pressão contrária da França e da Irlanda. A aprovação é necessária para a abertura de mercados mas enfrenta resistência política que pode adiar a assinatura oficial prevista para a próxima segunda feira.

*REFORMA NO MINISTÉRIO DA JUSTIÇA*

Ricardo Lewandowski oficializou seu pedido de demissão do Ministério da Justiça após o enfraquecimento político de sua principal agenda de segurança pública no Congresso Nacional. O movimento sinaliza o início de uma ampla reestruturação ministerial planejada por Lula (leia saída de ministros para desincompatibilização dos cargos para se candidatarem)  e evidencia as dificuldades do governo em consolidar apoio para temas sensíveis.

*VETO AOS CONDENADOS DE JANEIRO*

O governo federal vetou integralmente a proposta que flexibilizava as penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro durante cerimônia que marcou os três anos da data. A decisão acirra o embate com o Legislativo. A oposição reagiu imediatamente com o protocolo de um novo projeto de lei para anistia dos envolvidos. Para quem acompanhou o episódio do programa Risco Brasil no final de dezembro, na minha participação afirmei o veto total a dosimetria e o dia do anúncio.

*RECUO NO TCU E DISPUTA JUDICIAL NO BC*

O ministro Jhonatan de Jesus suspendeu a inspeção presencial no Banco Central após forte resistência da diretoria e críticas internas no Tribunal de Contas. O recuo evita uma crise institucional mas mantém o foco político sobre a fiscalização da autoridade monetária.

*FREIO LEGISLATIVO EM DONALD TRUMP*

O Senado norte americano aprovou uma medida que impede o presidente dos Estados Unidos de ordenar novas ofensivas militares contra a Venezuela sem o aval prévio dos congressistas. A restrição busca limitar o poder presidencial enquanto a Casa Branca negocia a exploração de petróleo e monitora a libertação de presos políticos na região.


*SUCESSÃO NO FED E TARIFAÇO DE TRUMP*


O governo americano anunciará o novo chefe do Banco Central este mês enquanto aguarda a decisão da Suprema Corte sobre as novas tarifas de importação. Essas definições são os principais gatilhos para a volatilidade dos preços e das moedas globais no curto prazo.


*PAYROLL E O FIM DA NEBLINA AMERICANA*


O relatório de emprego de dezembro deve mostrar a criação de 60 mil vagas e marcar o fim da incerteza gerada pelos atrasos operacionais do governo americano. O dado é crucial porque define se o Fed manterá a pausa nos cortes de juros até o segundo trimestre ou se terá que acelerar a flexibilização.


*DIVULGAÇÃO DOS DADOS DA INFLAÇÃO*


O IBGE publica nesta manhã os números oficiais do IPCA referentes ao encerramento do ano de 2025 com projeções de mercado apontando para um índice dentro da meta. O resultado é determinante para balizar as próximas reuniões do Copom e as expectativas sobre a trajetória dos juros no Brasil.


*RADAR CORPORATIVO*


1. OpenAI disponibiliza a ferramenta ChatGPT Health para fornecer suporte informativo e análise educativa de dados médicos aos usuários.

2. Google implementa recursos de inteligência artificial do Gemini no Gmail para facilitar a criação de resumos de mensagens e o refinamento de textos.

3. Paramount encerra a disputa de preços pela Warner e anuncia que não elevará o valor de sua oferta acima de trinta dólares por ação.

4. Passagens aéreas registram redução média de vinte por cento no preço final segundo levantamento anual da Agência Nacional de Aviação Civil.

5. PETROBRAS: A valorização do petróleo Brent para US$ 61 impulsionou as ações da estatal e garantiu o fechamento positivo do Ibovespa.

6. AZUL: A empresa sofreu uma queda histórica de 90% na bolsa como reflexo da diluição massiva de acionistas necessária para sua reestruturação financeira.

7. GPA: O grupo promoveu uma troca estratégica no comando financeiro após a renúncia de seu diretor e a nomeação de novos executivos para as relações com investidores.

8. MOTIVA E ECORODOVIAS: As companhias oficializaram a criação de uma plataforma conjunta para gerir pagamentos de pedágios com tecnologia de livre passagem.

9. UNIÃO PET: A empresa resultante da fusão entre Petz e Cobasi ajustou o valor das ações para R$ 0,7110 no processo de fechamento de capital.


O Canal Auxiliando usa as seguintes fontes de notícias: 'Monitor do Mercado, BDM, Broadcast, Valor Econômico, Folha de São Paulo, Estadão, O Globo, BM&C, B3, Revista Oeste, Poder 360, Money Times, Agência CMA, Agência Brasil, Bloomberg, Infomoney, CNN, The Washington Post, The Wall Street Journal, Fox Business, Reuters, Oil Price, Investing e Yahoo Finance'.

BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: Payroll, IPCA e tarifaço na pauta*


É grande a chance de as apostas para os juros ficarem como estão, com a retomada do ciclo de flexibilização pelo Fed em abril e corte projetado da Selic em março

… Se o payroll (10h30) e o IPCA de dezembro (9h) não pregarem qualquer susto, é grande a chance de as apostas para os juros ficarem como estão, com a retomada do ciclo de flexibilização pelo Fed em abril e corte projetado da Selic em março. Ainda hoje, a Suprema Corte americana pode anunciar o veredicto sobre a legalidade das tarifas de Trump, com potencial efeito sobre a inflação e sobre as decisões de política monetária, embora o governo de Washington já tenha antecipado que pode reconstituir as receitas tarifárias, em caso de um revés judicial.

SEM RUÍDO – O payroll de dezembro será o primeiro que não virá poluído pelo mais longo shutdown da história dos Estados Unidos, que adiou os relatórios de setembro e novembro e só garantiu divulgação parcial de outubro.

… Os analistas esperam a criação de 60 mil empregos no mês, de acordo com a mediana do Projeções Broadcast, levemente abaixo das 64 mil vagas líquidas abertas em novembro. As estimativas vão de 23 mil a 155 mil.

… Indicando uma melhora, a taxa de desemprego deve cair de 4,6% para 4,5%, enquanto o salário médio pago por hora, que funciona como um componente inflacionário, deve avançar 0,3% na taxa mensal e 3,6% na base anual.

… Em novembro, os aumentos salariais foram menores, de 0,14% e 3,5%, respectivamente.

… Economistas comentam que é provável que o pior já tenha passado no mercado de trabalho americano.

… Os sinais de recuperação gradual da mão de obra devem reduzir a urgência de novo relaxamento do juro, reforçando a pausa sinalizada pelo Fed no ciclo de cortes, que tenderia a ser retomado só no segundo trimestre.

… O payroll de dezembro e dos próximos meses também entrará na conta da calibragem da política monetária no ano, ajudando a definir se virão dois ou três cortes em 2026, em meio à transição do Fed para o perfil mais dovish.

… Está chegando a hora de o mundo saber quem vai assumir o comando do BC americano no lugar de Powell. A escolha por Trump está prometida para este mês. O prazo foi confirmado ontem por Scott Bessent (Tesouro).


… O secretário disse que Trump participará do fórum econômico de Davos (Suíça) entre os próximos dias 19 e 23 e que o timing para uma decisão sobre o Fed pode ser “logo antes ou logo depois disso”. Ou seja, deste mês não passa.


… Segundo Bessent, sobraram quatro finalistas: o ex-diretor do Fed Kevin Warsh, o assessor econômico da Casa Branca Kevin Hassett, o atual diretor do Fed Christopher Waller e o executivo da BlackRock Rick Rieder.


… O secretário do Tesouro afirmou que Rieder é o único candidato que ainda não foi entrevistado.


… De seu lado, Trump disse que já tomou a decisão sobre quem escolherá, mas que ainda não contou para ninguém.


MAIS TRUMP – O presidente americano ordenou na noite de ontem que as duas empresas de financiamento habitacional controladas pelo governo (Fannie Mae e a Freddie Mac) comprem US$ 200 bi em títulos hipotecários.


… Em publicação na Truth Social, o republicano afirmou que isso fará com que as taxas de hipoteca caiam, os pagamentos mensais diminuam e o custo de possuir uma casa sejam mais acessíveis nos Estados Unidos.


… No after hours, as instituições que concedem empréstimos imobiliários saltaram: LoanDepot, +18,4%; Opendoor Technologies, +12,1%; e Rocket, +7,1%. Entre as construtoras, D.R. Horton, +1,6%; Lennar, +2,9%; e Pulte, +3,48%.


IPCA & COPOM – O índice oficial de inflação deve acelerar de 0,18% em novembro para 0,33% em dezembro, na mediana do Broadcast, pressionado pelas passagens aéreas. As projeções, todas de alta, variam de 0,27% a 0,45%.


… A média dos núcleos deve subir de 0,23% para 0,47%, com a pressão nos serviços sendo olhada de perto pelo BC.


… A aposta é de avanço nos preços do setor (0,60% para 0,71%), em serviços subjacentes (0,30% para 0,56%), preços livres (0,17% para 0,52%); alimentação no domicílio (-0,20% para 0,13%); e bens industriais (-0,29% para 0,43%).


… As estimativas indicam, por outro lado, recuo apenas nos preços administrados (0,21% para -0,19%).


… Analistas dizem que, apesar de a atividade econômica estar esfriando, o câmbio e o fiscal permanecem como fatores de cautela à inflação e podem entrar como argumento para o Copom adiar o corte da Selic para março.


… A boa notícia é que o IPCA deve fechar 2025 em 4,27% (mediana), abaixo do teto da meta (4,5%) e inferior ao acumulado em 12 meses de novembro (4,46%). Em 2024, a inflação de 4,83% estourou o limite da banda.


… Ainda na agenda, Galípolo e Picchetti participam, às 9h, de reuniões bimestrais do BIS por videoconferência.


POLÊMICA DO MASTER – Colocado na parede pela dimensão pública assumida pelo caso, o ministro-relator no TCU, Jhonatan de Jesus, voltou atrás na determinação monocrática de inspeção in loco no BC no âmbito do processo.


… O recuo ocorreu depois de o BC ter contestado a decisão, alvo de críticas até mesmo dentro do próprio Tribunal, que estaria tendo a imagem prejudicada pela atuação apressada de Jhonatan, em pleno período de férias.


… A ordem para inspeção no BC será agora submetida à análise do plenário do TCU, que volta do recesso dia 16.


… A defesa do empresário Daniel Vorcaro enviou ao STF um pedido para que seja instaurado um processo de conciliação sobre a liquidação do banco, com a participação do BC, do Ministério Público Federal e do TCU.


… Em derrota para Vorcaro, a Justiça dos Estados Unidos reconheceu nesta quinta-feira o processo de liquidação e bloqueou os ativos da instituição no país, que podem ser utilizados para pagar os credores da instituição financeira.


DOSIMETRIA – O veto integral de Lula ao projeto que reduz a pena para os condenados pelo 8 de janeiro contrata a primeira crise do ano entre o Congresso e o Planalto. Centrão e oposição já iniciaram a mobilização para a derrubada.


… A manutenção do veto exigirá habilidade na articulação política do governo e parlamentares ouvidos pelo Valor sinalizam que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, será peça determinante para definir o destino do tema.


… Ele ainda não bateu o martelo sobre a data em que o veto ao projeto da dosimetria será analisado. Mas existe uma pressão para que a votação já ocorra na volta do recesso (fevereiro), enquanto a base de Lula tenta adiar.


… Após o veto de Lula, o relator do projeto da dosimetria no Senado, Esperidião Amin (PP), protocolou novo texto para conceder anistia aos presos, defendendo que não se trata de “impunidade, mas de reconciliação nacional”.


UE-MERCOSUL – Conselho da União Europeia discute hoje o pacto de livre comércio, defendido por Bruxelas, mesmo sem o apoio da França, onde agricultores protestaram e ocuparam com tratores a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo.


… A Irlanda também anunciou que votará contra e ainda a Hungria e Polônia exibem oposição. O voto da Itália é considerado decisivo para a aprovação, depois da obtenção de concessões pelo país para assinar o tratado.


… Dando tudo certo hoje, a cerimônia de assinatura está agendada para a próxima segunda-feira, dia 12.


… Em outra frente de acordo comercial, Lula recebeu ontem um telefonema do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, e os dois teriam concordado em acelerar a negociação de um acordo entre o Mercosul e o Canadá.


… O premiê aceitou convite de Lula para visitar o Brasil, provavelmente em abril. Durante a ligação, os dois líderes discutiram a crise na Venezuela e condenaram o ataque militar dos Estados Unidos para a captura de Maduro.


… Lula também conversou ontem com os presidentes da Colômbia, Gustavo Petro, e do México, Claudia Sheinbaum.


MAIS AGENDA – Além do payroll, sai nos Estados Unidos a leitura preliminar de janeiro do índice de sentimento do consumidor (12h), medido pela Universidade de Michigan, com as expectativas de inflação em 1 ano e 5 anos.


… O dia reserva ainda as construções de moradias iniciadas em setembro e outubro (10h30), além dos dados da Baker Hughes sobre os poços de petróleo e plataformas americanas em operação, que serão divulgados às 15h.     


… Na zona do euro, saem as vendas no varejo em novembro (7h) e, na Alemanha, tem a produção industrial (4h).


CHINA HOJE – A inflação ao consumidor teve alta anualizada de 0,8% em dezembro, praticamente em linha com a previsão de 0,9%. Já o índice de preços ao produtor (PPI) caiu 1,9% no período, contra a projeção de queda de 2%.


MAL SE MEXEU – Travado à espera do payroll e do IPCA, o dólar à vista oscilou 2 centavos entre a mínima e a máxima do dia e terminou praticamente onde começou o dia, a R$ 5,3890, com alta de apenas 0,04%.


… Lá fora, o dólar subiu moderadamente a frente aos pares (DXY, +0,25%, aos 98,926 pontos). O euro caiu 0,21%, a US$ 1,1652. A libra recuou 0,21%, a US$ 1,3431, e o iene devolveu 0,18%, a 156,96/US$.


… Os juros futuros repetiram ontem a mesma dinâmica de 4ªF, com curtos em alta e longos em queda, em mais uma sessão de pouca liquidez e oscilações moderadas.


… O dado de produção industrial mostrou estabilidade em novembro na comparação com outubro, em linha com o esperado e, por isso mesmo, teve impacto neutro sobre a curva de juros.


… Operadores atribuíram o avanço da ponta curta à cautela na véspera da divulgação do IPCA fechado de 2025. Já a parte longa da curva refletiu o resultado do primeiro leilão de títulos prefixados do Tesouro neste ano.


… Segundo o Valor, a estreia da NTN-F com vencimento em janeiro de 2037 pressionou as taxas mais cedo, mas os volumes praticados pelo Tesouro não assustaram os investidores, com os DIs apagando a alta do início da sessão.


… No fechamento, o DI para janeiro de 2027 marcava 13,735% (de 13,681% no ajuste anterior); Jan/29 a 13,015% (12,994%); Jan/31 a 13,330% (13,346%); e Jan/33 a 13,510% (13,527%).


EMPURRÃO – Petrobras desencantou (ON +2,50%, a R$ 31,96; e PN +1,24%, a R$ 30,20) com a ajuda do petróleo e fez o Ibovespa subir 0,59% e fechar na máxima do dia, aos 162.936,48 pontos, com giro de R$ 23,4 bilhões.


… O Brent para março disparou 3,38% na ICE, a US$ 61,99/barril, enquanto o WTI para fevereiro subiu 3,16% na Nymex, a US$ 57,76/barril.


… A commodity se recuperou das perdas recentes desde a captura de Nicolás Maduro, com investidores concluindo que ainda vai demorar para a produção da Venezuela voltar a crescer e chegar ao mercado em volume relevante.


… Brava ON (+5,70%, a R$ 17,05) também pegou carona no petróleo e liderou os ganhos do Ibovespa, seguida por Axia Energia PNB (+4,07%, a R$ 53,98) e PNC (+3,80%, a R$ 49,43), além de Braskem PNA (+3,99%, a R$ 8,07).


… Já Vale ON (-0,97%, a R$ 75,58) dessa vez não colaborou com o índice, corrigindo parte da alta recente, em dia de queda do minério de ferro em Dalian (-0,37%, a US$ 116,42/t), diante do risco de intervenção chinesa nos preços.


… Bradesco PN (-1,70%, a R$ 18,52) também jogou contra, enquanto Itaú PN se recuperou e subiu 1,55% (R$ 39,93), assim como Santander Unit (+1,75%; R$ 33,73) e BB ON (+0,55%; R$ 21,82).


… A liderança negativa do índice ficou com Hapvida ON (-4,77%; R$ 15,37), seguida de Porto Seguro ON (-4,55%; R$ 47,39) e Weg ON (-4,17%; R$ 45,71).


… Fora do Ibovespa, Azul PN despencou 90,2%, para R$ 25,00, pior desempenho da bolsa e reflexo da diluição dos investidores no processo de reestruturação financeira da aérea, com uma oferta de R$ 7,4 bilhões em ações.


… O Bradesco BBI recomenda venda para a ação, lembrando que a operação está em linha com as expectativas e reforça o plano de saída do Chapter 11. A expectativa é que a companhia saia do processo ainda neste ano.


MÃO DUPLA – As bolsas americanas terminaram em lados opostos, com o Dow Jones em alta de 0,55% (49.266,11 pontos); o S& 500 estável (+0,01%, aos 6.921,46); e o Nasdaq em queda de 0,44% (23.480,02).


… Na véspera do payroll, o mercado monitorou o número de pedidos iniciais de auxílio-desemprego, que aumentou 8 mil, para 208 mil, na semana encerrada em 03/1, pouco abaixo do esperado (+10 mil).


… Ações de chips e de outras empresas ligadas à IA devolveram ganhos recentes e pressionaram o índice de tecnologia: Oracle (-1,64%), Nvidia (-2,21%), Micron (-3,69%); Western Digital (-6,10%) e Seagate (-7,72%).


… Segundo a Reuters, a Nvidia tem exigido pagamento antecipado dos clientes chineses que compram seus chips H200, como forma de se proteger de incertezas sobre a aprovação dos embarques pelo governo de Pequim.


… Já o setor de defesa se recuperou do tombo de 4ªF, graças aos planos de Trump de elevar os gastos militares, de US$ 901 bilhões em 2026 para US$ 1,5 trilhão em 2027: Lockheed Martin (+4,37%) e Northrop Grumman (+2,35%).


CIAS ABERTAS NO AFTER – O executivo Rafael Russowsky renunciou aos cargos de vice-presidente executivo financeiro e diretor de relações com investidores do GPA…


… Com isso, Conselho de Administração elegeu Alexandre de Jesus Santoro, atual diretor-presidente da empresa, para assumir interinamente a posição de vice-presidente de finanças, acumulando os cargos…


… Além disso, Rodrigo Manso foi eleito como diretor de relações com investidores da companhia…


… Joaquim Alexandre Fernandes Sousa deixou a posição de diretor estatutário, permanecendo como diretor executivo comercial e de logística do GPA.


UNIÃO PET (empresa resultante da fusão entre Petz e Cobasi) fez um ajuste no valor unitário das ações preferenciais resgatadas no processo de fechamento da combinação dos negócios…


… Preço por ação passou a ser R$ 0,7110, ante o valor de R$ 0,7109 informado anteriormente.


MOTIVA E ECORODOVIAS anunciaram em conjunto a conclusão da operação que cria uma plataforma digital para gestão e processamento de pagamentos de pedágios em pórticos com tecnologia free flow (sem cancelas)…


… Após aprovação pela Superintendência-Geral do Cade e cumprimento das condições do acordo firmado em novembro de 2025, as empresas passam a dividir igualmente o controle da Inovap.


MOTIVA. Capital International Investors (CII) reduziu a sua participação na empresa, passando a administrar um total de 95.656.895 de ações ordinárias da companhia, o equivalente a 4,74% do total…


… Conforme dados mais recentes, a gestora detinha 5,17% das ações ordinárias da companhia.

Bankinter MATINAL Portugal

 Análise Bankinter Portugal 


NY 0% US tech -0,6% US semis -1,8% UEM -0,3% España +0,3% VIX 15,5% Bund 2,82% T-Note 4,18% Spread 2A-10A USA=+68pb B10A: ESP 3,26% PT 3,11% FRA 3,53% ITA 3,47% Euribor 12m 2,247% (fut.2,400%) USD 1,165 JPY 183,4 Ouro 4.475$ Brent 62,6$ WTI 58,4$ Bitcoin +0,8% (91.005$) Ether 0% (3.120$).


SESSÃO: Pode ser que consiga subir um pouco, mais provavelmente a Europa do que Wall St., onde a provável rejeição dos impostos alfandegários pelo Tribunal Supremo e um emprego hipoteticamente menos débil do que o esperado poderão prejudicar. Cuidado com as obrigações americanas pelo veredicto dos impostos alfandegários. Em qualquer caso, a sessão vem indefinida em relação às bolsas.


ONTEM saíram, nos EUA, uma Produtividade que se acelera (+1,9% no 3T vs. +1,5% no 2T) e uma redução dos Custos Laborais superiores ao esperado (-1,9% vs. -0,1% esperado vs. -2,9% no 2T, mas revisto em baixa desde -1% preliminar). Esta combinação significa que a economia americana consegue uma capacidade para a melhoria dos ganhos reais de quase +4% sem perder competitividade. Desde um diagnóstico macro, isso é algo absolutamente invejável, não só na Europa, em qualquer lugar do mundo. 


HOJE à primeira hora, saíram: inflação inexistente na China (+0,8% vs. +0,7% novembro) e uma Produção Industrial apenas aceitável na Alemanha (+0,8% vs. +2% outubro). O primeiro continua a ser um indício de uma economia quase estancada na Procura Final e o segundo parece um pouco fraco considerando que ontem saíram Pedidos Industriais inesperadamente bons (+5,6%). Interessante, mas pouco ou nada influencia a sessão de hoje, cujas chaves são as Vendas a Retalho UE (10 h; +1,6% vs. +1,5%), o veredito sobre os impostos alfandegários nos EUA com base em poderes de emergência (15 h) e, principalmente, dados de emprego americano (13:30 h): Criação de Emprego Não Agrícola (+60k vs. +64k), Taxa de Desemprego (4,5% vs. 4,6%), Ganhos Pessoais (+3,6% vs. +3,5%) e Horas/Semana trabalhadas (34,3 vs. 34,3). Desenvolvimentos mais prováveis e potenciais consequências: 

-  Vendas a Retalho UE continuístas e bastante boas. Um pouco de impacto positivo sobre as bolsas europeias.

- Veredito sobre os impostos alfandegários: como Trump os adotou mediante a EEPA de 1977 (Emergency Economic Powers Act) esquivando-se do Congresso, é provável que desautorizem, o que poderá levar a devoluções dos pagamentos dos impostos alfandegários aos importadores. Isso significaria receitas fiscais inferiores, o que elevaria a yield das obrigações americanas (preços em baixa), sobretudo as longas. Mas isso seria uma reação apenas de muito curto prazo, porque imediatamente voltariam a ser aplicados com o apoio de alguma legislação alternativa, como a Trade Expansion Act de 1962 de segurança nacional ou a Trade Act de 1974 de práticas comerciais desleais de terceiros países e de proteção da indústria nacional. Portanto, seria um efeito passageiro, muito passageiro. Os impostos alfandegários permanecerão.

-  Sobre o emprego, o risco é que saia menos débil do que o esperado e que isso arrefeça um pouco as expetativas de mais descidas de taxas de juros da Fed, o que, por sua vez, arrefeceria Wall St. na sessão de hoje. 


Na frente corporativa hoje:

-  Conversas para fusão Rio Tinto + Glencore, que seria mediante troca de ações.

-  GM anuncia um writedown de 6.000 M$ porque reduz investimentos para o desenvolvimento de elétricos. Cai -2% em aftermarket. Ford fez algo muito parecido em meados de dezembro.

-  TSMC publica Receitas 4T´25 melhores do que o esperado: 33.175 M$ (+20,5%) vs. 32.431 M$ esperados. Publicará resultados completos 4T´25 a 15 de janeiro.

-  Em HK, saiu à bolsa outra mini-empresa de IA chamada Minimax, subindo +80%.


Venezuela começa a libertar os presos políticos. Esta era a prova-chave para saber se realmente os EUA têm o controlo do regime chavista, independentemente de quais sejam as proclamações populistas dos seus líderes que permanecem no poder. Isto permite pensar que a Venezuela está neutralizada (receitas por petroleiros piratas e narco), o que debilita o Irão (o empobrecimento interno poderá terminar a derrubar o regime em não muito tempo), Cuba, Rússia e China.


CONCLUSÃO: Sessão indefinida, talvez um pouco mais positiva na Europa do que em Wall St. De seguida, 2 referências-chave da próxima semana: inflação americana na terça-feira (repetir em +2,7%, mas Subjacente a aumentar 1 décima, também até +2,7%) e resultados 4T’25 dos primeiros bancos americanos (JPMorgan, Wells Fargo, BoA, Citi, Goldman, MStanley…) também a partir de terça-feira. A expetativa dessas referências, que são muito importantes, fará com que Wall St. adote, esta tarde, uma espécie de “modo espera”.


FIM

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

ANÁLISE: Venezuela abre disputa entre Rubio e Vance pela sucessão de Trump

Humberto Saccomandi De Para o Valor, de São Paulo

A intervenção americana em andamento na Venezuela tem um componente de política interna americana que transcende o mercantilismo do presidente Donald Trump. A operação colocou em evidência o secretário de Estado, Marco Rubio, e escanteou o vice-presidente, J.D. Vance. Os dois são adversários na disputa pela candidatura presidencial republicana em 2028. Rubio pode ter largado na frente.

Rubio, de 54 anos, origem cubana e que fala fluentemente espanhol, é mais intervencionista e defende uma abordagem linha-dura contra as ditaduras de esquerda na América Latina e contra a presença russa e chinesa na região. Já Vance, de 41 anos, e veterano da guerra no Iraque (não esteve em combate), é ligado ao movimento Maga (Make America Great Again), que é cético com relação a intervenções americanas no exterior e prefere que o governo concentre suas atenções nos problemas internos do país.

Como vice-presidente, Vance é o postulante natural à candidatura presidencial republicana. O vice nos EUA bloqueia o espaço político. O partido buscar evitar divisões, e é comum que outros membros do governo não desafiem o vice. Apenas uma vez na história americana um vice-presidente no cargo tentou e perdeu a candidatura presidencial (em 1940, o então vice, John Garner, disputou a candidatura democrata contra o próprio presidente, Franklin Roosevelt, que decidiu tentar um terceiro mandato, hoje proibido).

Mas Rubio também tem ambições presidenciais. Ele disputou a candidatura republicana em 2016, justamente contra Trump (os dois trocaram ataques duros e ofensivos, mas depois se reconciliaram, e Rubio foi um dos primeiros membros do Gabinete indicado por Trump após a vitória eleitoral de 2024). Para assumir como secretário de Estado, Rubio renunciou à sua cadeira no Senado. Se for preterido na eleição de 2028, sua carreira política pode acabar precocemente.

Em dezembro, Rubio disse publicamente que apoiará Vance se o vice decidir se candidatar à Presidência nas eleições de 2028. Vance ainda não confirmou que disputará a candidatura republicana, mas por que não disputaria? Esse risco atende pelo nome de Donald Trump.

O presidente não poderá disputar um terceiro mandato, a não ser que consiga uma quase impossível reforma constitucional. Normalmente, os presidentes que vão deixar o cargo interferem pouco ou discretamente na disputa pela candidatura do seu partido. O convencional é o presidente apoiar o seu vice. Mas Trump não se atém a convenções. Dada a sua personalidade egocêntrica e autoritária, é bem provável que ele queira escolher pessoalmente o candidato republicano em 2028. Claro, o candidato será escolhido no processo de primárias partidárias, mas o nome que Trump apoiar será o favorito, a não ser que o seu governo termine extremamente mal avaliado.

E a corrida pela preferência de Trump já começou. Em dezembro, a viúva do ativista conservador Charles Kirk, assassinado em setembro, anunciou seu apoio a Vance. "Vamos eleger J.D. Vance, amigo do meu marido, como 480 presidente dos EUA do modo mais retumbante possível", afirmou Erika Kirk. Esse lançamento precoce, com menos de um ano de governo Trump, possivelmente sinaliza que há uma disputa interna em andamento.

O movimento Maga foi fundamental para a eleição de Trump, por sua capacidade de mobilização, especialmente entre os jovens. Mas ele está rachado agora. O principal sinal disso é o confronto aberto entre Trump e Marjorie Taylor Greene, uma das estrelas dessa ala conservadora. Ela divergiu do presidente em várias temas, acusou-o de ter traído os princípios do Maga e renunciou ao mandato de deputada nesta semana.

Sobre a Venezuela, Greene disse que é uma guerra pelo petróleo, que "serve aos interesses de grandes corporações, bancos e executivos"; que os EUA deveriam focar em resolver seus problemas internos em vez de tentar administrar outros países; que os venezuelanos devem escolher seus líderes, e não o governo dos EUA; e que a intervenção é um "tapa na cara" dos eleitores Maga, que estão cansados de envolvimento em guerras no exterior.

Isso ajuda a explicar o sumiço recente de Vance. O vice não estava com Trump no momento da invasão (Rubio, sim), e um porta-voz foi obrigado a dizer que o vice participou das discussões e estava a par da operação. Vance foi econômico nos elogios à intervenção militar, ao contrário do tom autocongratulatório do presidente e de outros membros do governo. Em sua única postagem a respeito, ele não fala em intervenção, ataque, operação militar. Diz apenas que a Venezuela era sim uma fonte de drogas para os EUA e que Trump apenas retomou o petróleo que era de empresas americanas e que foi expropriado pelo regime comunista da Venezuela 20 anos atrás.

Se a intervenção na Venezuela não resultar num novo desastre para a diplomacia americana, como foram o Iraque e o Afeganistão, Rubio, que está sendo chamado de o novo vice-rei da Venezuela (numa alusão ao cargo colonial espanhol), sairá em alta e terá prestado um valioso serviço a Trump. Se der errado, Vance poderá tentar se dissociar da intervenção.

De todo modo, a Venezuela escancara o início da disputa pela sucessão de Trump. Rubio pode estar largando na frente. Mas há tempo ainda e muita coisa pode acontecer.

Leitura de domingo 2

 *Leitura de Domingo: momento para discutir nova reforma da previdência é 2027, dizem especialistas* Por Anna Scabello, Gabriela Jucá e Fern...