Humberto Saccomandi De Para o Valor, de São Paulo
A intervenção americana em andamento na Venezuela tem um componente de política interna americana que transcende o mercantilismo do presidente Donald Trump. A operação colocou em evidência o secretário de Estado, Marco Rubio, e escanteou o vice-presidente, J.D. Vance. Os dois são adversários na disputa pela candidatura presidencial republicana em 2028. Rubio pode ter largado na frente.
Rubio, de 54 anos, origem cubana e que fala fluentemente espanhol, é mais intervencionista e defende uma abordagem linha-dura contra as ditaduras de esquerda na América Latina e contra a presença russa e chinesa na região. Já Vance, de 41 anos, e veterano da guerra no Iraque (não esteve em combate), é ligado ao movimento Maga (Make America Great Again), que é cético com relação a intervenções americanas no exterior e prefere que o governo concentre suas atenções nos problemas internos do país.
Como vice-presidente, Vance é o postulante natural à candidatura presidencial republicana. O vice nos EUA bloqueia o espaço político. O partido buscar evitar divisões, e é comum que outros membros do governo não desafiem o vice. Apenas uma vez na história americana um vice-presidente no cargo tentou e perdeu a candidatura presidencial (em 1940, o então vice, John Garner, disputou a candidatura democrata contra o próprio presidente, Franklin Roosevelt, que decidiu tentar um terceiro mandato, hoje proibido).
Mas Rubio também tem ambições presidenciais. Ele disputou a candidatura republicana em 2016, justamente contra Trump (os dois trocaram ataques duros e ofensivos, mas depois se reconciliaram, e Rubio foi um dos primeiros membros do Gabinete indicado por Trump após a vitória eleitoral de 2024). Para assumir como secretário de Estado, Rubio renunciou à sua cadeira no Senado. Se for preterido na eleição de 2028, sua carreira política pode acabar precocemente.
Em dezembro, Rubio disse publicamente que apoiará Vance se o vice decidir se candidatar à Presidência nas eleições de 2028. Vance ainda não confirmou que disputará a candidatura republicana, mas por que não disputaria? Esse risco atende pelo nome de Donald Trump.
O presidente não poderá disputar um terceiro mandato, a não ser que consiga uma quase impossível reforma constitucional. Normalmente, os presidentes que vão deixar o cargo interferem pouco ou discretamente na disputa pela candidatura do seu partido. O convencional é o presidente apoiar o seu vice. Mas Trump não se atém a convenções. Dada a sua personalidade egocêntrica e autoritária, é bem provável que ele queira escolher pessoalmente o candidato republicano em 2028. Claro, o candidato será escolhido no processo de primárias partidárias, mas o nome que Trump apoiar será o favorito, a não ser que o seu governo termine extremamente mal avaliado.
E a corrida pela preferência de Trump já começou. Em dezembro, a viúva do ativista conservador Charles Kirk, assassinado em setembro, anunciou seu apoio a Vance. "Vamos eleger J.D. Vance, amigo do meu marido, como 480 presidente dos EUA do modo mais retumbante possível", afirmou Erika Kirk. Esse lançamento precoce, com menos de um ano de governo Trump, possivelmente sinaliza que há uma disputa interna em andamento.
O movimento Maga foi fundamental para a eleição de Trump, por sua capacidade de mobilização, especialmente entre os jovens. Mas ele está rachado agora. O principal sinal disso é o confronto aberto entre Trump e Marjorie Taylor Greene, uma das estrelas dessa ala conservadora. Ela divergiu do presidente em várias temas, acusou-o de ter traído os princípios do Maga e renunciou ao mandato de deputada nesta semana.
Sobre a Venezuela, Greene disse que é uma guerra pelo petróleo, que "serve aos interesses de grandes corporações, bancos e executivos"; que os EUA deveriam focar em resolver seus problemas internos em vez de tentar administrar outros países; que os venezuelanos devem escolher seus líderes, e não o governo dos EUA; e que a intervenção é um "tapa na cara" dos eleitores Maga, que estão cansados de envolvimento em guerras no exterior.
Isso ajuda a explicar o sumiço recente de Vance. O vice não estava com Trump no momento da invasão (Rubio, sim), e um porta-voz foi obrigado a dizer que o vice participou das discussões e estava a par da operação. Vance foi econômico nos elogios à intervenção militar, ao contrário do tom autocongratulatório do presidente e de outros membros do governo. Em sua única postagem a respeito, ele não fala em intervenção, ataque, operação militar. Diz apenas que a Venezuela era sim uma fonte de drogas para os EUA e que Trump apenas retomou o petróleo que era de empresas americanas e que foi expropriado pelo regime comunista da Venezuela 20 anos atrás.
Se a intervenção na Venezuela não resultar num novo desastre para a diplomacia americana, como foram o Iraque e o Afeganistão, Rubio, que está sendo chamado de o novo vice-rei da Venezuela (numa alusão ao cargo colonial espanhol), sairá em alta e terá prestado um valioso serviço a Trump. Se der errado, Vance poderá tentar se dissociar da intervenção.
De todo modo, a Venezuela escancara o início da disputa pela sucessão de Trump. Rubio pode estar largando na frente. Mas há tempo ainda e muita coisa pode acontecer.
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