terça-feira, 10 de junho de 2025

BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: IPCA e medidas da Fazenda dividem atenção*


… Na agenda vazia de indicadores lá fora, o destaque é para o segundo dia de reuniões entre os EUA e a China, que acontece em Londres. Representantes dos dois países voltam a se sentar à mesa a partir das 6h da manhã (hora de Brasília). A expectativa é positiva nos mercados. Embora Trump tenha dito que a China “não é um país fácil”, revelou que as negociações estão “indo bem”. Aqui, é dia do IPCA de maio, que deve desacelerar para 0,34% (mediana do Broadcast), de 0,43% em abril, com uma desaceleração ainda mais importante da média dos núcleos, como consequência do recuo dos preços dos alimentos e da deflação das passagens aéreas. Em Brasília, a espera é pelos detalhes do novo IOF e das novas propostas da MP da Fazenda, que deverão ser levadas hoje por Haddad a Lula, de volta da França.


… O mercado teve uma reação em dois tempos às medidas anunciadas parcialmente após a reunião de domingo na residência oficial da Câmara. Primeiro, prevaleceu o mau humor, porque nenhuma medida estrutural foi assumida pelo ministro, Motta ou Alcolumbre.


… Depois, desconfiou que toda essa conversa de enfrentar os temas que fazem o Orçamento insustentável não passava de retórica. E no período da tarde, já tinha certeza de que foi um jogo jogado e que vai ser muito difícil ver um corte de gastos em ano pré-eleitoral.


… Então os ânimos se acalmaram, porque o que não tem remédio, remediado está, e os juros e o dólar caíram (abaixo).


… No Estadão, foi o recuo no IOF que reduziu a pressão do setor privado com a decisão de zerar a alíquota fixa do risco sacado e permitiu que Haddad ganhasse tempo com a MP para negociar com o Congresso as alternativas para ampliar a arrecadação.


… A MP terá prazo de 120 dias, enquanto o ministro tenta reforçar os argumentos para repor os R$ 20 bilhões perdidos no IOF. Ao final do prazo, alguns pontos devem deixar de vigorar, como, por exemplo, a tributação sobre as LCAs e LCIs, que deu tanta gritaria.


… Fora que essas medidas não entrarão em vigor de imediato, por questões de noventena. É, portanto, uma espécie de saída contábil. O ministro finge que está cumprindo o arcabouço e o Congresso finge que acredita. Daqui a quatro meses, arranjam-se outras soluções.


… Quanto às medidas estruturais, o relato obtido pelo jornal é que os parlamentares do PT e aliados foram os primeiros a se opor a cortes de gastos e medidas para limitar o crescimento dos gastos com saúde e educação e a desvinculação do salário-mínimo do INSS.


… Nas apurações de bastidores da mídia sobre a reunião de domingo, todo mundo saiu dizendo que essas medidas não vão acontecer.


… O próprio presidente da Câmara, Hugo Motta, disse isso em outras palavras em evento do Valor, Globo e CNN, nesta 2ªF.


… Segundo ele, o Congresso se comprometeu a avaliar as medidas da MP, mas não se comprometeu em aprová-las, admitindo que pode haver um “descasamento” com as propostas apresentadas pela Fazenda como alternativa para “recalibrar” o IOF.


… O presidente da Câmara disse ainda que os gastos com Fundeb e BPC foram “pouco tratados” na reunião de domingo, assim como as emendas parlamentares e os fundos de participação de Estados e municípios (FPE e FPM).


… Haddad revelou na reunião que os custos que o governo tem com o Fundeb estão caminhando para algo em torno de R$ 70 bilhões, e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) poderá representar um gasto maior do que o Bolsa Família, em dois ou três anos.


… As desonerações podem chegar a R$ 800 bilhões e cortar 10% dessa renúncia fiscal, como pediu Haddad, daria uma folga e tanto.


… O governo sabe que é necessário entrar nesse debate, disse Motta, “mas tem receio, porque se preocupa com a questão eleitoral, e os deputados que vão disputar a eleição no ano que vem também não querem assumir o ônus dessas medidas”.


… Para além das questões eleitorais, o presidente da Câmara descreveu o jogo de empurra que pode travar tudo.


… “O cara que tem um incentivo não quer deixar de ter. Quem está ali ganhando salário acima do teto não quer deixar de ganhar o salário acima do teto. O Parlamento não quer discutir corte de emendas. E o governo não quer ir contra a sua base eleitoral.”


… Resumindo, a agenda estrutural não foi destacada, porque não houve acordo sobre as medidas que todo mundo sabe quais são, que têm um diagnóstico praticamente unânime, um prognóstico consensual, mas que ninguém está disposto a enfrentar.


… A novidade é a postura dos presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, que surpreenderam ao abrir o diálogo sobre temas intocáveis. Pode-se dar o benefício da dúvida se foi pura retórica. Mas o que eles queriam, derrubar o IOF, já levaram.


AS NOVAS MEDIDAS – A decisão de Haddad de taxar em 5% as LCAs e as LCIs, antecipadas já na saída da reunião de domingo, gerou forte repercussão negativa nos setores imobiliário e do agronegócio, nesta 2ªF.


… Para a Abecip, o fim da isenção das Letras de Crédito Imobiliárias vai encarecer os financiamentos habitacionais, já que o instrumento é uma das principais fontes de recursos para o setor, representando cerca de 17%, contra 27% do FGTS e 32% da poupança.


… Também a Frente Parlamentar da Agropecuária disse que “a gente simplesmente não pode aceitar” a taxação das Letras de Crédito do Agronegócio, porque elas são hoje a principal fonte de recursos livres direcionados à concessão de crédito rural.


… A tributação de título de renda fixa isentos é uma das propostas que deve estar na MP anunciada por Haddad, junto com o aumento de taxação sobre as bets, de 12% para 18%, e alíquotas mais elevadas para as Fintechs, igualando a CSLL às dos bancos.


… Haddad pensa também incluir na MP um projeto para a JCP que está na Câmara e ainda não foi votado. Para marcar posição.


MAIS AGENDA – Antes do IPCA (9h), duas prévias de inflação serão divulgadas hoje: a primeira quadrissemana de junho do IPC-Fipe (5h) e o primeiro decêndio do IGP-M (8h). Para o IPCA, a mediana das estimativas aponta para 0,34% em maio (de 0,43%).


… Às 10h, a ABCR divulga o fluxo em estradas pedagiadas no mês de maio.


… Às 10h, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, abre o Tech 2025 da Febraban, que deve render muito noticiário, já que contará com a participação de vários banqueiros, entre os quais, Milton Maluhy Filho (Itaú), Marcelo Noronha (Bradesco) e Mario Leão (Santander).


… O evento, no Transamerica Expo Center, é aberto à imprensa e será transmitido por YouTube.


… Às 13h30, o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, participa de audiência pública na Comissão Especial sobre Inteligência Artificial e, às 14h, o ministro da Previdência, Wolney Queiroz, participa de audiência pública na Câmara.


… Às 16h, o secretário-executivo do BC, Rogerio Antonio Lucca, palestra sobre o Drex no Febraban Tech 2025.


LOS ANGELES – Em meio aos protestos violentos contra as políticas de imigração, Trump ordenou o envio para a cidade de 700 fuzileiros navais, em uma disputa de força particular com o governador da Califórnia, Gavin Newsom.


… A insistência do presidente norte-americano em assumir o comando da repressão às manifestações é vista como uma violação da Constituição pelo governo estadual, que entrou com processo contra Trump nesta 2ªF.


… “Esta é uma crise fabricada para permitir que ele [Trump] assuma o comando de uma milícia estadual”, disse o governador californiano, apontando o uso inconstitucional do poder executivo para usurpar a autoridade do estado.


JOGO DE CENA – Quando o mercado sacou que a MP da Fazenda não vai valer e que as medidas devem parar de vigorar ao fim da vigência de 120 dias, em outubro, dando tempo para Haddad negociar, o estresse baixou.


… O dólar caiu 0,14%, cotado a R$ 5,5619, depois de ter quase raspado em R$ 5,60 na máxima (R$ 5,5988).


… Junto com o câmbio, o DI aliviou prêmio de risco: Jan/26, a 14,850% (de 14,905% no pregão anterior); Jan/27, a 14,185% (de 14,290%); Jan/29, 13,635% (13,710%); Jan/31, 13,790% (13,830%); e Jan/33, 13,850% (13,870%).


… Ao Broadcast, o estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz, observou que, à medida que sai de cena a ajuda do IOF no efeito desacelerador da economia, aumenta a necessidade de o Copom subir o juro.


… Galípolo tem insistido que as opções estão todas em aberto para a reunião de política monetária da semana que vem, mas o investidor tem notado inclinação mais hawkish em muitos de seus comentários recentes.


… Na prática, o recuo no IOF aumenta a pressão para a Selic continuar subindo e alcançar 15%.


… O Ibov reproduziu até o fechamento dos negócios o incômodo com a proposta alternativa da Fazenda ao IOF, mas à tarde se afastou bastante da mínima do dia (134.119), embora tenha fechado abaixo dos 136 mil pontos.


… O índice à vista fechou em queda de 0,30%, a 135.699,38 pontos. O recuo foi limitado pela alta moderada de 0,59% da Vale, que fechou na máxima do dia (R$ 53,29), em direção contrária ao minério de ferro (-0,71%).


… Temendo pelo impacto na rentabilidade, os bancos não gostaram da história da alíquota da CSLL. Mas as ações têm espaço de recuperação, agora que o investidor se deu conta que nada deve sair do papel.


… Itaú PN registrou desvalorização de 0,52% (R$ 36,39), Bradesco PN perdeu 0,75% (R$ 15,84) e Bradesco ON, -0,65% (R$ 13,69). Já Santander unit (+0,07%; R$ 28,75) e BB ON (+0,09%; R$ 21,73) ficaram estáveis.


… Petrobras PN caiu 1,55% (R$ 29,17) e ON recuou 1,05% (R$ 31,24), na contramão do petróleo. Confiante no progresso das negociações comerciais entre EUA e China, o Brent para agosto subiu 0,86%, a US$ 65,29.


CLIMA DE SUSPENSE – Em NY, as bolsas exibiram fôlego reduzido, à espera da rodada de conversas em Londres.


… O Dow Jones ficou estável, a 42.761,76 pontos, assim como o S&P 500 (+0,09%), a 6.005,88 pontos. O Nasdaq subiu pouco, só 0,31%, em 19.591,24 pontos. Os desdobramentos entre Washington e Pequim serão decisivos.


… Dia morno também nos Treasuries, enquanto as conversas com os chineses se estendem. O juro da Note de 2 anos caiu a 4,009%, contra 4,038% na véspera, e o rendimento do título de 10 anos recuou a 4,486%, de 4,505%.


… O investidor assume alguma cautela antes do anúncio da inflação do CPI de maio, amanhã, depois de o último payroll forte ter animado uma briga nas apostas para o Fed em setembro, entre estabilidade e queda do juro.   


… De olho no que sairá da mesa de negociações comerciais, o índice DXY cedeu 0,25%, a 98,939 pontos. O iene subiu para 144,56/US$, o euro avançou 0,27%, para US$ 1,1428, e a libra ganhou 0,23%, cotada a US$ 1,3560.


EM TEMPO… Conselho de Administração da EQUATORIAL aprovou proposta de aumento de capital social da companhia em R$ 12,56 milhões; assim, capital social da empresa passará a ser de R$ 12,63 bi…


… Serão emitidas 700.253 novas ações ON, com o total de papéis chegando a 1.254.548.088 de ações ON; preço de emissão dos novos papéis foi definido em R$ 17,94.


TOTVS. Controlada Dimensa fechou contrato de R$ 260 milhões para a aquisição da totalidade da plataforma do setor de seguros Agger. 


AGROGALAXY reduziu em 38,8% o prejuízo líquido ajustado no 1Tri de 2025, para R$ 153 milhões, contra R$ 250 milhões no mesmo período de 2024…


… O Ebitda ajustado permaneceu negativo em R$ 58,8 milhões, mas apresentou melhora comparado aos R$ 70 milhões negativos de um ano antes.

Bankinter Portugal Matinal

 Análise Bankinter Portugal 


SESSÃO: Paciência lateral. Hoje é o segundo dia de conversações entre os EUA e a China em Londres. Talvez seja transmitido algum desfecho, mas recordemos que as negociações estão limitadas às terras raras. Pelo menos, em teoria. E a China não quererá alargar o âmbito das negociações ao comércio geral, pois é ela que detém as terras raras, pelo que irá defender essa posição de força. Agora é Trump quem está sob pressão. A China tem pouco a perder nesta fase. Trump perdeu credibilidade na Ucrânia, depois de se comprovar que é incapaz de negociar a paz rápida de que se gabava, e agora aperceber-se-á de que geriu a situação com a China de forma tão pouco inteligente que passa a depender dela. A chamada BATNA- Best Alternative to a Negociated Agreement  (Melhor Alternativa a um Acordo Negociado), conceito básico de negociação, favorece a China. O mercado espera hoje alguma novidade, mas deverá receber muito pouco ou nada, embora Trump use a sua grandiloquência para afirmar o contrário. Por isso as bolsas estiveram estáveis ontem e hoje deverão manter-se assim, a menos que se dê crédito às previsíveis exagerações de Trump.


Recordemos que esta semana temos apenas um dado realmente importante, mas que é mesmo relevante: a inflação americana, amanhã. Teme-se que suba para +2,5% e a subjacente para +2,9% face aos +2,8%, depois de ter recuado de +3% em dezembro para +2,3% em abril. Pode indicar uma inversão de tendência que o mercado ainda não descontou e sobre a qual temos vindo a alertar, sobretudo para o segundo semestre. Se o valor for o esperado, que é o mais provável, o mercado manter-se-á morno, na melhor das hipóteses. E as yields das obrigações americanas deverão subir, com o T-Note a ultrapassar a barreira psicológica dos 4,50%. Isso poderá dificultar as valorizações das bolsas. Pode sempre acontecer que a Fed intervenha a comprar para conter as yields, mas a tensão será sentida e as bolsas deverão travar, na melhor das hipóteses. Claro que, no caso hipotético e improvável de a inflação americana sair amanhã melhor do que o esperado, por exemplo, mantendo-se nos +2,3%, o mercado disparará. Por isso o dado de amanhã é tão importante.


Nota positiva de ontem: as Expectativas de Inflação da Fed de Nova Iorque (inquérito a consumidores) recuaram para +3,20% face aos 3,63% anteriores. Nota negativa de ontem: a Apple desiludiu na sua conferência de desenvolvedores ao não apresentar nada realmente novo, transmitindo uma visão algo cética sobre a IA, e caiu -1,2%.


Hoje apenas destaque para o Sentimento do Investidor Sentix na UEM às 10:30h, provavelmente um pouco menos negativo: aprox. -6,0 vs -8,1. Mas é um indicador de baixa influência. E às 14:55h o Redbook ou Vendas Semanais em Grandes Superfícies nos EUA, que convém acompanhar caso haja sinais de fraqueza: +4,9% na semana passada e com tendência recente de abrandamento. Mas só para o caso de surgir alguma surpresa.


CONCLUSÃO: Lateralidade e expectativa pela inflação americana de amanhã. Os futuros sobre as bolsas apresentam-se estáveis e o mercado tende a comprar ligeiramente obrigações, com o USD um pouco menos fraco devido à expectativa das negociações sino-americanas. Nada de novo sobre o qual elaborar.


S&P500 +0,1% Nq-100 +0,2% SOX +2% ES50 -0,2% IBEX 0% VIX 17,2% Bund 2,56% T-Note 4,47 Spread 2A-10A EUA=+47pb O10A: ESP 3,14% PT 3,03% FRA 3,24% ITA 3,48% Euribor 12m 2,088% (fut. 2,101%) USD 1,140 JPY 164,9 Ouro 3.315$ Brent 67,1$ WTI 65,3$ Bitcoin +3,7% (109.408$) Ether +7,6% (2.677$).


FIM

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Piada x cadeia

 https://www.estadao.com.br/opiniao/quando-piada-da-cadeia-salve-se-quem-puder/?recomendacao=home_0&pos=3&readed=1


*Quando piada dá cadeia, salve-se quem puder*


_Punir piadas é sinal de fraqueza institucional, e não de justiça. O humor é parte da liberdade que protege o que nos incomoda, e uma sociedade plural não sobrevive à criminalização do riso_


Por Notas & Informações


A condenação de um comediante à prisão marca um ponto de inflexão alarmante na trajetória democrática brasileira. Mais do que um veredicto equivocado, é a expressão mais grotesca de uma tendência crescente: a criminalização do discurso incômodo sob o pretexto de proteger os vulneráveis. A toga virou armadura ideológica, e o Código Penal, instrumento de censura.


Léo Lins foi condenado a oito anos de cadeia e quase R$ 2 milhões em multas e indenizações, não por incitar violência ou praticar atos concretos de discriminação, mas por satirizar grupos sociais. Seu humor seria “preconceituoso”, “humilhante”, perigoso. Nada mais perigoso, no entanto, do que essa nova ortodoxia judicial que confunde o direito de não ser agredido com um suposto direito de não se sentir ofendido – e que torna o Judiciário tribunal moral, e o artista, réu político.


Uma das bases da condenação – a Lei 14.532/2023, apelidada “antipiada” – escancara o desatino. Ao prever aumento de pena quando a ofensa ocorre “com intuito de descontração, diversão ou recreação”, inverte um princípio liberal elementar: que o contexto artístico deve ser protegido, e não punido com mais rigor. Pior: cria uma categoria penal contra a liberdade artística. Uma aberração jurídica, incompatível com qualquer concepção madura de pluralismo.


Libertar o humor do arbítrio estatal não é capricho. É condição da liberdade. Desde Aristófanes até os criadores do Monty Python, Casseta & Planeta ou Porta dos Fundos, o humor sempre foi uma linguagem transgressora, perturbadora, essencial à crítica cultural, social e política. Como a arte, o humor lida com ambiguidades, exageros e contradições. Suprimir esse campo da linguagem é mutilar parte do espírito humano. Não cabe ao Estado decidir o que é engraçado – nem o que é tolerável.


As piadas de Lins são preconceituosas? E daí? A liberdade de expressão não existe para proteger discursos populares ou elegantes que não precisam de proteção, mas sim aquilo que desagrada, desafia convenções, irrita e até fere sensibilidades. Como ensinou Ronald Dworkin, reconhecer a liberdade de expressão é tratar os cidadãos não como crianças a serem tuteladas pelo Estado, mas como agentes morais autônomos, capazes de julgar ideias por si. Como advertiu John Stuart Mill, silenciar a opinião minoritária – mesmo quando absurda ou repulsiva – é roubar da sociedade a chance de confrontá-la, refutá-la e amadurecer com o embate.


O caso não é isolado. O Judiciário condenou jornalistas por divulgar com “linguagem sarcástica” dados públicos sobre salários de magistrados. Um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) mandou destruir livros com “conteúdo preconceituoso”. A Corte ameaça reescrever o Marco Civil da Internet, enquanto o governo Lula a pressiona a punir as redes sociais, atropelando o Legislativo. Tudo sob a retórica de proteção da democracia. Mas uma democracia que precisa censurar para se proteger não é uma democracia – é um simulacro.


Sob o manto das boas intenções, a sociedade brasileira flerta com duas tentações iliberais: a do Estado paternalista, que infantiliza o cidadão em nome de sua proteção, e a judicialização da vida moral, estética e cultural – como se todo dissenso precisasse ser solucionado pelo martelo do juiz criminal.


O Brasil precisa resistir a esse impulso regressivo e repressivo. Piadas ruins devem ser criticadas, e não criminalizadas. Discursos odiosos devem ser desmoralizados, e não aniquilados com prisão. O riso – inclusive o cruel, ácido, perturbador – é uma válvula essencial das sociedades livres. Retirá-lo do espaço público é sufocar a liberdade.


Como disse o historiador da liberdade de expressão Jacob Mchangama: “Combater ideias iliberais com leis iliberais só perpetua o iliberalismo”. A sentença contra Lins não protege os vulneráveis. Só os infantiliza. Não fortalece a democracia. Só expõe suas debilidades.


É hora de desfazer essa caricatura de Justiça e de revogar as leis grotescas que a sustentam. É hora de reafirmar que uma democracia em que o humor é tratado como crime não é uma democracia. Porque, no fundo, onde o riso é proibido, o pensar também está em risco."

Bankinter Portugal Matinal

 Análise Bankinter Portugal 


SESSÃO: Hoje movemo-nos entre o otimismo ingénuo perante a reunião entre os EUA e a China, em Londres, sobre terras raras e a inquietude perante as revoltas na Califórnia pela perseguição de imigrantes sem documentos e empresários de primeira linha a expressarem-se, em Washington, contra o plano fiscal de Trump, que seletivamente dissuadiria o investimento estrangeiro precedente de países considerados “fiscalmente adversos” para os EUA. Sobe, mas os futuros americanos vêm fracos (-0,1%) como reação espontânea contrária a uma sexta-feira que foi inesperadamente boa graças a dados de emprego favoráveis.


Esta semana dependemos da inflação americana de quarta-feira, porque poderá começar a aumentar depois de ter vindo a retroceder desde +3% em dezembro até +2,3% em abril. Estima-se que aumentará +2,5% e a Subjacente até +2,9% vs. +2,8%, o que pode indicar uma mudança de tendência que o mercado não tem descontado e sobre o que temos vindo a insistir para, principalmente, o segundo semestre. Parece que os Preços Industriais de quinta-feira também aumentarão (+2,6% vs. +2,4%). Cuidado com este aumento da inflação, porque as obrigações americanas não o encaixarão com indiferença e são a classe de ativos que mais influencia sobre o conjunto do mercado. Particularmente sobre as bolsas. A yield do T-Note manteve-se no intervalo 4,00/4,50% desde março e além da fronteira psicológica de 4,50% colocaria as coisas mais difíceis para a avaliação da bolsa americana. A probabilidade não é baixa. A semana passada subiu +10 p.b., até 4,50%. A forma de perceber a evolução da inflação americana durante os próximos meses poderá mudar. Tenhamos em conta que tanto os impostos alfandegários como a debilidade do dólar são forças inflacionistas.


Até agora, as bolsas aguentaram bem o aumento da incerteza graças à redistribuição do fluxo de fundos desde os EUA para a Europa e pelo denominado FOMO ou “medo de perder” (Fear Of Missing Out). Mas ambos os fatores podem debilitar-se.


Por um lado, a redistribuição de fundos a favor da Europa poderá esgotar-se. A bolsa europeia reavaliou-se ca.+10% no ano. Mas, em euros, para um investidor europeu, Wall St perdeu ca.-8% porque o dólar depreciou-se ca.-10%. Talvez o reajuste geográfico já tenha pouco potencial.


Por outro lado, se a inflação americana aumentar na quarta-feira, é provável que o FOMO se debilite. Uma inflação superior implicaria yield do T-Note também superior e, portanto, avaliações de bolsas menos cómodas. A deterioração fiscal americana (Défice e Dívida) influencia no mesmo sentido. Por isso, o FOMO deverá perder capacidade de influência positiva sobre as bolsas. 


A inflação americana de quarta-feira é determinante, eclipsando o restante. Isso se a tecnologia demonstrar novamente ser quase imune ao circunstancial (impostos alfandegários, inflação, etc.), porque é capaz de continuar a ser a fonte mais dinâmica de geração de lucros, a julgar pelos seus recentes resultados e guias. Sem ir muito longe, Broadcom, na semana passada, e Nvidia na anterior. Por isso, o SOX (semicondutores) subiu quase +6% na semana passada. E também por isso reintroduzimos tecnologia nas nossas Carteiras Modelo de Fundos para junho. 


CONCLUSÃO: Sensações mistas, com provável arranque plano na Europa. A reunião de hoje entre os EUA e a China sobre terras raras gera uma expetativa positiva, mas cuidado com a reação à inflação americana de quarta-feira. Só com este dado será uma semana fundamental em relação à perceção sobre a inflação americana, e isso pode pressionar as yields das obrigações americanas em alta, debilitando também a perspetiva sobre as avaliações das bolsas. 


S&P500 +1% Nq-100 +1% SOX +0,5% ES50 +0,4% IBEX +0,3% VIX 16,8% Bund 2,58% T-Note 4,50 Spread 2A-10A USA=+49pb B10A: ESP 3,15% PT 3,04% FRA 3,25% ITA 3,51% Euribor 12m 2,041% (fut.2,119%) USD 1,142 JPY 164,9 Ouro 3.315$ Brent 66,4$ WTI 64,5$ Bitcoin +2,2% (105.436$) Ether +0,9% (2.487$). 


FIM

BDM Matinal Riscala

 _Caros amigos, bom dia!_

_Iniciamos as transmissões do BDM Online com o BDM Morning Call, que traz as expectativas da pré-abertura._


*BDM Morning Call: Fechado o acordo para rever o IOF*


[09/06/25] Um final de semana de protestos em Los Angeles, com manifestantes ateando fogo em veículos contra a política de imigração, é a nova crise de Trump, que ainda tem pela frente hoje a reunião entre representantes americanos e chineses, em Londres. Os interesses dos EUA sobre minerais raros e as restrições de Washington à venda de softwares chineses compõem uma pauta difícil, sem garantia de acordo. A China também abre o noticiário desta 2ªF com os dados da balança comercial em maio, que confirmou a desaceleração das exportações e a queda das importações, em meio ao impasse tarifário. Aqui, investidores repercutem as medidas apresentadas ontem à noite pela Fazenda aos líderes do Congresso, que devem agradar ao mercado financeiro, com revisão do decreto do IOF e previsão de propostas estruturais. *(Rosa Riscala)*


_Leia o BDM Morning Call na íntegra acessando o link_

www.bomdiamercado.com.br

CRI e CRA sem isenção

 CRI, CRA e debêntures incentivadas também serão taxadas em 5%, diz fonte

Jéssica Sant'Ana

Brasília

O fim da isenção de Imposto de Renda (IR) sobre Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) também vai atingir outros títulos que hoje são isentos do imposto, como Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI), Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e debêntures incentivadas, segundo apurou o Valor.


Todos esses títulos incentivados que hoje são isentos de IR vão passar a ser taxados em 5%, se a medida provisória (MP) que será proposta pelo governo for aprovada pelo Congresso Nacional. Ontem à noite, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, após ser questionado pela imprensa, esclareceu que LCI e LCA perderiam a isenção de IR, mas não comentou explicitamente sobre os demais títulos isentos.


A Fazenda atribuiu essa proposta de taxação dos títulos incentivados como uma "correção das distorções no mercado de títulos e valores mobiliários". 


Essa é uma das medidas mais polêmicas proposta pela Fazenda para substituir a arrecadação prevista com o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). A MP, ainda segundo apurou o Valor, não taxará o estoque dos títulos, ou seja, quem já comprou os papéis não pagará IR, que valerá somente para novas emissões.


Como se trata de uma mudança no IR, a taxação só poderá valer a partir de 2026, devido ao princípio da anualidade.

domingo, 8 de junho de 2025

Leitura de domingo 2

 Leitura de Domingo: Esforço do Congresso para revisão estrutural do gasto é vista com ceticismo


Por Fernanda Trisotto e Giordanna Neves


Brasília, 03/06/2025 - A nova postura dos líderes do Congresso, sobretudo do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), mais aberto a discutir medidas estruturais para contenção do gasto público, é vista com ceticismo por integrantes da equipe econômica ouvidos pelo Broadcast.


Um integrante do alto escalão do governo demonstrou incredulidade com a votação de medidas impopulares neste momento, levando em conta o ano eleitoral em 2026. Na avaliação dessa fonte, o entendimento entre Executivo e Legislativo, que vem sendo anunciado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, Motta e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), com anuência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é de que as medidas, por ora, devem resolver o curto prazo.


A questão, apontou essa fonte, é "combinar" com as bases. E isso, de fato, não ocorreu. Após almoço no Palácio da Alvorada, Haddad disse que não detalharia as medidas discutidas sem que antes houvesse uma apresentação para as lideranças do Congresso. Embora o cardápio de ações estruturais para reduzir as despesas esteja azeitado entre os chefes dos dois Poderes, é preciso ver se haverá adesão para a aprovação das propostas.


"O que eu posso assegurar é que, do que diz respeito ao presidente das duas Casas e o presidente da República, acompanhado do vice-presidente, houve um alinhamento muito grande em relação aos parâmetros que nós estabelecemos para encaminhar essas medidas. Há um compromisso de não anunciá-las antes de uma reunião com os líderes, nem parcialmente, em respeito ao Congresso Nacional, que é quem vai dar a última palavra sobre as propostas encaminhadas", disse Haddad mais cedo.


O desafio, agora, é fazer com que o alinhamento também seja adotado pelas bases. Nos bastidores do Congresso, técnicos demonstram descrença no avanço de algumas agendas. Eles dizem que alterações nos pisos constitucionais da Saúde e da Educação, por exemplo, "têm zero chance de passar" e lembram que as bancadas temáticas, sobretudo da Educação, são muito bem organizadas no Parlamento. Apesar da mudança ter sido levantada nos bastidores, técnicos do próprio governo reconhecem que a medida teria impacto fiscal "muito baixo" até 2029, como mostrou o Broadcast.


Em relação à agenda de benefícios fiscais, a expectativa é de que sejam anunciadas apenas medidas pontuais, sem alcançar as principais isenções, como as do Simples Nacional, da Zona Franca de Manaus (ZFM) e do agronegócio, setores que contam com forte atuação de lobby no Congresso. Além disso, parte desses benefícios possui blindagem constitucional, o que dificulta ainda mais qualquer tentativa de reversão.


Como revelou a reportagem, o Agronegócio, a ZFM e as Áreas de Livre Comércio (ALC) consumiram, juntos, mais de R$ 200 bilhões em benefícios em 2024 - cerca de R$ 100 bilhões a mais do que o valor projetado no Demonstrativo de Gastos Tributários de 2025, previsto na Lei Orçamentária.


Contatos: giordanna.neves@estadao.com; fernanda.trisotto@estadao.com


Broadcast+

ANÁLISE: Venezuela abre disputa entre Rubio e Vance pela sucessão de Trump

Humberto Saccomandi De Para o Valor, de São Paulo A intervenção americana em andamento na Venezuela tem um componente de política interna am...