segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Terreno em Santa Cruz de Cabralia

 *Melhor que o CDB do Banco Master*


A instituição que Daniel Vorcaro tenta vender para o Estado aceitou como garantia de um empréstimo milionário um terreno que valorizou 11 mil% em 36 dias


Melhor que o CDB do Banco Master

Quem chega ao bairro Geraldão, na periferia de Santa Cruz Cabrália, na Bahia, percebe logo que a área não é própria para o turismo de luxo, tão frequente nas badaladas praias vizinhas. Ali, a piauí encontrou barracos de pau a pique embrulhados em lona de plástico preta, crianças brincando peladas no barro e uma plantação de mandioca. O principal terreno do local é enorme, com 541 mil m2, mas é o avesso do sonho de um investidor de alto padrão: fica a quase 3 km da praia, é reivindicado por dezenas de famílias do povo Pataxó que estão ali instaladas e está rodeado por um bairro pobre cujos muros estão repletos de pichações do Primeiro Comando da Capital (PCC), organização criminosa dominante na área.


A história do imóvel é um capítulo das transações imobiliárias nebulosas que agora vêm à tona no bojo de outra operação controversa: a compra do Banco Master pelo BRB, o banco estatal de Brasília, anunciada em março passado e ainda sob análise do Banco Central.


No caso do Geraldão, o primeiro ato da transação aconteceu em 14 de junho de 2022, quando a Mar Azul Construção, Comércio e Serviços, uma empresa da Bahia, vendeu o terreno por 500 mil reais para a FXF Empreendimentos Imobiliários, de São Paulo. Menos de um ano depois, em 19 de junho de 2023, a FXF se desfez da área por 900 mil reais. Era um negócio e tanto, com uma valorização de 80% em pouco tempo. Mas a FXF vendeu o terreno em termos, porque o imóvel foi comprado pela Taipe Empreendimentos Imobiliários, firma do mesmo grupo da FXF. Na prática, ficou tudo em casa. Nessa altura, meados de 2023, outra empresa do grupo, a Griffood Brasil Alimentos, começou a negociar um empréstimo com o Banco Master. 


Em meio à negociação, o terreno no Geraldão passou por uma reavaliação do seu valor. A Newmark, um escritório de avaliação de bens localizado na região da Avenida Faria Lima, em São Paulo, encarregou-se da tarefa. A Newmark disse à piauí que mandou um funcionário à Bahia para avaliar a área e cumpriu todas as normas do ramo. O resultado, no entanto, foi um espanto: o imóvel que em 2022 foi arrematado por 500 mil e revendido por 900 mil no dia 19 de junho de 2023, agora, no dia 24 de julho, pouco mais de um mês depois, era avaliado em cerca de 100 milhões de reais. Um colosso. Em 36 dias*, valorizou-se 11 mil%.


Com tamanho salto, a Griffood Brasil Alimentos tinha agora um terreno de 100 milhões para oferecer em garantia ao empréstimo que estava pleiteando com o Master. João Jacques Galvão Lima, representante da Griffood, disse à piauí que o próprio Master sugeriu que a Griffood contratasse a Newmark para avaliar o imóvel (a Newmark, por sua vez, afirma que não tem relações comerciais com o banco). Lima achou que se tratava de um pedido normal e, como precisava do dinheiro, atendeu à sugestão. Em dezembro de 2023, o Master aceitou a garantia do terreno no Geraldão e concedeu o empréstimo de 356 milhões de reais à Griffood, segundo a própria empresa beneficiária. Com isso, o imóvel passou a ser propriedade do Master – até que o empréstimo fosse devidamente saldado. 


Para calcular o valor do imóvel em 100 milhões, a Newmark atribuiu ao metro quadrado a média de outros cinco terrenos localizados em lugares paradisíacos do litoral baiano. São imóveis à beira da praia, sem confusões fundiárias que remontam à chegada dos portugueses ao Brasil e localizados a até 23 km do bairro Geraldão. Diante da falta de coordenadas que apontem a localização exata dos cinco terrenos usados como referência, a piauí conseguiu visitar apenas três – e constatou de modo inequívoco: são incomparáveis.


A Newmark escolheu os imóveis por meio da internet, buscando anúncios de imobiliárias da região. Na avaliação final, à qual a reportagem teve acesso, a empresa usa um texto genérico para contextualizar seu trabalho, citando vagamente pesquisas de mercado, impactos da Covid e a guerra na Ucrânia, e ignorando a reivindicação indígena de posse sobre a área. A Newmark alegou que estudos do tipo partem do pressuposto de que os terrenos estão desimpedidos e dependem de informações passadas pelos proprietários. Na sua avaliação do valor comercial da área, a Newmark concluiu que o imóvel valia 100 milhões de reais, enquanto a liquidação forçada, ou seja, a venda imediata da terra sem tempo para negociações, geraria 71,2 milhões de pronto. 


Na prática, no entanto, o Master tem em mãos um ativo podre, já que é evidente que o terreno do Geraldão não vale 100 milhões de reais, segundo todas as imobiliárias da região ouvidas pela piauí. Tampouco obteria 71 milhões de reais numa venda apressada. (No registro em cartório, atribuiu-se ao terreno um valor ligeiramente mais baixo, 97,8 milhões de reais, mas igualmente fictício.) Por operações assim, que jogam dúvida nos números do Master, o Banco Central ainda não aprovou a compra do banco pelo BRB, banco estatal de médio porte controlado pelo Distrito Federal, considerada a maior operação de salvamento de uma instituição bancária na história do mercado brasileiro (leia aqui reportagem da edição 224, de maio). A lista de pecados a serem expurgados não é curta. O mais conhecido é o histórico de rentabilidade excepcional do CBD do banco, de até 130% do CDI, muito acima da praticada no mercado e notoriamente insustentável (confira aqui outra reportagem sobre o tema, da edição 217).


Para Cristina Helena de Mello, professora de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o caso do terreno merece uma atenção mais detida. “Se o banco aceitou um bem de valor inflado ou de liquidez duvidosa, isso pode configurar um risco sistêmico ou indício de má conduta, o que cabe ao Banco Central investigar.” Segundo a especialista, é grave usar um território ocupado por indígenas como garantia. “Terras ocupadas por povos originários têm proteção constitucional e não podem ser livremente negociadas.” Para ela, em casos que envolvem potencial fraude na valorização do bem, como indícios de superfaturamento ou laudos irregulares, o caso também pode envolver o Ministério Público Federal e a Polícia Federal. “Principalmente se houver implicações envolvendo terras públicas, indígenas ou uso indevido de recursos do sistema financeiro.”


Santa Cruz Cabrália está na chamada Costa do Descobrimento, no litoral Sul da Bahia. Fica no ponto do litoral brasileiro em que as caravelas portuguesas de Pedro Álvares Cabral atracaram em 1500. Atualmente, é um município de 30 mil habitantes e graves problemas de violência. Em 2022, um ano antes do empréstimo do Master, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública informou que Cabrália era a 24ª cidade com maior número de mortes violentas intencionais no Brasil.


Em sua área central, na linha onde fica o terreno que virou um bem milionário, a praia é urbana, cercada por um calçadão de concreto e pouco atraente, se comparada com outros destinos nos arredores. Foi considerando tais características, a violência e um cenário pouco convidativo para negócios de luxo, que um corretor de imóveis, que pediu para não ser identificado, começou a trabalhar para negociar a área no Geraldão. 


Em julho de 2023, ele foi contratado por representantes da Taipe, então dona do terreno, para iniciar a montagem de um loteamento popular no espaço. “Foi tudo por telefone e correio”, lembra o profissional, que atendeu a piauí em seu escritório, em Porto Seguro.


Ele receberia 6% do valor de revenda do imóvel e mais alguns lotes. Sua entrada na jogada era uma forma de blindar o terreno contra outros eventuais investidores interessados e os próprios indígenas, que já tinham um grande acampamento adjacente consolidado e reivindicam a posse do terreno do Geraldão.


O corretor também recebeu a tarefa de fazer um estudo topográfico da área que pudesse ajudar a formar um preço atualizado do bem. Ele próprio, interessado na comercialização, fez um cálculo já extravagante, de altíssima valorização em relação aos valores oficiais: 10 milhões de reais, considerando o potencial para construção de conjuntos habitacionais e levando em conta a evolução dos indicadores do mercado, em relação aos valores registrados antigamente em cartório.


No começo de 2024, o corretor foi tomado pelo espanto. “De seis em seis meses, eu pego uma certidão no cartório de cada cliente meu. Eu peguei a certidão do terreno, e vi que tinha servido de garantia para uma operação de crédito de 356 milhões de reais. Eu tomei um susto.” Nas contas do corretor, considerando o valor do empréstimo garantido pelo imóvel e a avaliação do próprio terreno, sua comissão deveria agora ficar em 23 milhões de reais. O corretor obteve então uma cópia do documento que atesta que, hoje, a propriedade oficial do imóvel no Geraldão é do Master. 


O corretor conta ter entendido que estava sendo envolvido em um golpe e, pior, levando um calote. Segundo ele, até aquele ponto, não havia sido feito nenhum pagamento pelo seu trabalho. Nesse momento, ele abandonou o cuidado com a área – e os indígenas ocuparam todo o terreno e o lotearam entre suas famílias. Decidiu, então, brigar por seus direitos. Juntou todas as informações de que dispunha: contratos, documentos do cartório, reportagens sobre suspeitas a respeito do Master e boletins de ocorrência, registrando o esforço para conter o avanço dos indígenas. Em agosto de 2024, ingressou na Justiça com uma ação de cobrança, pedindo o bloqueio liminar da matrícula da área e o pagamento da taxa de corretagem de 23 milhões. 


Depois de analisar todo o enredo, a juíza Tarcísia de Oliveira Fonseca Elias, da Vara dos Feitos Relativos às Relações de Consumo, Cíveis e Comerciais no município, deu razão inicial ao corretor e viu uma “possível fraude contra o sistema financeiro” no imbróglio. Em março passado, a magistrada tornou indisponível o imóvel do Geraldão, ou seja, nada mais pode acontecer ali sem passar por avaliação prévia da Justiça. Além disso, determinou o bloqueio de 23 milhões das contas da Taipe e remeteu os autos aos Ministérios Públicos Estadual e Federal na Bahia. O caso segue correndo em primeira instância para análise do mérito.



O potiguar João Jacques Galvão Lima, de 59 anos, é o responsável pela Griffood, a tomadora do empréstimo com o Master. Seu nome não é citado em colunas sociais ou anúncios de fusões empresariais – pelo contrário, é um ser quase invisível de tão discreto. Para quem o procura em bancos de dados oficiais, uma das menções mais detalhadas – e recentes – está em um processo judicial no Ceará, no qual ele se apresenta como “pescador artesanal”. No documento, Lima requer gratuidade das custas processuais e se declara “pobre na forma da lei”.


A viagem da reportagem até a residência informada por Lima durou, no total, quase três dias, partindo de São Paulo, onde fica oficialmente a Griffood. Foram quase cinco horas de avião e sete de carro. A vila de pescadores fica na área em que, hoje, funciona uma usina eólica à beira-mar. É uma paisagem formada por dunas de quase 30 metros de altura, que se movem de acordo com a direção do vento. Poucos lugares no Brasil são tão intransponíveis.


Um grande portão interrompe a sinuosa estrada de terra que liga a rodovia asfaltada até o mar. Para evitar que aventureiros se percam nesse labirinto de areia branca, um segurança avisa que não é possível entrar no espaço sem a companhia de algum morador local. Vencido o entrave, a piauí leva mais 20 minutos contornando as dunas e chega até a vila de pescadores Praia do Xavier e Barra dos Remédios, no interior do município de Camocim (CE).


No processo judicial, Lima se declara “residente” da região, que fica quase na divisa com o Piauí. As distâncias demonstram o isolamento do lugarejo: fica a 385 km de Teresina ou 408 km de Fortaleza. É um povoado ermo, pequeno, onde moram cerca de trinta famílias – muitas sem acesso à eletricidade, apesar de conviverem com o barulho constante das hélices que geram energia com o vento. 


Retalhos de plástico protegem buracos na estrutura da casa de pau a pique declarada como a moradia do responsável pela Griffood – mas ele não está lá. “Ele tem uma casa aqui, mas não vive aqui”, disse uma vizinha. Indagada se Lima seria pescador, ela silencia e estranha a informação. Mais tarde, diz lembrar-se que o forasteiro fez um curso recentemente para conseguir o título. “Mas não é pescador, assim como a gente.” Os moradores informam que a última vez que viram Lima na região foi em janeiro deste ano.


A primeira notícia concreta sobre o paradeiro de Lima vem de outro lugar: um sobrado em uma rua de paralelepípedo no bairro Edson Queiroz, na periferia de Fortaleza, o endereço da residência de uma das ex-sócias e administradoras da Taipe. Trata-se da advogada Renata Carneiro Barbosa Galvão, filha de Lima. Ela, aliás, entrou na companhia em uma data cheia de significado: 22 de dezembro de 2023, data em que o terreno foi alienado para o Master.


Renata Galvão disse que desconhece a tal operação. Sequer confirmou saber os nomes das firmas das quais ela própria fez parte ou das entidades do império empresarial ligado ao seu pai. Taipe? “Nunca ouvi falar.” Griffood? “Não tenho conhecimento.” Confrontada com a informação de que seu pai estaria envolvido com um empréstimo de 356 milhões de reais – hoje beirando os 500 milhões de reais –, a mulher de 30 anos foi taxativa: “Amigo, meu pai não tem nem cacife para ter tomado um empréstimo dessa proporção.” 


A Taipe e a Griffood são companhias que, ao longo dos anos, fizeram frequentes trocas de sócios e endereços. A piauí esteve no bairro do Traviú, em Jundiaí, no interior de São Paulo, onde funcionam algumas unidades do grupo. São firmas ligadas por vínculos societários com indícios de uso de laranjas, como no caso da filha de Lima. No total, mais de oitenta empresas estão registradas nesse cipoal de firmas pelo Brasil todo. A maioria é do ramo alimentício. Mas há também entidades de outras áreas, como locação de imóveis e informática – uma galáxia de negócios em que orbita o nome do empresário Edson José Bandeira Braga Filho. 


Responsável por um grupo que responde a 133 processos judiciais de dívidas e burlas tributárias, Braga Filho falou com a piauí por telefone. Não soube ou não quis falar sobre o empréstimo do Master. Afirmou que a Griffood é um nome sólido no ramo de comida congelada. Apontou Lima como dono da firma e colocou-o em contato com a piauí. A revista teve duas conversas com Lima. Na primeira, por telefone, ele estava desconfiado. Negou ter a pesca como profissão. “É meu lazer, meu hobby.” Segundo ele, o processo judicial com tal menção foi uma forma de ajudar, com recursos e advogado, os pescadores da vila contra as pressões para tirá-los de Barra dos Remédios, onde teria comprado um casebre para descansar.


Ele confirmou, no entanto, o empréstimo do Master. E deu a entender que o negócio envolveu mais do que o terreno em Cabrália. “O Banco Master fez uma operação e não foi só com a gente. É um pool de investidores”, disse, sem explicar detalhes do caso, alegando sigilo. De fato, dias antes da entrega do imóvel como garantia, houve a criação de um fundo de investimento, chamado Griffood Brasil, na Reag Investimentos, uma administradora cujo presidente do Conselho de Administração é João Carlos Mansur, velho parceiro de negócios de Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master.


Um detalhe em documentos analisados pela piauí chama a atenção: em 2018, muitos anos antes do imbróglio atual, a Griffood informou à Receita Federal que um de seus contatos era um advogado chamado Antonio José Santos Guimarães, que vem a ser o atual “gerente paralegal” da Reag. A piauí ouviu um auditor fiscal da Receita Federal para entender o significado dessa coincidência que fez o mesmo nome aparecer na Griffood e na Reag. A repetição do nome, segundo o especialista, indica alguma relação de ordem fiscal entre as duas empresas. Mas a suspeita mais complexa é de que o empréstimo de 356 milhões seja uma operação para subtrair esse montante do banco, sem o conhecimento de investidores e conselheiros do Master. Em nota, a Reag não explicou a coincidência, mas informou que “não tem e jamais teve qualquer tipo de controle sobre a Griffood”. 


A segunda conversa com Lima, pessoalmente, aconteceu em uma confeitaria no sofisticado Shopping Iguatemi, em São Paulo, na Avenida Faria Lima. Aparentando serenidade, apresentou-se como um empresário que foge dos holofotes. “Meu negócio é produzir alimento congelado”, disse, referindo-se a pizzas artesanais e croissants que, segundo ele, são vendidos para que companhias de renome coloquem suas marcas posteriormente. “Dou sustento através do trabalho honesto para mais de setecentas famílias.” Disse que sua filha só disse que ele não tinha “nem cacife” para tomar o empréstimo porque foi pega de surpresa pela reportagem. Acrescentou que a filha não conhece sua vida muito bem e que colocou o nome dela na sociedade da empresa apenas para ajudá-la. 


Indagado sobre eventuais irregularidades na concessão do empréstimo e na avaliação do terreno usado como garantia, Lima disse que a situação deveria ser “sondada e verificada mais para cima um pouco”. “É lá do banco para cima. Onde é que eles erraram, se é que erraram alguma coisa, se fizeram alguma coisa de errado… Tem que ver o que está acontecendo com eles, né?”


Sustentou que uma parte do empréstimo de 356 milhões foi investida na Griffood e outra parte foi reaplicada no próprio Master. Mesmo assim, documentos indicam que a firma segue com dificuldades financeiras. Hoje, a Griffood possui 23 títulos de dívida registrados no Tabelionato de Protesto de Letras e Títulos de Jundiaí, em um passivo de 1,53 milhão de reais. Uma das firmas credoras ingressou com um pedido de falência contra a Griffood no Tribunal de Justiça de São Paulo.


Não é incomum uma empresa pegar um empréstimo para ter caixa e ir fazendo os investimentos ao longo do tempo, segundo Roberto Luis Troster, doutor em economia e ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Se é uma operação acertada ou não, diz o especialista, depende do que será feito com o dinheiro. “Se o crédito for usado em um empreendimento rentável e lícito que gere recursos para pagar o empréstimo, é uma operação inteligente. Se não for assim, é uma operação estranha, suspeita, e causa prejuízos.”


Para Lima, “valia a pena”. Indagado por qual razão pegou emprestado um dinheiro de que não precisava imediatamente, ele declarou: “Vou usar já, já.”


A piauí enviou nove perguntas sobre o episódio ao Banco Master. A instituição mandou uma nota afirmando que “a referida operação foi realizada em total conformidade com as regras previstas no Manual de Crédito da Instituição”. Disse ainda que “a operação já foi quitada e que o Banco não possui qualquer crédito com a empresa citada”. O Master não quis esclarecer como foi feita a quitação, nem se o crédito foi terceirizado para outra empresa, nem a data em que isso teria ocorrido, nem o responsável pela ação. 


Na confeitaria do Shopping Iguatemi, Lima preferiu não entrar em detalhes sobre as suspeitas que pairam sobre a avaliação do terreno na Bahia. “O Banco Master, detentor do recurso, me emprestou dizendo que acatava aquilo como parte das garantias. Independentemente do valor, ele acatou e me liberou”, disse. Lima reivindicou sigilo comercial e bancário para não dar mais detalhes do caso. Não quis mencionar o pagamento da dívida, mas deu a entender que não houve quitação dos valores – aliás, a primeira parcela está prevista somente para 2026 e, no cartório, o terreno dado como garantia segue alienado. “Eu tenho um compromisso formal com ele [Master]. O risco tá nele [Master].”


Ao final da conversa, combinamos que ele responderia as perguntas por escrito. O e-mail que lhe mandei, no entanto, nunca foi respondido. Nos despedimos assim:


– Isso tudo não é muito estranho? – perguntei.


– Tem muita coisa estranha no Brasil – respondeu o “pescador artesanal” e “pobre na forma da lei”.


*A versão original deste texto trazia a informação de que a valorização de 11 mil% ocorreu em 25 dias. Na verdade, a valorização ocorreu em 36 dias. A informação foi corrigida às 16h16 do dia 30 de julho de 2025. 



https://piaui.folha.uol.com.br/terreno-santa-cruz-cabralia-banco-master/

Agenda Macro

 *Agenda macroeconômica Brasil*


➡️ *Segunda-feira, 24 de novembro*:  

08:00 Índice de Preços ao Consumidor - IPC-S FGV: Consenso 0,24%  

08:00 Índice de Confiança do Consumidor FGV: Consenso 88,50  

08:25 Relatório Focus do Banco Central  

10:30 Arrecadação Tributária Federal: sem consenso | Anterior R$216,7bi | BTG R$262,1bi  

11:30-12:00 Eventos/Debates Diretores e Presidente do Banco Central


➡️ *Terça-feira, 25 de novembro*:  

05:00 Índice de Preços ao Consumidor - FIPE (Semanal): Consenso 0,20%  

08:00 Índice Nacional de Custo da Construção - FGV: Consenso 0,31% | Anterior 0,21%  

08:30 Balança de Conta Corrente: Consenso -US$4.600mi | Anterior -US$9.774mi  

08:30 Investimento Estrangeiro Direto: Consenso US$6.000mi | Anterior US$10.671mi


➡️ *Quarta-feira, 26 de novembro*:  

08:00 Índice de Confiança da Indústria FGV  

08:30 Empréstimos Totais em Aberto - variação mensal: Consenso 1,10%  

08:30 Total de Empréstimos em Aberto: Consenso R$6.844bi  

09:00 Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) - 12 meses: Consenso 4,49% | Anterior 4,94% | BTG 4,52%  

09:00 IPCA-15 variação mensal: Consenso 0,18% | Anterior 0,18% | BTG 0,22%  

Dívida Federal Total: Consenso R$8.122bi


➡️ *Quinta-feira, 27 de novembro*:  

08:00 Índice Geral de Preços - Mercado (IGPM) FGV - mensal: Consenso 0,28% | Anterior -0,36%  

08:00 IGPM FGV - 12 meses: Consenso -0,09% | Anterior 0,92%  

08:00 Índice de Confiança do Comércio e Serviços FGV  

Resultado Orçamentário do Governo Central: Consenso R$37,4bi | Anterior -R$14,5bi | BTG R$36,8bi


➡️ *Sexta-feira, 28 de novembro*:  

08:30 Saldo Orçamentário Nominal: Consenso -R$57,4bi | BTG -R$102,2bi  

08:30 Saldo Primário do Setor Público: Consenso R$33,4bi | Anterior -R$17,5bi | BTG R$34,6bi  

09:00 Taxa de Desemprego Nacional: Consenso 5,60% | Anterior 5,60% | BTG 5,70%  

Criação Formal de Empregos: Consenso 107.500 | Anterior 213.002 | BTG 90.200

Leitura de domingo

 *Leitura de Domingo: Resgate de valores no Master fora do FGC depende de localizar recursos*


Por Lavínia Kaucz


Brasília, 18/11/25 - As perspectivas de recuperação dos valores aplicados no Banco Master que não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ainda são incertas e o resgate depende da disponibilidade de recursos, alertam especialistas à Broadcast. O caminho para encontrar o dinheiro passa pelo levantamento do patrimônio do Master e pela responsabilização e bloqueio de bens dos seus dirigentes, como Daniel Vorcaro, dono do banco, preso pela Polícia Federal (PF).


Com a liquidação do Master decretada hoje pelo Banco Central (BC), o FGC é acionado para ressarcir os investidores - cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ e por instituição, limitado a R$ 1 milhão a cada quatro anos. Quem tinha aplicações acima desse teto não receberá a diferença.


O fundo também se limita a cobrir modalidades de depósito, como Certificado de Depósito Bancário (CDB), Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCA). Há diversos produtos financeiros que não são garantidos, como debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), Letra Imobiliária Garantida (LIG) e Letra Financeira (LF).


De acordo com o advogado Oduvaldo Lara Júnior, sócio da área de Direito Societário e M&A do escritório Abe Advogados, “valores não cobertos seguem para o processo de habilitação na massa liquidanda e poderão ser recuperados integralmente, parcialmente ou não recuperados, a depender da disponibilidade de ativos e da ordem legal de pagamentos”


Luciano Ramos Volk, sócio do escritório Volk & Giffoni Ferreira Advogados, também avalia que ainda é difícil afirmar se os valores não cobertos poderão ser efetivamente recuperados. “Essa é uma resposta ainda difícil de dar. O processo de liquidação visa justamente fazer o balanço de ativos e passivos, buscando recuperar os recursos para devolver os investimentos. Diante disso, é possível que haja, infelizmente, a perda de tudo, mas também existe espaço para recuperação de recursos e pagamento dos investidores, ainda que não integralmente, dado o alto valor do prejuízo”, avalia.


Marília Milani, head de contencioso do CBA Advogados, orienta os clientes do banco a aguardarem a liquidação extrajudicial antes de cobrar os valores na Justiça. “Vai ter o processamento da liquidação extrajudicial e, havendo saldo suficiente, entra na lista de pagamentos e acaba pagando esses credores. E aí depende, porque cada credor pode ter uma modalidade de crédito, e essa modalidade vai interferir na ordem de pagamento do crédito”, explica. As prioridades de pagamento são os créditos de natureza trabalhista e fiscal.


O levantamento dos valores necessários para arcar com as obrigações do banco passa ainda por bloquear o patrimônio dos responsáveis por eventuais fraudes, mas é comum a Justiça encontrar obstáculos. A operação que mirou Vorcaro por suspeita de fraude obteve autorização para bloquear R$ 12,2 bilhões em contas bancárias, mas apenas R$ 1,6 milhão foi apreendido até agora.


“A ocultação patrimonial é bem estruturada e sofisticada, nesses casos. Eles podem ocultar (o dinheiro) de diversas formas. Por exemplo, no caso do Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos (liquidado em 2004), ele tinha muito patrimônio ocultado por meio de compras de obras de arte, por meio de laranjas, por meio de empresas terceiras…”, lembra Milani.


A busca por ativos no patrimônio dos responsáveis pela situação financeira do banco ainda pode servir para reparar o rombo causado ao FGC. O fundo tem cerca de R$ 121 bilhões de liquidez. Já o volume de CDBs distribuídos pelo Master no mercado estava em torno de R$ 50 bilhões em março deste ano.


“(O fundo) vai buscar receber esses valores. Eles têm uma equipe jurídica robusta para poder ir atrás desse valor, para fazer investigação patrimonial, o que for necessário para reaver esse dinheiro”, destaca Milani.


Contato: lavinia.kaucz@estadao.com


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domingo, 23 de novembro de 2025

Amilton Aquino: O sistema é foda parceiro...

 O sistema é foda, parceiro

Mais um megaesquema de corrupção envolvendo algumas das figuras mais importantes do Brasil. Como tantos outros, não vai dar em nada. No máximo, algumas manchetes, um período sabático em uma cela especial até que um habeas corpus direto do STF “garanta o direito de responder em liberdade”. Quem sabe até a devolução da devolução do dinheiro roubado, como já aconteceu tantas vezes — de bandidos do colarinho branco a líderes do crime organizado, como André do Rap, que recuperou até um helicóptero após decisões judiciais que consideraram ilegal a apreensão, num processo tocado no STJ.
Mas, se está tudo dominado, por que o escândalo veio à tona? Isso não seria a prova de que as instituições estão funcionando, apesar de tudo?
Gostaria de acreditar nisso, mas o fato é que a conta chegou. A cada dia, novos papéis do banco vencem e os valores precisam ser pagos. Alguém vai ter que arcar com a conta. Eis a questão.
Que a coisa cheirava mal já fazia anos. Não por acaso, o banqueiro se cercou de algumas das figuras mais importantes do país. Do ex-ministro da Fazenda (Guido Mantega) ao ex-ministro do STF e atual Ministro da Justiça (Ricardo Lewandowski), ambos como conselheiros, até familiares de Alexandre de Moraes como advogados, o banqueiro ficou famoso por patrocinar eventos da nossa elite político-judiciária no Brasil e no exterior.
O caso retrata, mais uma vez, o grau de promiscuidade a que chegamos — e tudo institucionalizado com a jurisprudência do STF, que não vê nada de errado em um juiz julgar um caso em que cônjuge ou familiar próximo advoga. Ora, se um juiz não se sente constrangido em atuar em um processo em que ele é, ao mesmo tempo, vítima e promotor, todo o resto é possível. A Constituição vira um mero detalhe a ser interpretado conforme as conveniências do momento.
Não é a primeira vez que ex-ministros do STF e seus familiares advogam formalmente para corruptos famosos. Lewandowski, por exemplo, além de ter trabalhado para os irmãos Batista, tem um filho que atuou para entidades investigadas por fraudes no INSS. No caso de Moraes, o escritório da família — que inclui a esposa e dois filhos — foi contratado pelo Banco Master. E eles não são exceção. Entre ministros atuais e recém-aposentados, a maioria tem parentes com grandes escritórios, defendendo clientes cujos casos frequentemente transitam pelas instâncias superiores.
A esposa de Toffoli, por exemplo, atuou ativamente na defesa de alvos da Lava Jato e, claro, também dos irmãos Batista — réus confessos cujos processos e até acordos de devolução de bilhões aos cofres públicos foram anulados em decisões monocráticas do próprio marido.
Ao mesmo tempo em que a impunidade reina para corruptos, alguns casos chamam atenção pelos excessos de punibilidade. O caso da jornalista Rosane Oliveira, do Zero Hora, é um escândalo: ela foi condenada a pagar R$ 600 mil por danos morais após divulgar o salário da desembargadora Iris Helena Medeiros Nogueira — uma entre tantos privilegiados do setor público que recebem gordos penduricalhos independentemente do estado de calamidade das contas públicas. Noutro caso, uma jornalista da IstoÉ foi condenada por “excesso de ironia” ao ministro Gilmar Mendes, assim como o próprio Moro pode ser condenado por suposta ofensa ao próprio Gilmar.
Como chegamos até aqui? O que nos levou a mudar tão radicalmente da trajetória de faxina ensaiada pela Lava Jato para a atual situação de conformismo absoluto com a corrupção institucionalizada?
Para mim, o divisor de águas foi o momento em que as delações passaram a mencionar ou tangenciar figuras do STF. A partir dali começou o conchavo descrito por Romero Jucá — “com Supremo e tudo” — inclusive com Lula.
A censura à Crusoé, após a revista publicar uma capa com delações que citavam ministros do STF, foi o segundo degrau da escalada. O inquérito das “fake news” consolidou o arcabouço institucional que concedeu poderes praticamente ilimitados ao Supremo.
E aqui chegamos. A frase que dá título a este texto, eternizada em Tropa de Elite (2007), abriu caminho para a indignação crescente da direita emergente, inconformada com o banditismo ascendente — apesar dos bons ventos da economia mundial que impulsionaram nosso crescimento nos anos 2000. Os sucessivos escândalos petistas abriram caminho para a Lava Jato, que, infelizmente, assim como a Operação Mãos Limpas na Itália ou o curto verão de Buenaventura Durruti na Espanha, terminou de forma melancólica.
E, depois do sucesso de Tropa de Elite 1, que transformou, sem querer, o capitão Nascimento em herói da direita, Tropa de Elite 2 tenta fazer um contraponto, exaltando a figura de Freixo como herói da esquerda. Em ambos os casos, o diagnóstico é o mesmo: o sistema é foda, parceiro.

Os políticos q apoiam o Vorcaro

 A BANCADA DO VORCARO – Carlos Eduardo Novaes


A bancada do Vorcaro, capitaneada pelo senador Ciro Nogueira, amigo do peito, inclui também um grupo de governadores bolsonaristas que se encontrou em Brasília, na casa do Ibaneis, aquele governador gordinho, com cara de batráquio, que convocou a reunião.

- Chamei vocês aqui – disse Ibaneis – porque estou preocupado com o comportamento do nosso padrinho. Acho que ele está exagerando...

- Exag...exage...exagerando em que? – cortou o govenador do Estado do Rio que os amigos chamam de Gago Coutinho

- Ele acabou de comprar um jato executivo por 200 milhões!!

- E daí? – rosnou o Caiado – Ele é um banqueiro...tem dinheiro pra isso!

- Acontece – voltou o cara de batráquio – que este é o terceiro avião que ele compra!

- Pelo dinheiro que tem pode ser dono de até dez jatos -  comentou o Zema, mineiro bolsonarista raiz... 

- Mas não precisa ostentar – voltou o preocupado Ibaneis – Ele chega lá na Faria Lima e vai logo dizendo “comprei uma casa no Sul da Bahia por 280 milhões, vocês são meus convidados” ...

- Acho que o Ibaneis tem razão – concordou Ratinho Jr – Ele nos prometeu muita grana nas eleições de 2026...mas se continuar se exibindo assim, uma hora o bicho vai pegar...

- Vai nada! – reagiu o amigão Ciro Nogueira – Ele nunca fez nada de errado!!!

Claudio Castro assustou-se:

- O qu...que... que...que? Ele nunca fez nada certo, isso sim. Mas nós gostamos dele, gostamos tanto que eu até aportei R$ 1 bilhão do Rio Previdência no banco Master...

- É o tal fundo de benefícios para pensionistas e aposentados? – indagou Ciro, ex- chefe da Casa Civil do Governo Bolsonaro

- É,,,é...si... sim – respondeu Gago Coutinho

- Por que ajudar essa gente, Gago? Precisamos acabar com os pobres.  Fazer como os Carecas do INSS...

- Minha preocupação é essa! Também fiz uma operação financeira! – voltou o cara de batráquio – Mandei meu banco, o BRB, comprar R$ 12,2 bilhões em carteiras de credito do Master...por pura camaradagem!

Nesse momento tocou o celular do Tarcísio, governador de São Paulo. Era Vorcaro para informar que comprara mais uma casa, no condomínio mais caro da Florida, injetara 300 milhões na SAF do Atlético Mineiro e estava indo para o aeroporto onde pegaria seus jato de 200 milhões para a ilha de Malta.

- Vamos! – gritou o batráquio – Vamos pedir a ele para ser mais reservado. Vamos correndo antes que ele embarque e resolva comprar a ilha.

Não deu tempo. A Policia Federal chegou primeiro e levou o banqueiro. Aos leais amigos da bancada resta acompanha-lo, na cadeia!

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Brazil Journal no centro das polêmicas

 Sobre fatos, fofocas e innuendo

 

Ao longo das últimas semanas – e em especial à luz das notícias recentes – diversos leitores me perguntaram acerca do Banco Master. Dada a importância do tema para o mercado, esclareço – sem ressalvas e com todas as letras – que nem o Banco Master nem quaisquer de seus acionistas tem qualquer tipo de participação societária, direta ou indireta, no capital social do Brazil Journal. Estou interpelando os veículos que afirmaram o contrário. Associar nossa ausência de cobertura a qualquer tipo de vínculo com o Banco Master é leviano e beira a desonestidade. O jornalismo investigativo é importantíssimo para o Brasil e para o mercado de capitais. Esta, no entanto, não é a tradição deste site. Parabéns aos veículos que têm coberto os escândalos financeiros do País com afinco e profundidade, frequentemente a um alto custo pessoal para seus profissionais. Quando e se tivermos algo a agregar à cobertura deste e de outros escândalos em gestação, vamos fazê-lo. Enquanto isso, continuaremos a priorizar matérias que trazem análise, insights e breaking news ao leitor ávido por informações sobre as empresas, os mercados e as políticas públicas. Agradeço as inúmeras mensagens de reconhecimento à integridade deste veículo, que em apenas nove anos se tornou uma referência para tantos – e, para mim, uma responsabilidade que cresce a cada dia. Presto estes esclarecimentos por gratidão e em atenção a estes leitores, e não a blogs ideológicos com credibilidade pífia.

Blindagem do MASTER atrasou a atuação do BCB

 Blindagem que atrasou ação do BC contra o Master também precisa ser investigada


 


 


A operação da Polícia Federal (PF) que prendeu Daniel Vorcaro e outros dirigentes do Banco Master por falsificar títulos de crédito para encobrir um desvio de R$ 12,2 bilhões do Banco de Brasília, o BRB, foi certeira, mas o Banco Central não precisava ter esperado até que surgisse uma fraude tão grosseira para começar a agir. As peripécias de Vorcaro são acompanhadas com lupa no mercado já há alguns anos, pelo menos desde 2021, quando seu banco passou a crescer vertiginosamente vendendo títulos que prometiam rendimentos extraordinários aos clientes e pagando comissões fora do comum aos corretores. O dono do Master também é velho conhecido da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, onde já fez acordo para pagar multas de R$ 1,2 milhão e respondeu a processos por manipulação dos preços de ativos e operações fraudulentas com debêntures e títulos imobiliários. Em julho de 2024, técnicos da Caixa Econômica Federal que examinaram os números do Master para opinar sobre a compra de R$ 500 milhões em títulos de renda fixa escreveram num relatório que o modelo de negócios era “de difícil compreensão” e tinha “alto risco de solvência”. Afirmaram, ainda, que o banco dependia de uma “operação complexa de investimentos” em empresas em recuperação judicial, superendividadas, ou de precatórios de difícil recebimento. Por lei, bancos insolventes — em bom português, quebrados — são passíveis de medidas duras, incluindo a intervenção, pelo Banco Central, que tem o dever de proteger a integridade do sistema financeiro. Ao longo destes anos, porém, o BC e seus diretores não pareciam muito abalados com a picaretagem que se vislumbrava no horizonte. Por falta de aviso é que não foi. Desde a gestão de Roberto Campos Neto, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre perdas de até R$ 250 mil em caso de quebra, enviou mais de 38 alertas ao BC sobre os problemas do Master. Sem contar as dezenas de reuniões e conversas de bastidores com pedidos de providências a Campos Neto, na era Jair Bolsonaro, e a Gabriel Galípolo, no governo Lula. Em 2023, depois de muita pressão do mercado, o BC criou regras diminuindo a proporção de precatórios e CDBs que os bancos podem acumular. Mas deu até o final de 2025 para o pessoal se enquadrar — uma temeridade, como está demonstrado agora. Desde então, só o passivo do banco mais que dobrou. O FGC calcula que será necessário desembolsar no mínimo R$ 40 bilhões para compensar as perdas dos investidores. Mas não cobre o rombo dos fundos de pensão de servidores dos estados e municípios que compraram quase R$ 2 bilhões em títulos do Master que virarão pó. Não é difícil entender a demora do BC em agir. A blindagem de Vorcaro era poderosa, ecumênica e ostensiva. Demonstrava-se em festas milionárias e viagens de jato com políticos e autoridades do governo e do Judiciário, ricos patrocínios a eventos jurídicos, além de contratos generosos com figuras estreladas — como Ricardo Lewandowski, que entre o STF e o Ministério da Justiça passou um ano como conselheiro do Master, ou Guido Mantega, que levou Vorcaro para dar um abraço no presidente Lula no Palácio do Planalto. Só com “consultorias jurídicas” o banco gastou cerca de R$ 250 milhões em 2024. Entre os contratados estava Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, que em abril daquele ano foi convidado de honra de um evento jurídico promovido pelo Master em Londres. A “bancada do Vorcaro” também era famosa em Brasília. Seu líder honorário era o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que também em 2024 propôs aumentar a cobertura do FGC dos atuais R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Batizada de “emenda Master”, a iniciativa não colou. Em março, quando o BRB se ofereceu para comprar 58% do Master e ainda assim manter Vorcaro no controle, num salvamento com o dinheiro do contribuinte brasiliense, o senador Izalci Lucas (PL-DF) fez um pedido de CPI e obteve as assinaturas necessárias, mas desistiu misteriosamente em duas semanas. O negócio com o BRB também provocou celeuma interna no Banco Central, com uma ala defendendo a transação e outra considerando que apenas transferiria o rombo de um banco privado a um estatal. Mesmo depois de reprovar a compra, continuou a haver impasse sobre a necessidade de intervenção. O decreto de liquidação do Master já estava pronto havia tempos, mas só quando a PF entrou em campo o BC apertou o botão. A razão da demora não foi outra que não a pressão dos amigos de Vorcaro em Brasília. Os mesmos que, espera-se, sejam investigados a sério e a fundo. Já passou da hora, mas antes tarde do que mais tarde.

Simon Schwartzman