segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Matemágica

 Marcelo Giufrida

Para muita gente, a matemática é aquele território árido onde moram símbolos estranhos, letras gregas e contas que parecem não ter nenhuma relação com o mundo real. Mas, de vez em quando — ou melhor, com bastante frequência na história da ciência — acontece algo curioso: aquilo que parecia apenas um truque formal, quase uma matemágica, acaba se revelando uma pista preciosa sobre como a natureza realmente funciona. Na física, isso acontece o tempo todo. 

Equações são escritas não porque alguém “viu” diretamente um fenômeno, mas porque a lógica matemática exige certas soluções. À primeira vista, essas soluções podem soar absurdas, artificiais ou até erradas. Só que a matemática, quando bem construída, tem um hábito intrigante: ela costuma saber mais sobre a realidade do que nós mesmos. Um exemplo clássico vem da mecânica quântica. A famosa equação de Schrödinger, base para descrever o comportamento de partículas microscópicas usa números imaginários, aqueles que envolvem a raiz quadrada de −1. Durante muito tempo, isso causou enorme desconforto. Como algo “imaginário” poderia descrever a realidade física? A suspeita era de que aquilo fosse apenas um artifício matemático elegante, mas sem significado físico profundo. 

Hoje sabemos que, sem esses números imaginários, a equação simplesmente não funciona. Eles não são um detalhe estranho: são essenciais para modelar corretamente o mundo das partículas muito pequenas. A tal “imaginação” da matemática acabou sendo exatamente o que a realidade exigia. Outro caso quase cinematográfico foi o de Paul Dirac. Ao tentar compatibilizar a mecânica quântica com a relatividade especial para descrever o elétron, ele chegou a soluções matemáticas que sugeriam a existência de partículas idênticas às conhecidas, mas com carga oposta. Na época, isso soava como um exagero formal: uma consequência esquisita das equações, sem correspondência física clara. 

Anos depois, porém, aceleradores de partículas detectaram o antielétron (o pósitron) e, mais tarde, o antipróton. Aquilo que parecia apenas um capricho algébrico revelou-se uma previsão brilhante. Matemágica em estado puro. Einstein também entrou nesse clube seleto. Ao manipular as equações da relatividade geral, ele percebeu que a gravidade deveria desviar a trajetória da luz, algo totalmente contraintuitivo à época, e que perturbações no espaço-tempo poderiam se propagar como ondas: as ondas gravitacionais. A primeira previsão foi confirmada relativamente cedo, inclusive com observações feitas durante eclipses, uma delas no Brasil. 

Já as ondas gravitacionais exigiram décadas de desenvolvimento tecnológico até que instrumentos sensíveis o bastante pudessem detectá-las. Quando isso finalmente aconteceu, em 2015, não foi uma surpresa para a matemática: ela já tinha contado essa história muito antes. Mas a matemágica não se limita à física fundamental. 

Um dos exemplos mais fascinantes vem da descoberta dos fractais. Por muito tempo, eles foram vistos como objetos matemáticos exóticos, quase brinquedos intelectuais: figuras infinitamente complexas, com padrões que se repetem em todas as escalas, estranhas demais pararepresentar qualquer coisa do mundo real. Afinal, quem acreditaria que equações gerando formas “irregulares demais” poderiam ter utilidade prática? 

Hoje, os fractais estão por toda parte. Eles descrevem com notável precisão a geometria dos vasos sanguíneos, a ramificação dos pulmões, o crescimento de plantas, o contorno das nuvens, das montanhas e das linhas costeiras. Na geologia, ajudam a entender a distribuição de falhas e terremotos. E, talvez de forma ainda mais surpreendente, aparecem até na modelagem do comportamento das cotações nas bolsas de valores, onde a aparente aleatoriedade esconde padrões estatísticos complexos que se repetem em diferentes escalas de tempo. 

Aquilo que começou como um formalismo estranho virou uma poderosa lente para enxergar sistemas complexos. Esses episódios mostram que a matemática, longe de ser apenas uma linguagem fria, funciona muitas vezes como um farol. Ela ilumina caminhos que ainda não enxergamos experimentalmente. O que parece um erro, um excesso ou uma abstração inútil pode ser, na verdade, um bilhete antecipado da realidade, esperando que a tecnologia e a curiosidade humana cheguem até lá. No fim das contas, a tal matemágica não é truque. 

É método. É o estranho e fascinante poder de equações bem pensadas apontarem para fenômenos que ainda nem sabíamos que existiam. E, convenhamos, isso é bem mais divertido do que parece à primeira vista.

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