segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Jonas Federighi

 


A reportagem joga luz num ponto que muita gente romantiza: o nomadismo digital explode na pandemia, parece “liberdade total”, mas cobra uma fatura silenciosa. O texto acompanha histórias reais (e bem humanas) de profissionais que viveram na estrada e, em algum momento, perceberam que o “sonho” vinha com solidão, ansiedade, custos altos e uma rotina de decisões intermináveis — como se a logística virasse um segundo trabalho.


O caso da advogada Letícia Pirolo é emblemático: depois da morte do pai, saiu de Curitiba para “viver” e rodou o Brasil com o cachorro (Natal, Recife, Chapada Diamantina, Lençóis Maranhenses). Ela tinha critérios práticos (internet boa, pet-friendly, cadeira confortável, boa localização), manteve jornada de 8 horas e passeava depois do expediente. Só que o “lado B” chegou: alta temporada prendendo no preço, gasto médio de ~R$ 10 mil/mês, perda do encantamento com o paraíso e, principalmente, a exaustão mental de decidir todo mês moradia, destino, voo, logística. Resultado: estresse, horários de trabalho desregulados, menos clareza estratégica e desistência antes de completar um ano.

O texto também amplia a lente com Fernando Kanarski, fundador da The Nomadic Club, ao dizer que parte da frustração nasce da propaganda do nomadismo como “sonho”. Na prática, há um tripé difícil de equilibrar: saúde física, saúde mental e finanças — além do ponto duro, mas verdadeiro: quem não lida bem com solidão costuma “não aguentar o tranco”. Os relatos de ex-nômades se repetem nas redes, e a reportagem cita ainda exemplos como a escritora e fotógrafa Laís Schulz, que descreve a falta de rotina e o choque entre trabalho e turismo, e Kely Coutinho, que após anos e mais de 30 países decidiu desacelerar para buscar previsibilidade, vínculos e negócios locais, escolhendo João Pessoa como base.

No fim do dia, a conclusão é quase filosófica (e muito concreta): movimento dá repertório, mas lar dá raiz. Viajar pode ser fase, escola e cura — porém a maioria não quer passar a vida inteira “procurando hospedagem”. No fundo, por trás de trabalho remoto, liberdade geográfica e fotos bonitas, existe uma necessidade antiga: pertencimento, rotina mínima, gente por perto e a sensação de ter um endereço que acolhe. Porque, no fim do dia, todos buscamos a mesma coisa: nossa CASA.

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