quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Crise imobiliária na China Jonas Federighi

 

A crise imobiliária chinesa já não é apenas uma história de “tijolo”: virou um caso macroeconômico clássico de sinais sendo abafados. Quando o Estado passa a retirar do ar contas e conteúdos “negativos”, punir perfis e enquadrar o debate público, o recado para o capital global é simples: o problema está grande o suficiente para que a transparência vire ameaça. Não se trata de comunicação — trata-se de governança do risco.

Imóveis são a espinha dorsal do sistema financeiro em quase todo lugar: colateral bancário, base patrimonial das famílias, ativo relevante em seguradoras, fundos e balanços públicos. Logo, quando preços caem e, ao mesmo tempo, a qualidade/abundância de dados diminui, a consequência não é “menos pessimismo”; é mais incerteza, mais prêmio de risco, menos crédito, menos investimento e mais fragilidade sistêmica. Censurar o termômetro não baixa a febre — só faz o mercado descobrir a temperatura pelo pior método possível: tarde e com custo maior (geralmente pago em confiança).

O que essa matéria escancara conversa diretamente com o capítulo 3 das Seis Lições (Mises): intervencionismo não é meio-termo estável. Ele tenta “corrigir” o mercado, mas distorce preços, entope o mecanismo de coordenação e cria efeitos colaterais que exigem novas intervenções — até que o sistema fique viciado em controle para sustentar as distorções anteriores. No caso chinês, a tentativa de administrar expectativas (inclusive no ambiente digital) parece andar junto com a tentativa de administrar preços e ritmo de ajuste. É por isso que a frase “intervencionismo é um câncer” faz sentido aqui: cresce silencioso, espalha distorções e cobra a conta quando já tomou o organismo inteiro.

A conclusão, com visão global, é direta: não é um debate sobre mercado imobiliário; é sobre o que acontece quando o Estado gigante substitui preço, concorrência e informação por comando e controle. O ajuste sempre vem — a diferença é se chega por reprecificação rápida e transparente (dolorosa, porém saneadora) ou por ajuste lento, opaco e politizado (doloroso e corrosivo). Vale abrir discussão séria: quais são os sinais de “ponto de não retorno” quando a política decide que a realidade precisa se adequar à narrativa?

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Simon Schwartzman