segunda-feira, 23 de março de 2026

Antonio Afonso

 O erro fundamental da mobilidade social


Sempre me disseram que a vida é injusta, que é preciso lutar pela vida, por ter um lugar ao sol. Mas hoje penso que isso é uma grande mentira. Os termos desta luta são uma grande mentira. Desde novo que convivo com os burgueses da minha cidade, pessoas muito pouco preocupadas com essa luta. Sempre vi uns a safar-se sem haver razões objectivas para isso. 


Vejo agora que a ideia de elevador social é uma piada. Há uns que têm lugares marcados no último andar desde que nasceram. Outros que chegaram lá pelas ligações, uns tiveram que pisar muita gente para entrar no elevador. A classe média é uma mentira pegada. A primeira vez que cheguei ao topo percebi logo a farsa. Esta ideia de mobilidade social é uma treta. Mesmo que entres no elevador e metas o dedo no último andar, a subida é sempre provisória. E o convite para desceres à base já está firmado. 


A verdadeira mobilidade social reside em dois aspectos individuais e noutro que tem a ver com a engrenagem do mundo. O primeiro aspecto é ter capital. O segundo é ter cultura. É que se és um escravo do dinheiro estás tramado. Tens de ter ativos, casa, património, um negócio, acções e talvez ouro. Tens de ter ativos que valorizem com a inflação. Sem isso és refém de um mestre que está sempre a depreciar. O dinheiro que entra no salário é sempre adiar a precariadade. Andas sempre com a corda ao pescoço. 


O segundo ponto é a cultura. E quando digo cultura não é só saber apreciar a beleza estética de um quadro ou de uma estátua grega. É saberes as forças que movem o intelecto humano, a realidade fundamental que é transversal a todas as culturas. O essencial do génio humano. É saber Dante e Dostoievski não como emblemas de estatuto mas como forças de pensamento. Seres rico e não teres cultura é miserável. 


Dito isto, é preciso notar se és refém de sinais exteriores de riqueza tens sempre um problema. O dinheiro que ganhas não serve para criar património mas para ter estatuto. E isso deixa-te sempre num pequeno passo à beira do abismo. És um Sísifo num jogo absurdo de aparências. Conheço muitos indivíduos que fazem da sua vida a exploração das vaidades humanas, da eterna tendência para seguir atalhos e a inclinação humana para a crendice. Essas figuras são de fugir. A sua única oferta é um rodízio de distracções. Esquece essa gente. Só fazem perder tempo. 


Por fim, se levas a sério tudo isto. A tua missão é simples. Guardar riqueza, guardar conhecimento e guardar sabedoria. Mas para esse processo faça sentido tens de passar este legado à próxima geração. Caso contrário o teu esforço acaba em pó. É isto a mobilidade social: manter a chama viva e passar o legado para a geração seguinte. É por isso que há famílias poderosas. Estas linhagens estão a repetir este processo há centenas de gerações.

Pondé e Buzatto

Buzatto precisa fazer alguns 'disclaimers' antes de postar o texto de Luiz Felipe Pondé na Folha de S. Paulo, datado de 16/03/2026:


1. Eu sempre fui anti-petista, por diversas razões que não vou enumerar aqui; apesar disso, já votei no PT (para prefeito de Campinas, por acreditar na pessoa, não no partido, e deu no que deu);


2. Tampouco sou bolsonarista; critiquei bastante o governo de Bozo, em especial seu desprezo pelo povo durante a pandemia, resultando no Brasil vice-campeão de mortes, com cerca de 2,5% da população mundial;


3. Em vista do desastre que foi o governo Bolsonaro, teria votado em Lula em 2022 (estava fora do Brasil na época) e recomendei a quem me perguntou que votasse em Lula, por razões óbvias;


4. Dado o desenrolar dos acontecimentos este ano, eu novamente recomendaria - e votaria - em Lula num segundo turno em outubro próximo, e talvez até já no primeiro, conforme os candidatos que se apresentarem;


5. Apesar disso tudo, me julgo no direito de concordar com Luiz Felipe Pondé sobre os estragos feitos ao Brasil por 17 anos de PT no poder. Temer tentou arrumar a casa um pouco, meio como aquele piloto de corridas de longa duração que pega um carro detonado e tem que levar aos boxes para ser colocado de novo na disputa, mas foi abatido em plena tentativa de decolagem pela gravação traiçoeira de Joesley Batista; Bolsonaro, bem, aqui nem há o que dizer, é abaixo de qualquer qualificação, foram 4 anos de desastre total.


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O que o PT fez de significativo para tirar o Brasil da lata de lixo? Nada


* Oposição tampouco põe a cabeça para fora da lama

* O país, hoje, se transformou no quintal de uma gangue


Luiz Felipe Pondé


Desde 2003, o PT domina o governo federal. Até 2026, o PT esteve no poder federal por 17 anos. Temer por dois anos, Bolsonaro por quatro anos —nenhum deles grande coisa. A pergunta que não quer calar é: nesses 17 anos, o que o PT fez de significativo para tirar o Brasil da lata de lixo? Resposta: nada.


Sei, o Bolsa Família. Para um nordestino como eu, o Bolsa Família é nada mais do que o velho voto de cabresto repaginado, que, seguramente, o Lula sabe muito bem o que era. Em troca de um prato de comida, vote no candidato do "coroné".


O Bolsa Família, politicamente, tem duas faces. Uma é a ajuda material para pobres —e não tão pobres que se aproveitam para ganhar um dinheiro fácil sem ter que trabalhar cansativamente; outra é um voto de cabresto, compra descarada de votos. Afora isso, o que o PT fez em 17 anos? Nada que tenha impactado a história recente do país. Sem dúvida, alguns serviços aqui e ali —quem quiser que desfie o rosário.


A última coisa séria que aconteceu no Brasil em termos de alterar a história recente do país e ajudar a população significativamente foi o Plano Real, que, aliás, o PT nunca foi muito a favor na época. A memória, essa infeliz! O Lula se referia ao governo FHC como "herança maldita". Pergunto, como um historiador que não seja vendido ao PT, coisa rara, chamaria a herança que o Brasil recebeu nesses 17 anos?


Vale apontar que a possibilidade de reeleger alguém como presidente muitas vezes —que não é uma invenção petista, há que se reconhecer— é uma herança maldita. Quando alguém, ou um mesmo partido, coloniza o governo federal por décadas, necessariamente, o resultado será catastrófico. Já vivemos essa catástrofe.


Esse processo implicou a transformação do Brasil no quintal de uma gangue. Essa gangue se torna uma hidra que toma quase todos os espaços, formando gerações de lacaios. Uma dessas classes de lacaios do PT é a inteligência pública nacional.


Constatar que os últimos anos do Brasil foram jogados na lata de lixo não implica pôr tudo na conta do PT —a oposição constituída nesses 23 anos tampouco põe a cabeça para fora da lama—, ainda que, tendo ocupado o governo federal por 17 anos, isso deveria aterrorizar sua consciência. O país pasta na lama.


Ainda assim, para além da responsabilidade direta do PT, o país parece condenado ao lixo da história. Nesses anos, o país se tornou quase um narcoestado. O crime organizado, hoje, disputa territorialmente a soberania local, sendo a Amazônia, essa joia do "blábláblá" nacional, parte do objeto da soberania criminosa no país.


O crime se espalha pelo interior do país —sendo as grandes cidades já províncias do crime—, chegando às pequenas cidades. Todo mundo sabe que estamos entregues ao crime.


A corrupção estrutural parece formar quadros profissionais que servirão como ferramenta de normalização de uma sociedade sem lei. Da periferia ao coração do mercado financeiro, sente-se, quase ninguém escapa.


A piora salta aos olhos quando a ideia de normalização passa ao universo da normatização, e a sociedade sem lei parece se tornar uma sociedade em que mesmo a lei serve a alguma forma de corrupção segmentada.


Hoje em dia, o escândalo do banco Master faz a todos —pelo menos àqueles que ainda têm o sentido do olfato ativo— sentir o cheiro de que há algo de podre no reino de Brasília. Corre à solta uma promiscuidade regada a uísque caro. A vergonha na cara parece ser um recurso extinto entre os quadros altos da República.


O cerco se fecha. O argumento da honra vira arma de censura no país. Sob a cortina da falsa honra, poderosos não temem mais fazer o que bem quiser. Onde já se viu o filho de um presidente pedir abertamente a altas autoridades da República para que seu sigilo bancário não seja quebrado por conta de uma investigação da fraude do INSS? Aliás, o que pensar de um país que monta uma gangue para roubar aposentados, essa classe esmagada pela canalhice nacional?


Os bolsonaristas, esses iniciantes na arte de formar gangues políticas, quiseram derrubar a democracia. O fato é que a democracia brasileira está corroída por dentro, e não por ação de uma tentativa de golpe montada por idiotas, mas, sim, por um lento e invisível processo que opera sob o signo de uma microfísica do poder, corrompendo o caráter das altas figuras da República.


Uma quadrilha parece ter tomado o poder no Brasil. Torna-se difícil imaginar quem escapa dessa gangue multifacetada e que ultrapassa os limites ideológicos, apesar de os idiotas insistirem neles. "Em nome do Estado de Direito", perde-se a vergonha na cara.

Ruy Castro

 '1984' versão hoje


RUY CASTRO


Certos livros deveriam ser lidos todo ano. Exemplo: "1984", de George Orwell. Sei de gente que faz isso. Desde sua publicação, em 1949, já vendeu 30 milhões de exemplares –eu próprio comprei vários, inclusive, num leilão, a primeira edição, da Secker & Warburg, de Londres. Pois, seguindo meu próprio conselho, acabo de relê-lo de novo e fiquei ainda mais assustado que da última vez. Com razão –"1984" nunca foi tão atual. Ou Orwell adivinhou tudo ou está sendo seguido à risca.


Vide as teletelas. No livro, elas ficam em todas as paredes, regulando a vida dos cidadãos, e não podem ser desligadas. Hoje estão no nosso bolso ou na palma da mão. São os celulares. Assim como as teletelas, eles nos veem e nos ouvem, queiramos ou não. Já o Grande Irmão é o algoritmo. Sabe tudo sobre nós e nos bombardeia com mensagens dirigidas aos nossos gostos, preferências e, mais que tudo, convicções, permitindo-nos viver numa bolha onde nos sentimos "pertencendo", donde protegidos.


No país de "1984", o culto ao ódio é obrigatório. As pessoas são instadas a pôr para fora a sua raiva contra indivíduos ou instituições sem saber muito bem por quê. Obedecem aos haters das redes sociais, especialistas em destruir a reputação do inimigo da vez –a contaminação é imediata, e o sujeito se vê, de repente, odiando alguém de quem jamais ouvira falar. No livro, não se tem descanso, porque o país está sempre em guerra contra um inimigo a ser odiado. Só que o inimigo de hoje pode se tornar o aliado de amanhã ou vice-versa. Mas o povo reage de acordo, porque acredita em tudo que lhe injetam.


Como a verdade é agora a mentira, alteram-se textos, imagens e biografias para produzir novos "fatos" –as fake news. O povo de "1984" acredita que a Terra é o centro do Universo, em torno da qual giram o Sol e os planetas. Equivale aos que no Brasil a acham plana, telefonam para ETs, rezam para pneus e negam a pandemia.


O país de "1984" é a URSS de Stálin. Os zumbis bolsonaristas não desconfiam, mas viveriam muito bem nele.


Ruy Castro

Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras


Imagem: Página de rosto da primeira edição de "1984", livros sobre Orwell e reportagem na revista Manchete, em 1974 - Heloisa Seixas.


FSP 19.03.2026

Anderson Nunes

 *TENSÃO NO IRÃ E JUROS SOB PRESSÃO NO BRASIL - MC 23/03/26*

*Por Anderson Nunes - Analista Político*


*GUERRA NO ORIENTE MÉDIO E INCERTEZA FISCAL ACUAM O MERCADO BRASILEIRO*


A ameaça de uma invasão terrestre dos EUA no Irã e o petróleo acima de US$ 110 colocam o Banco Central sob fogo cruzado, levantando dúvidas se a autoridade monetária subestima o impacto inflacionário global na Selic.


*CONFLITO GLOBAL EM ESCALADA*

A guerra atinge quatro semanas com a ameaça real de envio de tropas terrestres americanas ao Irã e o possível fechamento do Estreito de Ormuz. Essa instabilidade mantém o petróleo em patamares críticos e força investidores globais a buscarem proteção imediata em ativos seguros.


*DESAFIO AO BANCO CENTRAL*

O mercado financeiro aguarda a ata do Copom para entender como o colegiado projeta inflação controlada enquanto os preços dos combustíveis disparam domesticamente. Analistas suspeitam que o BC aposta no desaquecimento da economia local para compensar o choque externo, mas a postura rígida do Banco Central americano sugere que o alívio monetário por aqui pode sofrer interrupções.


*PRESSÃO POLÍTICA E COMBUSTÍVEIS*

O governo federal tenta conter a crise do diesel após o combustível ultrapassar a marca de R$ 7 por litro em diversas regiões do país. O embate sobre a desoneração do ICMS e as acusações de especulação contra distribuidoras adicionam volatilidade ao cenário fiscal e testam a articulação do Planalto com os estados.


*RISCO POLÍTICO COM DELAÇÃO*

A iminente delação do banqueiro Daniel Vorcaro no caso do banco Master gera apreensão em Brasília pelo potencial de atingir figuras do Judiciário, Executivo e do Congresso. Investigações sobre blindagem patrimonial envolvendo cifras milionárias no exterior aumentam o clima de desconfiança institucional em pleno ano eleitoral.


*RADAR CORPORATIVO*


1- Petrobras: A suspensão judicial de licenças ambientais no pré-sal trava a expansão produtiva da estatal e gera insegurança jurídica sobre o cronograma de novos investimentos.

2– Claro e Desktop: A aquisição do controle da Desktop pela Claro por R$ 2,4 bilhões consolida a estratégia de dominância da gigante de telecomunicações no mercado de banda larga.

3- BTG Pactual: O ataque hacker de R$ 100 milhões que motivou a suspensão temporária do Pix expõe vulnerabilidades no sistema, embora o banco tenha recuperado a maioria dos ativos.

4- CSN: O novo empréstimo de US$ 1,2 bilhão busca dar fôlego ao caixa da companhia e permitir a reestruturação de dívidas antes de novos desinvestimentos.

5- Light: O prejuízo líquido de R$ 187 milhões no quarto trimestre reforça os desafios operacionais da distribuidora durante seu complexo processo de recuperação.


O Canal Auxiliando usa as seguintes fontes de notícias: 'Monitor do Mercado, BDM, Broadcast, Valor Econômico, Folha de São Paulo, Estadão, O Globo, BM&C, B3, Revista Oeste, Poder 360, Money Times, Agência CMA, Agência Brasil, Bloomberg, Infomoney, CNN, The Washington Post, The Wall Street Journal, Fox Business, Reuters, Oil Price, Investing e Yahoo Finance'.

BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: Guerra testa ata do Copom e Galípolo*


Escalada da ofensiva levanta dúvidas se o BC estaria subestimando impacto das incertezas externas sobre a inflação projetada


… Confrontando a garantia de Trump de uma guerra rápida, o conflito completa quatro semanas, com relatos de que os americanos preparam o envio de tropas terrestres ao Irã, enquanto a Guarda Revolucionária iraniana ameaça fechar “completamente” o Estreito de Ormuz se os Estados Unidos atacarem instalações energéticas. A escalada da ofensiva estressa o mercado e levanta dúvidas se o Copom não estaria subestimando o impacto das incertezas externas sobre a inflação projetada. A ata, amanhã, além do IPCA-15 de março e a entrevista coletiva de Galípolo, na quinta-feira, para comentar o Relatório de Política Monetária (RPM) ganham interesse redobrado. No pano de fundo, o investidor ainda administra a tensão para o “Vorcaro Day”, à espera da definição da data da delação premiada.


JOGUE A ÂNCORA – O Copom já andava há meses com a bala na agulha para iniciar o ciclo de relaxamento monetário e, como a guerra melou os planos de meio ponto de corte, veio só 0,25 pp, para 14,75%, sem abalar o consenso.


… A novidade do comunicado da semana passada que chamou a atenção do investidor foi o BC ter posado de forma tão pouco cautelosa quanto às projeções para a inflação no horizonte relevante, mesmo com o petróleo nas alturas.


… Economistas querem detalhes na ata sobre como o Copom incorporou um efeito tão marginal nas expectativas para o IPCA do terceiro trimestre de 2027, que subiram de 3,2% para só 3,3%, apesar da turbulência no Oriente.


… Vale entender se o BC está encarando o petróleo acima de US$ 110 como um choque de oferta de curto prazo, ao contrário do Fed, do BCE e do BoE, que na semana passada não deixaram nada barato nos alertas hawkish da guerra.


… Na ferramenta de apostas do CME, o mercado já não duvida que o comitê de Powell possa subir o juro este ano se o custo da investida no Irã se provar muito mais elevado do que Trump e Israel tentaram vender ao mundo.


… O comentário da dirigente do Fed Michelle Bowman, na sexta-feira, de que três cortes nas taxas dos juros americanas continuam no radar em 2026, não sensibilizou os traders a aderirem à expectativa mais dovish.


… Já para a próxima reunião de política monetária do Fed, em abril, as apostas de um aperto monetário não são desprezíveis (12,4% de chance), embora improváveis. A precificação de um alta em outubro encosta em 30%.


… O ciclo de alívio vai sendo colocado à prova com o risco de a ofensiva militar durar meses e não semanas.


… Neste contexto, profissionais de mercado reforçam a surpresa com a percepção de comunicado suave do Copom, que não deu forward guidance, mas deixou a sinalização implícita de que a Selic seguirá caindo na próxima reunião.


… No Projeções Broadcast, a maioria projeta mais uma dose de corte de 0,25 pp do juro em abril, para 14,50%.


… A suspeita é de que o BC esteja confiando no controle inflacionário via desaquecimento da atividade doméstica.


… Disse o comunicado que o período prolongado de manutenção da Selic em nível contracionista deu evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade, criando condição para ajustes na “calibração”.


… Todo mundo espera a ata para saber se o Copom vai alegar que o crescimento em torno de zero do PIB nos últimos trimestres e a taxa de câmbio mais moderada estariam compensando parcialmente o choque do petróleo.


… Também Gabriel Galípolo poderá explorar as justificativas em sua primeira entrevista coletiva do ano, na quinta-feira, quando comentará o Relatório de Política Monetária (RPM) ao lado do diretor do BC Paulo Picchetti.


… O mercado também espera os eventos da semana para calibrar melhor as apostas para o ajuste total da Selic no ano e medir a chance de, mesmo com a guerra, a taxa básica ainda cair 3 pontos até dezembro, para 12% ou menos.


DUAS HORAS DEPOIS – O Bom Dia Mercado vai realizar amanhã, 3ªF, a partir das 10h, o segundo BDM Live. Será um debate apenas duas horas após a divulgação da ata do último Copom, que reduziu a taxa Selic para 14,75%.


… Os editores do BDM Rosa Riscala e Téo Takar recebem Jason Vieira, da Lev DTVM, Sérgio Machado, da MAG Investimentos, e a editora-adjunta do AE-News/Broadcast, a jornalista Denise Abarca.


… Anote na agenda: amanhã, 10h. Inscreva-se pelo link: https://novidade.bomdiamercado.com.br/bdm-live-24-03


BOMBANDO – O Copom se vê desafiado a comentar na ata o potencial impacto dos combustíveis na inflação.


… Levantamento da TruckPag, que faz gestão de frotas, aponta que o preço do diesel no Brasil chegou a uma média de R$ 7,22 na quarta-feira passada, contra R$ 5,74 antes da guerra, elevando o sinal de alerta no governo federal.


… O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que participará na quarta-feira de um novo encontro com representantes dos caminhoneiros para discutir os impactos dos preços dos combustíveis.


… O ministro acusou as distribuidoras de repassar aumentos “especulativos” ao consumidor. “Elas não estão pagando a mais pelo óleo diesel, mas estão transferindo. Isso é um crime contra a economia popular”, atacou.


… Depois da MP para ampliar a fiscalização do piso mínimo do frete rodoviário com multas para quem descumprir a tabela e do anúncio da redução a zero da alíquota de PIS/Cofins no combustível, o ICMS entra no centro do debate.


… Os governadores ainda aguardam uma proposta concreta do governo para a proposta de zerar ICMS sobre a importação do diesel, após a Fazenda sugerir reembolso de metade do valor que não será arrecadado.


… Os detalhes do projeto da equipe econômica, que ainda não formalizado, podem ser discutidos na reunião do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), que está marcada para a próxima sexta-feira (dia 27).


NOTÍCIAS DO FRONT – Em sinais de agravamento da guerra, Trump e o Irã intensificam no fim de semana as ameaças de ataques a instalações de energia no Golfo, o que pode ampliar movimentos de fuga de risco no mercado.


… No sábado, o presidente americano ameaçou “obliterar” usinas de energia do Irã caso o Estreito de Ormuz não seja reaberto em até 48 horas. Se Trump cumprir a ameaça, Teerã prometeu revidar atacando instalações no Golfo.


… Fuzileiros navais americanos e embarcações de desembarque pesado continuam a se deslocar para a região.


… Os riscos ao fornecimento de energia mantinham o petróleo na faixa de US$ 112 no fim da noite de ontem.


O CHUMBO DE VORCARO – Fontes da Bloomberg confirmaram que o banqueiro já assinou um acordo de colaboração com as investigações do caso do banco Master, que poderia abalar a República, em pleno ano eleitoral.


… No Radar/Veja, o que pode vir dos registros de conversas com poderosos do STF e Congresso é “devastador”.


… A intenção da CPMI do INSS era ouvir hoje Martha Graeff, modelo e influenciadora que namorou Vorcaro. Mas congressistas da comissão não localizaram a ex-noiva do banqueiro e avaliam uma condução coercitiva.


 … O banqueiro transferiu para Martha bens que podem superar R$ 520 mi. A PF suspeita de blindagem patrimonial.


… Vorcaro criou uma estrutura jurídica nos EUA tendo a ex-noiva como beneficiária, incluindo uma casa de R$ 450 milhões em Miami, como mostrou o Estadão. A defesa nega e diz que ela não tem imóveis frutos do relacionamento.


MAIS AGENDA – Além da ata do Copom, IPCA-15 e Relatório de Política Monetária (RPM), a semana conta ainda com os dados de emprego da Pnad Contínua (fevereiro), na sexta-feira, que podem ajustar as expectativas para a Selic.


… Termômetro da meta fiscal, o primeiro Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas de 2026 sai amanhã. Existe a possibilidade de a Receita divulgar esta semana a arrecadação referente ao mês passado.


… Na quarta-feira, será publicado o Relatório Mensal da Dívida (RMD) do mês de fevereiro. O CMN se reúne quinta.


… A nota à imprensa do setor externo, com informações sobre o balanço de pagamentos e o Investimento Direto no País (IDP), sai na sexta-feira, quando também a Aneel define a cor da bandeira tarifária de energia elétrica.


… Hoje, saem a prévia do IPC-S (8h), o relatório Focus (8h25) e os dados semanas da balança comercial (15h). Ainda nesta segunda-feira, o BC faz leilão de linha de até Us4 2bilhões, às 10h30, para rolagem do vencimento de abril.


BALANÇOS – JBS é destaque na 4ªF, mesmo dia dos resultados da Oi, Americanas e Equatorial. Hoje é dia de Even e Movida, após o fechamento do mercado. Braskem, JHSF e Petz vêm na quinta. Bradespar, Azul e Vamos, na 6ªF.


LÁ FORA – Com o petróleo em primeiro plano, os indicadores são menos importantes esta semana nos EUA.


… A leitura final de março do índice de sentimento do consumidor americano, medido pela Universidade de Michigan e que traz embutido as expectativas de inflação para 1 ano e 5 anos, é destaque na agenda de sexta-feira.


… Hoje, saem os investimentos em construção em janeiro (11h). Amanhã, o dado preliminar do PMI composto de março sai nos Estados Unidos e zona do euro. Chile (terça), África do Sul e México (quinta) decidem juro na semana.


… A presidente do BCE, Christine Lagarde, participa de evento na quarta-feira.


… No último sábado, Powell enviou agradecimento e discursou por vídeo ao receber o Prêmio Paul Volcker.


… Em meio às pressões de Trump para o Fed cortar os juros, ele defendeu a independência do BC americano ao elogiar Volcker, ex-presidente da instituição, por ter resistido às pressões políticas no início da década de 80.


… À época, Volcker optou pela estratégia de elevar o juro para conter a inflação de dois dígitos, mesmo sob críticas do Congresso e da Casa Branca de Ronald Reagan. “Independência e integridade são inseparáveis”, disse Powell.


SEM FIM – O petróleo até ensaiou um alívio na sexta, com Washington sinalizando possível suspensão das sanções ao produto iraniano que já esteja em petroleiros e Israel dizendo que poderia ajudar a liberar o Estreito de Ormuz.


… Mas, logo a commodity retomou trajetória de alta, com informação da CBS News de que o Pentágono estaria preparando o envio de tropas para atuação terrestre no Irã, o que significa que a guerra ainda está longe do fim.


… Trump estaria planejando ocupar a ilha de Kharg, que responde por cerca de 90% das exportações de petróleo bruto do Irã, para pressionar os iranianos a reabrirem o Estreito de Ormuz, segundo fontes da Axios.


… Ainda o vizinho Iraque declarou força maior em todos os campos de petróleo operados no país por empresas estrangeiras, de acordo com a Reuters.


… O diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, alertou que poderá levar até seis meses para restabelecer os fluxos normais de exportação de petróleo e gás a partir do Golfo Pérsico.


… O Brent para maio fechou em alta de 3,25%, a US$ 112,19 por barril, enquanto o WTI para o mesmo mês subiu 1,91%, a US$ 94,74. O Brent avançou pela 5ª semana seguida (+8,77%); já o WTI recuou 4,02% na semana.


A MARCHA – Com a guerra sem nenhum sinal de que irá acabar logo, Wall Street optou pela cautela no último pregão, especialmente após a informação de que Trump planeja enviar tropas terrestres ao Irã.


… A volatilidade já estava garantida, afinal era dia de “bruxaria”, com vencimento quádruplo de contratos futuros e opções sobre ações e índices. A alta do petróleo à tarde estimulou ainda mais a busca por posições defensivas.


… O mercado também passou a embutir nos ativos um cenário de Fed mais hawkish.


… O Dow Jones fechou em baixa de 0,96%, aos 45.577,47 pontos; o S&P 500 caiu 1,51% (6.506,48 pontos); e o Nasdaq perdeu 2,01% (21.647,61). Na semana, os índices recuaram 2,11%, 1,90% e 2,07%, respectivamente.


… Apenas sete ações que compõem o Dow Jones resistiram em alta, entre elas, Verizon (+1,01%); Visa (0,64%) e Goldman Sachs (0,50%). Na outra ponta, IBM perdeu 3,43%, junto com Honeywell (-3,29%) e Nvidia (-3,28%).


… Super Micro Computer afundou 33,3% após o governo acusar o cofundador Yih-Shyan Liaw e outras duas pessoas de montarem um esquema de desvio de servidores para a China, violando as leis de controle de exportação.


ANTENA LIGADA – A bolsa brasileira monitorou as notícias da guerra e seguiu o mau humor de NY, mas a queda por aqui foi mais acentuada, com o cenário político voltando a preocupar.


… A expectativa de que haja em breve um “Vorcaro Day” tirou a resiliência do Ibovespa, que vinha subindo 1,5% na semana até quinta, tentando se descolar da forte correção das bolsas americanas.


… O índice fechou em queda firme (-2,25%, aos 176.219,40 pontos), com giro elevado, de R$ 49,5 bilhões, em razão do vencimento de opções sobre ações. Na semana, o Ibovespa acumulou perda de 0,81%.


… Petrobras, que vinha sendo o porto seguro do mercado brasileiro em tempos de guerra, ignorou a nova alta do petróleo e engatou forte correção (ON, -2,39%, a R$ 50,34; e PN, -2,37%, a R$ 45,67).


… Vale (-1,41%; R$ 75,55) ignorou a alta do minério (+1,05%). Os bancos também caíram: BTG (-4,30%; R$ 52,74), Santander (-2,47%; R$ 29,25), Itaú (-1,75%; R$ 41,55), Bradesco PN (-1,66%; R$ 18,33) e BB (-1,02%; R$ 23,27).


… Braskem PNA (-14,21%; R$ 10,20) liderou as perdas, acompanhada de Cyrela PN (-8,93%; R$ 23,25) e ON (-7,60%; R$ 25,05). Na outra ponta ficaram Prio (+3,14%; R$ 67,89), Vivara (+2,20%; R$ 25,59) e Yduqs (+1,38%; R$ 10,27).


FUGA PARA SEGURANÇA – O real teve o segundo pior desempenho entre as moedas globais, com investidores buscando proteção antes de mais um fim de semana de guerra e em meio a um cenário de Fed hawkish.


… A expectativa pela delação premiada de Daniel Vorcaro ajudou a acentuar o clima de aversão ao risco. O dólar fechou em alta de 1,79%, a R$ 5,3092. Na semana, acumulou leve baixa de 0,13%.


… Lá fora, a moeda americana avançou frente aos pares (DXY +0,35%, aos 99,587 pontos), como euro (-0,23%, a US$ 1,1559) e libra (-0,74%, a US$ 1,3334). Os juros dos Treasuries dispararam: Note de 10 anos a 4,393%, de 4,253%.


… Aqui,  os juros futuros passaram por forte ajuste de alta, acompanhando a disparada do dólar e dos rendimentos dos Treasuries, em uma combinação de piora de riscos internos e externos.


… No fechamento, o contrato para janeiro de 2027 marcava 14,420% (de 14,014% no ajuste anterior); Jan/29, 14,110% (contra 13,583%); Jan/31, 14,145% (de 13,765%); e Jan/33, 14,130% (de 13,833%).


CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS informou que não foi notificada da decisão da Justiça Federal em Angra dos Reis (RJ) de suspensão imediata da Licença Prévia emitida pelo Ibama para a Etapa 4 do Pré-Sal da Bacia de Santos…


… O projeto prevê a instalação de dez plataformas e a perfuração de 132 poços. A empresa disse que o processo de licenciamento ambiental observou todos os requisitos legais e a companhia atendeu a todas as solicitações…


… Ainda no noticiário da Petrobras, a companhia contratou cerca de 2,6 GW em leilões de reserva de capacidade, garantindo receita anual estimada de R$ 4,45 bilhões entre 2026 e 2031 com nove usinas termelétricas.


CSN anunciou empréstimo-ponte de US$ 1,2 bilhão (SOFR +6%, prazo de até 5 anos) como parte da estratégia de reperfilamento da dívida e antecipação de recursos ligados a desinvestimentos.


TOTVS aprovou pagamento de R$ 104,2 milhões em JCP (R$ 0,18/ação), com pagamento em 10/04. Ex em 26/03.


LIGHT reportou prejuízo líquido de R$ 187 milhões no 4TRI25, revertendo lucro de R$ 1,89 bilhão um ano antes. O Ebitda caiu 17%, para R$ 492 milhões, e a receita líquida avançou 1,3%, para R$ 4,17 bilhões.


ISA ENERGIA aprovou emissão de debêntures de R$ 1 bilhão, prazo de 15 anos, para financiar e reembolsar investimentos no projeto Itatiaia.


AZUL recebeu sua 42ª aeronave Embraer E195-E2, primeira entrega de 2026, com redução de até 26% no CASK e 29% nas emissões, reforçando estratégia de eficiência operacional.


CLARO anunciou que sua controladora, a Claro NXT Telecomunicações S.A., comprou 73,01% do capital social da Desktop, por R$ 2,414 bilhões, ou R$ 20,82 por ação ON.


CARAMURU reportou lucro líquido de R$ 78,6 milhões no 4TRI25, queda de 52,2% na comparação anual. A receita líquida avançou 9,8%, para R$ 2,11 bilhões, e o Ebitda ajustado recuou 62,6%, para R$ 55,4 milhões.


BTG PACTUAL suspendeu temporariamente o Pix após ataque hacker de R$ 100 milhões; banco afirma que nenhuma conta foi comprometida e que a maior parte dos recursos foi recuperada.


ZAMP aprovou grupamento de ações de 1.000 por 1, sujeito à AGE, com objetivo de simplificar estrutura acionária após fechamento de capital.

Bankinter Portugal Matinal

 Análise Bankinter Portugal 


NY -1,5% US tech -1,9% US Semis -2,5% UEM -2% España -1,1% VIX 26,8% Bund 3,05%. T-Note 4,98%. Spread 2A-10A USA=+46pb B10A: ESP 3,57% PT 3,53% ITA 3,96% FRA 3,76% ITA 3,79% Euribor 12m 2,658% (fut.12m 3,106%). USD 1,153. JPY 183,9. Ouro 4.221 $. Brent 113,3$. WTI 100,5$. Bitcoin -4,3% (70.811$). Ether -5,3% (2.035$). 


SESSÃO: Hoje o mercado amanhece semi-abalado na frente das bolsas devido à escalada da guerra no Irão. Será um dia péssimo e não parece que possa surgir nada previsível que o amortize. Só resta esperar. Esta madrugada, as bolsas japonesas e chinesa -3,5%, Coreia -6,5%... embora os futuros sobre a bolsa americana parecem mais serenos (-0,9%). Os europeus estão maus, mas, pelo menos, não oferecem um aspeto de rotura (-1,5%/-2%).


Talvez o pior se note nas obrigações. A yield do Bund passou a fronteira de 3% (3,05%) (isto é, preço em baixa), a da obrigação italiana está perto dos 4% (3,96%), a obrigação americana a 2 anos também (3,95%), enquanto a 30A americana testa os 5% (4,98%). O T-Note (O10A) está a 4,42%. O futuro a 1 ano da Euribor 12 meses já superou os 3% (3,106%). Tudo isto significa que as yields das principais obrigações se ampliaram desde sexta-feira de manhã cerca de 15 p.b., em termos gerais, por receio de uma inflação futura muito superior à temida até à semana passada perante a escalada da guerra no Irão nas últimas horas, com represálias e contrarrepresálias numa guerra completamente aberta que só terminará com a neutralização militar absoluta do Irão. O seu regime está disposto a sobreviver a qualquer preço, incluindo autoimolação. Seria conveniente perguntar o que estaria a acontecer se o Irão tivesse conseguido ser potência militar nuclear.


A parte menos má é que o USD se aprecia algo muito razoável, sem transmitir sensação de pânico (1,153/€) e o yen depreciou-se até quase 160/$, mas sem atravessar essa fronteira. E o petróleo Brent sobe até 113 $, mas isso não é grande coisa, tendo em conta as circunstâncias. Quando a guerra na Ucrânia começou, em fevereiro de 2022, chegou a 130 $. Por isso, poderemos dizer que, dentro da sensação de medo, nem todo o mercado está abalado. Mas o seu único fator diretor absoluto é o desenvolvimento de uma guerra que o Irão perderá, mas que, enquanto a perde e se demonstra que o petróleo voltará a ser transportado pelo Estreito de Ormuz/Golfo Pérsico/Golfo de Omã com tensão e relativa fluidez, embora mais caro (90 $ quando terminada a guerra?), esta fase intermédia de plena guerra colocará os preços dos ativos (bolsas e obrigações) francamente atrativos, em “modo oportunidade”. Trump tem pressa para chegar às eleições de meio mandato de novembro com este assunto resolvido (isto é, petróleo pagável, inflação com o pior já para trás e o Irão neutralizado) e Israel sabe que ou o faz agora ou nunca terá outra oportunidade de neutralizar uma ameaça existencial como Irão. Por isso, ambas as partes chegarão até ao final rapidamente, embora menos do que o que parecia. Enquanto isso, o nervosismo é uma má ideia, porque a recuperação posterior do mercado será rápida e podemos deixá-la escapar. Porque o dia depois do Irão será melhor do que o dia anterior.


CONCLUSÃO: Hoje mercado abalado ou semi-abalado e é melhor não fazer nada, a não ser esperar com sangue-frio. O desenvolvimento das ações militares e os resultados que nos chegam dirão tudo. É provável que Wall St., durante a tarde, aguente bastante melhor do que a Ásia e Europa… e melhor do que o que parece. Não há muito mais que se possa dizer num dia como hoje. A não ser que, se uma campanha militar terrestre avançar, o risco seria muito superior e a nossa opinião poderia mudar.


FIM

Merval Pereira

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Briga intestina no STF

Gilmar Mendes começa a tentar montar dentro do Supremo um ambiente que permita, mais adiante, anular o processo do Banco Master assim como fez com todos os processos da Operação Lava Jato

Por Merval Pereira

22/03/2026 04h30  

Ministro André Mendonça durante sessão plenária no STF — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

 


A divergência aberta entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, o decano da instituição, e André Mendonça, o relator do caso do Banco Master, é a evidência de que a crise de legitimidade que atinge o Supremo não se resolverá tão cedo, muito menos agora, quando os dois ministros se manifestaram publicamente sobre teses conceituais, um fustigando o outro. O ministro André Mendonça, já colocado na mídia como o novo guardião da moralidade jurídica, mandou seu recado em evento da OAB do Rio, afirmando, entre outras coisas, que não cabe ao juiz “ser uma estrela”, mas simplesmente agir de maneira certa, e julgar dentro do que é certo.


Um raciocínio aparentemente simplório, mas que, nesta fase em que estamos, é bem recebido por quem ouve, cansado do juridiquês fraudulento e das manhas jurídicas que permitem decisões teratológicas como se fossem sapiências tiradas do fundo da cartola de um mágico decadente. Já o ministro Gilmar Mendes usou seu reconhecido repertório jurídico para, não tendo ambiente favorável a um voto divergente depois que a sua Turma já havia firmado a maioria para manter a prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, deu unanimidade à decisão, mas acusou seu colega de usar “conceitos porosos e elásticos” para a decretação de prisões preventivas.


Não foi à toa que o ministro Gilmar Mendes relembrou a Operação Lava Jato, desmontada por sua combativa ação no Supremo, tão combativa quanto nos anos seguidos de defesa da mesma operação que, na sua opinião, estava desmontando o “estado cleptocrático” instalado pelo PT no país. Disse Mendes em seu voto: “em um passado recente, essas mesmas fórmulas foram indevidamente invocadas pela força-tarefa da Lava Jato para justificar os mais variados abusos e arbitrariedades contra aqueles que, ao talante dos investigadores, eram escolhidos como alvos de persecução penal ancorada em razões políticas e ideológicas".


Gilmar Mendes começa a tentar montar dentro do Supremo um ambiente que permita, mais adiante, anular o processo do Banco Master assim como fez com todos os processos da Operação Lava Jato, abrindo a porteira para que outros juízes usassem a decisão de considerar o então juiz Sérgio Moro parcial no julgamento do caso do triplex do Guarujá contra Lula. O que seria uma decisão pontual, como garantiu Mendes na ocasião, virou a senha para o liberou geral que culminou com todos os condenados libertados, inclusive os que admitiram culpa em delações premiadas que mais tarde foram consideradas, inclusive pelo ministro Dias Toffoli, como resultado de pressão ilegal das autoridades. Até quem devolveu dinheiro roubado recebeu de volta o fruto do roubo.


O raio não cai de novo no mesmo lugar, diz a sabedoria popular, mas com a Justiça brasileira nada é impossível, pois a Lava Jato teve o mesmo fim de outros processos contra corrupção anulados por tecnicalidades. Assim como a empresa da família Toffoli e Lulinha, filho do presidente Lula, foram protegidos respectivamente pelos ministros Gilmar Mendes e Flavio Dino, sob a mesma alegação: a quebra do sigilo dos dois foi feita em bloco, e não individualmente.


Os dois ministros têm em comum o gosto pela política, com planos eleitorais claros para 2030. Mendes tem muito prestígio em seu estado, o Mato Grosso, onde há uma proposta de criação de um município chamado “Gilmarlândia”, e mais cinco anos de mandato. Dino vem da política maranhense, tendo sido governador do estado e mantendo até hoje um grupo político atuante que disputa o poder estadual em uma briga com o atual governador Carlos Brandão, que já foi seu aliado. Pesquisa Atlas Intel/Estadão divulgada ontem mostra que o único juiz da Corte que tem avaliação popular positiva maior que a negativa é André Mendonça. Já o ministro Dias Toffoli é o pior avaliado, seguido de Gilmar Mendes. O ministro Flavio Dino é o que tem uma menor avaliação negativa entre seus pares.


Magistrados com interesses políticos não dá certo. Acusado de agir parcialmente contra Lula, cada manobra partidária de Sergio Moro com o grupo político de Bolsonaro, como agora no Paraná, justifica a acusação.

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