*Do consignado ao mercado de capitais: como o Master se tornou o ‘banco das fraudes’*
Algumas das principais operações do Banco Master estão sob investigação por suspeitas de irregularidades; procurada, instituição não respondeu a pedido de entrevista
As investigações em torno do Banco Master vêm mostrando que, aparentemente, grande parte de sua estrutura era baseada em operações irregulares, fraudulentas ou enganosas. A área que era considerada a mais sólida da instituição foi a última a entrar nessa ciranda: o Estadão revelou que o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) viu irregularidades em 74% das operações de crédito consignado feitas pelo Banco Master entre 2021 e 2025.
Já estavam na lista de eventuais fraudes praticadas pela instituição os R$ 12,2 bilhões em créditos fictícios vendidos ao Banco de Brasília (BRB) e uma teia de fundos e ativos inflados para aumentar o patrimônio do banco, em operações com a gestora Reag DTVM, que somam outros R$ 11,5 bilhões, segundo o Banco Central (BC).
Essas operações estão entre as que eram destacadas pelo Master em suas demonstrações financeiras mais recentes publicadas, referentes ao ano de 2024. Apesar de não serem detalhados, mereceram destaque da administração os empréstimos consignados (sobretudo do Credcesta), as operações estruturadas a empresas (como crédito corporativo por meio de fundos) e o crescimento na venda de carteiras de crédito. Procurado, o Master não respondeu a pedido de entrevista até a publicação desta reportagem. A Reag não comentou.
Na prática, todas as operações que estão sob investigação tinham como objetivo aparente tentar mostrar a solidez dos números do banco, para que ele continuasse fazendo negócios. Seja pela captação via Certificados de Depósito Bancário (CDBs) pagando acima da média do mercado − com a propaganda de venda baseada no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) −, via fundos com suspeita de serem turbinados ou com crédito consignado aparentemente frágil, as investigações indicam que o balanço mostra ativos inflados artificialmente, enquanto os passivos eram bem maiores.
“O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo”, afirmou o dono do banco, Daniel Vorcaro, em depoimento à Polícia Federal.
Fora das tabelas da demonstração de resultados, na vida real, porém, o banco dificilmente pararia em pé.
“A dinâmica da falência de um banco é sempre igual: a instituição vem bem, obtém renome e credibilidade (que tem a mesma raiz da palavra crédito) e cresce”, diz Paulo Henrique Carnaúba, professor do programa de finanças avançadas do Insper e advogado especialista em fraudes. “A gestão passa a testar o uso do dinheiro dos outros (mais do que o dela) em operações delicadas ou irregulares e, quando dá certo, com a sensação de que continuará impune, aumenta essa prática.”
Até que a bola de neve fica tão grande, que o banco se torna insolvente, ele afirma. “Nessa hora, ou o controlador busca um aporte de capital ou fabrica ativos e tenta obter liquidez de forma agressiva”, diz Carnaúba. “Tudo o que está sendo investigado parecem ser estratégias para criar solidez e liquidez no balanço e esconder um problema maior e anterior.”
As eventuais fraudes, afirma, são um meio para esconder o fim da história: uma conta de ativos e passivos que aponta para uma instituição que não para de pé. “A estratégia geral parece ser criar ou atrair ativos que significam aportes de recursos para evitar a intervenção do BC”, afirma. “Isso nunca deu certo, já que são operações muito complexas e que envolvem muitos interesses... é só a ponta do iceberg.”
O destino dos recursos com suspeita de terem sidos fraudados e desviados, diz, será respondido pelas investigações. “Desde 2023 havia rumores em torno da falta de solidez do Master”, diz Carnaúba. “Se houve demora na ação do BC, isso será investigado, mas que houve grande vontade política para que a intervenção não acontecesse, isso houve.”
De acordo com Luis Miguel Santacreu, analista da agência de classificação de risco Austin Rating, é impossível saber, por meio das informações públicas, quais e quanto das operações do Master eram ou não regulares.
“Apenas o interventor terá acesso a essas informações em profundidade, após a investigação das autoridades competentes”, diz. “Pelo que é público, é possível dizer que o Master tinha uma gestão agressiva em tesouraria e na captação de investimentos, ao mesmo tempo em que investia em ativos ilíquidos (como precatórios e participações em empresas em dificuldades), o que causava um descasamento entre ativos e passivos e riscos maiores do que o recomendado.”
*Veja abaixo as principais operações e as suspeitas levantadas por autoridades.*
*Repasse de carteiras de crédito fraudulentas*
A primeira fraude apontada pelo BC, que determinou a liquidação do Master em novembro, foi o repasse de carteiras de crédito fictícias ao Banco de Brasília (BRB). Segundo o BC, o Master transferiu R$ 12,2 bilhões ao BRB entre julho de 2024 e outubro de 2025 sem documentação e em violação às normas regulatórias.
Após questionamento da autoridade monetária sobre as carteiras de crédito, o Master disse que R$ 6,7 bilhões eram empréstimos feitos por meio de associações de servidores públicos da Bahia. O Ministério Público Federal (MPF) passou a investigar o caso, mas não encontrou as dívidas que teriam sido feitas por associados dessas entidades.
O Master mudou então a versão e disse que os empréstimos haviam sido feitos pela Tirreno Consultoria e repassados pelo banco ao BRB. A Tirreno, porém, é operada por um ex-funcionário do Master e assinou contrato com o banco dois dias após ter seu nome mudado e seu capital social aumentado de R$ 100 para R$ 30 milhões. No mês seguinte, passou a vender as carteiras fictícias ao Banco de Brasília (BRB), que então negociava a aquisição do Master.
Segundo o BC, a carteira de crédito é inexistente e há indicativos de falsidade documental. Veja detalhes abaixo:
Foram essas investigações que deflagraram a liquidação do banco e a prisão de seu controlador, Daniel Vorcaro. O banqueiro ficou pouco mais de uma semana preso e, um dia útil após ser solto, as investigações sobre o Master foram colocadas em sigilo total, no Supremo Tribunal Federal (STF).
*Ciranda de fundos de investimentos*
A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada no dia 14, mostrou uma ciranda de fundos de investimentos nos quais parte dos recursos captados pelo Master eram colocados em fundos administrados pela Reag DTVM − e voltavam ao próprio banco com o objetivo de tentar incrementar sua solidez. As investigações mostram também a possibilidade de desvios de recursos a “laranjas”, próximos à instituição.
O dinheiro captado via Certificados de Depósito Bancário (CDB), com fundos de pensão de servidores públicos ou por meio do caixa de empresas nos quais um grupo de investidores ligado ao Master tinha participação passava rapidamente de um fundo para outro. A Reag era a principal gestora que abrigava esses fundos. Para justificar sua valorização, os gestores compravam ativos que valiam pouco, mas registravam como se tivessem valor muito superior.
Segundo a Folha de S.Paulo, um dos papéis que tiveram essa valorização inexistente são certificados de ações do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Os gestores do fundo compravam esses títulos, que têm valor baixo, e registravam como se valessem muito. No caso, foram comprados R$ 850 milhões em títulos e registrados pelo valor de R$ 10 bilhões, de acordo com o portal G1.
Com o patrimônio do fundo inflado, o dinheiro passaria para outros fundos de investimento, também da Reag. Na prática, o próprio Master colocava o dinheiro e buscava mostrar retornos turbinados, como sinal de solidez. Posteriormente, os recursos parariam nas mãos de pessoas próximas aos controladores do Master.
A Reag DTVM, posteriormente batizada de CBSF, foi liquidada pelo BC um dia após a segunda fase da Operação Compliance Zero. A gestora foi um dos principais alvos da Operação Carbono Oculto, que investigava a ligação entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e a Faria Lima.
*Fragilidade no crédito consignado*
Um processo administrativo do INSS mostra que um dos negócios apontados como um dos mais sólidos do Master, os empréstimos consignados, também estão sob suspeita. Uma das frentes de negócios consignados do Master, o Credcesta, foi suspenso em diferentes entes públicos nos últimos meses.
Segundo documento do INSS, o Master deixou de apresentar 251.718 documentos que comprovassem contratos de crédito consignado firmados. Trata-se de 74,3% de um universo de 338.608 acordos que o banco relatou ter celebrado com beneficiários da Previdência entre outubro de 2021 e setembro de 2025.
“A análise técnica empreendida demonstrou que o Banco Master S/A promoveu uma expansão agressiva de sua carteira de crédito nos últimos exercícios, resultando em um número expressivo de averbações desprovidas do devido lastro documental e sem a observância dos requisitos de segurança exigidos”, descreve o relatório.
O INSS havia proibido, em outubro, que o Master concedesse empréstimos a aposentados e pensionistas. De acordo com o órgão, o processo levou em consideração os múltiplos relatos de dificuldades para cancelamento, cobranças indevidas e operações não reconhecidas.
Também foram identificados indícios de descumprimentos de parâmetros normativos como exigência de autorização expressa, autenticação biométrica, guarda adequada de documentos e responsabilidade pela atuação de correspondentes bancários.
O Estadão também mostrou que a operação de consignado do Master distribui lucros milionários e foi parar na teia de fundos da Reag. A PKL One, empresa que atua como braço na venda e cobrança de créditos consignados do Credcesta, distribuiu lucros de R$ 32 milhões em um mês, apesar de não ter apresentado documentos a auditores independentes para que suas demonstrações financeiras pudessem ser examinadas. Por isso, as empresas de auditoria entregaram à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) pareceres com abstenção de opinião sobre os fundos.
*Interesse no mercado de capitais*
Outra frente que não aparece entre os ativos do banco, mas que ajudou a aumentar o patrimônio do banco, são investimentos em títulos do Master, feitos por empresas nas quais Vorcaro e seu parceiros de negócios investiram.
Diferentes companhias que receberam investimentos da holding de Vorcaro, a Titan, aplicaram parte de seu caixa em fundos do Master. Entre elas, estão a Oncoclínicas, a Emae, a Cedae e a Rede Día. Algumas delas têm como investidor em comum o empresário Nelson Tanure.
Ambipar foi citada em protesto na frente da sede do Banco Master Foto: Tiago Queiroz/Estadão
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) investiga a conexão entre fundos do Master, Tanure e o CEO da Ambipar, Tercio Borlenghi Junior. Fundos como o Texas abrigavam ações da Ambipar, que tiveram alta superior a 800%, pelo que a área técnica do xerife do mercado de capitais colocou sob suspeita como manipulação de mercado. Um voto polêmico do presidente interino da CVM considerou desnecessária a oferta pública de aquisição das ações da empresa.
Foi essa alta astronômica, que fez a Ambipar valer mais do que empresas como a Embraer na Bolsa, que permitiram que Tanure tivesse garantias para adquirir a empresa de energia Emae. Fundos com papéis quase que exclusivamente da Ambipar também estavam entre os ativos do Letsbank, uma das instituições controladas pelo Master. Procurado, Tanure não se pronunciou.
https://www.estadao.com.br/amp/economia/negocios/como-master-se-tornou-banco-das-fraudes/
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