domingo, 25 de janeiro de 2026

Leitura de domingo 2

 *Leitura de Domingo: fluxo estrangeiro na B3 em janeiro é metade do observado em 2025 e deve subir*


Por Maria Regina Silva, Mateus Fagundes, Caroline Aragaki e Ana Paula Machado


São Paulo, 23/01/2026 - A rotação global de recursos para mercados emergentes, provocada pela turbulência das narrativas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a expectativa de queda da taxa Selic e a aposta na alternância de poder no Brasil levaram à entrada de R$ 12,35 bilhões na Bolsa brasileira em janeiro, até o dia 21. Esse montante equivale a pouco mais da metade de tudo o que foi aportado pelo investidor estrangeiro na B3 em 2025. Também representa aumento de 305% em relação ao observado em igual intervalo do ano passado. A tendência, segundo analistas ouvidos pela Broadcast, é de que o fluxo siga forte.


Somente na sessão de quarta-feira, 21, houve ingresso de R$ 3,583 bilhões na B3, 29% de todo o saldo positivo do mês. Trata-se do maior valor em um só dia desde 21 de outubro de 2022.


Naquela ocasião, como agora, o rali foi motivado pela combinação de liquidez global com perspectivas eleitorais. Em outubro de 2022, houve sinalização de abrandamento do aperto monetário nos Estados Unidos - que se concretizou -, além de uma aposta de que o então presidente Jair Bolsonaro pudesse vencer Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno da eleição presidencial, que ocorreria dali a uma semana.


Agora, a tensão geopolítica em alta - motivada por declarações de Trump sobre a relação com a Europa, a China e o Oriente Médio - levou a uma onda de redução da exposição dos investidores a ativos norte-americanos, apelidada de "Sell America". Assim, há disposição do investidor em rotacionar recursos para países emergentes.


Segundo Mauro Orefice, gestor de portfólio da B.Side Investimentos, não é de agora que o investidor estrangeiro tem aportado na Bolsa brasileira. Em 2025, lembra, houve entrada forte de cerca de R$ 25,4 bilhões. "Virou o ano, e só aumentou por 'n' razões", diz.


O sócio-diretor da Wagner Investimentos (WIA), José Faria Junior, considera que Trump quebrou a confiança dos países no ano passado ao aumentar tarifas sem negociações e por frequentemente fazer ameaças que não se cumpriram - postura que levou o mercado a criar o acrônimo TACO (Trump Always Chickens Out, ou, na tradução livre, Trump sempre volta atrás). "Então já víamos realocação de dinheiro, mas que entrou em modo turbo este ano depois da Groenlândia", afirma Junior, acrescentando que a Bolsa americana está cara.


O ingresso de capital estrangeiro, porém, não deve ser confundido com um movimento de busca de risco e segurança em mercados emergentes, destaca o economista-chefe da BGC Liquidez, Felipe Tavares. "O operador entende que vai ter um período de volatilidade elevado e decide sair dos Estados Unidos até passar a turbulência", afirma.


Segundo ele, uma parcela do fluxo tende a ficar - caso do investidor que já estava pensando em aportar em emergentes -, mas outra parte pode ser só fluxo de curto prazo.


No ano até agora, o Ibovespa saltou 10%. O S&P/BMV, principal termômetro de ações da Bolsa do México, avançou 6,52% no período. O IDX Composto, da Bolsa de Jacarta, na Indonésia, ganhou 3,99%.


A causa desse "descasamento" entre a Bolsa brasileira e as demais emergentes é o fato de as ações de cá estarem sendo negociadas a preços descontados, além da expectativa de flexibilização monetária no Brasil à frente - o que pode impulsionar o lucro das empresas. Unindo ambos os fatores, o valuation acaba sendo considerado atrativo.


Orefice, da B.Side Investimentos, afirma que a Bolsa brasileira permanece barata, com múltiplos baixos.


"Até quando as taxas de juros realmente começarem a cair e isso se refletir nos balanços, acredito que bastante dinheiro entrará no Ibovespa, mais do que já tem entrado", acrescenta o analista da Daycoval Corretora, Gabriel Mollo.


"A conjuntura macro ajuda. De um jeito ou de outro, a Selic vai cair. Só não sabemos em que mês. Quando começar a cair, deve beneficiar alguns setores, estimulando mais capital estrangeiro", ressalta Orefice.


Eleição


O cenário eleitoral doméstico é um motivo adicional para o ingresso de recursos internacionais na B3. Embora inicialmente o anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a presidente tenha sido mal recebido pelos agentes financeiros, o mercado agora vê chances de o senador ser um candidato competitivo contra o presidente Lula. Com isso, aposta-se na possibilidade de eleição de um governo à direita do espectro político, que poderia fazer um ajuste fiscal mais duro.


"A eleição ainda vai ser um ponto de volatilidade, já que a diferença entre Lula e Flávio está diminuindo. Poderemos ver um movimento da direita mais forte do que anteriormente esperávamos", ressalta Mollo, da Daycoval Corretora.


O Morgan Stanley mencionou, em relatório, que "o mercado parece estar incorporando uma alternância de poder nas eleições deste ano, que acontecerão em outubro". Isso porque o grupo de ações mais relacionadas a uma mudança de governo subiu 59% em dólar desde janeiro de 2025, enquanto o que tem maior correlação com continuidade de governo avançou 47% no mesmo período.


Para o analista da RB Investimentos, Gustavo Cruz, o fluxo externo para a Bolsa pode se manter mesmo em caso de vitória de Lula em outubro, uma vez que o investidor estrangeiro não vê o governo atual como "disruptivo". "O investidor estrangeiro pode seguir alocando recursos no Brasil. Acho que a diferença está na intensidade", pondera.


Contatos: reginam.silva@estadao.com; mateus.fagundes@estadao.com; caroline.aragaki@estadao.com; ana.machado@estadao.com


Broadcast+

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ailton Braga

  Hoje, 02/02/2026, saiu no Blog do IBRE da FGV, artigo meu em que faço análise da interação entre política fiscal e política monetária, a p...