domingo, 25 de janeiro de 2026

Filosofia de Clausewitz no Artico

 *Filosofia de Clausewitz no Ártico*


Nesta semana, a agenda econômica nos EUA foi ofuscada pelas movimentações geopolíticas. A crescente tensão em torno da Groenlândia levou o presidente americano a ameaçar sanções contra países europeus que se opusessem a uma eventual anexação. A Dinamarca, por sua vez, tem reiterado a soberania dos Estados-membros e coordenado respostas conjuntas no âmbito da União Europeia — até aqui, em tom de repúdio.


O ambiente mais tenso sustentou a demanda por ouro e outros metais, com forte valorização. Três óticas ajudam a entender o movimento: (i) o ouro como proteção clássica em cenários de fricção política, estimulando compras de investidores e de bancos centrais; (ii) a expectativa de maior demanda da cadeia bélica, como derivada das tensões, beneficiando metais industriais; e (iii) a preferência por ativos reais diante da perda de credibilidade de trajetórias fiscais e do controle inflacionário, à luz da expansão de gastos.


Essa mudança de regime tem se somado aos preços descontados de ativos de emergentes, alimentando o ciclo de alocação observado desde o ano passado. O fluxo para esses países se ancora na exposição a ativos reais — dado que a cadeia de produção de materiais básicos é, em geral, sediada neles — e costuma vir acompanhado de exposição à moeda local, razão pela qual ciclos positivos em emergentes tendem a ocorrer concomitantemente a um dólar globalmente mais fraco. Esses vetores embasam nossa visão construtiva para emergentes nos próximos anos.


Do lado macro, os principais indicadores americanos — atividade, consumo e preços — vieram em linha com as expectativas, com impacto contido nos ativos.


Merece destaque o movimento atípico da curva japonesa: na semana, o rendimento do título de 30 anos chegou a avançar 12,5% (variação relativa), tocando 3,9% a.a.; depois cedeu e encerrou em 3,6% a.a., alta semanal de 4,6%. Como ressaltado em outras ocasiões, esse ponto é crucial para o quadro global, dada a relevância histórica do Japão como provedor de liquidez barata para alavancagem.


Em nossa leitura, esse é um dos principais riscos prospectivos. Se a tendência de alta persistir, pode deflagrar movimentos de desalavancagem no sistema financeiro — dinâmica que precedeu diversas crises, como a de 2008, após a correção imobiliária. Esse não é o nosso cenário-base, mas ainda nos parece nebulosa a saída para o dilema japonês.


Nesse contexto, S&P 500 e Russell 2000 recuaram 0,4%; o Dow Jones caiu 0,5%, enquanto o Nasdaq subiu 0,3%. A perda de tração na alta dos yields japoneses refletiu receios de intervenção cambial, provocando forte valorização do iene e queda de 1,9% do índice do dólar — apesar da estabilidade na curva americana e da leve alta (+0,2%) dos Treasuries longos. Entre as bolsas, DAX -1,6%, Nikkei -1,7%; emergentes +2,1% (China tradicional +0,4%; tecnologia +0,5%). Ouro +8,7%; petróleo +1,7%.


Aproveitamos a alta expressiva do ouro para reduzir parcialmente a exposição em mineradoras do metal, buscando recomposição em pontos técnicos mais atrativos. Em contrapartida, elevamos a alocação em ativos brasileiros como juro real e ações de mercado interno, além de ações chinesas, com ênfase em varejistas consolidadoras de marketplaces e empresas que avançam no uso de IA em plataformas abertas de desenvolvimento.


*A Suíça dos trópicos*


Os ativos locais vêm se beneficiando do forte fluxo estrangeiro: até o dia 21, as entradas em ações brasileiras somaram R$ 12 bilhões, metade do registrado em todo 2025. O Brasil tem figurado entre os destaques de emergentes, com desempenho liderado por commodities e materiais básicos, beneficiários da busca por ativos reais.


Esse fluxo foi acompanhado por pesquisas eleitorais que apontam enfraquecimento do presidente Lula em eventual campanha neste ano. Os levantamentos mostram queda de rejeição e avanço de intenção de voto de Flávio Bolsonaro no segundo turno, aproximando-o do atual presidente.


Em uma semana esvaziada de indicadores locais, o Ibovespa apresentou valorização bastante expressiva de 8,5% e o dólar queda de 1,5%, acompanhando o tom global. Na curva, as taxas dos títulos com vencimento em 2030 recuaram: prefixada caiu 1,2%, a 13,3%, e IPCA+ recuou -1,2%, a IPCA+7,8%.


Seguimos vendo oportunidades atrativas na Bolsa doméstica; assim, realocamos parte dos ganhos para setores voltados ao consumo interno. Nos portfólios adequados, ampliamos a posição em títulos públicos de prazo mais longo, onde a relação risco-retorno nos parece hoje superior e oportuna para novas alocações. Entendemos que o Copom deve iniciar os cortes de juros ainda no primeiro semestre, catalisando o fechamento dos juros reais, que seguem próximos aos níveis do fim de 2024 — quando houve estresse generalizado e o dólar tocou R$ 6,30.


Qualquer necessidade, estou à disposição.


Um abraço, Breno - Rubik Capital

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