*MASTER USOU VULNERABILIDADES E LARANJAS' PARA DESVIAR RECURSOS A VORCARO E FAMILIARES, DIZ PGR*
Por Aguirre Talento, do Estadão
Brasília, 16/01/2026 - A investigação sobre as suspeitas de crimes de gestão fraudulenta do Banco Master apontou que a instituição usou as "vulnerabilidades" do mercado de capitais para realizar operações financeiras com o objetivo de desviar dinheiro para o patrimônio pessoal do dono do banco, Daniel Vorcaro, e de seus familiares. Esses desvios totalizaram R$ 5,7 bilhões, de acordo com a investigação.
A defesa de Vorcaro nega o cometimento de irregularidades e diz que ele tem colaborado com a Justiça para o esclarecimento dos fatos.
Em manifestação apresentada para embasar a segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada última quarta-feira, 14, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, citou que o Master usou uma "rede de entidades conectadas entre si" para executar essas operações. "Há elementos suficientes que apontam, como indicado pela autoridade policial, para o 'aproveitamento sistemático de vulnerabilidades do mercado de capitais e do sistema de regulação e fiscalização', notadamente mediante o uso de fundos de investimento e intrincada rede de entidades conectadas entre si por vínculos societários, familiares ou funcionais", escreveu Gonet.
*Fábrica de papéis*
Uma das estratégias envolveu, por exemplo, a emissão de CDBs no mercado. Segundo a Polícia Federal, o Banco Master captava recursos no mercado via CDBs e os direcionava a fundos de investimento (FIDCs) onde o próprio banco era o único cotista. Esses fundos, por sua vez, compravam Notas Comerciais de empresas de fachada ligadas aos sócios do banco.
Foram pelo menos R$ 3,5 bilhões investidos pelo Master em fundos dos quais era cotista único e R$ 1,8 bilhão destinado à aquisição de notas comerciais emitidas por empresas que tinham vínculos com Vorcaro ou pessoas relacionadas a ele. No total, a PF identificou suspeitas de desvio de R$ 5,7 bilhões de recursos do sistema financeiro para o patrimônio pessoal do banqueiro ou de familiares.
Ao rastrear uma das operações suspeitas, a PF acabou descobrindo, por exemplo, que um desses fundos de investimento acabou resultando na transferência de R$ 9 milhões para Henrique Vorcaro, pai do dono do Master.
*'Laranjas' e auxílio emergencial*
Outro investimento considerado fraudulento foi de R$ 361 milhões a uma pequena clínica médica na região metropolitana de Belo Horizonte, caso revelado pelo Estadão. A PF identificou que vínculos societários da clínica acabavam vinculando a operação financeira à irmã do banqueiro, Natália Vorcaro.
Por causa disso, tanto o pai como a irmã também foram alvos da operação.
A PF descobriu que a empresa não tinha garantias, possuía capital social zero e sua receita anual era de apenas R$ 54 mil. A presidente da clínica, Valdenice Pantaleão, não possuía patrimônio compatível e foi beneficiária de auxílio emergencial em 2020 e 2021, indicando atuar como "laranja". Ela foi um dos alvos da operação.
*O esquema com a Reag*
A apuração também apontou, com base em informações fornecidas pelo Banco Central, que a gestora Reag atuou em conjunto com o Master para estruturar fundos e executar operações com o objetivo de desviar recursos do banco.
Foi identificado um fluxo onde o banco desembolsou R$ 1,45 bilhão, que "retornou" para a instituição em grande parte (R$ 1,38 bilhão) através da compra de CDBs do próprio Master por fundos da Reag, numa operação circular para inflar artificialmente os ativos.
*Conexões com Tanure*
O documento judicial cita Nelson Tanure como suposto "sócio oculto" do Banco Master e beneficiário final da empresa Lormont Participações, cujos papéis concentravam 97% da carteira de um dos fundos investigados. O bloqueio de bens de Tanure foi solicitado no mesmo volume do de Daniel Vorcaro.
*Com a palavra, a defesa de Vorcaro*
"A defesa de Daniel Vorcaro informa que tomou conhecimento da medida de busca e apreensão e reafirma que o Sr. Vorcaro tem colaborado integral e continuamente com as autoridades competentes. Todas as medidas judiciais determinadas no âmbito da investigação serão atendidas com total transparência.
O Sr. Vorcaro permanece à disposição para prestar esclarecimentos sempre que solicitado, reforçando seu interesse no esclarecimento completo dos fatos e no encerramento célere do inquérito. A defesa reitera confiança no devido processo legal e seguirá atuando nos autos para que as informações sejam tratadas de forma objetiva e dentro dos limites constitucionais."
*Com a palavra, a defesa de Nelson Tanure*
"Na qualidade de advogado de NELSON SEQUEIROS RODRIGUEZ TANURE e diante da notícia de que o empresário foi incluído no bojo da operação de busca e apreensão deflagrada com autorização do STF, esclarece-se:
1) O empresário NELSON SEQUEIROS RODRIGUEZ TANURE, que tem décadas de experiência profissional no mercado de valores mobiliários, jamais enfrentou qualquer processo criminal em razão de suposta prática delitiva no contexto das empresas em que é ou foi acionista.
2) Nesse sentido, e não tendo qualquer relação de natureza societária com o BANCO MASTER S/A, do qual foi cliente nos últimos anos, nas mesmas condições em que é igualmente atendido por outras instituições financeiras conhecidas do mercado, o empresário NELSON SEQUEIROS RODRIGUEZ TANURE informa que a única medida que lhe foi imposta se resumiu à apreensão de seu aparelho de telefone celular, de modo que com isso o empresário tem certeza de que no decorrer das apurações promovidas pelo STF restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita oriunda dessa relação."
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