Desde já, o meu candidato. Não tem outro melhor.
O depoimento de Tarcísio ao Estadão captura bem o constrangimento histórico: um país do tamanho do Brasil, com fronteira, comércio e influência regional, terminou assistindo de camarote à implosão do regime venezuelano — e, pior, com o Executivo brasileiro reagindo tardiamente, sem liderança e em rota de colisão com o sentimento predominante na região. Na leitura dele, a queda de Maduro encerra “um ciclo ruim” e reabre uma janela de reconstrução institucional; o Brasil, em vez de conduzir uma transição negociada, teria escolhido a omissão e a camaradagem política com o chavismo, pagando o preço de virar coadjuvante.
O raciocínio central é forte porque conecta três camadas: (1) a Venezuela como caso-limite de deterioração institucional e empobrecimento, (2) o impacto regional de um regime acusado de simbiose com o crime (narcotráfico como “chaga” geopolítica) e (3) o custo estratégico da inércia brasileira. Essa crítica ecoa uma expectativa clássica de potência regional: quando o vácuo é deixado, alguém ocupa — e, aí, a forma tende a ser mais traumática do que o conteúdo. O ponto mais duro é o rótulo de “irrelevância”: a tese é que a ausência de protagonismo não foi neutra; foi uma escolha que empurrou os acontecimentos para fora do controle regional.
Na conclusão, vale amarrar o que o debate costuma varrer para debaixo do tapete: a convergência político-ideológica que marcou ciclos de proximidade Brasília–Caracas e o “ecossistema” de relações que orbitou esse eixo. Houve, sim, políticas de aproximação, financiamento e obras que viraram símbolos — como o financiamento do BNDES para projetos do metrô de Caracas, relatado na imprensa à época , além do histórico contencioso em torno da refinaria Abreu e Lima/PDVSA . Houve também o elemento eleitoral-comunicacional: delações e reportagens apontaram pagamentos ilegais ligados à campanha de Chávez em 2012 envolvendo publicitários brasileiros, com Maduro citado como operador de entregas em dinheiro . Esse pano de fundo explica por que a narrativa de “surpresa” não convence: muita coisa foi documentada, debatida e — em vários casos — judicializada.
Em 2022, o TSE determinou remoções de conteúdos considerados ofensivos ou desinformativos contra Lula (com multas que chegaram a R$ 100 mil ao dia em casos específicos) ; e há decisões que, explicitamente, tratam como falsos áudios e postagens que falavam em “acordos” com Maduro e outros líderes regionais . Defensores enxergam proteção da integridade eleitoral; críticos veem um filtro que, na prática, estreitou associações políticas que hoje aparecem de novo no centro do debate. O chamado final, então, é simples e difícil de rebater: transparência total sobre a relação Brasil–chavismo (contratos, financiamentos, interlocuções), auditoria séria do que foi feito em nome de “integração regional” e coragem institucional para encarar o óbvio — ditaduras não caem sozinhas, e democracias não se preservam no piloto automático.
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