O LUGAR DE MALU GASPAR NO ESCÂNDALO ANUNCIADO
No mínimo, ela terá um bom livro.
Deonísio Da Silva *
A conhecida jornalista enfrenta hábeis jogadores de xadrez que jogam com as peças brancas.
Ela joga com as pretas, por consequência. E no xadrez o normal é que vença quem joga com as brancas. A menos que o jogador erre lance decisivo. De todo modo, só saberemos depois do xeque-mate. E ainda faltam alguns lances.
E quem joga com as brancas? Aqueles que empregam a jornalista para fazer bem seu trabalho.
Minha metáfora sobre sua profissão é com o xadrez e não com o futebol porque um de meus ofícios principais é escrever livros.
E, depois de colunista desde 1975, eventual ou regular, tendo chegado aos dois martelos sem nenhuma interrupção nesses anos todos, posso dizer com honra e sem vanglória, mas também sem medo a maioria das vezes, e com medo agora: SOU UM EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ. Assim é para quem escreve e assim ensinamos quando me coube integrar a direção do Curso de Comunicação Social (Jornalismo e Publicidade & Propaganda) na Universidade Estácio de Sá.
No futebol, há aliados, adversários, juiz ladrão etc. E também sorte e azar, como em tudo na vida. No xadrez, não. É você sozinho (a) contra outro(a) sozinho(a). Quem escreve joga xadrez, não futebol nem outro esporte coletivo. Joga sempre sozinho. Quem lê, também. Quem lê tem encontro privado com quem escreve. Quem escreve pode ter muitos leitores, mas o encontro feito um a um, cada um entendendo a seu modo, fazendo a SUA leitura.
Octavio de Faria assinala numa das mais belas páginas de "Tragédia Burguesa" que, mesmo no orgasmo, ainda que não dispense companhia para obtê-lo, a pessoa goza na mais absoluta solidão.
Gostaria que esta mulher, a jornalista Malu Gaspar, vencesse. Para a mulher, especialmente no Brasil, tudo é mais difícil do que para nós, homens.
Está sendo travada somente uma única partida de xadrez no caso Malu Gaspar? Não. Muitas e simultâneas. Pois seus colegas, amigos e patrões, além de seus inimigos, naturalmente, estão jogando outras e pelo menos em algumas delas a verdade vai ser a primeira vítima, como em todas as guerras.
Não conheço Malu Gaspar, mas já sou seu leitor e fã. Ela fez com que o Brasil voltasse a ler mais jornal, se bem que não tanto como no tempo em que surgiu o veículo no qual ela agora escreve, que vendia 30 mil exemplares impressos apenas no estado do Rio de Janeiro e a população brasileira total era de apenas 30 milhões de habitantes.
Devagarinho voltaremos ao passado, uma vez que no Brasil as coisas andam no ritmo do título de um de meus romances "Avante, soldados: para trás".
A menos que o exemplo de Denise Frossard, dentre outras mulheres corajosas, leve a prender toda a cúpula de malfeitores acostumados a vencer sem glória e sem fé, confiantes no sucesso de trapacear sem ser punido e, sem misericórdia nenhuma, fazer sofrer a quem deles tenha a coragem de discrepar, ainda que com inocência e ingenuidade.
Para vencer, talvez seja indispensável que os bons tenham a audácia dos canalhas, como disse Martin Luther King.
* professor e escritor, colunista da BandNews, Doutor em Letras pela USP. Alguns de seus livros referenciais: "De onde vêm as palavras", "Avante, soldados: para trás" e "Goethe e Barrabás: as más escolhas que fazemos na vida".
Nenhum comentário:
Postar um comentário