sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Mudando a rotação

 

A entrevista do Milton Maluhy ganha força porque não é um “desabafo corporativo”: é um diagnóstico de arquitetura. O que ele chama de assimetria entre distribuidor e risco do FGC é, na prática, um sistema que premia volume e comissionamento no curto prazo, mas empurra o custo de eventuais quebras para uma rede difusa — FGC, bancos contribuintes e, no fim da cadeia, a confiança do poupador. Quando um caso como o Master estoura, não “surge” o problema: ele apenas fica visível, como rachadura que já estava no concreto.

O ponto mais duro é moral e operacional: quem empacota e vende risco precisa carregar parte do risco, ou o incentivo fica torto. Produto “milagroso” com promessa de retorno muito acima do padrão (o famoso “140% do CDI” vendido como quase rotina) deveria acionar travas automáticas de diligência, transparência e suitability — e não virar slogan comercial. O mercado de plataformas, por melhor que seja o modelo de partnership, não pode usar a complexidade do ecossistema como álibi para terceirizar responsabilidade. Inovação e competição são bem-vindas; irresponsabilidade escalável, não.

E aqui entra o que é impossível varrer para debaixo do tapete: vai sobrar mancha reputacional para XP e BTG, sim — não como sentença antecipada, mas como consequência natural de percepção pública. Ainda mais com o ruído adicional de ontem: a circulação de vídeo associando André Esteves a um resort ligado a Toffoli cria o tipo de imagem que, numa democracia saudável, deveria ser evitado por padrão de prudência reputacional. Mesmo que não haja qualquer ilegalidade comprovada nesse episódio específico, o dano é do campo da confiança: em finanças, reputação não se discute em tribunal; se discute no comportamento do cliente.

A conclusão é direta e incômoda: o julgamento final é do mercado — e do bolso de cada investidor. A decisão sobre onde alocar patrimônio (banco público como BRB, plataformas como XP, banco de investimento como BTG, ou alternativas) passa a ser também uma decisão de confiança institucional e governança percebida. A pergunta que fica não é “quem grita mais”, mas “quem entrega controle, diligência, transparência e alinhamento de incentivos”. Porque retorno se mede em CDI; risco reputacional se mede em décadas.



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