segunda-feira, 10 de março de 2025

Bankinter Portugal 1003

 Análise Bankinter Portugal


SESSÃO: Vem indefinida, embora a Europa possa subir um pouco para imitar o fecho americano um pouco em alta graças ao facto de Powell (Fed) ter descartado uma recessão nos EUA. Mas a tarde americana será em baixa. E certamente esta semana, como há desde duas semanas: alternando subidas com retrocessos, geralmente não violentos em nenhum sentido, mas sem que realmente alguém saiba exatamente como agir, porque é impossível saber o que se passa, além de se tratar de interpretar a ciclotimia de Trump… que pode anunciar uma coisa e o contrário no mesmo dia. Das 10 semanas de 2025, a Europa retrocedeu apenas 3, enquanto Wall St. 7. -3,1% acumulado de Nova Iorque contrastam com +11,7% de Europa, portanto é inevitável perguntar-se quem tem razão. Parece óbvio que se os EUA imporem os impostos alfandegários os restantes sofrem (embora tenha represálias como resposta) e tem um nível de abertura ao exterior inferior ao resto (25% vs. 98% UE), então a Europa não pode evoluir melhor que Wall St. E, se o faz estimulada por mais despesa pública, isso cobrará de forma pesada em termos de dívida/défice fiscal e menor PIB, porque o Consumo Privado e o Investimento ver-se-ão prejudicados por impostos superiores. Mas neste contexto de guerra comercial e geoestratégia errática de bazar, todo o mundo perde, em maior ou menor medida. E os EPSs (lucros empresariais) terminarão por sair prejudicados.


A China entrou formalmente em deflação (IPC -0,7% vs. -0,5% esperado vs. +0,5%, publicado ontem, domingo), o que corrobora a nossa estimativa de que o seu PIB não deve crescer quase nada e que a economia/mercado chinês são, definitivamente, “game over”.   


Apontando para o mais concreto desta semana, temos: (i) reuniões sobre a Ucrânia na Arábia Saudita (cessar-fogo parcial? Drones, mísseis…?), (ii) na quarta-feira, inflação dos EUA a retroceder 1 décima (até +2,9% Geral e +3,2% Subjacente) e descida de taxas de juros no Canadá (-25 p.b., até 2,75%), onde um ex-banqueiro central (Carney) substituirá o demitido Trudeau (portanto, a gestão da sua economia poderá melhorar).


Além desta semana, os seguintes eventos relevantes serão: T18.03 votação na Alemanha para elevar limite da dívida e Q19.03 reuniões da Fed (repetir 4,25/4,50%) e do BoJ (repetir 0,50%), e Q20.03 BoE (repetir em 4,50%). 


A elevação da yield do Bund para níveis próximos a 3% (2,85%; e a O10A ITA a aproximar-se de 4%) é um inconveniente para as avaliações das empresas europeias, embora seja consequência não só da persistência do prémio de risco geoestratégico (Ucrânia), mas também da previsível deterioração do endividamento público pelo maior investimento em defesa. Isto não é melhor, mas pior para a bolsa europeia, embora acumule +11,7% em 2025. A reação das criptos, que são o indicador mais sensível de risco percebido, e o preço mais barato do petróleo transmitem que os riscos se movem em alta e que o ciclo económico global em baixa. Cuidado, insistimos.


CONCLUSÃO TELEGRÁFICA: Desconfiemos da provável subida das bolsas europeias, hoje. A tarde será débil. Riscos em alta e ciclo económico em baixa não são bons antecedentes para as bolsas. De seguida poderá começar a interpretar-se em negativo a suavização da inflação americana (que provavelmente veremos esta quarta-feira), como precedente de um ciclo económico débil. Não é nada bom que se comece a discutir a possibilidade de uma recessão e muito menos nos EUA, por muito que Powell a descarte. Insistimos em ter cuidado com os riscos assumidos, porque quase tudo depende de assuntos imprevisíveis, como as preocupantes negociações sobre a Ucrânia em formato de geoestratégia de bazar, não de princípios. 


S&P500 +0,6% Nq-100 +0,7% SOX +3,2% ES-50 -0,9% IBEX +0,2% VIX 23,4 Bund 2,85% T-Note 4,29% Spread 2A-10A USA=+31pb B10A: ESP 3,50% PT 3,36% FRA 3,55% ITA 3,91% Euribor 12m 2,481% (fut.2,413%) USD 1,084 JPY 160,2 Ouro 2.914$ Brent 70,1$ WTI 66,8$ Bitcoin -4,2% (82.664$) Ether -2,9% (2.079$).


FIM

domingo, 9 de março de 2025

JR Guzzo

 


A vida é uma via de mão dupla

 


Um homem já deu generosamente mil dólares por mês a um mendigo. Um dia, entregou-lhe apenas 750 dólares. O mendigo ficou surpreso, mas pensou: "Bem, ainda é melhor que nada", e foi embora.


No mês seguinte, o homem só lhe deu 500 dólares. Desta vez, o mendigo não pôde ficar calado. "Antes me dava mil dólares, depois baixou para 750, agora só 500! O que está acontecendo? "

O homem suspirou e explicou: "Quando comecei a te dar dinheiro, tinha uma situação económica confortável e todos os meus filhos eram pequenos. Mas então minha filha começou a faculdade e as propinas eram caras, então tive que reduzir para 750 dólares. Agora, meu filho também entrou na faculdade, e as despesas aumentaram novamente, então eu só posso pagar 500 dólares."

O mendigo franziu a sobrancelha e perguntou: "Quantos filhos tem? ".

"Quatro", respondeu o homem.

O mendigo perguntou: "E espera pagar a faculdade a todos eles com MEU dinheiro!? ".

É CURIOSO COMO ALGUMAS PESSOAS COMEÇAM A VER A GENEROSIDADE COMO OBRIGAÇÃO E NÃO COMO PRESENTE.

Cliente x corretora

 Dinheiro de investidor não pertence à corretora, decide STJ


Tribunal também definiu que valores podem ser restituídos na falência


PODER3608.mar.2025 (sábado) - 10h53

Villas Bôas Cueva


O ministro Villas Bôas Cueva declarou que a intermediação feita pelas corretoras de valores no mercado de capitais é diferente da realizada pelos bancos comerciais no mercado financeiro em sentido estrito


A 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça concluiu que é possível a restituição, em dinheiro, de valores de titularidade dos investidores que estavam depositados na conta de corretora falida. Para o colegiado, tais valores não chegaram a ingressar no patrimônio da corretora e, por isso, podem ser objeto de pedido de restituição.


Um investidor ajuizou ação para tentar receber a devolução do dinheiro que havia sido depositado para a compra de títulos e valores mobiliários. Segundo o autor, quando a liquidação judicial da corretora foi decretada, a corretora estava de posse do seu dinheiro.



O juízo de 1ª Instância negou o pedido, entendendo que o autor assumiu os riscos ao deixar o dinheiro na conta da corretora como se fosse uma conta-corrente, mas o tribunal local determinou a restituição dos valores custodiados pela falida, aplicando o artigo 91 da lei 11.101 de 2005.


No STJ, a massa falida sustentou que os casos de restituição de valores na falência são taxativos, razão pela qual não deveria ser obrigada a restituir os valores em questão. Além disso, afirmou que, quando o investidor fez o depósito, o dinheiro foi efetivamente transferido para sua conta e ela passou a ter disponibilidade sobre tais recursos, de modo que o investidor deveria ser incluído na falência como credor quirografário.


Corretora apenas executa ordens do investidor


O relator, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, disse que, embora as corretoras também sejam consideradas instituições financeiras, atuam no mercado de capitais principalmente executando ordens de compra e venda de ativos para seus clientes.


O ministro declarou que, apesar de as corretoras administrarem fundos de investimentos, não agem em nome próprio e não estão autorizadas a realizar financiamentos ou empréstimos.


De acordo com as explicações do relator, “os investidores não podem operar com valores mobiliários diretamente, sendo necessária a intermediação de uma instituição habilitada, que pode ser uma corretora ou uma distribuidora de títulos, que executará a ordem de compra e venda”.


Valor na conta não compõe patrimônio


Villas Bôas Cueva ressaltou que a intermediação feita pelas corretoras de valores no mercado de capitais é diferente da realizada pelos bancos comerciais no mercado financeiro em sentido estrito. Enquanto os valores depositados integram o patrimônio dos bancos, o dinheiro custodiado pelas corretoras não faz parte de seu patrimônio.


Segundo o relator, a jurisprudência do STJ considera que, em caso de falência de instituição financeira, os valores depositados em conta integram seu patrimônio e não podem ser restituídos, pois são uma espécie de empréstimo do correntista ao banco. “Ocorre a transferência da propriedade dos valores para a instituição financeira, que age em nome próprio” ao dispor dos valores depositados, declarou o ministro.


Por outro lado, o magistrado afirmou que a súmula 417 do Supremo Tribunal Federal admite a restituição de recursos financeiros que estejam em poder do falido, embora tenham sido recebidos em nome de terceiros, ou dos quais ele não possa dispor em razão de lei ou contrato. Desse modo, para Cueva, “as quantias mantidas em conta de registro podem ser objeto de pedido de restituição na falência, conforme o artigo 85 da lei 11.101 de 2005 em razão da ausência de disponibilidade dos valores pela corretora”.


Com informações do Superior Tribunal de Justiça.


https://www.poder360.com.br/poder-justica/dinheiro-de-investidor-nao-pertence-a-corretora-decide-stj/

Déficit gêmeos

 Leitura de Sábado: Debate sobre 'déficits gêmeos' no fiscal e em C/C no Brasil entra no radar


Por Giordanna Neves


Brasília, 07/03/2025 - Uma eventual relação entre déficit fiscal e déficit externo, conhecido na literatura econômica por "déficits gêmeos", entra no radar quando a deterioração fiscal de um País passa a ser acompanhada por déficits persistentes no saldo em transações correntes do balanço de pagamentos, levantando o debate sobre a interação entre política fiscal e balanço de pagamentos.


 Nos últimos anos, o Brasil tem registrado um alinhamento entre esses dois tipos de déficits. Diferentemente de alguns períodos anteriores, em que essas séries ora caminhavam juntas, ora se moviam de forma independente, ambas passaram a se deslocar na mesma direção desde 2014, levantando a discussão sobre a relação entre essas duas variáveis no País.


  


Fontes: Banco Central e Tesouro Nacional


A hipótese dos déficits gêmeos - que consiste na ideia de que o déficit público gera um déficit em transações correntes - ganhou destaque nos anos 1980, impulsionada pela experiência dos Estados Unidos sob o governo de Ronald Reagan. Desde então, emergiram diversos estudos científicos que buscaram compreender a relação entre essas variáveis, dado o histórico de fragilidades fiscais e externas.


Nos últimos anos, diversos pesquisadores tentaram entender se a hipótese poderia ser aplicada à realidade brasileira em diferentes momentos da história. Alguns resultados evidenciaram a existência de uma relação em que o déficit orçamentário refletia no déficit externo. Outros, por outro lado, revelaram uma relação de retroalimentação entre essas duas variáveis, indicando que tanto o déficit fiscal poderia influenciar o déficit externo quanto o contrário. Esse resultado foi encontrado, por exemplo, pelo pesquisador Faizul Islam, que analisou o período entre 1973 e 1991.


Os pesquisadores Sérgio Gadelha e Luciana Ikuno também mostraram que, de 1997 a 2012, houve uma relação de bi-causalidade entre déficit orçamentário e déficit externo no Brasil, sugerindo que a hipótese dos déficits gêmeos não se sustentava plenamente no contexto brasileiro para aqueles anos específicos.


Na prática, eles evidenciaram que reduzir o déficit público, por si só, não garantiria a diminuição do déficit em conta corrente, já que outros fatores também influenciam essa relação, como políticas cambiais, taxa de juros e fatores externos. O resultado foi corroborado pelos pesquisadores Túllio Souza e Cleomar Silva ao analisarem os anos de 1999 a 2013. Como há uma lacuna sobre o debate nos últimos 10 anos, seria importante a realização de novos estudos para validar ou não a hipótese de déficits gêmeos no período atual.


Há, pelo menos, duas abordagens na literatura econômica sobre os déficits gêmeos. A teoria de Mundell-Fleming diz que, em um regime de câmbio flexível, quando o governo aumenta seus gastos e amplia o déficit fiscal, a demanda da economia cresce e os juros sobem. Isso atrai mais capital estrangeiro para o país, aumentando a oferta de moeda estrangeira. Como consequência, a moeda nacional se valoriza, tornando as exportações menos competitivas e incentivando as importações. O resultado é um déficit maior nas contas externas.


Já a teoria keynesiana da absorção sugere que um aumento no déficit governamental provoca uma elevação na absorção doméstica e, portanto, na renda doméstica, o que estimula as importações e, eventualmente, provocará déficits na balança comercial e em conta corrente do balanço de pagamentos. Esse debate, no entanto, está longe de ser consensual. O economista Paul Krugman, por exemplo, discorda dessa visão ao argumentar que essa relação não é automática e depende de outros fatores.


De qualquer forma, a discussão surge em meio aos desafios fiscais persistentes e pressões externas que o Brasil enfrenta. Mais do que entender se um déficit causa o outro, o debate retoma ao ponto central sobre como equilibrar as contas públicas de forma sustentável. A presença de déficits públicos elevados pode influenciar negativamente a confiança dos agentes econômicos, especialmente em um ambiente onde as expectativas desempenham um papel crucial.


Afinal, a sustentabilidade das contas públicas depende, em grande parte, da credibilidade fiscal. Se houver confiança de que o País tomará medidas para reduzir esses déficits e gerar superávits primários de forma sustentável, o cenário pode sinalizar avanços e maior estabilidade econômica.


Contato: giordanna.neves@estadao.com


Broadcast+

sábado, 8 de março de 2025

Resumo da semana

 📊 Resumo da Semana 


Em meio às idas e vindas de Donald Trump e sua guerra comercial ao longo desta semana, o investidor sofreu com a volatilidade dos ativos globais. O presidente americano usou suas habilidades midiáticas para prender a atenção do mundo e fazer o que bem entendia. Ainda mandou um recado direto para o mercado, afirmando que “não estou nem olhando para o mercado”. Nesta 6ªF, o mercado resolveu tentar não olhar para Trump e centrar o foco nos dados que, ao menos, são mais confiáveis. O payroll desacelerou mais que o esperado e acendeu a luz amarela dos analistas para o risco de uma estagflação nos EUA. Mas Jerome Powell tratou de acalmar os ânimos à tarde, dizendo que o dado de emprego americano de fevereiro “mostrou que mercado de trabalho continua vigoroso”. Ele repetiu que o Fed não precisa ter pressa, que a política monetária “está bem-posicionada” e acrescentou que, “se o emprego enfraquecer ou a inflação cair mais rápido, podemos relaxar a política”. Foi a deixa que o investidor queria para virar a mão e voltar às compras. Aqui, o PIB mais fraco derrubou os prêmios nos juros futuros e deixou a bolsa brasileira mais atraente, diante da possibilidade de o Copom não levar mais a Selic até os 15% e, quem sabe, começar a aliviar os juros já no fim deste ano. 

Bom fim de semana! (Téo Takar)


📰 Jornal do Investidor 

📚 MZ Investimentos

                    

🗞 O seu CANAL DE NOTÍCIAS 

Estamos no WhatsApp, Telegram, Twitter e Instagram

Fut Fair play financeiro

 Estadão: A 'bolha' do futebol brasileiro vai estourar


São Paulo, 07/03/2025 - Medida que poderia ajudar a equilibrar o futebol brasileiro, o fair play financeiro não avançou no País, mas o debate segue intenso. É comum ver dirigentes de alguns dos principais times da primeira divisão comentando sobre o assunto, especialmente após os altos gastos dos clubes na última janela de transferências. O Estadão entrou em contato com os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro para saber o posicionamento de cada um sobre o tema.


Questionados se são a favor da implementação do fair play financeiro no Brasil, todos os clubes ouvidos pela reportagem afirmaram ser favoráveis a uma regulamentação. Ao serem questionados sobre de que maneira a regra deveria aplicada, as respostas foram diversas. Algumas hipóteses citadas foram limitar gastos de maneira proporcional à receita, veto à inscrição e contratação de atletas como punição a pendências financeiras, além de um estudo para a implementação de regulamento condizente com o mercado nacional. Bahia, São Paulo e Vasco foram os únicos a não responder.


Uma das dirigentes mais poderosas do País, Leila Pereira, presidente do Palmeiras, defende com veemência a regulamentação. “Se depender dos clubes, não vamos ter isso (regulamentação), porque vários agem de maneira irresponsável. Dirigentes deixam dívidas para os seus sucessores e não acontece nada. Luto para que tenhamos mais investimentos no nosso futebol. Sonho para que venha a regulamentação, o fair play financeiro, para que dirigentes mal-intencionados sejam punidos”, disse ela recentemente.


Times da primeira divisão movimentaram aproximadamente 540,5 milhões de euros (cerca de R$ 3,3 bilhões) em transferências na janela encerrada no último dia 28, maior valor já registrado no Brasil. Paulo Bracks, diretor executivo do Atlético-MG, demonstrou preocupação com o aumento das cifras e fez uma alerta: “A bolha vai estourar”.


“Há clubes fazendo investimentos que não têm condições. E pela falta de fair play financeiro, o papel aceita tudo. Mas essa bolha vai estourar. E o Atlético vai estar pronto quando essa bolha estourar. Os investimentos estão acima de um nível que se esperava para o futebol brasileiro, os salários estão acima do que se esperava e o mercado brasileiro entre clubes tem gerado negociações que até três, cinco anos atrás eram impensáveis”, comentou o dirigente, em entrevista coletiva.


O economista Cesar Grafietti, referência no País sobre o tema, concorda que há uma bolha no futebol nacional e que ela vai estourar em algum momento. Ele destaca que o movimento acontece porque naturalmente uns clubes podem gastar mais do que outros, enquanto os demais gozam de incentivo adicional pela entrada de dinheiro extra incomum por patrocínios de casas de apostas, além de algumas SAFs que estão aportando valores sem lastro para deixar equipes competitivas.


“A bolha vai estourar, isso é fato”, sentencia o economista. “Já enxergo que os números de 2024 serão muito ruins do ponto de vista de resultado e dívida, e 2025 será ainda pior. Não adianta todo mundo gastar o que não tem porque o resultado será sempre prejuízo e aumento de dívida. O que Flamengo e Palmeiras fazem é justificável. O Bahia também, porque é do Grupo City, que tem muito dinheiro. Os outros, não, porque ninguém tem todo esse dinheiro. Só que eles se sentem na obrigação de ‘correr’ para acompanhar esses que têm mais condição”, explica Grafietti.


Em resumo, o fair play financeiro tem como objetivo manter “o equilíbrio da indústria do futebol por meio da saúde financeira dos clubes”, explica ele. Boas práticas incluem não atrasar o pagamento de salários e encargos trabalhistas, recolher impostos em dia e evitar o acúmulo desenfreado de dívidas. A ideia nasceu há cerca de 15 anos na Europa, após a Uefa ver clubes de maior investimento ficarem em débito com outros mais modestos, que, por sua vez, não conseguiam manter suas operações estáveis.


Sem citar nomes, Grafietti diz que são irresponsáveis os dirigentes que contratam atletas com salário alto, de mais de R$ 1 milhão, e que não estariam em nenhum top 100 de receita em ligas mais fortes da Europa. “É um sinal claro de que perdemos a mão e estamos gastando demais com jogadores que não têm espaço em mercados que teriam a capacidade de pagar.”


LIMITE DE GASTOS. Existem diferentes modelos de fair play financeiro aplicados nas principais ligas da Europa. Recentemente, Everton e Nottingham Forest foram punidos com perdas de pontos na Premier League por apresentarem déficits financeiros superiores ao permitido pela liga inglesa em um período de três anos. Na Espanha, LaLiga segue um caminho parecido com o da Uefa, limitando 45% dos gastos da receita com salários, e planeja aumentar a margem para 70% na temporada 2025/26.


Grafietti diz que existem diferentes condições e características entre os clubes no Brasil pelo fato de um modelo de fair play financeiro não ter sido implementado anteriormente. Assim, ele aponta que o controle de gastos em relação à receita deva ser um dos pilares do regulamento, mas destaca que a limitação dos gastos poderia estar associado a um controle das dívidas.


“Por que eu preciso limitar o Fortaleza, que é um clube praticamente sem dívidas, a gastar 70%, 80% da sua receita se ele não tem mais nenhuma obrigação? Ele poderia gastar até 95% se suas dívidas estivessem zeradas ou próximas disso. Já o Corinthians, que tem R$ 2,4 bilhões de dívida, eu não posso deixar ele gastar 70% da receita porque ainda vai ter as dívidas para cobrir. Se ele não vai cobrir, as dívidas vão continuar crescendo e gerando problemas”, sublinha.


“É necessário um modelo que combine as duas coisas, pelo menos por algum tempo, até que a gente consiga chegar, daqui cinco, seis anos, com um cenário em que as dívidas estejam mais equacionadas, que os times possam ter mais liberdade de gasto. Aí, sim, se passa a controlar basicamente os gastos”, completa.


Há quem acredite que o investimento no futebol por meio do dinheiro de um terceiro, como acontece com as SAFs, fere o fair play financeiro. Sobre isto, o especialista faz uma ponderação.


“Quem entra neste negócio de SAF geralmente está comprando um ativo desvalorizado, que precisa de investimento. Não me parece fazer sentido neste primeiro momento limitar os gastos de Botafogo e Cruzeiro, por exemplo, em relação a suas receitas porque até para elas crescerem, o clube não consegue ter uma mudança necessária. É necessário ter flexibilidade para aceitar que algum dinheiro extra entre para garantir que as contas estejam em dia.”


DISPUTAS INTERNAS. Assunto antigo no futebol nacional, o fair play financeiro voltou à pauta após os altos investimentos do Botafogo, campeão brasileiro e da Libertadores em 2024, incomodarem rivais. O time carioca tem SAF controlada pela Eagle Holding, rede multiclubes do bilionário americano John Textor, que também administra o francês Lyon e o inglês Crystal Palace. A principal queixa é de que o time alvinegro carioca não teria condições de realizar movimentações arrojadas no mercado da bola somente com a própria arrecadação.


Segundo a edição 2024 do relatório Convocados, o Botafogo apresentou receita de R$ 355 milhões em 2023 e gastos de R$ 444 milhões. No ano passado, a SAF alvinegra investiu impressionantes R$ 373,2 milhões somando as duas janelas de transferências, com destaque para as contratações de Thiago Almada (R$137,4 milhões) e Luiz Henrique (R$ 106,6 milhões), as duas mais caras da história do futebol brasileiro até então. O clube faturou R$ 245 milhões somente com premiações em 2024.


Diferentemente de Ronaldo Fenômeno, que adotou uma postura de austeridade quando comprou a SAF do Cruzeiro, Textor entende que é preciso investir forte no negócio para aumentar as receitas do clube e, a longo prazo, torná-lo sustentável. Ao se tornar sócio majoritário, o americano também assumiu a dívida bilionária do clube associativo, cujo passivo teve parte renegociada no Regime Centralizado de Execuções (RCE). As parcelas de 2024 somam R$ 151 milhões pagos aos credores.


Além do Botafogo, outras SAFs do futebol nacional entraram na jogada dos grandes investimentos, como o Bahia, que está atrelado ao Grupo City, dos Emirados Árabes Unidos, abastecido pelo “infinito” dinheiro do petróleo, e o Cruzeiro, que agora está sob o controle de Pedro Lourenço, empresário mineiro dono da rede Supermercados BH e cruzeirense fanático.


O Palmeiras, com receias potencializadas pela venda de jogadores promissores das categorias de base, decidiu mudar de postura em 2025 e foi agressivo para o mercado, fazendo contratações com altas compensações financeiras. O atacante Paulinho foi comprado do Atlético-MG por R$ 118 milhões. Vitor Roque, vindo do Barcelona, custou ainda mais: R$ 154 milhões, a transação mais cara do futebol nacional.


REDE MULTICLUBES. Segundo o Observatório Social do Futebol, atualmente 178 clubes estão distribuídos em 56 redes multiclubes diferentes. Botafogo e Bahia se beneficiam também por fazerem parte de conglomerados. Os cariocas, por exemplo, têm como “carta na manga” em negociações por atletas oferecer uma ida à Europa por meio do Lyon. Porém, a maneira como ocorre o pagamento entre times do mesmo grupo levanta a questão sobre a legitimidade do negócio, assim como o fato de a Eagle utilizar um “caixa único” para gerir todas as equipes da rede, alocando dinheiro onde é necessário para evitar problemas.


“Deveria haver uma regra controlada pela Fifa quando falamos de grupos trabalhando internacionalmente. O Botafogo é um caso atípico porque o Textor entrou no mercado querendo impor uma condição dele, não é assim em lugar nenhum. O City e a Red Bull, por exemplo, trabalham clube a clube, segundo as regras de cada país. O regulador na França não está interessado em saber se o dinheiro está no caixa da Eagle, nos Estados Unidos, no Botafogo ou na Bélgica. Ele quer saber da condição sustentável do Lyon. O Textor entra no mercado querendo modificá-lo e acaba criando uma confusão para ele mesmo”, comenta Grafietti.


NA EUROPA. A Uefa define o fair play financeiro como uma série de medidas existentes “para melhorar a capacidade econômica e financeira dos clubes, aumentando a transparência e a credibilidade deles; colocar a proteção necessária a credores e garantir que clubes cumpram suas obrigações; introduzir mais disciplina e racionalidade nas finanças; e encorajar clubes a operar com base nas receitas deles e o gasto responsável pelo benefício de longo prazo do futebol.


A própria Uefa tem as suas regras, que preveem limite de 60 milhões de euros em prejuízos acumulados por três temporadas ou 90 milhões de euros se houver aporte de até 30 milhões de euros dos acionistas. E também limite de comprometimento de 80% em relação das receitas com salários, encargos, agentes e amortizações. Não é permitido atrasos em pagamentos nos meses de julho, outubro e janeiro.


Os times que não respeitam as diretrizes podem ser impedidos de disputar as competições da entidade, como a Champions League.


Além disso, os principiais campeonatos nacionais da Europa também possuem regulamentações próprias. Na Premier League, a liga de futebol da Inglaterra, as equipes podem ter um prejuízo de até 105 milhões de libras (quase R$ 750 milhões) em três temporadas. Os proprietários podem cobrir até 90 milhões de libras desse prejuízo comprando ações e os que não cumprem o estabelecido perdem pontos na tabela de classificação.


Em LaLiga, na Espanha, os clubes são proibidos de inscrever novos jogadores se ultrapassarem em 70% da receita os gastos com salários. A dívida líquida (fora investimentos em infraestrutura) não pode superar as receitas, e o saldo negativo entre contratações e vendas de jogadores não pode ser superior a 100 milhões de euros.


A Bundesliga, o Campeonato Alemão, possui um sistema de multas e dedução de pontos para os clubes que desrespeitam as regras. Times com dívidas só podem comprar um jogador após vender um outro atleta ao menos pelo mesmo valor e nenhum grupo pode possuir 50% de uma agremiação ou mais. A Ligue 1, na França, pode rebaixar as equipes e impedi-las de contratar novos atletas em caso de gasto com salários acima de 75% das receitas. (Rodrigo Sampaio e Ricardo Magatti)


Broadcast+

Paulo Cursino

  Não, eu não gostaria de ver a América de Trump tirando o presidente da Venezuela do poder. Eu gostaria de ver o Brasil fazendo isso. O paí...