domingo, 3 de novembro de 2024

Morre lentamente

 *A Morte Devagar*


Morre lentamente quem não troca de ideias, não troca de discurso, evita as próprias. Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar. 


*Martha Medeiros*


A crônica foi publicada no Jornal Zero Hora em 1.11.2000.

sábado, 2 de novembro de 2024

Semanal

 🚨 RESUMÃO DA SEMANA VINLAND 🚨 


(28 de outubro a 1 de novembro de 2024)


1. O dólar voltou a fechar em alta nesta sexta-feira (1°), desta vez no segundo maior valor nominal da história (descontada a inflação): R$ 5,8698. No dia 13 de maio de 2020, a moeda americana chegou aos R$ 5,9007, seu recorde. Em meio às turbulências econômicas no Brasil e no mundo, o dólar acumula alta de 20% em 2024. (veja mais abaixo). Na mesma toada, os juros futuros subiram. Um título do Tesouro Nacional atrelado ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) e com vencimento em 2035 oferece um ganho real superior a 6,7%. Em janeiro, o retorno desse papel era de 5,37%. Na prática, é um sinal do aumento da desconfiança com o rumo das contas públicas do Brasil. Ou seja, os investidores estão exigindo um ganho maior para financiar um governo cujo endividamento só tende a aumentar.. Nesta semana, investidores esperavam definição do governo federal sobre o corte de gastos previsto para este fim de ano, o que não aconteceu. A equipe econômica busca cumprir a meta de déficit zero para as contas públicas em 2024.  O mercado financeiro espera que esse pacote indique cortes entre R$ 50 bilhões e R$ 60 bilhões nos gastos públicos.  O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta semana entender a "inquietação" do mercado, e que vai apresentar cortes. Mas disse também que não há data para a divulgação dos planos, e que a decisão depende do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A condução da política fiscal também liga um alerta, porque ela está em oposição ao aumento de juros promovido pelo Banco Central (BC). É como se o governo estivesse colocando o pé no acelerador ao mesmo tempo que a autoridade monetária tenta pisar no freio, com o objetivo de levar a inflação à meta de 3%. (O GLobo, 1 de novembro de 2024)


2. A taxa de desemprego no País recuou de 6,9%, no segundo trimestre, para 6,4% no terceiro trimestre, o segundo melhor resultado em toda a série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), iniciada em 2012, divulgou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A única taxa mais baixa que a atual foi a do quarto trimestre de 2013 (6,3%). A expectativa é de que o mercado de trabalho siga aquecido. No terceiro trimestre, houve contingente recorde de trabalhadores ocupados tanto no setor privado quanto no setor público. Já são 103,029 milhões de brasileiros em atividade, o que significa uma abertura de 1,199 milhão de novas vagas no mercado de trabalho em apenas um trimestre. Já a população desocupada diminuiu em 541 mil pessoas em um trimestre, para 7,001 milhões de desempregados – menor contingente desde janeiro de 2015. (Estado de São Paulo, 1 de novembro de 2024)


3. Mesmo sem definição ainda sobre o desenho final do pacote de corte de gastos, já há divergências no governo. Ontem, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou que “não há discussão” sobre redução de despesas em rubricas vinculadas à sua pasta, como abono salarial e seguro-desemprego. “Se nunca discutiu comigo, essas medidas não existem. Se eu sou responsável pelo tema trabalho e emprego, esse debate não existe, a não ser que o governo me demita”, disse o ministro. Segundo Marinho, mudanças sem consultá-lo seriam consideradas uma “agressão”. “Uma decisão sem minha participação, em um tema meu, é uma agressão. E não me consta que nenhum ministro de Estado tenha discutido esse assunto (de corte de gastos).” Uma das propostas vem de uma combinação entre o governo e a cúpula do Congresso para destinar metade das emendas de comissão para a Saúde. Esses recursos somam R$ 15,5 bilhões em 2024, mas o governo quer limitá-los a R$ 11,5 bilhões em 2025, com ajuste apenas pela inflação nos próximos anos. Se isso ocorrer, o valor seria usado para cumprir o piso da Saúde. Outra proposta em estudo é aumentar a parcela do Fundeb que serve para cumprir o piso da Educação. Hoje, apenas 30% do fundo entra nessa conta. Conforme o Estadão mostrou, a medida pode abrir um espaço fiscal de R$ 33 bilhões em três anos. Quanto maior for a porcentagem, maior o impacto. (Estado de São Paulo, 31 de outubro de 2024)


4. A possibilidade de vitória de Trump nas eleições norte-americanas tem gerado preocupação no Palácio do Planalto.  Pesquisas mais recentes de intenção de voto nos Estados Unidos apontam uma disputa acirrada, com possibilidade de vitória do candidato republicano – o que tem deixado o núcleo duro do governo Lula pessimista.  A preocupação no Planalto tem duas perspectivas: a política e a econômica.  No campo da política, o receio brasileiro é de que a vitória de Trump gere um efeito dominó em vários países, em especial nos latino-americanos, a exemplo do Brasil. A outra preocupação é com a economia brasileira. O Palácio do Planalto projeta que, com a vitória do republicano, a tendência nos Estados Unidos é de valorização da moeda. E o reflexo do dólar valorizado é a pressão inflacionária no Brasil. A ultima pesquisa Nate Silver indica Trump com 53,4% e Kamala com 46,2%. (Estado de São Paulo, 1 de novembro de 2024)


5. O mercado de crédito privado está iniciando um ciclo de correção — com algumas emissões não conseguindo levantar o volume desejado e outras tendo que ser postergadas por falta de demanda. Essa correção incipiente vem depois do mercado de crédito privado ter passado por uma compressão de spreads espetacular, principalmente nos últimos seis meses. “Teve uma operação da TIM que saiu a CDI + 2,5%. Hoje, o papel negocia a CDI + 0,75%. O que aconteceu é que os spreads foram fechando, mas agora fecharam demais,” disse um banker. Agora, com as operações vindo a mercado com taxas historicamente baixas, os fundos de crédito não estão mais absorvendo a oferta. A situação cria um dilema para os gestores. Os fundos — que receberam uma enxurrada de recursos recentemente por conta da alta dos juros — até poderiam guardar o dinheiro em caixa, mas isso pioraria ainda mais seu retorno, já que este capital estaria rodando a CDI. Outra alternativa, que algumas gestoras têm adotado, é fechar os fundos para novas captações — uma decisão que nunca é fácil. “Chegamos num ponto de inflexão. Não dá para ir mais baixo do que isso. Não vai ser uma correção brutal: os spreads não vão ter que subir 50 basis points, mas pelo menos uns 10 a 20 bps,” disse o banker. (Brazil Journal, 31 de outubro de 2024)


6. A Bolsa de Valores registrou essa semana uma queda de 1,36% fechando aos 128.120 pontos. Já o dólar fechou em alta de 2,98% cotado a R$ 5,87/usd. No ano, a bolsa brasileira cai 4,5% e o dólar sobe 20,9%. Nos EUA, o S&P sobe 19,8% e o Nasdaq sobe 20,8% no ano. (Fonte: Bloomberg)


Bom final de Semana!


Felipe Arslan, comercial da Vinland Capital

Trump x Kamala

 Eleições EUA: Bolsas de apostas começam a se alinhar à vitória de Kamala Harris


Por Aline Bronzati, correspondente


Nova York, 02/11/2024 - Após prever a vitória do ex-presidente Donald Trump por toda a corrida presidencial nos Estados Unidos, as bolsas de apostas começam a se inclinar a um possível triunfo da vice-presidente dos EUA, Kamala Harris nas eleições americanas, a três dias do pleito.


Na plataforma PredictIt, o otimismo em torno da candidata democrata ultrapassou o do rival, com 53 de chances em 100 contra 52 do republicano. No início da semana, o cenário era outro. Harris contava com 43 de chances em 100 e Trump tinha 61.


Na reta final, porém, as apostas estão voláteis. Tanto que ambos os candidatos aparecem em alguns momentos empatados, com chances de 52 em 100, segundo a PredictIt.


Por sua vez, o sistema da revista britânica 'The Economist' também já aponta Harris à frente, que tem atualmente 52 chances em 100. Trump, por sua vez, aparece com chances de 48 em 100.


"Depois de prever por muito tempo uma vitória de Trump, outros modelos estão tardiamente começando a se alinhar com As Chaves da Casa Branca", diz o historiador Allan Lichtman, referindo-se ao sistema de previsão que desenvolveu, baseado em 13 chaves para determinar o futuro presidente dos EUA.


Ele previu e acertou o resultado de nove de dez eleições presidenciais nos Estados Unidos desde 1984. Sua aposta é uma vitória de Harris. Antes de a candidata entrar na disputa, Lichtman também previa que o presidente dos EUA, Joe Biden, era o favorito para vencer Trump.


Já na Polymarket, as chances de Harris aumentaram, mas Trump continua como favorito. Há pouco, apontavam para 59,5% para o republicano contra 40,6% da democrata. No início da semana, estava em 66% e 34%, respectivamente.


Na Pensilvânia, que pode definir as eleições americanas, Trump tem 47,9% enquanto Harris está com 47,7%, na projeção do FiveThirtyEight.


Reviravolta também nas previsões para as eleições no Congresso dos EUA. O Inside Elections, um provedor de análise eleitoral não partidária, deu aos democratas uma vantagem ao inverter o controle da Câmara pela primeira vez em todo o ciclo, prevendo que o partido de Harris pode ganhar 214 assentos em comparação com 214 para os republicanos e apenas oito vagas classificadas como indecisas. A disputa deve se concentrar na Califórnia, onde há quatro cadeiras incertas.


Contato: aline.bronzati@estadao.com


Broadcast+

Fernando Schüller

 *IMPERDÍVEL!*


Fernando Schüler foi cirúrgico em seu pronunciamento ao receber o prêmio Liberdade de Imprensa 2024. Na plateia, Michel Temer (que indicou Alexandre de Moraes ao STF) engoliu a seco e Marco Aurélio Mello quase chorou. Vale a pena escutar cada segundo. Podem ter certeza que esse discurso, bastante aplaudido, surtirá efeito. Vamos repassá-lo,  pois o país inteiro tem de conhecer essa pérola.

Principais universidades no mundo em publicações científicas

 Anderson Correia

"Aqui as 10 universidades do mundo com maior número de publicações científicas, dentre elas 8 Chinesas, uma americana (Harvard) e uma Canadense (Toronto). E pode apostar que muitos dos autores dos artigos científicos nestas duas norte-americanas possuem origem na China, sejam eles professores, pesquisadores ou alunos. Eu fiz doutorado no Canadá e a maior parte dos meus colegas tinha origem na Ásia, dentre os quais muitos Chineses.

Isso não quer dizer que as universidades Chinesas já são as melhores do mundo, pois contar o número de publicações é apenas parte da história, assim como é importante avaliar a qualidade dos artigos, mas mesmo assim o número surpreende.

Já havia postado aqui anteriormente, mostrando que o número de patentes da China é o maior do mundo também, superando Estados Unidos, Japão e Coréia. Portanto, é muito impressionante que além de liderar as publicações científicas, a China vem dominando as patentes, o que indica que o país tem trabalhado nos dois aspectos, o da ciência básica e da pesquisa aplicada. Quando cinco anos atrás eu visitei a Fundação Nacional de Ciências da China (equivalente ao CNPq), o Presidente me disse que o orçamento de pesquisa era de US$ 5 bilhões/ano, enquanto que aqui no Brasil era da ordem de US$ 200 milhões (cerca de 25 vezes inferior).

Acredito que uma das principais razões para a China (e alguns outros países asiáticos) obter tanto sucesso no desenvolvimento científico e tecnológico é priorizar a educação básica. O continente asiático é destaque nos exames de PISA, principalmente nas provas de matemática. É aquela velha história, quando vamos começar uma casa, não adianta começar pelo telhado, mas sim pelas fundações."



Sempre errando tolamente na sua política externa

 


STF x democracia

 "Leonardo Corrêa explica didaticamente por que o ativismo judicial do STF é antidemocrático. 👇


https://mises.org.br/artigos/3483/o-ativismo-judicial-no-stf-e-o-ataque-ao-principio-democratico


"O conceito de Estado Democrático de Direito, consagrado pela Constituição Federal, repousa sobre a inalterabilidade das normas escritas, as quais representam a vontade soberana do povo, expressa por seus representantes eleitos. Essa estrutura busca proteger a sociedade contra a arbitrariedade, garantindo que a interpretação e a aplicação das normas não sejam manipuladas por interesses individuais ou institucionais. No entanto, o recente uso judicial de ordens para banir perfis de redes sociais, especialmente na figura do Ministro Alexandre de Moraes, revela uma preocupante ruptura com esse modelo, ao extrapolar os limites legais na tentativa de moldar a lei conforme interpretações alheias ao texto normativo.


A Constituição Brasileira de 1988 confere à liberdade de expressão um caráter inalienável e estabelece limites claros para restrições dessa liberdade. No artigo 5º, inciso IV, a Carta determina que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. Esta cláusula expressa a intenção constitucional de proteger a liberdade individual de manifestação, limitando apenas a forma anônima dessa expressão. Além disso, o artigo 220 reforça a defesa da liberdade ao estabelecer que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação [...] não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.” Assim, a Constituição não delega ao Judiciário poder para modificar ou ignorar essas garantias, exceto quando um ato específico de expressão viola outros direitos constitucionalmente protegidos. É por isso que a Constituição requer que tais limitações sejam excepcionais e justificadas. Proibir um perfil inteiro em redes sociais, em vez de limitar a remoção de conteúdo específico, transgride o princípio da intervenção mínima e representa uma forma de censura não prevista pela lei. Qualquer interpretação que justifique tais proibições, portanto, fere o próprio texto da Constituição e se afasta da vontade democrática expressa nos dispositivos legais.


Nesse contexto, o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) foi criado para proteger a liberdade de expressão e assegurar que a internet seja um espaço de livre troca de ideias. Segundo o artigo 19, o provedor de aplicação da internet “somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente”. Em outras palavras, o Marco Civil exige que o provedor remova conteúdos específicos após ordem judicial, mas não prevê o banimento total de perfis. Esse artigo é categórico ao limitar a responsabilização e impor a necessidade de especificidade na remoção. A ordem judicial precisa descrever com clareza o conteúdo a ser removido, garantindo que a liberdade de expressão seja restringida apenas no mínimo necessário para proteger direitos alheios. Assim, a prática de remover perfis inteiros, além de estar fora do escopo do artigo 19, desafia o princípio da proporcionalidade, que sustenta a intervenção legal mínima. (...)


O respeito ao Princípio da Legalidade reforça que ninguém, nem mesmo o Judiciário, pode atuar fora dos limites impostos pelas normas. O juiz, ao interpretar, deve ater-se ao texto, aplicando-o com base nos significados objetivamente delimitados. O desvio dessas diretrizes, com o argumento de defender valores ou interesses supostamente superiores, compromete a segurança jurídica e desafia a confiança da sociedade na imparcialidade das instituições. A extrapolação interpretativa, especialmente no caso de decisões que afetam liberdades fundamentais, como a de expressão, evidencia uma postura arbitrária. Segundo Scalia e Garner, “os juízes são instrumentos da lei, não autores dela; ao deturparem o texto para impor sua própria interpretação, eles não apenas violam a lei, mas subvertem o pacto democrático”. Esse ativismo judicial desrespeita a divisão de poderes, transferindo para o Judiciário um poder de legislar que ele não possui.


Portanto, as normas jurídicas devem ser aplicadas tal como são, sem ajustes arbitrários ou expansões interpretativas que alterem seu sentido original. No caso dos recentes banimentos de perfis em redes sociais, o STF se afasta do mandato legal ao interpretar de maneira extensiva e subjetiva o alcance de suas decisões. Essa postura é, de fato, um ataque ao próprio conceito de democracia, pois ignora o princípio básico de que a mudança de normas se dá por meio do processo legislativo e não por interpretações judiciais criativas. Se o conteúdo da norma é considerado inadequado ou desatualizado, o caminho correto para a sociedade é a escolha de novos representantes que, em nome do povo, alterem a legislação. Scalia e Garner destacam que essa é a única maneira de respeitar o “jogo democrático”. Assim, ao tomar para si a prerrogativa de “melhorar” o texto, o Judiciário não só desrespeita a lei, como também mina o pacto social que sustenta a democracia.


Trocando em miúdos, as decisões do STF que expandem a interpretação do Marco Civil para justificar o banimento total de perfis em redes sociais são insustentáveis dentro de uma leitura textualista e constitucionalista. Elas representam uma violação da liberdade de expressão e uma subversão do princípio democrático, pois colocam o Judiciário como um legislador substituto, atuando em desacordo com os dispositivos claros e democráticos do texto legal. A resposta a essa postura judicial não deve ser o silêncio, mas a reafirmação dos princípios que sustentam a democracia. A Constituição, o Marco Civil e o princípio da legalidade existem para assegurar que ninguém esteja acima da lei – nem mesmo o Judiciário.


Assim como no mundo distópico de 1984, de George Orwell, onde o "Ministério da Verdade" reescrevia a história para moldar a realidade ao gosto do partido, hoje observamos com preocupação uma tendência similar no Judiciário, onde a interpretação judicial passa a substituir o próprio texto da lei para acomodar interesses momentâneos. Em 1984, a verdade era moldada conforme a conveniência do poder, distorcendo o sentido das palavras para sustentar uma narrativa única e incontestável, sufocando a liberdade dos indivíduos e esmagando qualquer expressão que desafiasse o regime. Da mesma forma, o banimento arbitrário de perfis inteiros nas redes sociais, sob o pretexto de proteger a ordem pública, equivale à censura draconiana imposta pela novilíngua orwelliana, apagando vozes e limitando o debate público. Essa manipulação do texto legal, distanciando-se de seu sentido original, revela um perigoso caminho onde a liberdade de expressão é sacrificada em nome de interpretações subjetivas, ameaçando os pilares democráticos e aproximando-nos daquele cenário distópico, em que o poder substitui a verdade pelo controle absoluto da narrativa. (...)


https://mises.org.br/artigos/3483/o-ativismo-judicial-no-stf-e-o-ataque-ao-principio-democratico

Paulo Cursino

  Não, eu não gostaria de ver a América de Trump tirando o presidente da Venezuela do poder. Eu gostaria de ver o Brasil fazendo isso. O paí...