"A produtividade do brasileiro é baixa"
Essa é uma frase que se escuta desde sempre. Deve deixar muito gente intrigada porque ninguém tem a sensação de que se trabalha pouco no país -- em muita empresa, a jornada de fato é bem maior do que o que está combinado no papel.
As explicações usuais quase que invariavelmente invocam as grandes mazelas nacionais: a taxa de juros, a educação, a burocracia, o custo Brasil etc etc.
Mas vou falar aqui de um outro canal (adicional) de causalidade, um canal "micro" que pouco se comenta, qual seja: como o brasileiro médio não consegue investir em treinamento e aperfeiçoamento profissional.
Pega o cara que ganha uns R$ 6 mil por mês -- quase o dobro da média salarial do Brasil. Como esse profissional consegue pagar, por exemplo, R$ 50 mil por um MBA?
É difícil.
A maioria não consegue ou acaba "shopping" por versões mais baratas de um mesmo tipo de curso.
O fato é que o discurso do “invista em você” presume uma margem que a maioria não tem.
E aqui que entra uma diferença significativa entre países de alta produtividade e o Brasil.
Em economias mais ricas, a qualificação profissional é tratada como investimento produtivo: gastos com educação geram créditos tributários efetivos. Parte do custo é portanto compartilhada com o Estado via sistema fiscal e, em muitos casos, empresas financiam a formação aproveitando incentivos.
No Canadá, por exemplo, além dos créditos federais e provinciais, você recebe um crédito anual ao longo da vida que é cumulativo e pode ser usado para reembolso de despesas com educação profisionalizante.
Em casos como esse, o empregado não arca com o custo sozinho.
No Brasil, o desenho é oposto: a dedução no IR é limitada, regressiva, e pouco útil para quem ganha menos.
Pior: os poucos incentivos existentes se concentram em cursos muito específicos de longa duração, e não na qualificação ao longo da carreira. E as empresas que não apuram imposto pelo regime de lucro real, raramente internalizam esse investimento.
O resultado é que no Brasil o risco fica todo nos ombros do profissional, que vai naturalmente optar por jogar pra frente esse tipo de gasto na espera de um aumento da renda ou de empresas que banquem o investimento.
E aí é quase inevitável não pensar: quantos talentos no Brasil estão "presos"em empregos de baixíssimo salário por falta de, sei lá, R$5.000 para fazer um curso ou tirar uma certificação?
Porque em muitos casos não é falta de vontade. Não é falta de esforço. É que a matemática é cruel mesmo.
E se o país não facilita a vida de quem quer se aperfeiçoar, vai continuar mesmo falando que a produtividade é baixa enquanto deixa um monte de gente com enorme potencial amarrada a empregos de baixo salário.
DÚVIDAS
Tem como resolver isso sem o governo? Como proteger a empresa que investe no treinamento para o funcionário não sair logo depois?
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