sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Jonas Federighi

 

Tente explicar isso a um estrangeiro — e observe o absurdo ganhar forma. O Brasil atravessa, segundo as próprias manchetes, um escândalo bancário de proporções históricas, com impacto reputacional direto sobre instituições, reguladores e credibilidade do sistema. Ainda assim, o Congresso sinaliza que o assunto “fica para depois do Carnaval”. Em qualquer país que trate governança como coisa séria, a reação seria imediata: crise não entra em recesso, evidência não espera feriado, risco sistêmico não faz pausa para confete.


A cena é didática porque expõe, sem maquiagem, o que há de mais tóxico na cultura institucional: o calendário como escudo e a protelação como método. Se fosse empresa privada, a comparação é inevitável: a fábrica está em chamas e a diretoria decide discutir o combate ao incêndio depois da folia. O nome disso, em português correto, é negligência institucional — com um agravante: não é desatenção; é escolha. Quando se empurra, empurra-se também a responsabilização, o esclarecimento e a contenção de danos.


O recado internacional é devastador: num país onde o “timing político” vale mais que a urgência pública, a confiança vira variável instável. E confiança é o fundamento do crédito, do investimento e da própria legitimidade. O custo aparece em cadeia: aumenta a percepção de impunidade, cresce a aversão a risco, piora o prêmio exigido por quem financia, o capital encarece, o investimento retrai. O Carnaval, aqui, deixa de ser festa; vira metáfora de um Estado que trata a realidade como encenação.


O ponto central é simples e precisa ser dito sem rodeios: investigação não pode ter data de retorno. “Depois do Carnaval” não é agenda; é álibi. Num país sério, a regra é o inverso: quanto maior o dano potencial, maior a prioridade, maior a transparência, maior a velocidade. Quando o sistema escolhe pausar, a dúvida inevitável — e internacionalmente fatal — é: pausa para quê? E para proteger quem?

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Pedro Parente