quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Muito alem

 *Master é um caso que vai muito além de uma fraude bancária, dizem gestores da Faria Lima*

Nova fase da operação Compliance Zero atinge centro financeiro e fundador do Banco Master

A investigação apontou que o Master e o Banco de Brasília (BRB), que fez oferta para adquirir o Master, mas foi barrado pelo BC, teriam "fabricado" títulos de crédito que nunca existiram para justificar a transferência de R$ 12,2 bilhões do banco estatal de Brasília para o Master. Foram detectadas ainda movimentações atípicas entre fundos de investimento, simulação de emprestimos milionários entre o Master e empresas com capital social muito baixo.

— Isso mostra uma estrutura muito abrangente, que envolve os Fundos de Investimento em Participações (FIPs) que investiram em participações de empresas, administradores e gestores desses fundos, além de uma DTVM como distribuidora dos mesmos. Tudo isso não pode ter sido montado apenas por Daniel Vorcaro — afirma um gestor.

Ontem, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que o caso Master pode ser a “maior fraude do país”.

Para o gestor, o banqueiro nem tinha conhecimento técnico para estruturar um esquema desse porte e contou com pessoas com prática em operações do mercado de capitais, que agora estão na mira da Polícia Federal.

Na nova fase da Compliance Zero, Vorcaro novamente é alvo, assim como seu cunhado Fabiano Zettel, que é pastor e empresário, o empresário Nelson Tanure, conhecido por comprar participações em empresas em dificuldades financeiras, além de João Carlos Mansur, fundador da Reag, que foi alvo da Carbono Oculto e acabou tendo seu controle acionário vendido a sócios, após a saída da presidência do Conselho de Administração de Mansur.

Na Faria Lima, as relações entre Daniel Vorcaro e o empresário Nelson Tanure eram conhecidas, embora um gestor observe que não se sabia a profundidade delas. Um caso que chamou a atenção, diz o gestor, foi o da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), que foi comprada do governo de São Paulo em leilão de privatização pelo empresário Nelson Tanure, em 2024.

A Emae tinha cerca de R$ 160 milhões investidos em CDBs do Letsbank, banco que integrava o conglomerado do Master e também foi liquidado. E Tanure acabou perdendo o controle da empresa após não honrar o pagamento de debêntures, cujas ações da Emae foram dadas como garantia. A XP executou a dívida.

Fundos exclusivos são legal.

Um dos principais exemplos do esquema de fraudes foi o Fundo Brain Cash, administrado pela Reag. Com apenas 20 dias de existência, recebeu R$ 450 milhões a partir de um empréstimo do Banco Master e multiplicou em cerca de 30 mil vezes o seu patrimônio. Essa transação foi a única registrada no balanço do fundo, que tinha apenas um investidor: uma empresa dirigida por uma ex-funcionária da Reag.

Outra operação que chamou atenção foi uma sequência de transações relâmpagos feitas por uma rede de fundos de investimento administrados pela gestora de recursos Reag DTVM a partir de um empréstimo de R$ 459 milhões da instituição financeira de Daniel Vorcaro. Uma das operações consideradas suspeitas teve rentabilidade de 10.502.205,65% em 2024.

Esse tipo de operação na Faria Lima, diz um gestor, afeta a credibilidade do mercado de capitais, já que todas as instituições envolvidas (gestoras, fundos, distribuidoras) têm órgãos fiscalizadores. A dúvida que fica, diz o gestor, é se os fiscalizadores sabiam dessas operações e não tomaram providências ou foram ludibriados, o que expõe falhas nos sistemas que trazem segurança e confiabilidade ao mercado de capitais brasileiro.

Os gestores explicam que os fundos exclusivos usados nas operações do Master são instrumentos financeiros legais e regulamentados, estruturados por administradoras e gestoras para atender exclusivamente um investidor institucional (uma empresa ou entidade que administra o capital de terceiros) ou um grupo de investidores com interesses comuns (pessoas de uma mesma família, por exemplo) e funcionam como um veículo de investimento para patrimônios elevados. Não estão abertos ao pequeno investidor.

Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FDICS), Fundos Imobiliários (FI) e Fundos de Investimento em Participações (Fip), por exemplo, que compram fatias de empresas, podem ser estruturados como fundos exclusivos. Eles também podem comprar cotas de outros fundos, uma estratégia comum para potencializar o investimento.


Mas se as compras acontecem num movimento intenso e sem ligação com a estratégia de investimento, como aconteceu com o master, isso pode sinalizar uma ocultação de patrimônio, já que fica mais difícil saber quem é o cotista original.


Para o economista Renoir Vieira trata-se da investigação de um caso complexo, que terá desdobramentos ao longo do tempo.


— Acredito que pela complexidade do caso essa nova fase até que foi bastante rápida — afirma.


Com base nessas violações do Sistema Financeiro Nacional, e pelo fato de que o banco não tinha condições de honrar compromissos financeiros, o BC decretou a liquidação do Master em novembro passado.


Portanto, não foi surpresa para os gestores da avenida Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, a nova ofensiva da Polícia Federal contra o Banco Master.

— Até demorou — diz um gestor que prefere não se identificar e que argumenta que isso pode prejudicar a coleta de provas.

No ano passado, em agosto, a região onde se concentram bancos e financeiras já havia sido alvo da operação Carbono Oculto, que apurou a ligação entre gestoras, fintechs e fundos de investimento com a lavagem de dinheiro do crime organizado. Em novembro, na primeira etapa da operação Compliance Zero, foram feitas sete prisões, incluindo a de Vorcaro, que foi detido no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando, segundo investigadores, tentava deixar o país em um avião particular com destino a Dubai, com escala na Europa. Após ter a prisão preventiva revogada pelo TRF (Tribunal Regional Federal), Vorcaro foi solto com tornozeleira eletrônica.

Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro disse que ele tem "colaborado integral e continuamente com as autoridades competentes". "Todas as medidas judiciais determinadas no âmbito da investigação serão atendidas com total transparência", afirma o texto.

Os advogados dizem ainda que Vorcaro permanece à disposição para prestar esclarecimentos sempre que solicitado, "reforçando seu interesse no esclarecimento completo dos fatos e no encerramento célere do inquérito".

https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/01/14/master-e-um-caso-que-vai-muito-alem-de-uma-fraude-bancaria-dizem-gestores-da-faria-lima.ghtml?giftId=19a882a7450abf3

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