LIVRO: “CRIAÇÃO” DO GORE VIDAL. Nova Fronteira. 1984. 800 páginas.
Quando tinha dado por terminada esta primeira parte da resenha, recebo do meu ex editor (Benício Schimdt), que vive ligadão em tudo o que acontece, uma entrevista do Gore Vidal, feita quando ele esteve no Brasil em 1987. A entrevista saiu num blog da Veja. É razoável, mas de cunho jornalístico. Só pra dar uma cutucada, bem ao modo do Gore, diria que as perguntas arranharam a superfície, embora tragam algumas preciosidades, por exemplo: quem ele admirava como escritor? Citou o Ítalo Calvino, Burgess (disse que “deu uma mãozinha ao Burgess”). Paul Bowles, Nabokov e Greene. Não saiu do script. Dos brasileiros esquivou-se: disse que “se elogiasse um escritor brasileiro, 50 outros vão me odiar”. Ele entendeu rapidamente como as coisas funcionam por aqui. De crítico, só citou o Harold Bloom (um clássico), que escreveu um livrão chamado “O Cânone Universal”, falando de todos os grandes nomes, sendo que o cânone é certamente Shakespeare e o cânone americano seria o Whitman. Discordo, embora admire o Walt. Tanto o Bloom (crítico) como o Gore Vidal, fazem questão de ignorar os franceses, o Bloom só livra a cara do Proust, ainda bem, senão eu iria soltar os cachorros em cima dos dois. No final do livrão, o Bloom lista mais de 100 possíveis cânones futuros (prefiro bam-bam-bans), o cara é o demônio. Está lá até “A Ponte Sobre o Drina” do Ivo Andríc da Croácia (duvido que alguns dos meus leitores tenha lido). De brasileiros só o Drummond, que ele leu devido a Elizabeth Bishop (também não devem conhecer). Agora chega, vamos sair da superfície e afundar sobre o homem e seu melhor livro. Pois é, todos acham que os gregos eram o máximo, que criaram todo o conhecimento do ocidente e inventaram a democracia, que sabemos como funciona: um bando de espertos no poder, e uma multidão embaixo tentando sobreviver de algum modo, lícito ou não, geralmente não. O Gore Vidal nos diz, através do narrador desta história (Ciro Espitama), que não foi bem assim, que os gregos não eram os bam-bam-bans, não inventaram tanto quanto se fala nas esquinas acadêmicas, gostavam era de guerrear. Outra coisa que ele nos diz, é que não há nada de novo na praça, o mundo continua trágico, como era na época de Ciro, Dario, Xerxes e Artaxerxes. No Brasil, não podemos nos queixar, nunca tivemos uma democracia pra valer, chegamos, no máximo, ao “populismo barato” getulista. No momento, o que temos é o “triunfo da arte de embalsamar”(como disse o próprio Gore Vidal, falando do Reagan, a julgar pelos que gerenciam a economia, a energia, os bancos, a Academia de Letras, religiões, o Congresso, etc. É claro que ele disso isso nos EUA, eles não tem o hábito de falar mal do país no exterior. Não estranhem o estilo, estou falando a linguagem do Gore, que tinha uma língua ferina e brigou com meio-mundo na área literária e na política. Do Truman Capote disse que “tinha elevado a mentira a condição de arte, uma arte menor”. De Jack Kerouac disse: “isto não é escrever, é datilografar”, no que eu discordo. Teve uma briga com o Norman Mailer que lhe deu uma porrada, provavelmente os dois estavam bêbados. Ele disse certa vez que “o amor não é o meu negócio”, mas se gabava de aos 25 anos já ter tido mil relações com homens... e mulheres. Um exagero? Talvez. Conheci uma mulher(não no sentido bíblico, é claro), que fornicava(parece romance inglês) 5 vezes ao dia, por dinheiro naturalmente. Fazendo as contas: 5X7X4X12= 1680 por ano, agora multipliquem por 100 e vejam se é negócio ou não. Acho que o negócio do Gore não era só fornicar. Acho que o negócio dele era escrever, escreveu 25 romances e incontáveis ensaios, escreveu para o cinema, atuou como ator em pontas no cinema e na TV. Os críticos (quando ainda existiam) diziam que ele não era bom em romances, seu forte seriam os ensaios. Bobagem. Era bom nos dois, cortava dos dois lados. Leiam “Criação” e vejam. Segunde ele, “o grande e indecente mal que está no cerne da nossa cultura é o monoteísmo”. Assino embaixo. Como alguém pode viver debaixo de um deus celeste e ameaçador como esse que temos, que diz poder mandar você pros ares a qualquer momento, sem direito à defesa. Isto sou eu quem está dizendo, não o Gore. Bem, agora não adianta reclamar, vamos ao que interessa. É uma viagem fantástica. A história se passa no século V a.C., século em que viveram Dario e Xerxes e Artaxexes, Reis da Pérsia, Buda, Confúcio, Heródoto, Tucídides, Sócrates, Anaxágoras, e talvez até Sarney. Lembrem-se que Zoroastro(Zaratustra), o herói do Nietzsche(Assim falou Zaratustra), e avô do narrador deste romance, viveu no século VII a.C. Querem mais? Pitágoras nasceu e viveu no século VI a.C.(lembram-se do teorema de Pitágoras a^2+b^2=c^2). Pois é, foram nestes séculos que apareceram as ideias que influenciaram profundamente o mundo moderno. Também foi neste período que o Império Romano do Ocidente começa sua lenta decadência. Alguns podem pensar: e Cristo? E Maomé? Respondo: este livro não trata de recém-nascidos. Não se preocupem, a ideia de um deus único já estava lá com Zoroastro, a complexidade do mundo oriental já estava lá com Confúcio e Buda. Bem, Sócrates já estava lá. Se Sócrates estava, Platão também estava, se Platão estava, Demócrito também estava e é quem anota a história descrita pelo narrador chamado Ciro Espitama, que nestas alturas da vida estava quase cego. Demócrito foi um filósofo grego que sacou a ideia de átomo, dizem que inventou a palavra. Demócrito já sabia que o universo era infinito e que toda a matéria era formada por átomos e como funcionava a coisa toda. Neste velho mundo, a única coisa nova somos nós mesmos, como disse o Gorvaidal, referindo-se ao fato de que Babilônia e os indianos mantinham ligações bem antes de Dario. Demócrito aprendeu muito com o Leucipo de Mileto, Eu acho que o Gorvaidal se baseou nele para criar o personagem Espitama. Nesta época, Demócrito era muito jovem, queria saber tudo da Pérsia e ao mesmo tempo dizia ao Espitama como funcionava a Grécia, na visão dele. Os diálogos entre Espitama e Demócrito, que o acompanhou até o fim da vida, são música de Strauss aos ouvidos de qualquer leitor (lembrem-se de 2001 do Kubrick), sobretudo porque Demócrito, embora jovem, percebia onde Espitama queria chegar, mas só ele, Demócrito, tinha a explicação final anos depois, não é impressionante? Espitama era um Meda (nasceu na Média, povo muito antigo), neto de Zoroastro, e que sabia tudo e mais alguma coisa, e por isso mesmo, era cético, como o Gore Vidal, que assim como o Guimarães Rosa, viveu várias vidas. Uma vida só não daria pra o homem saber tantas coisas e botá-las no papel, sem computador, mas como dizem que o cérebro é igual ao cosmos, infinito. Deixa eu fazer dois pequenos comentários: O primeiro é que o cara pra ler e entender a história é preciso ter estudado o mínimo de História Geral, não digo na Academia, digo ter lido alguma coisa sobre gregos e persas e um pouco do Egito antigo, da China e da Índia. Esqueçam os filmes de Roliude. Esqueçam o Google e esqueçam a Academia. O segundo, é sobre quem mandava no mundo na época e onde se passa a história. Quem mandava mais eram os persas, cujo domínio ia do Rio Nilo ao Indo, ou seja, incluía o Egito, a Grécia e o Norte da Índia, as fronteiras persas chegavam perto dos domínios de Roma. Roma do Ocidente, apesar de decadente era a outra grande potência. Bem, havia a China(Catai), que não era uma nação organizada e havia a Índia e seus eternos elefantes, sempre um mistério (que o Espitama vai desvendar também). Com um império deste tamanho, é natural que os persas vivessem em guerra constante. Então, os persas merecem respeito, se não, os israelenses já teriam bombardeado as usinas nucleares deles. Ou alguém duvida de que eles vão fazer a “bomba”. Tem gente que confunde os iranianos (persas) com os árabes. Nada-a-ver. Podem até rezar nas Mesquitas, mas isso é outra história. Não é por nada que o pessoal do Itamarati, que conhece história, fica quieto quando aquele baixinho de nome bíblico, que não manda nada, diz umas bobagens. Eles sabem que tem coisas maiores em jogo, e essa coisa é o petróleo, mas há também “os persas”, a última barreira obstinadamente resistente aos donos do mundo atual. É óbvio que o livro do Gore Vidal sugere certa correlação entre o Império Persa e o Império Americano. Alguns ingênuos pensam que o correlato seria o Império Romano, daí ficam fazendo umas previsões bobas sobre a queda do Império Americano. Me dá até vontade de rir: KKKKKK, parece a risada de minha mãe. Nada-a-ver, os romanos não viviam guerreando, preferiam a política ou cobrar uma taxa pela proteção, como os bandidos dos morros do Rio e da periferia de Brasília, os do centro da cidade cobram comissão. O Império americano tem tudo a ver com o Império Persa, inclusive o tamanho e o fato de exercerem o poder pela força mesmo (econômica ou armada), embora também cobrassem taxas de proteção. Os americanos sabem dessas coisas há muito tempo, daí gastaram o que gastaram pra ocupar o Iraque e garantir que os persas ficassem sob controle. Também descobriram que o Sadam estava namorando os persas por debaixo das persianas, aí resolveram detonar o Iraque. Todo o jogo atual é perpassado (palavrinha pedante) por esse jogo antigo, muito antigo, com a entrada recente em cena dos descendentes dos filhos do Maomé (sunitas, xiitas, alauítas), ou seja, quem decide é sempre a “cultura” e a religião(e eventualmente a Bomba), desde... desde sempre. Afinal a última grande guerra começou como? A obsessão de Hitler contra os judeus. Ou alguém pensa que o ódio europeu aos imigrantes é devido à cor deles, ou que nos EUA a religião não manda, ou que no Brasil estamos imunes a questão religiosa, ou vocês não sabem por que estamos na merda? Somos filhos de Espanha e Portugal que foram pro brejo no século XVI e por consequência toda a América Latrina. Acabamos nascendo na “Contra-Reforma”, com os jesuítas pregando a pobreza absoluta. Toda nossa desgraça, segundo o mexicano Octavio Paz (o melhor poeta que já tivemos e que publicou, na revista dele, o primeiro livro do João Almino), tudo começou dessa maneira. Bastou Lutero, um Papa teimoso, um Rei da Inglaterra mulherengo e irresponsável (aquele que mandou decapitar a Ana Bolena). Bem, há sempre uma cabeça pensante por trás, no caso, o Cromwell, que aproveitou a deixa e fechou todas as abadias da Inglaterra. Depois, já no reinado de Elizabeth, houve a derrota da Espanha e se quiserem saber mais leiam os livros de história, saberão a gênese de nossa indigência até hoje.Tem gente que pensa que os gringos são os donos do mundo atual porque as calçadas são limpas, e o asfalto é liso, ou porque eles são imperialistas, e outras besteiras. Não é isso, é porque lá floresce um cara como o Gore Vidal e o Norman Mailer, que no Brasil estariam fodidos, encalacrados numa salinha de uma USP ou UnB da vida, onde nem os banheiros funcionam, sofrendo a inveja generalizada e o boicote do Ptismo ou do PSdebismo ou de comunistas ou de alguns fascistas. Ele nunca foi a favor de qualquer governo, nem ele, nem o Mailer. Este então, era contra tudo, nunca precisou se filiar a partido político, nem assinar manifestos, e no entanto produziu talvez o melhor livro da segunda metade do século XX, cuja resenha vocês verão nos Torpedos ou no Facebook. Bem, chega de imprecações, coisa muito comum entre as mulheres gregas (devem ter visto Zorba, o grego), vamos ao livro. Começa com uma nota do autor, resumindo, a nota diz: cuidado, é um mundo grandioso, uma historia grandiosa. Nesta nota, ele fala da infelicidade do Afeganistão e do Irã, evidente que ele pensava no passado glorioso destes países, e sua miséria atual. É um livro de memórias, que tem um pé na história americana, uma obsessão do autor. No primeiro capítulo, o narrador (Ciro Espitama) já está velho e quase cego, é embaixador da Pérsia na Grécia, então é uma história que vai sendo contada sem excessiva preocupação cronológica. E começa com o Espitama comentando uma palestra do Heródoto, nesta época ela ainda não era o “pai da história”, mas era um dos grandes (Heródoto é o autor do livro que ficava no bolso do protagonista do filme “O Paciente Inglês”. Heródoto é o poeta dos ventos, adoro Heródoto). Na palestra, ele fala das “Guerras Persas’ e Ciro Espitama (não confundir com Ciro, Rei dos Persas) discorda de Heródoto, que tinha uma visão helênica do mundo, enquanto Espitama era um admirador dos persas, e de certo modo, não gostava dos gregos. São nove capítulos e 800 páginas, é como uma corrida de maratona, não adianta sair disparado, então vamos com calma. No primeiro capítulo, o Gorvaidal(permitam que o chame assim, depois explico porquê), trabalha com a ironia, para descrever os filósofos, reis e o próprio Heródoto, nota-se que seu texto faz alusões camufladas à política americana, que sempre foi sua obsessão. Então, neste início, o texto admite várias leituras indiretas, mas é um texto extremamente detalhista, de quem estudou minunciosamente a vida na Grécia e na Pérsia, os hábitos, a geografia e até certas expressões. Ou seja, um livro de quem sabe tudo. Além disso, o autor, embora jovem ainda para um escritor (tinha cerca de 50 anos, antes disso, só Jorge Amado escrevia bem), mostra uma percepção aguçada da velhice de um intelectual (Espitama), provavelmente devido ao pai ou ao ambiente onde circulava. Se lerem “Criação”, o que eu duvido muito, vão notar que o autor tenta desmistificar a visão que temos dos gregos, como os fundadores da civilização ocidental. A rigor, não há “civilização ocidental”, o que há são culturas e/ou religiões e conquistadores, de algum modo, o Samuel Huntington tem metade da razão. O mundo antigo oriental se relacionava com o que chamam de “ocidental”, destas relações consensuais ou não, nasciam novas sociedades, num processo cheio de idas e vindas. Quem inventou esta divisão Ocidental/Oriental foram os vendedores de armas que pagam a ‘historiadores” e estrategistas militares americanos e russos e agora aos que opõem a China aos EUA, quando na verdade o comércio entre eles é intenso, e mais de 150 mil chineses estão estudando nos EUA. Nestas alturas, já estão dividindo o pastel de queijo e nós aqui pensando bobagens, achando que vamos comer um restinho. No segundo capítulo, o narrador ainda é uma criança e vivia na Pérsia, na corte de Dario, então ele fala de Zoroastro, que era seu avô, o capítulo começa com uma frase significativa: “No começo era o fogo”. Foi aí que Deus (Sábio Senhor) apareceu pra Zoroastro. Para o ritual, todos tomavam uma bebida, o “haoma sagrado”, uma planta parecida com o Ruibarbo, que os deixava numa espécie de transe (pensem no chá Ayahuasca, maconha não, provoca outras coisas), “eu não estava inteiramente dentro nem fora do meu corpo, diz Espitama’”. Foi durante este ritual que o menino (Espitama) se lembra de como os “bárbaros” assassinaram Zoroastro. Botei “bárbaros” entre aspas, porque, como vocês sabem, nunca existiram “bárbaros”, bárbaros são os outros. A cena é sugestiva do estilo do Gorvaidal, é irônica, de quem não acreditava em nada, nem no haoma, nem no “fogo sagrado”, nem em Zoroastro (inventou o monoteísmo), só na morte. É o meu caso. Neste segundo ”livro”, prefiro “capítulo”, o Gorvaidal dá um show sobre de sexo, entre outros detalhes, que fico sem saber se ele inventava muita coisa ou não. Provável que não. Lá pras tantas ele fala de Babilônia, aí eu não resisto e penso nos tais “jardins suspensos”, que jamais poderei imaginar, o fato é que esse nome “Babilônia” me deixa excitado, não consigo dormir direito. No livro 3, cujo título é “As Guerras Gregas”, o narrador(Ciro Espitama), está com 20 anos e é nomeado por Dario, sátrapa de Susa, uma cidade importante do Império. Aí vem uma descrição cinematográfica e pormenorizada de Dario e do lugar onde pretendia não ser achado, uma espécie de pavilhão de caça, embora todas as 300 mulheres do harém dele, e centenas de eunucos, soubessem do seu paradeiro. Um pouquinho antes disso, podemos notar um pouco da genialidade do Gorvaidal, quando Dario diz: “vamos pegar a estrada pra Pasárgada”. Pensei: desta vez finalmente vou entender o que o nosso grande poeta queria dizer com o poema “Vou embora pra Pasárgada”. Nada, Dario não vai pra Pasárgada naquele dia e me deixa com água na boca. E porque não foi? Porque os gregos eram o “problema”. Nos próximos capítulos vocês vão saber por que os gregos eram, e continuam sendo, “o problema”. O título do Livro 3 é “Começam as Guerras Gregas”, mas nele começa também a busca do Espitama pelo sentido da palavra “Criação”(que dá título ao livro), é uma busca darwiniana e porque não, newtoniana e por que não, einsteiniana, porque “criação”, neste caso, inclui a criação do mundo e quem vai acabar explicando qual o problema central da CRIAÇÃO? Só saberão no final desta resenha. Se lessem mais sobre ciência a estas alturas já saberiam. É um momento crucial da história, então vale recapitular, voltar ao final do Capítulo 2. Dario era o “Grande Rei”, que herdou a coroa de Ciro, o título se deve ao fato de existirem muitos reis, a maioria irmãos de Dario. Recomecemos com as preparações para o casamento de Dario com uma de suas sobrinhas de 11 anos, foi quando Espitama pode ver o “Grande Rei”. A impressão que tenho é que Espitama era veado, mas não era um eunuco, depois explico as diferenças. “...semanas a fio o harém viveu um grande alvoroço, as damas não falavam de outra coisa que não fosse o casamento de Dario e sua sobrinha de onze anos. Discussões infindáveis(para mim) entediantes ocuparam as três casas do harém”. Como sei que a maioria dos meus leitores estão interessados em saber como era o harém, assim como Demócrito que era grego, e na Grécia vocês sabem, não havia essas coisas, vou resumir com as palavras do Espitama: “a terceira casa é ocupada pela rainha ou pela rainha-mãe, ela é mais importante que a rainha consorte. A casa seguinte é para as mulheres que o Grande Rei já conheceu(leiam com o sentido bíblico da coisa, assim como eu conheci a Cardinale). A primeira casa guarda as virgens, novas aquisições, ainda aprendendo música, dança e conversação”. Se eu ficar falando do harém, essa resenha leva 50 páginas. No dia do casamento houve uma parada militar e depois uma reunião dos seis homens mais importantes do Império, que estavam ali de olho na sucessão de Dario, imaginando que a menina de 11 anos, com quem ele se casou, ia “matá-lo” rapidamente. Leiam o que o Gore Vidal diz pela boca do Espitama e apreciem a fina ironia do escritor sobre a reunião dos seis: “Dos seis eu estava particularmente interessado em Gobrias, um homem alto,...de cabelos e barbas anteriormente tingidas de vermelho-sangue. Laís(mãe do Espitama) me contou mais tarde que o cabeleireiro tinha cometido o engano fatal de usar uma tintura errada (fatal para o cabeleireiro): ele foi morto. ...Desde esse dia, em parte devido a esta primeira impressão, nunca consegui levar Gobrias a sério, como todo mundo fazia naquela época”. Durante a festa de casamento, Dario entra triunfalmente, então o irmão mais velho de Dario, declamou: “Rei da Pérsia, o seguinte, Rei da Média, o próximo, Rei de Babel, ” então, do outro lado da sala, ouviu-se: Faraó do Egito! Seguido pelo nome egípcio de Dario. Como Cambises (conquistador do Egito) antes dele, Dario pretendia ser a encarnação terrestre do Deus egípcio Rá, e portanto, legítimo Rei-deus do Egito”. Os imperadores persas, assim como alguns político de hoje e poderosos de sempre, se veem como deuses, tanto que evitam serem vistos pelos mortais comuns, até o Espitama confessa que só olhava Dario com o rabo-de-olho, para que ele não notasse. E agora, vejam só, estão todos debaixo de sete palmos e na horizontal como na canção do Billy Blanco. O começo das tais “Guerras Gregas” foi devido a ambição por uma ilha grega chamada Samos, onde nasceu Pitágoras, aí o Gorvaidal faz uma longa digressão sobre as ideias de Pitágoras com detalhes que vocês não imaginam. Mas nada disso me interessa agora, porque o Espitama descreve a seguir, como era Babilõnia. Segundo ele, Babilõnia era mais impressionante que bela. Há então uma caminhada para uma espécie de templo onde todas as jovens eram obrigadas a serem prostitutas, por um dia, Nesta caminhada, fui dormir com Babilônia na cabeça. Toda vez que isso acontece acordo de “pau duro”. Amanhã talvez recomece. Talvez não.Naquela época, assim como hoje, os preparativos para uma guerra levavam anos. Lembrem-se dos portugueses, que primeiro plantaram as árvores que iriam fornecer a madeira para a construção das caravelas do descobrimento. O fato é que Dario estava com dificuldades para manter a guerra com os gregos, precisava de dinheiro pra guerra e pra manter a fronteira, e precisava de um bom negociador para tirar dinheiro dos indianos, e como era um conquistador nato, queria anexar a Índia ao Império Persa, estava de olho nas minas de ferro dos indianos. Dario queria que Espitama fosse à Índia como uma espécie de embaixador e espião, a rigor, todos os embaixadores são espiões. Fiquem sabendo que fazem relatórios mensais para seus países de origem. Pois é, a cena em que Dario conversa com Espitama sobre sua missão a Índia é de quem escrevia de modo cinematográfico, tipo Guimarães Rosa e não Machado. É coisa pra se ver, e não ler. Os diálogos são extremamente irônicos, e certamente tem a ver com a política americana e com a capacidade de Gorvaidal de elaborar diálogos. O Mapa está em cima da mesa, Dario chama um assessor que tinha feito o mapa. “Cilace, o que deu pra você conhecer da Índia? O rio Senhor(Indo), a cidade de Taxila”. Dario: “é minha, não é?” “Sim, é sua vigésima satrapia...o Rei paga-lhe tributo, Senhor.” Ou seja, o Império era grande demais, Dario nem sabia até onde ia seus domínios. Nestas alturas vamos para o Livro IV, que sem dúvida é o mais interessante, porque Espitama passa anos e anos na Índia e descreve tudo com olhos de Marco Polo e cabeça do Gorvaidal. Só a viagem levava 13 meses, parece até minhas viagens de Belém pros cafundós do Rio Negro, que levavam 6 meses, conforme o tempo, isto em 1960, e que aparece no meu romance “A PÉROLA DA AMAZÔNIA, que vai ser reeditado pelo Benício, ou pelo Holanda, ou pela Companhia das Letras, quem chegar primeiro leva. Ah, já ia me esquecendo do por que chamo o Gore de “Gorvaidal”. Meu ex-sogro e “Patrono do Torpedos”, só lia em inglês. Havia uns almoços longos aos domingos, coisa de 4 a 5 horas, então ele despejava em cima de mim toda a sua erudição, notava que ele falava pra mim. Um dia mencionou “Gorvaidal” e falou e falou. Fiquei meses tentando saber de quem se tratava, e não queria perguntar. Era o Gore Vidal em inglês. TALVEZ CONTINUE.