segunda-feira, 4 de novembro de 2024

News 02 0311

 NEWS - 03.11


Haddad busca apoio de senadores para PEC de corte de gastos / Governo quer DRU transitória para manejo do orçamento até a estabilização da trajetória da dívida pública- Folha SP 2/11


Marianna Holanda / Adriana Fernandes


O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), aproveitou uma reunião com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e outros senadores na quinta-feira (31) para buscar apoio à PEC (Proposta de Emenda Constitucional) em elaboração pelo governo com medidas de corte de gastos.


No encontro, Haddad defendeu a necessidade de uma medida para autorizar transitoriamente o manejo do orçamento até a estabilização da trajetória da dívida pública em relação ao PIB (Produto Interno Bruto).


A área econômica do governo discute aproveitar a PEC para prorrogar a DRU (Desvinculação de Receitas da União) para incluir as medidas de corte de despesas, segundo pessoas a par das discussões no governo


A DRU, que hoje permite ao governo usar livremente 30% das receitas com impostos e taxas vinculados a despesas, acaba no final deste ano. Há uma discussão no governo para fazer uma DRU transitória sob novos termos, que permita remanejar os recursos carimbados para a área de saúde e educação, que hoje estão blindados.


O tema principal do encontro era o projeto de regulamentação do mercado de carbono —governo e Congresso buscam acordo para votá-lo antes da COP 29 (29ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), que ocorrerá entre os dias 11 e 22 de novembro no Azerbaijão.


Segundo relatos, a PEC do governo surgiu na conversa, e os parlamentares sinalizaram apoio a medidas para controlar os gastos.


A reunião ocorreu na residência oficial do Senado. Contou com a presença do senador Efraim Filho (União-PB), do ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais), e dos relatores do projeto do mercado de carbono na Câmara, Aliel Machado (PV-PR), e no Senado, Leila Barros (PDT-DF).


"Há uma grande preocupação com o aumento da dívida pública em relação ao PIB. É preciso qualificar o debate e buscar o equilíbrio fiscal pelo lado das despesas e não pelo lado de arrecadar", disse à Folha o senador Efraim Filho (União-PB), um dos participantes da reunião.


Segundo ele, a recepção dos senadores foi positiva à necessidade de medidas de cortes de gastos.


Os detalhamentos da proposta ainda estão sendo acertados. Apesar da pressão de investidores e de integrantes do mercado financeiro, o presidente Lula (PT) não tem pressa para apresentar as medidas, segundo auxiliares.


A proposta foi discutida amplamente com ele pela primeira vez nesta semana, em uma reunião no Palácio da Alvorada.


As previsões de crescimento da dívida para um patamar superior a 80% do PIB têm alimentado as incertezas fiscais e levado a uma escalada dos juros futuros e do dólar, que fechou nesta sexta-feira (1) cotado a R$ 5,869, o maior patamar para a moeda norte-americana desde o início da pandemia.


A forte alta veio em resposta à proximidade das eleições presidenciais dos Estados Unidos e à tensão sobre uma possível vitória de Donald Trump. Há ainda preocupação sobre o rumo das contas públicas brasileiras.


Como os parlamentares já sinalizaram o esgotamento da agenda de aumenta de arrecadação para o ajuste fiscal, há uma avaliação entre lideranças parlamentares de que o espaço hoje é maior para mudança em medidas nas regras de correção dos pisos de saúde e educação, que foram defendidas pela área econômica, mas que sofrem resistências do próprio presidente Lula.


O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), sinalizou em entrevista à Folha apoio às mudanças nas vinculações de receitas para as duas áreas. Ele disse que "vem alertando para um problema sério", que é o impacto dos pisos de saúde e educação e também da vinculação ao salário mínimo dos benefícios da previdência nas despesas públicas.


"Não estou entrando no aspecto se é justo ou não. Só que eles aumentam a despesa e pressionam muito o discricionário [despesas que o governo pode ou não executar, de acordo com a previsão de receitas, como custeio e investimento]. A saúde no último ano aumentou R$ 50 bilhões. Isso pressiona todo o recurso discricionário do governo, investimento e tudo. O teto vai ser pressionado. O arcabouço está aí e tem que cumprir as metas", afirmou Lira.


 


Atenção total- Lauro Jardim – O Globo 3/11


Fernando Haddad tem dito a interlocutores que tem até o dia 14 de novembro para ter a atenção total de Lula para definir a PEC do corte de gastos. Porque, depois disso, vem feriado, G20 e a visita de Xi Jinping a Brasília.Mas nesta semana é Haddad quem não dará total atenção ao pacote: vai viajar à Europa.


 


Alckmim defende corte de gastos e fim da reeleição a Jorge Kajuru- O Globo 2/11


Por Naira Trindade — Brasília


Geraldo Alckmin vai defender o corte de gastos e o fim da reeleição, com um mandato de cinco anos a partir de 2030, em entrevista a Jorge Kajuru, no seu retorno à Rede TV. A entrevista vai ao ar amanhã, às 22h30 , no PODK Liberados. Alckmin é o primeiro convidado e a intenção é levar Lula no próximo.


 


Oposição critica viagem de Haddad à Europa em meio a indefinições sobre corte de gastos / Parlamentares ouvidos pela CNN avaliam que momento atual é de "crise"- CnnBrasil 3/11


Cristiane Noberto / Danilo Moliterno


Em meio à incerteza sobre a entrega de um pacote de corte de gastos do governo, deputados de oposição reagiram à viagem do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para a Europa na próxima semana.


Parlamentares ouvidos pela CNN criticaram a ausência do chefe da equipe econômica no momento que avaliam ser de crise.


O vice-líder da oposição na Câmara, Marcel Van Hattem (Novo-RS), afirma que o governo “não cumpre o próprio arcabouço” e diz que, antes de viajar para “vender” o Brasil lá fora, Haddad “precisa arrumar a casa”.


“O governo, infelizmente, está cumprindo a cartilha do PT: gasto sem responsabilidade e desrespeito com qualquer tipo de trava. Não cumprem nem o próprio arcabouço fiscal que criaram, muito mais frágil do que o teto de gastos anteriormente vigente. Haddad vai ao exterior vender o quê, para quem? Precisa arrumar a casa primeiro, mas a viagem talvez demonstre justamente isso: que aquilo que deveria ser prioridade não será feito.”


Já o vice-líder do PL, deputado Domingos Sávio (MG), diz que o país está enfrentando uma “grave crise econômica” e atribui isso à “gastança irresponsável” da administração atual.


De acordo com ele, apesar do aquecimento da atividade privada e do esforço da população, o governo continua a agravar o déficit fiscal, com projeções preocupantes para os próximos anos.


“Fazer uma viagem para a Europa, no momento em que todos esperavam dele uma atitude concreta para apresentar soluções para o equilíbrio fiscal, sem sequer apontar um compromisso importante que esteja agendado, comprova o que todos nós sempre alertamos: o governo do PT não mostra responsabilidade com o interesse do país. Não tem limite com a gastança, não se dispõe a fazer sacrifícios, não se dispõe a fazer cortes que garantam um equilíbrio fiscal, e é isso que, infelizmente, faz com que o país perca uma grande oportunidade, enquanto o Brasil poderia ser a bola da vez”, afirmou.


Procurada pela CNN, a assessoria do Ministério da Fazenda não respondeu.


Para o presidente da Frente Parlamentar do Empreendedorismo (FPE), deputado Joaquim Passarinho (PL-PA), Haddad não vai, de fato, entregar um pacote de cortes de gastos “viável”.


“Primeiro, eu não acredito que o Haddad vai, de fato, trazer um pacote de cortes de gastos viável. Não é o que está no DNA deste governo, este tipo de medida. Acho que a viagem dele à Europa demonstra falta de compromisso com essa agenda. […] A gente não viu ninguém do governo defendendo, de fato, essa agenda, porque, de novo, não está no DNA deles. Reduzir os gastos poderia levar eficiência para a economia. E não bastaria apresentar o pacote, se não articular. Não dá para acreditar que a base do PT apoiaria um pacote como este”, afirmou.


O vice-líder da minoria na Câmara, Rodrigo Valadares (União-SE), também criticou a viagem do titular da Fazenda e pontuou a alta do dólar, que atingiu a marca de R$ 5,90, a maior alta desde a pandemia, como um dos fatores de preocupação.


“A alta do dólar para R$ 5,90 é uma tragédia anunciada, e Haddad resolve viajar no meio dessa crise. Essa decisão evidencia um governo sem direcionamento, que negligencia o impacto do câmbio na vida das pessoas. A economia brasileira precisa de um ministro presente, e não de alguém que foge das responsabilidades”, disse.


Agentes econômicos têm pressionado o governo para apresentar medidas que sejam viáveis para a sustentabilidade das regras fiscais do país. Isso porque, na avaliação deles, o governo tem feito ajuste das contas apenas pelo lado das receitas, enquanto os gastos continuam a aumentar.


Na última terça-feira, Haddad afirmou que não tinha um prazo para apresentar as propostas, o que fez com que o dólar começasse a trajetória de alta, fechando em R$ 5,87 na sexta-feira (1º).


 


Há sinais claros de descontrole das contas do governo, e ajustes não devem ocorrer neste ano, dizem economistas / Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, só deve ocorrer um ajuste fiscal mais significativo em 2025- CnnBrasil 3/11


Carol Raciunas


Na última semana, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que ocorre uma “forçação boba” para que o governo apresente ao Congresso um conjunto de medidas para corte de gastos.


A conduta do atual ministro tem sido questionada por parte do mercado. Para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, Haddad foi hábil em aprovar a reforma tributária e alguns ajustes na arrecadação, mas o grande ajuste que ainda falta é nos gastos.


Para o economista, mesmo que Haddad sinalize querer lidar com o ajuste dos gastos, existe uma resistência do governo.


“Já se vão dois anos, é difícil imaginar que um grande ajuste fiscal vai acontecer ainda. Vai ser algum paliativo de corte de gastos para 2025, talvez na casa de R$ 50 bilhões, que levaria o déficit para 0,25% do PIB.”


Vale destacou ainda que, sob estas condições, só deve ocorrer um ajuste fiscal mais significativo em 2025.


“Até 2026 devemos ter uma alta de 12 pontos percentuais na dívida pública bruta. Sem nenhum cenário de crise, isso não se justifica”, apontou.


Para Daiane Gubert, head de assessoria de investimentos da Melver, a situação atual também não está favorável para a economia brasileira.


“Existem sinais claros de descontrole fiscal e a consequência já é totalmente percebida. Ela é ditada pelo mercado com títulos da dívida pública rondando os 13% e inflação a cerca de 7%”.


As medidas atuais, segundo Gubert, devem ter impacto generalizado. “O risco, o dólar e a inflação sobem. E, com isso, esse círculo vicioso deprime a economia brasileira”, avalia.


 


Opinião do Estadão - Protelando o ajuste fiscal / Sem data para a revisão de gastos, governo tenta ganhar tempo com PEC para prorrogar a DRU- Estadão 3/11


Por Notas & Informações


Se ainda havia alguma esperança de que o governo anunciaria de uma vez um pacote de revisão de gastos públicos, a viagem do ministro Fernando Haddad à Europa pôs por terra qualquer chance de que isso ocorra no curto prazo. Defensor de medidas que fortaleçam o arcabouço fiscal, Haddad passará a semana fora do País e voltará apenas no dia 9 de novembro. Durante sua ausência, é improvável que as discussões avancem e que um plano concreto seja divulgado.


O contexto reforça a falta de prioridade com que o tema é tratado pelo presidente Lula da Silva, o que, a bem da verdade, não surpreende ninguém. A questão é que o governo gerou expectativas de que algo havia mudado e de que o presidente estava convencido sobre a necessidade do pacote para recuperar o grau de investimento, sobretudo após melhora da nota de crédito brasileira pela Moody’s, a primeira desde 2017.


Mas o País continua andando em círculos em debates cuja solução o governo tenta adiar. O arcabouço fiscal, que limita o avanço dos gastos a um crescimento real de 2,5% ao ano, tem sido incapaz de frear a velocidade de algumas das principais despesas do governo. O teto não vale para os pisos constitucionais da Saúde e da Educação, vinculados às receitas, nem para os benefícios previdenciários, cujo piso acompanha a variação do salário mínimo.


Ambas as políticas tendem a consumir um espaço cada vez maior no Orçamento e a estrangular as despesas discricionárias. Esse diagnóstico não vem de hoje, mas do fim de agosto do ano passado. Na votação do arcabouço fiscal, os pisos constitucionais, cujo crescimento havia sido limitado à inflação desde 2017 com a aprovação do teto de gastos, voltaram a acompanhar as receitas, que têm tido um desempenho expressivo neste ano.


Em paralelo, o Congresso aprovou a medida provisória enviada pelo Executivo que tornou lei a política de valorização do salário mínimo. Além das aposentadorias e pensões, o mínimo também é piso para benefícios assistenciais, abono salarial e seguro-desemprego e pressiona cada vez mais as despesas.


Já faz, portanto, mais de um ano que a equipe econômica sabe disso e tenta consertar as falhas estruturais do arcabouço fiscal, enquanto parte do governo age como se esses problemas não existissem. Há quem acredite que essas despesas não deveriam se adaptar ao arcabouço, mas que o arcabouço é que precisa mudar para dar um jeito de comportá-las.


Foi esse mesmo dilema que enfraqueceu o teto de gastos até levá-lo à inanição. A mais nova esperança da equipe econômica é aproveitar a prorrogação da Desvinculação de Receitas da União (DRU), que depende da aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), para incluir medidas que enfrentem gastos estruturais no texto.


Flexibilizar a alocação de recursos e permitir seu uso para outras finalidades certamente ajudará o governo, mas não resolverá o problema de fundo. Desde 1994, quando ainda se chamava Fundo Social de Emergência (FSE), a DRU tem sido desidratada e seu alcance, cada vez mais reduzido. Será preciso ir além dessa vez.


 


Análise: Alta do dólar ameaça se tornar fonte de pressão inflacionária relevante / Na semana anterior ao Copom, moeda americana termina cotada perto de R$ 5,87- Valor 2/11


Sergio Lamucci


A alta do dólar caminha para se tornar mais uma fonte de pressão inflacionária relevante, num momento em que o mercado de trabalho aquecido permite aumentos maiores dos preços de serviços e as cotações dos alimentos passaram a subir com mais força, especialmente devido a problemas climáticos. Com as incertezas persistentes sobre a trajetória das contas públicas e o cenário externo adverso para países emergentes, a moeda americana saiu de R$ 5,4469 no fim de setembro para R$ 5,8698 na sexta-feira (1º), uma alta de 7,8%. No ano, o salto do dólar já é de 21%.


Na semana que vem, o Comitê de Política Monetária (Copom) vai se reunir para definir o rumo da Selic, e a aposta dominante é numa aceleração do ritmo de alta para 0,5 ponto percentual (p.p.) – em setembro, o colegiado do Banco Central (BC) elevou a taxa em 0,25 ponto, de 10,5% para 10,75% ao ano.


Se o câmbio se consolidar na casa de R$ 5,70 ou R$ 5,80, as projeções de inflação vão subir, especialmente para 2025, o que pode levar o BC a estender o ciclo de alta da Selic. Até o momento, o consenso de mercado do Boletim Focus, do Banco Central (BC), aponta um dólar de R$ 5,45 no fim deste ano e de R$ 5,40 no fim do ano que vem.


O economista Fábio Romão, da LCA Consultores, dá uma medida de como uma moeda americana mais cara influenciaria as suas estimativas para a inflação. Se em 2025 o dólar ficar na média em R$ 5,70, em vez dos R$ 5,30 que ele espera atualmente, a previsão para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2025 sobe de 4% para 4,6% — ou seja, acima do teto da banda de tolerância da meta, de 4,5%. No caso da projeção para o IPCA deste ano, um dólar cotado a R$ 5,70 até dezembro faria a estimativa da LCA aumentar de 4,5% para 4,6%. A consultoria prevê um câmbio de R$ 5,50 no fim de 2024.


A moeda americana tem sido impulsionada, de um lado, pela incerteza fiscal, especialmente porque não há uma estratégia do governo para conter a expansão das despesas obrigatórias. Nesse cenário, as projeções para a dívida pública são de alta contínua ao longo dos próximos anos, sem perspectiva de estabilização como proporção do PIB. A dívida bruta, que terminou 2022 em 71,7% do PIB, deve fechar 2026 em 84,1% do PIB, um aumento de 12,4 pontos percentuais em quatro anos, prevê a Instituição Fiscal Independente (IFI).


Nesta semana, em meio a informações desencontradas, a equipe econômica indicou que vai apresentar medidas de ajuste das contas públicas por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC). Não está claro, porém, o que será apresentado, e nem quando isso vai ocorrer. Uma opção que deve ser usada é aproveitar a necessidade de prorrogar a Desvinculação de Receitas da União (DRU), mecanismo que dá mais flexibilidade ao governo para manejar o orçamento, incluindo outras iniciativas para enfrentar o problema fiscal. Outra ideia cogitada é definir para as despesas obrigatórias um limite de alta de 2,5% acima da inflação, o teto de crescimento de gastos do arcabouço fiscal.


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é que baterá o martelo sobre as medidas a serem anunciadas. Como ele tem mostrado resistência a iniciativas de cortes ou redução do ritmo de crescimento de gastos, a expectativa é que o pacote a ser apresentado não seja dos mais ambiciosos. Na sexta-feira (1), também azedou o humor dos investidores a informação de que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, vai viajar para a Europa na semana que vem. Com isso, as medidas não deverão sair nos próximos dias.


Pressão externa


Além das incertezas sobre as contas públicas, a alta do dólar no mercado internacional e o aumento das taxas dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) têm contribuído para pressionar o câmbio por aqui. O movimento do dólar e dos juros de longo prazo nos EUA reflete a percepção de que o ex-presidente Donald Trump é ligeiramente favorito para vencer Kamala Harris na eleição presidencial, pela avaliação de que o republicano deve adotar políticas que tendem a gerar mais inflação. Para países emergentes como o Brasil, significa mais pressão sobre o câmbio e sobre os juros.


Esses fatores têm levado à alta do dólar por aqui, num movimento que parece exagerado quando se analisa a situação das contas externas e a diferença já elevada entre os juros externos e internos. Uma eventual vitória de Kamala nas eleições americanas pode gerar alguma valorização da moeda brasileira, avalia Romão. As incertezas em relação às contas públicas brasileiras, porém, parecem ser o principal motivo para a alta do dólar. Para que haja um recuo mais significativo da moeda americana, é preciso que o governo anuncie medidas mais firmes para combater a expansão das despesas obrigatórias, o que continua a ser uma grande incógnita. A consolidação da moeda americana em níveis elevados teria efeitos negativos sobre os índices de preços e as expectativas de inflação, com consequências evidentes sobre o ciclo de alta da Selic.


Aluguéis e passagens aéreas mais caras


A pressão do dólar mais caro aparece de modo claro nos bens industriais, diz Romão. Para ele, os preços desses produtos devem subir 2,4% neste ano e 3% no ano que vem. São variações não muito fortes, mas que representam uma aceleração em relação ao 1,1% registrado pelo grupo no ano passado. Se o dólar se mantiver na casa de R$ 5,70 ou R$ 5,80, as estimativas para a inflação dos bens industriais vão, obviamente, subir. Romão lembra ainda que uma moeda americana mais alta também influenciaria os preços de alguns serviços – os aluguéis corrigidos pelo Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M), por exemplo, poderiam sofrer alguma pressão, já que o indicador é bastante afetado pela alta do dólar – o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) tem peso de 60% no IGP-M. O dólar caro também pode bater na formação de preços das passagens aéreas, nota o economista da LCA.


Há também impacto do câmbio sobre os alimentos, mas o que tem mais impulsionado os preços desses produtos é a questão climática, afirma Romão. O grupo alimentação no domicílio, que teve deflação de 0,5% em 2023, pode subir mais de 7% neste ano, com influência significativa dos preços das carnes. A seca e os incêndios em áreas produtos adicionaram pressão às cotações da carne bovina – e antes do que se esperava.


Para completar, os serviços mais sensíveis à demanda ganharam força no IPCA-15 deste mês. No acumulado em 12 meses, esse grupo acelerou de 4,61% em setembro para 5,08% em outubro. Um mercado de trabalho aquecido ajuda a explicar o comportamento desses serviços.


Nesse cenário, ainda que não haja um quadro inflacionário explosivo, um dólar nas alturas é tudo o que a economia brasileira não precisa. O cumprimento da meta de 3% ficará ainda mais distante, e mais juros poderão ser necessários para combater pressões sobre os preços.


 


 


Piora no cenário econômico fará BC acelerar ritmo de alta da Selic para 0,5 ponto, dizem economistas/ Risco fiscal e desvalorização do câmbio colocam pressão sobre decisão do Copom nesta quarta (6)- Folha SP 3/11


Nathalia Garcia


Com a piora no cenário econômico nos últimos 45 dias, o Copom (Comitê de Política Monetária) deve acelerar o ritmo de alta de juros nesta quarta-feira (6) para 0,5 ponto percentual, elevando a taxa básica Selic a 11,25% ao ano.


Economistas ouvidos pela Folha veem necessidade de um choque maior de juros para levar a inflação para a meta devido a uma série de fatores, sobretudo ao risco fiscal.


Depreciação cambial, diante de incertezas no ambiente internacional com as eleições nos EUA, piora adicional nas expectativas de inflação e resiliência da atividade econômica colocam pressão adicional sobre a decisão do colegiado do Banco Central.


Na última sexta (1º), a cotação do dólar chegou a R$ 5,868, refletindo a inquietação do mercado financeiro enquanto o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não anuncia seu pacote de medidas de corte de gastos. Isso somado às incertezas acerca da votação eleitoral nos EUA, com a possibilidade de vitória de Donald Trump.


No encontro de setembro, o Copom considerou em seu cenário de referência o dólar a R$ 5,60. A forte alta da moeda americana em um curto espaço de tempo traz impacto para as expectativas de inflação, que seguem se distanciando do centro do alvo de 3% –com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.


Claudio Ferraz, economista-chefe para Brasil do BTG Pactual, avalia o cenário para política monetária como bastante desafiador e diz que o distanciamento das expectativas de inflação da meta vem de um longo período.


"Desde o ano passado, quando se discutiu o tema da revisão da meta, ficou uma cicatriz. Isso acabou se avolumando nas preocupações com o cenário fiscal e o ritmo de crescimento das despesas bastante significativo", afirma.


Na visão dele, um "mero anúncio" do governo não será suficiente para convencer o mercado e melhorar as projeções. "Os detalhes vão ser muito importantes. Mas, no estágio atual, é importante não só os detalhes, mas o avanço concreto das medidas", diz.


O BTG admite rever seu cenário para o tamanho total do ciclo de alta de juros caso persistam as dificuldades no cenário fiscal e o ambiente externo fique mais adverso. Quanto à comunicação, Ferraz espera que o Copom deixe seus próximos passos em aberto.


Para Leonardo Costa, economista do ASA, um dos motivos para o BC optar por uma alta de juros mais intensa é a inflação corrente –especialmente a de serviços–, que continua em um patamar bastante elevado. Olhando à frente, ele ressalta o reflexo do choque inflacionário sobre o preço dos alimentos como motivo de preocupação.


No horizonte, aponta também a questão fiscal como principal ameaça. "Ainda tem muita dúvida se o arcabouço se mantém de pé e não parece ter sido endereçado o risco fiscal de continuidade de crescimento da dívida pública", diz.


Em agosto, a dívida bruta do Brasil ficou em 78,5% do PIB (Produto Interno Bruto). Já são 14 meses consecutivos de alta, trajetória iniciada em junho de 2023. O governo Lula já vê a dívida bruta acima de 81% do PIB a partir de 2026, último ano do mandato do presidente.


Heron do Carmo, professor da FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo) e especialista em inflação, afirma que não está descartada a possibilidade de o índice beirar 5% neste ano. No cálculo, ele leva em consideração a base comparativa de 2023, com IPCA mais baixo na reta final do ano, e a tendência de alta de preços de alimentos, principalmente da carne.


Conforme o boletim Focus da última segunda (28), o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) deve terminar o ano em 4,55%, acima do teto da meta perseguida pelo BC. Para 2025 e 2026, os analistas projetam 4% e 3,6%, respectivamente.


No "caldeirão", o professor vê pressões inflacionárias vindas de um crescimento mais forte da economia, de um cenário internacional "confuso" e da deterioração da situação fiscal.


"Tem que pelo menos gerar um resultado que faça com que a relação dívida/PIB não aumente no ritmo que vem aumentando e dar previsibilidade adiante. [...] É simplesmente ajustar a trajetória de gasto. Isso tem que ser feito o mais rápido possível, porque senão vai comprometer a trajetória da inflação para frente", diz.


Andrea Damico, economista-chefe da Armor Capital, afirma que a nova rodada de depreciação cambial impõe pressão adicional na inflação no curto e médio prazo.


Se Trump for eleito presidente dos EUA, ressalta que a agenda inflacionária do candidato republicano pode atrapalhar o ritmo de corte de juros do Fed (Federal Reserve) e dar ainda mais força ao dólar ante as moedas de economias emergentes, como a do Brasil.


Ela também destaca que o país passa por um momento de vulnerabilidade por elevação do prêmio de risco [rentabilidade adicional cobrada pelos investidores no Brasil].


"O mercado está nessa ansiedade para conhecer o pacote fiscal e, do outro lado, o governo está ainda nessa fase de negociação e não dá muita clareza de quando vai ser anunciado. Então, existe um certo choque de expectativas e realidade", diz.


Em eventos em Washington, os membros do BC alertaram repetidas vezes que o risco fiscal adicionou prêmios às expectativas e aos preços de ativos e que, se não houver um choque positivo nas contas públicas, não será possível diminuir a Selic.


Além da questão fiscal, Rafael Cardoso, economista-chefe do departamento de Pesquisa Econômica do banco Daycoval, joga luz sobre a "dupla face" do mercado de trabalho aquecido e seu efeito sobre a inflação. "Se os salários para os trabalhadores é renda e, portanto, sanciona a demanda, da ótica do empresário, salário é custo", afirma.


Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desemprego do Brasil marcou 6,4% no terceiro trimestre. O órgão associou a queda da desocupação ao cenário de atividade econômica e avaliou que há um aquecimento da economia via consumo.


Diante de todos os fatores que dificultam o trabalho do BC, Cardoso espera unanimidade entre os membros do Copom em torno de uma alta de 0,5 ponto percentual.


Para ele, é difícil ter uma divergência com voto favorável à manutenção do ritmo de 0,25 ponto e vê chance de discussão sobre um choque ainda mais intenso. "Mas entendo que diretores deveriam não gerar ruído nesse momento e reafirmar unanimidade", acrescenta.


 


Selic teria de subir a 15% para a inflação convergir para a meta, diz XP Asset / Em seu cenário básico, gestora projeta a taxa de juros em 13% em meados do próximo ano- Valor 3/11


Gabriel Caldeira


Para que a inflação convirja para a meta de 3% dentro do horizonte relevante da política monetária, o Banco Central teria de aumentar a taxa Selic para, pelo menos, 15% no atual ciclo de aperto monetário, observa o economista-chefe da XP Asset Management, Fernando Genta, cuja projeção oficial aponta para um juro básico bem menor que esse nível, em torno de 13% em meados do próximo ano.


Na visão de Genta, o ciclo de aperto teria de compensar não só a política fiscal expansionista, como também o efeito do último ciclo de queda dos juros, que levou a taxa Selic de um pico de 13,75% para 10,5% entre agosto de 2023 e maio deste ano.


“Não acho que esses 15% são exagerados. O problema é o quanto de desinflação a gente tem que colocar numa economia que está crescendo acima do seu potencial”, diz o economista, que já foi secretário adjunto no Ministério da Economia. Para ele, o BC vai optar por uma convergência mais longa da inflação à meta, com um ciclo de aperto mais contido.


No cenário-base da XP Asset, a Selic deve subir para 13% até a primeira metade de 2025, em um ritmo de elevação de 0,5 ponto percentual — a começar pela reunião do próximo dia 6. “Quando eu olho o atual conjunto de informações, acho que ele deveria fazer ainda mais rápido, mas as sinalizações dos diretores não vão nessa direção”, afirma o economista, para quem o BC deve manter os juros nos níveis mais altos desse ciclo até o fim do ano que vem.


Na avaliação de Genta, mesmo com uma política monetária mais restritiva dentro das projeções do relatório Focus, as estimativas de inflação do BC devem apresentar nova deterioração quando forem apresentadas na próxima semana.


Em um ambiente de “dinâmica de atividade forte no Brasil, expectativas desaconradas e inflação corrente acima da meta”, o Copom tem os ingredientes necessários para acelerar o ritmo da alta de juros, diz Genta. Isso não significa, porém, que a comunicação deve adotar um tom mais duro que indique o ritmo de 0,5 ponto como padrão daqui em diante.


“Uma vez que o presidente do BC (Roberto Campos Neto) insiste em dizer que há excesso de prêmio [nos ativos], me surpreenderia alguma coisa no comunicado que sinalizasse uma aceleração”, diz Genta. Para ele, são “confusas” as observações recentes de Campos Neto sobre a possibilidade de algum exagero no prêmio de risco fiscal precificado pelo mercado.


“O hiato do produto [medida de ociosidade da economia] foi substancialmente revisado para cima. O BC apontou a política fiscal, o mercado de crédito e o mercado de trabalho — que derivam do expansionismo fiscal — como as principais causas. Se o BC realizou essa mudança abrupta por causa do fiscal, tenho muita dificuldade em entender o presidente do BC falando que o mercado está exagerando o prêmio de risco”, enfatiza o economista da XP Asset.


Cenário econômico para o BC ficou mais desafiador desde setembro, diz Bahia Asset / Gestora carioca projeta taxa de juros em 13% em meados do próximo ano- Valor 2/11


Gabriel Caldeira


A desancoragem contínua das expectativas de inflação em relação à meta de 3%, um mercado de trabalho ainda aquecido e a incerteza externa derivada da eleição presidencial nos Estados Unidos formam um conjunto de fatores que torna o cenário atual mais desafiador para a condução da política monetária em comparação com a conjuntura da última reunião do Copom, em setembro, na avaliação do economista-chefe para Brasil do Bahia Asset Management, Luiz Felipe Maciel.


Por isso, Maciel acredita que o BC acelerará o ritmo do ciclo de aperto monetária a 0,5 ponto percentual na próxima quarta-feira, 6 de novembro, e, com altas de igual magnitude, levará a Selic para 13% no ano que vem, mantendo a taxa nesse nível ao menos até o fim de 2025.


“[O BC] Vai ter que continuar a falar duro para tentar trazer as expectativas de inflação para a meta o mais forte que conseguir”, diz Maciel. O economista espera que as projeções de inflação do Copom subam mais na semana que vem, mesmo com o relatório Focus contemplando uma Selic mais elevada. Ele destaca a taxa de câmbio, que depreciou, e a força do mercado de trabalho, que pressiona os salários e tende a dar mais fôlego à inflação de serviços.


Além disso, Maciel não enxerga uma diminuição do estímulo fiscal relevante em 2025, o que deve manter a economia aquecida e a inflação, pressionada. “Há estímulos em benefícios à população mais propensa a gastar. Tem uma injeção fiscal ainda em curso, estados e municípios também estão gastando”, diz. Se o governo entregar um ajuste fiscal relevante, no entanto, o BC poderia ter algum alívio. “Seria um primeiro sinal concreto, desde que o governo assumiu, de que os gastos podem ser menores.”


De qualquer forma, na conjuntura econômica atual, o balanço de riscos da inflação aponta para juros ainda mais elevados do que a projeção de 13% do Bahia Asset, avalia Maciel. “Com a taxa de desemprego indo a 6%, todo mundo vai ter que revisar as projeções de inflação”, avalia.


 


José Roberto Mendonça de Barros- Desaceleração da China é inevitável- Estadão 3/11


Retomo meu último artigo: a desaceleração da China é inevitável e terá grandes consequências na arena global e em nosso País. Vejam os leitores que há várias semanas o governo chinês vem soltando medidas para reativar os mercados, sem grande sucesso.


Outro indicador do ceticismo dos analistas, com o qual concordo e que reputo importante, é a fraqueza do mercado de petróleo. Mesmo com todo o pacote chinês, a cotação do Brent não descola dos US$ 70 por barril. A demanda por óleo vem sendo revisada para baixo e parece claro que, ante o mínimo sinal da possibilidade de um cessar-fogo no Oriente Médio, veremos os preços irem para a faixa dos US$ 65 – vale lembrar que a Arábia Saudita começará a bombar mais produto a partir de setembro. Não será a demanda chinesa que vai sustentar o mercado.


Mas, a meu ver, a acelerada queda da população e seu envelhecimento são o centro do problema. Os jovens não querem ou postergam os filhos porque têm idosos para sustentar e têm receio de não poder pagar os custos de uma boa educação, especialmente em um momento de alto desemprego dos recém- formados. A projetada queda de 200 milhões de pessoas até 2054 é sem precedentes num país onde a renda per capita ainda é baixa. O temor de ficar velho antes de ficar rico parece ter fundamento.


Com isso, o consumo interno tende a crescer mais lentamente, ao contrário do que acontece em outros países da Ásia, até porque parte dos investimentos estrangeiros antes canalizados à China agora busca Índia e outros destinos na região.


Ao mesmo tempo, a preocupação com segurança tem limitado a expansão de empresas inovadoras. As exportações também terão mais dificuldades de crescer porque, especialmente nos países ricos, uma ativa política de bloqueio de comércio está se desenvolvendo. Isso é particularmente visível no segmento de carros elétricos e de matérias-primas básicas.


Somando tudo, a economia chinesa irá desacelerar lentamente para a faixa de 4% ao ano. Por outro lado, a população americana seguirá crescendo: a ONU estima que, entre 2023 e 2050, passará de 343 milhões para 380 milhões de habitantes.


O consumo e o PIB vêm se expandindo de forma robusta e o progresso técnico tem sido impressionante.


Apostar que a China será a ganhadora na arena global, sobrepujando um “império decadente”, parece um lance excessivamente ousado. Melhor faria o Brasil cultivar relações amistosas e construtivas com todos os líderes globais.


 


Infraestrutura: BNDES acumula R$ 78 bilhões em aprovações de crédito ao setor / Maior parte R$ 40,8 bilhões) foi concedida entre janeiro e setembro deste ano- Painel S.A- Folha SP 3/11


O BNDES retomou o apoio aos projetos de infraestrutura e, de janeiro e 2023 a setembro deste ano, aprovou R$ 78,3 bilhões, mais do que os R$ 67,9 bilhões acumulados entre 2019 e 2022.


Somente neste ano, o banco deu aval para R$ 40,8 bilhões em crédito ao setor –8% mais do que todo o ano de 2023 (R$ 37,6 bilhões). Na série histórica, iniciada em 1995, o maior valor aprovado para a infraestrutura foi registrado em 2014 (R$ 50,8 bilhões).


Hoje, o banco compete com instituições comerciais no financiamento à infraestrutura. Mesmo assim, busca ampliar essa carteira, especialmente com a nova política industrial, que permite oferta de juro subsidiado (TR, a Taxa Referencial) para projetos ligados à transição energética, por exemplo.


"As obras de infraestrutura, do saneamento às rodovias, são essenciais para impulsionar outros setores, estimular a produção industrial e escoar a produção agrícola", disse o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.


Com Diego Felix


 


Indústria retoma espaço no BNDES sob Lula e ensaia ultrapassar o agro / Movimento é observado após plano de crédito e subsídios voltado ao setor e melhora na atividade- Folha SP 3/11


Fábio Pupo


Após o governo Lula (PT) lançar um plano de crédito e subsídios à indústria, o volume de empréstimos aprovados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) ao setor é o maior em relação ao total em oito anos. De acordo com a instituição, o volume liberado de janeiro a setembro supera o montante destinado ao agronegócio –algo que não se via desde 2016.


O movimento é observado em meio à melhora da atividade no setor e à maior procura por financiamento após a criação das linhas do plano Nova Indústria Brasil, lançado em janeiro. A demanda dobrou neste ano, na comparação com um ano antes.


Apesar de a fotografia ser comemorada pelos representantes da iniciativa privada, o cenário para o ano que vem ainda é visto com cautela. Entre as causas, estão desde motivos já presentes há muitos anos –como a falta de competitividade e a concorrência com a China– até fatores mais recentes como o atual ciclo de aumento da taxa básica de juros (a Selic).


José Luis Pinho Leite Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, afirma que a instituição está em um processo de gradual retomada do apoio ao setor após os números observados nos últimos governos.


"Nos anos anteriores aos do governo do presidente Lula, a indústria foi totalmente deixada de lado. O BNDES deixou de apoiar o setor industrial no sentido não só de financiamento, porque diminuiu muito, mas também deixou de ter uma diretoria que olhava para a indústria", afirma.


Ele diz que, no acumulado de janeiro a setembro, o setor contou com 27% de todo o crédito aprovado pelo BNDES –em comparação, a agropecuária ficou com 26%. No mesmo período do ano passado, a ordem era inversa. O campo ficou com 31% e as fábricas, com 18%.


"Estamos nos reaproximando do setor industrial sem deixar de apoiar os outros. Não queremos deixar de apoiar o agro nem a infraestrutura", afirma. "O agro também demanda máquinas e equipamentos do setor industrial. Não queremos deixar de apoiar isso".


A maior aprovação, no entanto, não aproxima os números aos do passado. Em meados dos anos 1990, por exemplo, a indústria liderava as aprovações e chegou a obter mais de 50% dos recursos concedidos pela instituição (ao longo dos anos, a infraestrutura passou a ser a campeã).


"Você não sai do nada e volta ao que era lá em 2010, no governo Lula, que era 40% [de aprovação para a indústria]. Você vai caminhar aos pouquinhos. E é isso que nós estamos fazendo", afirma Gordon.


Os números observados até meados do ano mostram que os segmentos de alimentos e bebidas (25% do total à indústria), mecânica (18%), química e petroquímica (12%) e transportes (12%) lideram as aprovações no setor.


A maior atenção à indústria vem no momento em que o BNDES como um todo tem emprestado mais. Nos últimos 12 meses até junho (último período com dados completos consolidados), foram aprovados R$ 208 bilhões aos diferentes setores. O valor representa o dobro do verificado dois anos antes (a preços constantes).


O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, destacou em evento no Palácio do Planalto o momento de aumento de investimentos do setor. "Depois de muito tempo, presidente [Lula], é a primeira vez que a indústria lidera o crescimento nesse último trimestre. E o investimento lidera o crescimento", disse na quarta-feira (30).


Mário Sérgio Telles, superintendente de Economia da CNI (Confederação Nacional da Indústria), afirma que o aumento que vem sendo observado neste ano é influenciado pela atividade mais aquecida no país e por um "efeito psicológico" gerado pelo plano do governo —com empresas buscando mais o BNDES devido ao anúncio.


"O BNDES tinha se fechado bastante para todos os setores e as aprovações tinham caído muito", diz. "É um momento de inflexão importante, com demanda maior, um mercado de trabalho crescendo e concessões de crédito avançando. As aprovações para a indústria cresceram significativamente em 2023 e estão crescendo neste ano em relação ao mesmo período do ano passado", afirma.


Apesar disso, ele faz ressalvas sobre a condição geral do setor e afirma que o custo de financiamento é apenas um dos grandes problemas da indústria. "Não é um momento espetacular. Longe disso", afirma.


Dados compilados pela CNI mostram que produção, faturamento, emprego e intenção de investimento na indústria cresceram nos últimos meses. A utilização da capacidade instalada, por outro lado, mostra uma melhora em agosto ainda com margem de elevação sem pressão nos preços.


"Você tem problema tributário, custo de energia, custos de infraestrutura e, vamos lembrar, nos últimos 15 anos tivemos a crise do Lehman Brothers e um crescimento muito grande da concorrência chinesa. Essa conjunção de fatores é que resultou nessa perda de competitividade da indústria brasileira", afirma.


Robson Gonçalves, economista e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), diz que os números vistos agora não necessariamente representam uma tendência e que o país vive um cenário de desindustrialização.


"O BNDES sozinho não conseguiria mudar isso. Você precisaria de uma política industrial. O governo anunciou uma; mas, depois disso, as importações de aço e vidro, por exemplo, aumentaram. O material de construção vindo do exterior praticamente dobrou em relação há alguns anos. Isso é desindustrialização", afirma.


Para ele, o cenário é de incertezas. "A demanda de recursos de longo prazo do BNDES exige que haja projetos de investimento. E, para que haja esses projetos, as empresas têm que ter um horizonte de investimento no qual confiam", diz.


"O que está tendo é um ambiente de negócios de incerteza do cenário internacional, de política econômica, das brigas recentes entre governo e Banco Central, de briga entre Legislativo e Judiciário. Nada disso ajuda."


Empresas fazem até rodízio de equipes por falta de mão de obra qualificada / Apenas na construção, reclamação por escassez de mão de obra é a maior em dez anos, aponta FGV; queixa atravessa setores- Folha SP 3/11


Douglas Gavras


Reflexo de um mercado de trabalho aquecido, a falta de mão de obra qualificada no país tem desafiado diferentes setores a buscarem alternativas para manter e aumentar a produção.


Em setembro, o Brasil abriu 247.818 vagas formais, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, com saldo positivo em todos os estados.


O cadastro considera apenas vagas formais e mostra que o setor de serviços liderou essa abertura de oportunidades, com 128,4 mil postos, seguido pela indústria (59,8 mil), comércio (44,6 mil) e construção (17 mil). A agropecuária perdeu 2.000 postos.


Mas agora, assim como na década passada, a construção civil é um dos primeiros a sentir os efeitos da falta de trabalhadores capacitados, e a série histórica de uma sondagem feita com empresas pelo FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) ajuda a dimensionar o problema.


Em setembro deste ano, 29,4% dos empresários da construção apontaram a escassez de mão de obra qualificada como fator que limita o desenvolvimento de negócios —é o patamar mais alto desde o fim de 2014.


Os anos pré-crise de 2014 a 2016 foram de aquecimento do mercado imobiliário —e a consequente falta de trabalhadores. Os jornais na época registravam oferta de vagas para engenheiros recém-formados, a vinda de profissionais de outros países e aumentos salariais para toda a cadeia da construção.


"Desde o ano passado, a falta de mão de obra qualificada voltou a ganhar relevância e se manteve como limitação para as empresas", diz Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos de Construção do FGV Ibre.


"O período até 2013 foi de grande crescimento do setor imobiliário, com Minha Casa, Minha Vida, obras da Copa e das Olimpíadas. Era uma economia que estava crescendo. Agora, o ritmo é mais lento, mas as preocupações do setor começam a crescer."


Em julho, a instituição perguntou ao setor o que as empresas estavam fazendo para contornar a dificuldade de contratação. No total, 33,1% disseram ter aumentado a remuneração, 51,5% investiram em treinamento e 46% adotaram rodízio de equipes, deslocaram trabalhadores entre obras, por exemplo.


De acordo com Gustavo Siqueira, vice-presidente de recursos humanos para América Latina na fabricante para o mercado de construção Saint-Gobain, o foco está em reter e atrair profissionais qualificados por meio de um ambiente de trabalho positivo, desenvolvimento de colaboradores e ações concretas.


O grupo oferece trilhas de desenvolvimento contínuo para competências técnicas.


"Buscamos sempre manter as contratações como prioridade em nossas atividades, mesmo trazendo cada vez mais tecnologia e inovação ao setor. Nossas estratégias de desenvolvimento de pessoas não só preenchem as lacunas de habilidades, mas também contribuem para a retenção e motivação da nossa equipe", diz.


Segundo Tatiane Cardoso de Paula, diretora de RH da Saint-Gobain Canalização, o grupo também tem investido em treinamentos e iniciativas de desenvolvimento, entre as quais um programa de mentoria para jovens talentos da organização.


Apesar do problema, Castelo ressalta que é preciso olhar em perspectiva e considerar que o mercado de trabalho aquecido reflete o contexto de investimentos já realizados.


"A tendência é que a construção permaneça aquecida ainda por algum tempo, mas o aperto nas regras de crédito imobiliário e o aumento dos juros devem ter um efeito de arrefecimento lá na frente."


O mercado de consumo mais forte também anima as calçadistas, apesar de uma redução prevista no comércio internacional com a queda das compras da Argentina e a concorrência com os asiáticos.


"O nosso problema também é a falta de mão de obra capacitada", diz João Marcelo Fernandes, gerente de Recursos Humanos da Kidy. Após o período crítico durante a pandemia, ele conta que a marca produz 16 mil pares por dia, e surgiu a necessidade de contratar pessoal.


Com isso, a fabricante optou por renovar cargos, deixando-os mais atrativos para que os funcionários mais novos permaneçam na empresa e busquem posições internas, além de contar com um programa de capacitação do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).


"Temos planos para 40 novos aprendizes, com um programa de apadrinhamento." As medidas para contornar a falta de profissionais com múltiplas capacitações ainda incluem formar auxiliares que em determinado período vão para as mesas de corte, serigrafia e injeção. Também há incentivo à formação universitária da equipe, diz.


Dados da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) a partir do Caged mostram que o setor encerrou agosto com saldo positivo de 12,4 mil postos.


"A falta de pessoal capacitado está acontecendo no nosso e em outros setores. Quando há uma dificuldade de contratação, o problema tem origens positivas, mas pode ser uma dor de cabeça", diz o presidente-executivo da entidade, Haroldo Ferreira.


"É similar ao que ocorreu até 2013, o que mudou é que hoje há também possibilidade do candidato ir trabalhar nas plataformas digitais —e isso é uma concorrência para indústria de transformação."


"Com a indústria 4.0, ocorreu um boom tecnológico e a necessidade de mão de obra que nós temos, ligada à tecnologia, é a mesma que o supermercado e o mercado financeiro têm", diz João Alfredo Delgado, diretor-executivo de Tecnologia da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos).


A indústria passou a concorrer com todos os setores pelo mesmo tipo de profissional, avalia.


Segundo ele, as empresas do setor têm investido em programas de aprendizagem industrial e buscam se aproximar da mão de obra mais jovem. "Não sei se a geração Z quer uma carreira de longo prazo, mas ela ainda tem uma visão distorcida da indústria. Vejo pelos meus filhos, que adoram jogos, mas não percebem que o maior parque de diversões é a indústria, onde eles podem receber para programar robôs reais."


Semana de leilões tem R$ 24 bi de investimento em rodovias, saneamento e escolas / Economistas avaliam que União e governos estaduais tiveram bons resultados com certames, apesar de falta de concorrência no Piauí- Foha SP 3/11


Pedro S. Teixeira


A série intensa de leilões realizada ao longo da semana terminou nesta sexta-feira (1º) com arrecadação de R$ 3,76 bilhões pela União e os governos de São Paulo e Piauí, além da garantia contratual de R$ 24,15 bilhões em investimentos em escolas, rodovias e saneamento.


As empresas, em contrapartida, poderão explorar pedágios em Minas Gerais e São Paulo, a cobrança pelo serviço de água e esgoto no Piauí e a venda de bilhetes lotéricos em território paulista.


Os resultados foram considerados positivos para os governos estaduais e o federal por economistas consultados pela Folha.


Para o fundador da Inter.B Consultoria, Claudio Frischtak, avançar nas concessões é fundamental para tratar do déficit em saneamento básico e infraestrutura. "O Estado brasileiro não tem os recursos para investir e é necessário atrair o capital privado."


O professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP Paulo Feldmann defende que os leilões geram melhores propostas para a administração pública do que as licitações, mas ressalva que o governo precisa ter cautela para manter concorrência. "O caso da Eletropaulo, da qual eu fui presidente na época da privatização, mostra que a concessão pode gerar um monopólio ruim para o consumidor."


Nas últimas semanas, se intensificaram as críticas à distribuidora de energia Enel pelos prolongados períodos sem luz em São Paulo após tempestades. No fim do mês passado, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) intimou e empresa num processo relacionado ao apagão que afetou 3,1 milhões de clientes na Grande São Paulo e deixou residências até seis dias sem luz.


Nos leilões da B3 nesta semana, o menos disputado foi o relacionado à concessão dos serviços de água e esgoto do em 222 municípios do Piauí, que teve apenas uma proposta, da Aegea, que já administra o saneamento da capital, Teresina. O grupo ofereceu um desconto de 1% sobre a tarifa básica mais o pagamento da outorga mínima de R$ 1 bilhão, saindo ganhador do certame.


"O caso do saneamento é idêntico ao da eletricidade, são poucas empresas no mercado e menos ainda com interesse de atuar em locais afastados", diz Feldmann.


Frischtak, por outro lado, avalia que as condicionantes do marco do saneamento básico farão a companhia ampliar o atendimento a regiões descobertas há anos pela estatal Agespisa. "O valor da outorga é pouco relevante, ajuda os cofres dos estados, mas o que interessa é ter um serviço mais capacitado para o usuário e isso é garantido pela concessão", afirma.


O ativo que gerou mais interesse foi a Rota Sorocabana, leiloada na quarta-feira (30), sob disputa de quatro concorrentes que já atuam no setor de infraestrutura.


O lance da concessionária CCR de R$ 1,601 bilhão representou um ágio de 168% sobre o lance mínimo estipulado pela Secretaria de Parceria em Investimentos do Estado de São Paulo, em R$ 597,5 milhões. Com volume de investimentos de R$ 8,8 bilhões e extensão de 460 km, a Rota Sorocabana faz parte dos 1.800 km de rodovias qualificadas no PPI-SP (Programa de Parcerias de Investimentos do Estado de São Paulo).


Nesta sexta-feira (1º), Tarcísio afirmou que sua equipe planeja atrair R$ 20 bilhões em investimento privado até o fim deste ano. "Estamos falando de uma gestão que vai trazer, em todos os setores, no industrial, na infraestrutura, mais de R$ 1 trilhão nos próximos anos."


O ministro Renan Filho (Transportes), que nesta semana ressaltou à Folha ter realizado mais leilões em um ano e meio do que Tarcísio nos quatro anos de governo Jair Bolsonaro (PL), comandou a venda dos direitos de exploração da Rota do Zebu. O trecho liga as cidades mineiras de Uberaba e Betim, na Grande Belo Horizonte. O certame se encerrou com o arremate da gestora Kinea, por um deságio sobre a tarifa básica de 15,3%. O projeto determina ainda R$ 4,4 bi em investimentos.


Atores conhecidos do público por outras atividades também se destacaram. A firma Engeform Engenharia Ltda, que gere os cemitérios de São Paulo, foi a escolhida pelo governo estadual para construir 17 novas escolas em um ano e meio. Será ainda responsável pela manutenção das sedes por 23 anos e meio.


O das escolas aconteceu na terça-feira (29), sob protestos dos sindicatos.


A previsão é que durante todo o contrato, o governo do estado pague R$ 3,38 bilhões para o consórcio. Em contrapartida, a empresa terá que investir, segundo cálculos do secretariado de Tarcísio, R$ 1,1 bilhão para a construção das escolas e gastar R$ 1,25 bilhão para a manutenção.


O certame já foi judicializado e chegou a ser suspenso pela Justiça, mas liminar sobre o tema foi derrubada pelo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Fernando Antonio Torres Garcia.


O leilão da Loteria do Estado de São Paulo, por sua vez, teve como protagonista o ex-secretário de Avaliação, Planejamento, Energia e Loteria do antigo ministério da Economia, Alexandre Manoel da Silva, que atuava sob o comando de Paulo Guedes. O certame abriu caminho para a criação da loteria estadual, após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de 2020 permitir a concorrência dos entes federativos com a Caixa.


Ainda no governo de Michel Temer (MDB), em 2018, Silva representou a presidência no debate que levou à legalização das apostas esportivas no Congresso em dezembro daquele mesmo ano. Ele foi exonerado em março de 2020 em ato administrativo assinado pelo ex-ministro da Casa Civil Walter Braga Neto.


Com investimento português, Silva retorna ao tema das apostas, agora como ator interessado. O estado, que cobrará uma taxa de 35% sobre as receitas da loteria, espera levantar R$ 3,4 bilhões com a atividade com previsão de inauguração para 2025.


A cifra indica que os negócios devem render R$ 6,3 bilhões ao consórcio Aposta Vencedora liderado por Silva. O governador Tarcísio diz estar certo de que os valores serão ainda maiores.


Veja resultados dos leilões na B3:


Novas escolas em SP (lote 1)


Investimento: R$ 2,35 bilhões

Prazo: 25 anos

Custos para governo: R$ 3,38 bilhões

Serviço de esgoto e água do Piauí


Investimento: R$ 8,6 bilhões

Prazo: 35 anos

Outorga: R$ 1 bilhão

Rota Sorocabana (SP)


Investimento: R$ 8,8 bilhões

Prazo: 30 anos

Outorga: 1,601 bilhão

Rota do Zebu (MG)


Investimento: R$ 4,4 bilhões

Prazo: 30 anos

Deságio no pedágio: 15,3%

Loteria Estadual (SP)


Prazo: 15 anos

Outorga: R$ 600 milhões

Fontes: SPI (Secretaria de Parcerias em Investimentos de São Paulo), Governo do Piauí e Ministério dos Transporte


 


Sem licença para Foz do Amazonas, Petrobras volta a investir na Bacia de Campos para elevar reservas / Empresa prepara plano que deve superar US$ 22 bilhões para revitalizar região. Área, que já foi a maior produtora de petróleo e gás do país, completa 50 anos de descoberta neste mês- O Globo 3/11


Bruno Rosa


A Bacia de Campos, que já foi a principal região produtora de petróleo do país, completa neste mês 50 anos de sua descoberta prestes a recuperar um lugar de destaque na estratégia de crescimento da Petrobras.


Apesar do avanço do pré-sal na Bacia de Santos, a região entre o litoral do Rio e o do Espírito Santo voltou a figurar como aposta prioritária da estatal para elevar suas reservas em meio às incertezas sobre a licença ambiental para explorar a área chamada de Foz do Amazonas, na Margem Equatorial, no litoral norte do país, que já foi negada uma vez.


Na semana passada, um parecer de técnicos do Ibama recomendou a rejeição do recurso da Petrobras, mas o órgão encaminhou novos questionamentos à estatal antes de decidir.


Enquanto responde, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, quer acelerar os investimentos na revitalização da Bacia de Campos, que levou a Petrobras a desenvolver alta tecnologia de produção em águas profundas e colocou a estatal no mapa global do petróleo.


Com essa fronteira petrolífera, em dez anos a companhia triplicou sua produção, até então majoritariamente terrestre, passando de 200 mil barris por dia para 600 mil entre 1974 e 1984.


Agora, segundo a própria Magda, especializada em engenharia de reservatórios, há um potencial de tirar dali a mesma quantidade de óleo e gás produzidos desde os anos 1970, com novos poços, técnicas de revitalização de poços maduros e o reaproveitamento de plataformas, cujas aposentadorias foram suspensas.


Na indústria do petróleo, obstáculos geológicos impedem a retirada de todo o conteúdo dos reservatórios. A Petrobras avalia que é possível tirar mais.


— A produção de Campos tem hoje um fator de recuperação de 17% no seu total. Entendemos que pode produzir nos próximos 40 a 50 anos quem sabe a mesma quantidade de petróleo que produziu até hoje. Estamos voltados para o aproveitamento da Bacia de Campos — disse Magda, recentemente em evento.


A executiva quer acelerar um plano de revitalização da bacia, que ganha corpo desde a década passada, quando a companhia era liderada por Graça Foster. O antecessor de Magda, Jean Paul Prates também iniciou esforços na região, que hoje responde por 20% da produção própria da estatal, cerca de 450 mil barris por dia.


Levando em conta as áreas já em produção, a intenção é alcançar 600 mil até 2028. Para isso, a expectativa é que a Bacia de Campos receba investimentos superiores aos US$ 22 bilhões do último plano de negócios da Petrobras, que está finalizando o novo, para o período 2025-2029, e deve apresentá-lo em dezembro.


Uma das iniciativas é a instalação de cinco novas plataformas nos campos Marlim Leste/Sul, Jubarte, Albacora, Barracuda-Caratinga e Raias Manta e Pintada. A Petrobras já tem hoje em Campos 37 plataformas e 327 poços em 14 campos. Prevê 100 novos poços, que serão interligados às novas unidades de produção e às já instaladas.


Nove áreas devem passar a receber aportes, e a empresa vai buscar novas oportunidades nos campos de produção. “O programa de revitalização da Bacia de Campos é o maior de recuperação de ativos maduros em águas profundas no mundo”, limitou-se a Petrobras em nota.


Enquanto aguarda o sinal verde do Ibama na Margem Equatorial e avança nos estudos do potencial da Bacia de Pelotas, no litoral sul do país, Magda tem dado o tom da nova estratégia que envolve tirar mais de Campos: “Toda gota de petróleo importa”.


Custo é desafio


Recentemente, a executiva revelou que a estatal iniciou estudos para reaproveitar em Campos plataformas que seriam descartadas, como P35, P37, P47 e P19.


Segundo o gerente-geral da Unidade de Negócios de Exploração e Produção da Bacia de Campos da Petrobras, Alex Murteira Celen, a P-51, uma plataforma do tipo submersível, também terá sua vida útil estendida em Marlim Sul.


Ela produz 30 mil barris diários a 175 quilômetros de Macaé em uma profundidade de 1.250 metros. Terminaria a vida útil em 2034, mas, com reforma e manutenção, ficará no mar até 2052. Já estão aprovados investimentos de US$ 600 milhões até 2048.


Luiz Hayum, analista principal de E&P da Wood Mackenzie, vê desafios do plano, sobretudo, na contratação de novas plataformas, cujos preços subiram 40% desde 2021:


— Vemos dificuldades para contratar novas plataformas. Esses projetos (de revitalização) têm margens (de lucro) menores, pois não são tão rentáveis quanto os do pré-sal, e há pouco espaço para absorver custo maior. Soma-se a isso a falta de licença para Foz, o início do estágio exploratório na Bacia de Pelotas e o menor volume de descobertas no pré-sal nos últimos anos. Estamos vendo um problema de renovação de portfólio. Assim, a Petrobras vê novas oportunidades nos campos maduros.


Outros especialistas veem na Bacia de Campos espaço para recuperação adicional, também em curso nas áreas de outras petroleiras, como Shell, Brava, Prio e Equinor. Estima-se que, até hoje, só cerca de 15% de todo o petróleo depositado na região foram extraídos, metade da média de outras regiões produtoras no mundo, como o Golfo do México e o Mar do Norte, que superam 30%, segundo avaliação de Hayum.


Especialistas lembram que, com as novas tecnologias para vencer obstáculos geológicos, a produtividade das áreas em Campos pode elevar o volume recuperável para 40%.


A Petrobras cita o caso do campo de Marlim, onde está a P-51. Com a revitalização, estima ali 860 milhões barris adicionais: “O número considera o total a ser produzido até 2048, previsto para o final do prazo de concessão. Antes da revitalização, a expectativa era de que a produção de Marlim se encerrasse em 2025 com a devolução”, diz a empresa.


Fronteira tecnológica


Segundo consultores, uma vantagem em termos de custo é perfurar novos poços onde já há infraestrutura. Além disso, a Petrobras está na fronteira de tecnologias para revitalizar campos, como as novas técnicas de sísmica 3D e 4D, que capta informações constantemente e permite conhecer a trajetória do petróleo no reservatório, o uso de inteligência artificial na reavaliação de estratégias e a reinjeção de gás e água para facilitar a extração.


Para Rodrigo Almeida, analista do Santander, projetos de revitalização estarão cada vez mais presentes no Brasil, na Petrobras e nas outras petroleiras. Esse esforço não era feito porque havia sempre uma nova fronteira de alta produtividade adiante.


Campos, por exemplo, levou a Petrobras a deixar campos terrestres em segundo plano e acabou passando pelo mesmo ocaso com a descoberta do pré-sal e o deslocamento da maior parte da produção para a Bacia de Santos nos anos 2000.


— Na Europa, a recuperação é maior pois é a única opção. Por isso as empresas desenvolveram técnicas para maior extração. Agora, vemos esse esforço aqui, para otimizar o que temos diante do impasse na Foz do Amazonas.


 


Bacia de Campos pode ter 25 novos blocos leiloados em 2025 / Seis áreas estão no polígono do pré-sal e serão concedidas no regime de partilha de produção. Outras 19 devem ser licitadas modalidade de concessão de oferta permanente- O Globo 3/11


Bruno Rosa


A Bacia de Campos, hoje com 62 áreas produtoras e outros 17 blocos em fase de exploração, tem novas áreas a serem descobertas. No leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP) que deve ocorrer no ano que vem, serão incluídos seis novos blocos, que estão dentro do polígono do pré-sal, sob o regime de partilha.


Além disso, a ANP aprovou na última quinta-feira a indicação de 19 blocos exploratórios na Bacia de Campos para eventual inclusão na Oferta Permanente de Concessão.


Segundo Roberto Ardenghi, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), a busca por mais petróleo na Bacia de Campos é um movimento de todas as grandes petroleiras.


Para ele, com as novas técnicas de reaproveitamento e gerenciamento de reservatórios, a produção nos campos pode subir dos atuais 450 mil barris diários para 800 mil nos próximos anos.


— Está cada vez mais raro encontrar novas reservas. A última grande descoberta foi o pré-sal, há dez anos. Infelizmente ainda não temos licença para a Foz do Amazonas. Então, faz sentido estratégico focar na Bacia de Campos. A Petrobras possui tecnologia para aumentar essa produção. Campos tem um petróleo mais viscoso, o que dificulta a extração. Por isso, a parcela recuperável é menor (cerca de 15%) em comparação com onde o petróleo é mais leve, como no pré-sal. Com as novas técnicas de estimulação, podemos ver o volume recuperável chegar a mais de 40% — diz.


Ardenghi ressalta que o fato de já haver infraestrutura e conhecimento das reservas ajuda a reduzir os custos de operar na região:


— Campos é relevante. Se não fosse, a ANP não colocaria em leilão.


 


PT tentou relatoria do Orçamento, mas aceitou LDO em negociação de apoio a Motta / Parecer da Lei Orçamentária Anual de 2026 deve ficar com União Brasil- Painel – Folha SP 3/11


Danielle Brant/ Ranier Bragon


O PT tentou negociar a relatoria da LOA (Lei Orçamentária Anual) de 2026 em troca do apoio ao candidato Hugo Motta (Republicanos-PB) na disputa pela presidência da Câmara, mas acabou tendo que aceitar a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), segundo integrantes do partido.


Durante as negociações, o PT foi informado de que a relatoria da LOA deve ficar com o União Brasil, embora o MDB ainda pleiteie o posto. Por isso, o partido aceitou relatar a LDO, que fixa os parâmetros para elaborar e executar o Orçamento do ano seguinte.


Neste ano, a relatoria da LDO e da LOA ficaram a cargo dos senadores Confúcio Moura (MDB-RO) e Angelo Coronel (PSD-BA), respectivamente —os dois projetos precisam ser votados até o fim do ano sob pena de o governo iniciar 2025 com limites à execução orçamentária.


Além da LDO, a negociação pelo apoio de Motta envolveu a indicação a uma vaga no TCU e também a avaliação do partido de que era necessário dar governabilidade ao presidente Lula (PT) em seus dois últimos anos de mandato.

News 1 0411

 NEWS - 02.11


Criação de subteto para gastos obrigatórios depende de ajustes em programas para ficar de pé / Limite de 2,5% de crescimento para despesas obrigatórias é uma das medidas estudadas pela equipe econômica- O Globo 2/11


Thaís Barcellos


Sem atacar pontos sensíveis, como as regras de concessão dos benefícios sociais e de vinculação ao salário mínimo, o anúncio de um pacote de contenção de gastos poder ajudar, mas não deve assegurar a sustentabilidade do arcabouço fiscal nos próximos anos. A criação de um subteto de crescimento para gastos obrigatórios, por exemplo, só para de pé se for acompanhado de gatilhos que afetem o próprio funcionamento de cada despesa, avaliam economistas consultados pelo GLOBO.


A equipe econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva trabalha em uma proposta “híbrida” para corte de gastos, que inclui tanto medidas pontuais quanto um ajuste estrutural em despesas, e que está dividida em três frentes de atuação, conforme mostrou o GLOBO.


Uma proposta é criar um limite de 2,5% acima da inflação para o crescimento de alguns gastos obrigatórios. A ideia é alinhar essas despesas obrigatórias ao arcabouço fiscal, que prevê um teto de 2,5% acima do IPCA para o crescimento dos gastos em geral por ano.


O que o Executivo ainda está discutindo é se esse será um limite global para despesas obrigatórias ou individual para alguns gastos. Em qualquer cenário, ao atingir esse limite de gastos, seriam acionados “gatilhos” para conter as despesas.


Nos cálculos dos economistas consultados, um pacote "completo" poderia gerar uma economia de até R$ 50 bilhões, considerando alterações pontuais nos programas do governo e a criação de uma regra global que guie a evolução das despesas.


Segundo o economista-chefe da Warren Investimentos, Felipe Salto, a ideia de criar um limite para despesas obrigatórias pode ser boa, mas é preciso ver os detalhes. Em sua avaliação, é possível criar uma hierarquia de regras, de modo a manter a forma atual de correção e vinculação dos benefícios, até que o teto seja alcançado.


Um exemplo, segundo ele, seria manter a indexação dos benefícios previdenciários ao salário mínimo, mas, caso a despesa supere o aumento de 2,5%, então parte dos gastos não poderia ocorrer.


---É uma maneira de reforçar o arcabouço e torná-lo mais perene. Os gatilhos teriam de envolver o próprio funcionamento de cada despesa --- disse o ex-secretário de Fazenda de São Paulo.


No caso do investimento mínimo em saúde, a adoção da mesma regra do arcabouço fiscal poderia reduzir o piso em R$ 24 bilhões em 2025, segundo Salto. Em relação ao Fundeb, a economia poderia ser de cerca de R$ 5,5 bilhões se a complementação da União se mantivesse em 19%, em vez de subir para 21%.


Para o economista Pedro Schneider, do Itaú Unibanco, as mudanças nas regras de gastos específicos são complementares à adoção de uma medida estrutural, como a criação de um subteto de despesas obrigatórias. Sem a alteração nas regras, Schneider avalia que a limitação pode se tornar inócua ou até mesmo criar uma bola de neve, como aconteceu com os precatórios - ordem de pagamentos derivadas de decisões judiciais que não cabem mais recursos.


Ele cita, por exemplo, o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Caso o crescimento supere o limite imposto, uma eventual suspensão de concessões criaria uma fila de espera pelo auxílio, ou seja, um represamento de despesas.


O ideal, segundo ele, seria que a limitação da taxa de crescimento fosse acompanhada de um endurecimento no acesso ao benefício. Uma saída seria estabelecer um orçamento fixo para o programa por ano, como já ocorre com o Bolsa Família.


--- A pessoa recebe BPC sem nunca ter contribuído porque é assistencial. O Bolsa Família também. O número de beneficiários está crescendo a dois dígitos, mas todo mundo que pede e tem direito entra na folha de pagamentos. Um jeito de implementar o teto de 2,5% é tornar o BPC uma despesa obrigatória com controle de fluxo.


Isso poderia render uma economia de R$ 15 bilhões por ano. A combinação nas regras do seguro-desemprego, abono salarial, Fundeb com a limitação de 2,5% poderia levar o governo a poupar R$ 50 bilhões, em seus cálculos. Agora, as medidas individualmente, sem a linha mestra do subteto, devem gerar economia de cerca de R$ 30 bilhões.


Para o economista Ítalo Franca, do Santander Brasil, a criação de um teto para o crescimento dos pisos de saúde ou educação ou mesmo para a variação real do salário mínimo são positivas, mas como efeito maior no médio e longo prazo.


Ele defende que a revisão de parâmetros do seguro-desemprego, do abono, do Fundeb e, principalmente, do BPC teriam um efeito maior no curto prazo, podendo chegar a R$ 40 bilhões. Isso possibilitaria uma melhor gestão orçamentária em 2025, se as novas regras forem aprovadas ainda este ano.


O economista afirma que é necessária abrir um espaço de pelo menos R$ 15 bilhões para ter mais flexibilidade na execução do orçamento do ano que vem.


--- É para criar um espaço para não cortar discricionária de um modo que o governo não deseje no ano que vem e poder acomodar despesas que hoje estão fora, como o auxílio gás, ou para o caso da economia de R$ 25,9 bilhões com o pente-fino não se materializar.


Dados os sinais políticos, o ex-secretário do Tesouro e sócio-fundador da Oriz Partners, Carlos Kawall, avalia que o limite de 2,5% poderia ser adotado para os pisos de saúde e educação, o que é positivo, mas não resolve o crescimento da dívida pública.


Nesta semana, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, negou mudanças no abono salarial, no seguro-desemprego e no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Antes, Lula já tinha vetado mudanças na política de valorização do salário-mínimo.


--- Meramente, compatibilizaria com o arcabouço, dando mais espaço fiscal em 2025 e 2026 --- disse Kawall.


Nesse quesito, o economista chama atenção para as declarações da ministra do Planejamento, Simone Tebet. Ela disse que, do seu ponto de vista, não há pressa em aprovar as medidas, porque a maioria é para 2026.


Para Kawall, a sinalização é de que o objetivo do pacote é dar sobrevida ao arcabouço até 2026, de modo a impedir uma queda muito grande nos gastos discricionários, como de investimentos, em ano eleitoral.


--- No fundo, o que está sendo pensado para compatibilizar o crescimento da despesa obrigatória ao arcabouço é um movimento que está mais voltado ao cálculo eleitoral. Como dar uma segurada na despesa para chegar lá na frente e não estar com água no pescoço --- avalia ele --- É um ajuste estrutural ou eleitoral? --- questiona.


 


Adriana Fernandes -Até onde Haddad segura no gogó o corte de gastos? / Sem alinhamento das medidas, governo esfriou expectativas sobre o anúncio do pacote / Auxiliares do presidente reforçam que Lula não está preocupado com a pressão de prazos dada pelo mercado para o anúncio do pacote. O tempo da política é outro.- Folha SP 2/11


Com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, fora de Brasília, na próxima semana, em viagem internacional à Europa, o pacote de ajuste fiscal ganhou um ritmo diferente da pressão que faz o mercado financeiro para o anúncio urgente de medidas de corte de despesas.


Após reunião de integrantes da equipe econômica com o presidente Lula (PT), na noite da última terça-feira, a estratégia do governo foi esfriar a expectativa de um encaminhamento rápido da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que Haddad quer apresentar ao Congresso para conter o avanço das despesas obrigatórias e reduzir as incertezas com o futuro do arcabouço fiscal.


A viagem do ministro Fernando Haddad, num momento de escalada dos juros futuros, do dólar e da alta da tensão em torno do resultado da eleição presidencial nos Estados Unidos, é um sinal contundente de que há um longo caminho a ser percorrido até que as medidas saiam do forno e sejam apresentadas.


Haddad deixa o Brasil, mas os problemas ficam. As incertezas com o impacto das eleições americanas, na próxima terça-feira (5), amplificam os riscos.


A despeito da sinalização dada pelo ministro Rui Costa (Casa Civil) de convergência com Haddad na necessidade do pacote de ajuste fiscal, ficou claro que falta ainda sensibilizar o presidente Lula para a necessidade de medidas mais fortes para mudar a visão dos investidores sobre os riscos envolvendo o crescimento da dívida pública –um problema que não é só brasileiro.


Auxiliares do presidente reforçam que Lula não está preocupado com a pressão de prazos dada pelo mercado para o anúncio do pacote. O tempo da política é outro.


Haddad precisa de mais prazo. Tempo, sobretudo, para buscar consenso sobre as medidas dentro do governo. Na reunião desta semana, Lula ainda não decidiu todas as iniciativas de ajuste que poderão acompanhar a adoção de um limite global para as despesas obrigatórias, que seguiria o mesmo índice de correção do arcabouço fiscal (expansão de até 2,5% acima da inflação ao ano) com os gatilhos de contenção.


Como mostrou a Folha, as medidas de ajuste em estudo poderiam compor a lista de gatilhos ou ser implementadas de forma avulsa. É possível também combinar ambos os formatos. Os cenários ainda estão em análise. Não há nada fechado.


Sem essas medidas/gatilhos, não há como prometer o cumprimento do limite de despesas obrigatórias. Gasto obrigatório, como o nome diz, é obrigação. Não acaba simplesmente porque se fixou um teto.


A ameaça do ministro Luiz Marinho (Trabalho e Emprego) de demissão caso alguma decisão sobre temas da sua pasta seja tomada (seguro-desemprego e abono salarial), mostrou as dificuldades e pode abrir uma crise no governo com apoio do PT raiz.


"Se eu for agredido, é possível [pedir demissão]", afirmou Marinho em entrevista coletiva na quarta-feira (30). Foi o mais duro ataque público até agora de um ministro de Lula ao pacote de Haddad.


Há descontentes (silenciosos, por enquanto) em outros ministérios com o risco de serem atingidos pelo pacote. O mais importante neste momento, na avaliação do Palácio do Planalto, é alinhar internamente as medidas.


Não ajuda em nada Lula ter deixado (injustamente) a ministra Simone Tebet (Planejamento) de fora da reunião de convergência em torno das medidas.


A semana terminou com o dólar em R$ 5,86. Até onde Haddad vai segurar o tranco no gogó sem apresentar as medidas?


 


ESTADÃO: DÓLAR TEM MAIOR VALOR SOB LULA COM INCERTEZAS NO BRASIL E EUA- 2/11


Por Alvaro Gribel


O primeiro pregão de novembro foi marcado pela disparada do dólar, que subiu 1,53% e terminou valendo R$ 5,86. É o maior patamar desde 13 de maio de 2020 (R$ 5,90), ou seja, no auge da pandemia de covid-19. No ano, a valorização acumulada já chega a 20,9%. O dia também foi de nova alta dos juros no mercado futuro e de queda da Bolsa.


Dois fatores estão por trás desses números. O primeiro é a falta de notícias concretas sobre o pacote de corte de gastos prometido pelo governo para depois das eleições. A ausência do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, do País na próxima semana (ele terá reuniões em quatro capitais na Europa) foi lida no mercado como mais atraso no anúncio das medidas. O outro fator tem a ver com os desdobramentos da disputa presidencial nos EUA. A possibilidade de vitória do republicano Donald Trump levanta o temor de juros e dólar fortalecidos por políticas comerciais agressivas e alta do déficit fiscal americano.


O grande problema dessa forte alta do dólar em um curto espaço de tempo é o impacto que isso tem nas expectativas de inflação. Segundo o economista Luis Otávio Leal, da G5 Partners, para cada 10% de alta da moeda americana a estimativa é de que o IPCA aumente cerca de 0,4 ponto porcentual. Isso ajuda a entender por que o Banco Central tem tido dificuldade de "ancorar" as expectativas do mercado, ou seja, fazer com que os economistas projetem a inflação no centro da meta de 3% nos próximos anos.


Como nem toda a alta do dólar estava no radar dos especialistas, a expectativa é de que, mantido o patamar atual, as projeções de inflação voltem a piorar nas próximas semanas. "Considerando que há um ano o dólar estava perto de R$ 4,85, se for para R$ 6,00 será uma valorização de quase 25%, o que poderia impactar o IPCA em até 1 ponto", explicou.


COPOM. Na próxima semana, o BC terá nova reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) para definir a taxa Selic. Ontem, antes mesmo do fechamento do mercado, o Itaú Unibanco divulgou relatório prevendo aceleração no aumento dos juros, que deve subir 0,5 ponto, ante 0,25 de alta na reunião anterior (em setembro). Com isso, a Selic pode chegar a 11,25%, para subir novamente em dezembro e terminar o ano em 11,75%.


O Itaú cita outros fatores que têm pressionado a inflação, como o mercado de trabalho apertado, já que o desemprego está em nível historicamente baixo. Se por um lado há o efeito benéfico sobre o nível de atividade e a renda das famílias, por outro significa menor estoque de mão de obra para trabalhar, com reflexos sobre a inflação de serviços.


"Diante de um cenário ainda desafiador, com taxa de câmbio em nível mais depreciado do que na reunião anterior, mercado de trabalho apertado e núcleos de inflação e expectativas ainda acima da meta, as autoridades devem julgar apropriado este aumento do ritmo, avançando mais rapidamente em território contracionista. Neste contexto, a avaliação de um balanço de riscos assimétrico para cima também deve ser mantida", afirmou o Itaú.


Em relação ao cenário externo, o governo brasileiro não tem nenhum controle, já que uma possível vitória de Donald Trump pode elevar a inflação nos Estados Unidos, o que forçará o Federal Reserve (o banco central dos EUA) a manter os juros mais elevados. Isso tende a fortalecer o dólar globalmente.


Mas os economistas frisam que está nas mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apoiar as medidas em estudo pela equipe econômica para cortar gastos e, assim, tentar recuperar a confiança sobre a solvência das contas públicas.


 


Com avanço do dólar, economistas já projetam alta nos preços de viagens e alimentos, e efeitos até nas compras de Natal / Indefinição sobre medidas do governo para conter gastos volta a afetar o mercado. Moeda já subiu 20,96%no ano- O Globo 2/11


Isa Morena Vista / Paulo Renato Nepomuceno


A indefinição sobre o corte de gastos e um cenário externo incerto levaram o dólar a fechar ontem com a maior cotação desde 13 de maio de 2020. A moeda avançou 1,53% e atingiu R$ 5,869. É o segundo maior valor nominal da História, o mais alto desde a pandemia e o maior do terceiro mandato de Lula.


O mercado reagiu à notícia de que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, viajará na próxima semana para a Europa, um sinal de que a decisão sobre o formato final da aguardada proposta de corte de gastos ficará para a segunda semana de novembro. No ano, o dólar já subiu 20,96%.


A alta da moeda americana preocupa por seus efeitos na inflação, no consumo doméstico, no planejamento de empresas e nos juros. Economistas já projetam alta nos preços de viagens e alimentos, podendo afetar até as compras de Natal.


O diretor da Casa Flora Importadora, Adilson Carvalhal Junior, afirma que, caso a moeda siga em patamares altos, o consumidor poderá sentir mudanças nos preços dos alimentos já em dezembro deste ano.


A forte demanda — impulsionada por uma economia aquecida — consumiu boa parte dos estoques de segurança dos varejistas, o que pode acelerar a necessidade de reposição de produtos importados, que serão comercializados com base em um dólar mais caro.


Segundo Aloísio Campelo Júnior, superintendente do FGV/Ibre, três dos alimentos que podem ser mais afetados são típicos do Natal: panetone, bacalhau e vinhos.


Carvalhal Junior pondera , por outro lado, que o varejo costuma relutar para aumentar os preços na época das festas de fim de ano, já que os consumidores esperam ver valores mais baixos neste período:


— Todo mundo quer ser competitivo em preço. É difícil alterar o preço no meio dessa campanha.


Estímulo à exportação


O economista André Braz, coordenador do Índice de Preços do Ibre/FGV, acrescenta que a alta da taxa de câmbio leva produtores brasileiros a se voltarem para a exportação, o que acaba restringindo a oferta de alguns alimentos no mercado nacional:


— Quando a nossa moeda fica muito desvalorizada, é como se o Brasil entrasse em promoção. Os produtos brasileiros estão mais baratos. Então, o volume maior de exportação, com uma oferta que está a um custo mais alto, resulta num aumento de preço aqui.


Apesar do possível aumento nos preços dos alimentos, Campelo Júnior acredita que dificilmente a cotação atual do dólar impactará os preços das compras no fim de ano. Ele avalia que os estoques foram adquiridos com meses de antecedência, já prevendo as compras da Black Friday, no fim de novembro.


Entretanto, o efeito no preço de viagens e passagens aéreas deve ser imediato, afirma Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria. Além do dólar turismo estar mais caro, os pacotes de viagens também podem sofrer reajustes de preços. O aumento no valor do combustível de aviação — que é comercializado em dólar — também pode encarecer passagens aéreas internacionais e nacionais, diz Campelo Júnior, do FGV/Ibre.


A forte valorização do dólar também impacta a indústria. Os produtos manufaturados brasileiros possuem, em média, 22% de insumos importados. No setor de tecnologia, podem chegar a 40%.


— Uma volatilidade do câmbio é prejudicial. O mercado produtivo prefere estabilidade ao longo do tempo para poder ancorar suas decisões por meses e anos — diz Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos de Desenvolvimento Industrial (IEDI), acrescentando que a incerteza leva empresas a adiar planos de investimentos em máquinas e equipamentos.


Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, afirma que as incertezas sobre o resultado da eleição nos Estados Unidos, com uma possível vitória do republicano Donald Trump, são responsáveis por uma parcela do avanço do dólar.


Mas o economista afirma que as dúvidas sobre condução da política fiscal pelo governo Lula e o desequilíbrio das contas públicas são o principal fator da disparada do dólar.


Ajuste necessário


O ex-ministro diz que a resistência do entorno do presidente atrasa o ajuste e aumenta os problemas da equipe econômica comandada pelo ministro Fernando Haddad. Maílson afirma que medidas estruturais de ajuste no Orçamento são fundamentais para minimizar a atual gravidade da situação fiscal. Mas, opina, é pouco provável que as medidas que serão anunciadas sejam capazes de reverter o pessimismo no mercado.


 


Dólar alto e oferta menor farão preços dos alimentos subirem mais de 7% em 2025 / Itens como café, frango, ovos e óleo de soja devem ter reajustes entre 4,5% e 11%. Preço das carnes deve subir até 16,1%. Se confirmado, será o maior aumento em cinco anos- O Globo 2/11


Carolina Nalin


Apesar da previsão de safra recorde de grãos e de um clima favorável em 2025, economistas estimam que preços de alimentos importantes da cesta de consumo das famílias deverão aumentar no próximo ano. A combinação de dólar mais alto e oferta restrita de alguns produtos aponta para reajustes entre 4,5% e 11% em itens como café, frango, ovos e óleo de soja.


Analistas já veem a inflação de alimentos em até 7,4% em 2025. O aumento supera a inflação geral projetada para o ano que vem, que está em torno de 4%, conforme o Boletim Focus, que reúne as estimativas do mercado. No ano, a moeda americana já subiu 19,2% e chegou R$ 5,869 ontem, o maior patamar do governo Lula.


Só o preço das carnes deve subir até 16,1% em 2025. Se confirmado, será o maior aumento em cinco anos: em 2020, foi de 17,97%. Após um alívio em 2023, o custo da proteína vem subindo este ano, motivado por uma redução na oferta de gado no campo, alta da demanda interna e da exportação elevada.


Alexandre Maluf, economista da XP, espera reajuste de 7,4% para alimentação no domicílio em 2025, em parte puxado pelas carnes. Ele conta que o mercado financeiro tem sido surpreendido com a alta recente da arroba do boi, cujo repasse para o consumidor tem sido mais rápido do que o esperado.


Maluf projeta um aumento de pelo menos 12,5% da carne bovina este ano e avanço de 16,8% no ano que vem. A carne suína e o frango, por sua vez, devem ficar 13% e 11% mais caros no próximo ano, respectivamente.


— É uma pressão forte no setor de proteínas. Esse ciclo (de alta das carnes) deve se estender até 2026. O cenário global está ainda pior, com restrições de oferta nos Estados Unidos.


Alta de carnes


A arroba do boi gordo alcançou R$ 300 no dia 16 de outubro, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP. Esse patamar não era atingido há 20 meses. Segundo boletim do Cepea, os novos preços indicam uma inversão de tendência e refletem principalmente a baixa oferta de animais para abate.


Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador da área de pecuária do Cepea, acrescenta que os preços das carnes já vêm subindo pela conjuntura desfavorável no campo. Historicamente, a falta de chuvas entre maio e setembro reduz a quantidade de pasto disponível para o gado. Neste ano, porém, o cenário foi agravado pelas queimadas:


— Falta gado pesado pronto para o abate. Isso tem impacto diretamente nos preços da carne e do leite. A perspectiva para o ano que vem realmente é ter preços mais elevados.


Outro fator que contribui para a redução da oferta de carne é o aumento da demanda externa, impulsionado principalmente por China e novos mercados, que provoca o desvio da produção para as exportações, cita José Carlos Hausknecht, sócio-diretor da MB Agro.


O especialista explica ainda que o ciclo da pecuária deve se reverter em 2025, com uma diminuição no abate de fêmeas, à medida que os preços elevados incentivam os pecuaristas a retê-las para a produção de bezerros. Esse movimento ocorrerá após um intenso abate nos últimos dois anos.


— O preço da arroba do boi pode subir entre 10% e 20% em 2025, a depender do nível de retenção de fêmeas no ano que vem. A expectativa é que os preços de carnes realmente fiquem pressionados, e isso acaba afetando outras proteínas.


Fábio Romão, economista da LCA Consultores, tem projeção mais conservadora para a inflação de alimentos em 2025: alta de 3,7%. Ainda assim, cita que parte dessa alta virá dos preços das carnes, que devem subir em média 6,3% no período:


— A alta da carne provoca o efeito de substituição — diz ele, que espera que frango e ovos fiquem 4,5% mais caros no ano que vem.


Café sobe até 32%


Andrea Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, prevê aumento de 5,5% na alimentação no domicílio. Ela alerta que a continuidade do patamar elevado do dólar adiciona mais riscos inflacionários à estimativa. A carne bovina deve subir 10% em 2025, seguido das altas de 6,2% da carne suína e 5,3% do frango.


Outro produto destacado pelos economistas é o café. A seca e as altas temperaturas têm prejudicado a produção do grão, e a previsão também é de safra reduzida no ano que vem. Tudo isso num cenário de diminuição da oferta do grão em outros países, o que piora a situação.


Andréa estima que o preço do café suba ao consumidor 22,5% este ano e 7% no próximo, por causa de “safras com desempenho ruim”, diz ela.


Já nas contas de Romão, da LCA, o café deve fechar o ano com alta acumulada de 32% e ter novo aumento de 11% em 2025. Segundo ele, o resultado é reflexo das queimadas e de um ciclo de baixa produtividade nas lavouras.


Um agravante no cenário de alimentos é o dólar. Segundo Andréa, da Warren, o câmbio mais alto, entre R$ 5,40 e R$ 5,55, afeta os preços no varejo, a exemplo dos produtos panificados já que boa parte do trigo é importado, diz ela. E a tendência é que novas altas sejam repassadas conforme o dólar aumenta.


— O câmbio atrapalha muito. E o que favorece o repasse cambial é a atividade resiliente, com mercado de trabalho forte e aumento da renda. Tudo isso cria um efeito psicológico: as empresas mal perceberam que o câmbio se estabilizou em um patamar elevado e já repassam esse custo.


Frutas mais caras


O óleo de soja também deve ficar mais caro ano que vem, cita o economista da XP, que espera alta de 8%. Maluf avalia que a previsão de safra recorde de soja pode ajudar a segurar um pouco o preço do produto, mas parte desse alívio deverá ser compensado pela depreciação cambial e pela demanda por biodiesel após a aprovação do projeto de lei “Combustível do Futuro”.


— Embora tenhamos uma boa produção de grãos, o efeito da variação de preço não será muito significativo devido ao cenário já negativo — explica Maluf.


Já Andrea, da Warren, tem na conta um recuo de 2,8% sobre o óleo de soja no ano que vem, diante da safra 12,7% maior prevista pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para 2024/2025, mas alerta que o item é especialmente vulnerável às oscilações do dólar.


As frutas são outro foco de pressão. Segundo Romão, da LCA, a alta deverá ser de 10,1% em 2025, taxa alta para o grupo de produtos que já subiu 15,9% este ano. O aumento será puxado principalmente pela laranja, diz o economista. A doença greening, que afeta plantas cítricas, atrapalhou a produção e a precificação de produtores, além de dificultar a recuperação dos pomares prevista para 2025.


Em compensação, arroz, feijão e alguns alimentos in natura devem ficar mais baratos, já que não há previsão de fenômenos climáticos como El Niño e La Niña, que afetaram fortemente a produção agrícola este ano.


Romão projeta uma deflação em cereais e leguminosas (que inclui arroz e feijão), com redução de até 5,6%. Tubérculos e raízes (que inclui batata e cenoura), também podem ficar mais baratos, com queda de 2,7%, enquanto os preços de hortaliças e verduras devem recuar 0,4%.


— Falar de normalidade hoje em dia é complicado. (...) Mas, sem esses efeitos climáticos que alteram muito o volume e a distribuição das chuvas, aumenta a chance da agricultura ter boas safras. Pode ser que tenhamos uma inflação de alimentos dentro da meta. E isso,para as famílias de baixa renda que gastam mais com alimentos, é como se conseguíssemos preservar o poder de compra delas — pondera André Braz, coordenador da área de preços ao consumidor do Ibre/FGV.


 


ESTADÃO: MESMO COM ALTA, MERCADO NÃO VÊ INTERVENÇÃO DO BC- 2/11


Por Célia Froufe e Cícero Cotrim


Com a falta de novas medidas no campo fiscal, o mercado vem, semana após semana, elevando suas projeções para as taxas de juros e de câmbio. Mesmo assim, a leitura é de que o Banco Central não dá sinais de que atuará para conter a piora dos ativos. Por ora, tem seguido a cartilha de que intervenções para segurar as cotações do dólar devem ser raras e ocorrer apenas em momentos de disfuncionalidade ou volatilidade excessiva.


O Estadão/Broadcast apurou que, entre os dealers que atuam na compra e venda de moeda estrangeira, não há pedidos diretos para a entrada de recursos do Banco Central. No total, 16 bancos têm contato permanente com o BC, segundo uma lista publicada no site da autarquia. Eles costumam indicar quando há necessidade de leilões por questões técnicas. Uma "prova" de que há liquidez suficiente para os negócios, de acordo com um estrategista de mercado que trabalha para uma dessas instituições, é que o fluxo cambial estava positivo em US$ 244 milhões até o fim da semana passada.


Outros operadores ouvidos sob a condição de anonimato concordam que não faria sentido uma intervenção do BC no mercado de câmbio. Argumentam que a depreciação do real tem sido puxada pelo risco fiscal, e não por um episódio de falta de liquidez. Socorrer o real agora seria até contraproducente no que diz respeito ao sinal para a necessidade de ajustes nas contas públicas, complementam esses operadores.


O motivo para a ausência de atuação vem sendo abordado pelos porta-vozes da autoridade monetária com alguma regularidade nos últimos tempos. "Deixamos a política cambial para absorver choques externos, e temos escolhido intervir no mercado muito raramente, apenas em momentos em que há disfuncionalidade ou volatilidade excessiva", chegou a afirmar o diretor de Assuntos Internacionais e Gestão de Riscos Corporativos do BC, Paulo Picchetti, há uma semana, em uma reunião da XP com investidores, em Washington.


Uma semana antes, o diretor de Política Monetária e futuro presidente da instituição, Gabriel Galípolo, já havia afirmado que o BC estará pronto para agir quando houver necessidade, mas que, até aquele momento, não havia "nenhuma mudança do ponto de vista de institucionalidade do consumo desses dados e da lógica de atuação".


Nesse último ciclo de comunicação, os diretores vêm repetindo que o risco fiscal adicionou prêmios às expectativas e aos preços de ativos e que, sem um choque positivo nas contas públicas, não será possível diminuir a Selic. Em evento recente, o diretor de Política Econômica, Diogo Guillen, reforçou que a instituição não trabalha com uma "meta" para a taxa de câmbio, mesmo que ela tenha efeito sobre a inflação.


 


José Márcio Camargo Opinião - Metáfora do sapo na água fervente explica sinais ruins da economia brasileira / Declarações de que governo estaria preparando medidas para controlar déficit primário têm sido recebidas com desconforto- Estadão 2/11


O comportamento dos preços dos ativos financeiros na economia brasileira é preocupante. As taxas de juros dos títulos longos se aproximam dos 13% ao ano em todos os vencimentos; os títulos indexados à inflação estão pagando IPCA + 6,5% ao ano; o dólar voltou a furar o nível de R$ 5,80 (apesar do superávit da balança comercial próximo a US$ 90 bilhões, reservas internacionais de US$ 300 bilhões e diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos de sete pontos de porcentagem); e o Ibovespa tem tido grande dificuldade para ultrapassar os 130 mil pontos.


As projeções para a inflação da pesquisa Focus para 2024 sinalizam o rompimento do teto do intervalo de metas, e as expectativas para todos os anos no cenário de referência da política monetária (2025, 2026 e 2027) continuam acima das respectivas metas, o que forçou o Banco Central a retomar o processo de aumento da taxa básica de juros (Selic).


A tentativa do ministro Fernando Haddad de reonerar a folha de pagamentos de 17 setores de atividade e das prefeituras das cidades pequenas e médias e acabar com o programa de apoio ao setor de serviços (Perse) gerou forte reação do Congresso e tornou impossível a continuidade da política de aumentar impostos para financiar aumentos de gastos já contratados pelo governo com a aprovação da PEC da Transição no fim de 2022.


Com isto se criou um impasse: os gastos já foram contratados, mas os aumentos de impostos necessários para financiar esses gastos não foram aprovados. Para driblar este impasse, o governo passou a utilizar créditos extraordinários fora do Orçamento para cumprir as metas de superávit primário.


A utilização de créditos extraordinários, que já atingiu R$ 55,4 bilhões em 2024, tornou o cumprimento da meta de superávit primário irrelevante como um sinalizador da busca de equilíbrio fiscal e deslocou a atenção dos investidores para a relação dívida/PIB que já se aproxima do nível de 80%.


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As declarações de que o governo estaria preparando medidas para controlar o déficit primário têm sido recebidas com desconforto pelos investidores, mostrando a total perda de credibilidade da equipe econômica.


Nas reuniões paralelas às do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial em Washington na última semana, os investidores questionaram diretores e o presidente do Banco Central do Brasil quanto à possibilidade de que o País esteja entrando em um regime de dominância fiscal, no qual a política monetária se torna incapaz de controlar a taxa de inflação. A água está fervendo.


 


Pé-de-meia 'licenciatura': governo prevê bolsa acima de R$ 500 para incentivar estudantes a se tornarem professores / O programa dará incentivo financeiro para estimular estudantes a fazerem cursos de licenciatura no ensino superior.- Globo g1 2/11


Por Lígia Vieira, g1 — Fortaleza


Uma versão do programa Pé-de-meia voltado para universitários matriculados em cursos de licenciatura deverá ser anunciado em novembro, informou o ministro da Educação, Camilo Santana, em uma coletiva à imprensa nesta sexta-feira (1º) ao final do Encontro Global da Educação realizado em Fortaleza.


O objetivo é atrair e incentivar os estudantes a se tornarem professores. A ideia está no mesmo horizonte de outra proposta de escopo mais amplo, que prevê a criação de um programa de incentivo financeiro no ensino superior (sem restrição de curso), que teria os cotistas e beneficiários do CadÚnico como parte grupo de estudantes atendidos.


Agora, Camilo Santana afirma que há projeto para uma versão focada nos futuros professores. O que se sabe até agora é que:


O valor da bolsa será maior que R$ 500;

A nota do Enem será usada para ingressar no programa;

O estudante terá uma poupança.

Segundo Santana, a intenção do Ministério da Educação é que o programa tenha início no próximo ano.


"A gente já quer que o aluno no Enem, ele já saiba que ele vai receber uma bolsa se ele escolher a licenciatura [...] A gente quer que os bons alunos possam fazer a licenciatura. Está faltando professor de matemática, de física, de química, de biologia", explicou.


Seleção unificada para professores


Além do Pé-de-meia licenciatura, Camilo Santana informou que outros anúncios devem ser feitos pelo Ministério da Educação neste mês voltados para professores.


Uma das propostas em avaliação pelo MEC é usar Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) como uma seleção de forma unificada para professores de escolas públicas em todo o país.


A prova é aplicada pelo Inep e neste ano começou a ser realizada anualmente nos cursos de licenciatura.


 


Congresso prevê 'impossibilidade técnica' para prestar informações de emendas represadas / STF espera informações detalhadas de verba indicada pelos parlamentares; projeto que será votado não resolve fatura ‘do passado’- O Globo 1/11


Camila Turtelli / Mariana Muniz


Parlamentares envolvidos na negociação preveem, em caráter reservado, "impossibilidade técnica" para cumprir as exigências do Supremo Tribunal Federal (STF) e prestar informações sobre emendas já indicadas e represadas por decisão da Corte. Para liberar esses recursos, o STF quer receber antes dados detalhados de transparência e rastreabilidade desse tipo de recurso.


No acordo firmado entre os Três Poderes, o Legislativo precisa resolver duas pendências importantes:


Uma delas é justamente o Congresso informar dados sobre recursos já indicados.

Outra é a aprovação de um projeto com novas regras de transparência e rastreabilidade, que valerá para indicações a partir de 2025. Para isso, Câmara e Senado devem votar na próxima semana o texto apresentado pelo deputado Rubens Pereira Júnior (PT-MA), aliado do ministro do STF, Flávio Dino.

Para as emendas que já foram indicadas, as equipes técnicas da Câmara, do Senado e do Executivo devem anexar ao processo do STF dados complementares sobre os recursos. Dino, relator do caso, entende que essa regra deveria estar sendo cumprida desde a decisão da ministra Rosa Weber, quando da extinção do “orçamento secreto”.


Isso significa que deveria chegar ao STF, por exemplo, detalhamentos de execução de obras e para onde foram enviadas “emendas pix” repassadas a municípios no início deste ano, quando foi empenhado um recorde de R$ 7,6 bilhões .


Segundo parlamentares a par do assunto, o Congresso deve ter dificuldade em viabilizar o repasse dessas informações. Por outro lado, esse grupo acredita que a aprovação do projeto pode ser um sinal de “boa fé”, que poderá abrir novas frentes de negociação com STF para que as emendas sejam desbloqueadas ainda neste mês.


O projeto de Rubens está na pauta da Câmara na segunda-feira e estabelece limites para as emendas parlamentares e tenta resolver o impasse. O texto foi elaborado em conjunto por Câmara, Senado, Casa Civil, Advocacia-Geral da União (AGU) e STF.


A proposta estabelece prioridade de repasse para obras estruturantes, coloca o limite de emendas de bancada em oito indicações e estabelece limite de crescimento das emendas parlamentares com base nos projetos de lei orçamentária anual.


Segundo pessoas a par da discussão, o texto recebeu o aval de Dino antes de ser protocolado.


De acordo com o texto, para o exercício de 2025, o limite será fixado no montante já previsto na Constituição (atrelado à receita corrente líquida), mais R$ 11,5 bilhões para emendas de comissão. Já para 2026, a correção deverá seguir a regra do arcabouço fiscal, que é a inflação mais uma variação que pode chegar a 2,5%.


As novas regras propostas pelo texto foram recebidas de forma positiva pelo Palácio do Planalto, com o argumento de que trazem mais clareza sobre o que haverá de recursos disponíveis para o ano que vem e como poderá ser usado.


Articuladores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que, com a agenda econômica ousada proposta pelo governo e que precisa da aprovação do Congresso, condicionar as votações ao pagamento de emendas vinha gerando desgastes, como pagamento de emendas em valores que só vinham crescendo.


Hoje, o Congresso tem R$ 49,2 bilhões do Orçamento para ser distribuído a critério de deputados e senadores, dividido em três modalidades principais: individual, de comissão e de bancada estadual. Há cerca de R$ 17,5 bilhões bloqueados pela decisão do ministro.


TCU vê risco de aumento de custos nas obras da refinaria Abreu e Lima / Relatório inicial identifica fragilidades e ‘risco potencial’ em licitações. Petrobras diz que colabora para melhorar processos- O Globo 2/11


Bruno Rosa


Um dos principais projetos de refino desde a volta de Lula ao poder, a ampliação da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, entrou na mira do Tribunal de Contas da União (TCU). Em processo relatado pelo ministro Jhonatan de Jesus, no âmbito da primeira etapa do Relatório de Acompanhamento da ampliação da unidade, foram identificadas fragilidades no processo de licitação, com risco de aumento do valor dos contratos.


O projeto de retomada da Rnest conta com um investimento total de cerca de R$ 10,9 bilhões (US$ 1,9 bilhão), segundo dados do TCU. No caso da primeira unidade (chamada de Trem 1), que já está em operação desde 2014, o plano envolve modernização para aumentar a capacidade de produção em 15 mil barris por dia e a construção de uma unidade de abatimento de emissões atmosféricas (SNOx).


Além disso, está prevista a conclusão da segunda unidade (Trem 2), que terá capacidade de 130 mil barris por dia.


Em abril de 2023, a estatal iniciou a licitação para as obras envolvendo a primeira unidade da Rnest. Em agosto do ano passado, foi a vez do início do processo para o Trem 2. No entanto, o TCU apontou problemas nos dois processos. É de praxe o tribunal analisar todas as licitações e contratos firmados pela Petrobras, uma estatal.


No caso da primeira unidade da Rnest, cujo contrato já está em execução, o TCU aponta risco de aumento de preços. Segundo o tribunal, a conclusão do escopo (espécie de detalhamento) do SNOx estava prevista para este mês e a da ampliação do Trem 1 para abril do ano que vem.


Risco potencial


Ainda na fase de execução do contrato, o TCU identificou “o risco potencial” do uso de ferramentas classificadas como “excepcionais”, como aditivos on demand. Para o tribunal de contas, são “instrumentos que guardam o risco potencial de aumentar muito o valor dos contratos desse projeto e ameaçar sua rentabilidade, cujo uso deve ser acompanhado”.


Os aditivos são usados em contratos para lidar com questões não previstas que aparecem durante as obras. No entanto, segundo uma fonte, esse mecanismo também foi amplamente usado como instrumento para elevar o valor de investimentos em casos de corrupção revelados pela Operação Lava-Jato. Por isso, a manifestação do TCU, lembrou essa fonte.


O parecer do ministro inclui também a segunda unidade da Rnest. Segundo o TCU, “foram identificados riscos nas licitações, especialmente na do Trem 2, em que se constatou ausência de competitividade efetiva no processo licitatório”.


As propostas foram significativamente maiores que o orçamento de referência da Petrobras, inviabilizando, segundo o TCU, a contratação e colocando em risco a viabilidade econômica do projeto.


Antes de a Petrobras suspender a licitação da segunda unidade de refino, devido aos preços, o TCU alertou que a estatal tentou negociar descontos com as empresas mais bem colocadas.


“A estatal procedeu a revisões em seus orçamentos referenciais mesmo após a abertura das propostas e em magnitude que já chega a até 28% em alguns casos, o que pode se caracterizar como irregularidade”, afirmou o órgão.


O TCU também identificou “fragilidades, com aspectos de subjetividade e de falta de clareza em relação às fontes de informação utilizadas” pela estatal para o projeto.


No parecer, o ministro Jhonatan de Jesus destaca o uso de um relatório da Petrobras que se baseia “no uso excessivo da experiência” da estatal em projetos anteriores, com índices de produtividade definidos há mais de 30 anos. Alerta ainda que não foram adotadas referências mais amplas e atualizadas no segmento de refino.


Em reuniões entre TCU e Petrobras durante o processo, o tribunal solicitou que a estatal garanta a regularidade e economicidade dos contratos administrativos com prevenção e correção de irregularidades.


Além disso, o TCU quer que a estatal aumente a transparência e melhore os processos de trabalho. Solicitou ainda aprimoramento em metodologias de estimativa de custos e maior controle por parte dos gestores da área de refino e engenharia da estatal. Após essa fase, o TCU vai apresentar uma decisão final sobre o caso.


Procurada, a Petrobras informou que o TCU tem acompanhado o projeto, incluindo aspectos de governança e contratação, “com inequívoca colaboração por parte da Petrobras, que respondeu a todas as solicitações do referido órgão”.


Petrobras diz colaborar


A estatal reiterou que a licitação para a retomada da construção do Trem 2 da Rnest foi encerrada em função da não convergência das propostas ao orçamento.


“A Petrobras reafirma seu compromisso com a transparência e a conformidade, além de valorizar a atuação do TCU, que contribui para a melhoria contínua de nossos processos”, disse a estatal.


A Refinaria Abreu e Lima foi um dos projetos alvo de corrupção em gestões petistas, segundo a Lava-Jato. O próprio TCU já apontou superfaturamento de pelo menos R$ 2,1 bilhões nas obras da unidade. A refinaria foi concebida ainda na primeira gestão do presidente Lula e contava originalmente com a participação da venezuelana PDVSA, que anos mais tarde desistiu do projeto.


Na gestão de Jair Bolsonaro, a estatal decidiu colocar a Rnest à venda junto com outras sete refinarias, que, juntas, somavam metade da capacidade de refino do Brasil. No entanto, não houve interessados, especialmente porque a unidade localizada em Ipojuca estava incompleta.


Em janeiro deste ano, Lula participou de um evento na Rnest para celebrar a retomada da unidade. Na ocasião, a Petrobras informou que a refinaria estará pronta em 2028 e deve gerar 30 mil empregos diretos e indiretos, com a ampliação da capacidade de refino de 100 mil para 260 mil barris por dia.


 


CEO da Caixa Asset acusado de abuso de poder é demitido por conselho / Pablo Sarmento foi destituído do cargo após acusações em torno do seu papel na negociação da compra de R$ 500 milhões em letras do Banco Master, que foi barrada por área técnica- O Globo 2/11


Rafael Moraes Moura / Malu Gaspar


Alvo de uma série de denúncias de abuso de poder, “comportamento não condizente com o ambiente de trabalho” e “desleixo, preguiça, falta de atenção, falta de zelo, negligência e descaso”, que estavam sendo apuradas pela corregedoria interna, o CEO da Caixa Asset, Pablo Sarmento, foi destituído do cargo.


Em comunicado ao mercado divulgado nesta sexta-feira (1), a Caixa Asset informou " à sociedade brasileira, aos seus clientes e empregados, e ao mercado em geral que o Conselho de Administração destituiu ad nutum o senhor Pablo Costa Sarmento do cargo de diretor-presidente desta instituição".


Segundo a Caixa Asset, enquanto ocorre a seleção do novo dirigente, o diretor de distribuição e produto, Heitor Souza Cunha, responderá interinamente pela presidência. A Caixa Asset é uma divisão do banco estatal criada em 2021 durante a gestão de Pedro Guimarães e sob o governo Jair Bolsonaro.


Procurado pelo blog, Sarmento não respondeu às ligações.


Conforme revelou o blog, foram feitas 30 denúncias sobre a Caixa Asset no período em que o braço de gestão de ativos do banco estatal articulava a compra de um lote de R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Master. As acusações foram apresentadas no canal interno da Caixa, geralmente de forma anônima, para preservar os funcionários denunciantes.


 


Boa parte das denúncias envolve diretamente Sarmento por conta de sua atuação na negociação com o Master. Dentro da Caixa, o número de denúncias envolvendo os mesmos fatos é considerado alto e incomum.


Fontes ouvidas pelo blog informaram que o conselho de administração se antecipou à conclusão dos trabalhos da Corregedoria, onde a situação de Sarmento era considerada grave.


Gerentes perderam cargo após barrarem operação ‘arriscada’ e ‘atípica’


A área de renda fixa da Caixa Asset desaconselhou enfaticamente a compra dos títulos do Master em um parecer sigiloso de 19 páginas revelado pelo blog. A operação foi considerada “atípica” e “arriscada” não só em razão do valor, considerado alto demais, mas também por causa do rating do banco, considerado de médio risco.


Dois gerentes que se opuseram à operação de R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Master acabaram destituídos do cargo, em um movimento que foi interpretado nos bastidores como retaliação e tentativa de eliminar as resistências internas ao negócio, que acabou não sendo concluído.


Perderam os cargos os gerentes Daniel Cunha Gracio, de renda fixa, que assina o parecer, e Maurício Vendruscolo, de renda variável, que também avalizou o documento.


As letras financeiras emitidas pelo Banco Master que a Caixa considerava comprar previam uma rentabilidade de 130% do CDI ao ano no prazo de 10 anos.


Mas, no documento sigiloso encaminhado ao comitê de investimentos, os gerentes observaram que a Caixa Asset nunca aplicou um volume sequer próximo de R$ 500 milhões durante um prazo tão longo em instituições de perfil arriscado como o Master, que tem um rating interno de BB+, considerado de médio risco. No geral, esse tipo de aporte só é feito em instituições renomadas no mercado, como os principais bancos públicos e privados.


O parecer também destaca que o modelo de negócios do Master engloba uma “operação complexa de investimentos em companhias” com empresas em recuperação judicial ou com alto grau de endividamento.


Além disso, o documento menciona uma “pesquisa reputacional” da área responsável pela governança e compliance da Caixa Asset que identificou processos contra executivos do banco na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por manipulação de preços, irregularidades em distribuição de produtos de investimento no mercado, além de envolvimento em “diversos crimes financeiros”.


Depois disso, o jornal Folha de S. Paulo mostrou que a área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou “falha nas diligências” do banco ao avaliar a compra dos papéis do Master. Os técnicos também consideraram que “não é possível descartar a hipótese de represália” da cúpula da Caixa Asset para destituir os gerentes. O parecer do TCU já está nas mãos da Corregedoria da Caixa e deve subsidiar as investigações contra Sarmento.


“Bom negócio”


Quando o parecer veio à tona, o presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro, chamou de “bom negócio” a operação de R$ 500 milhões em títulos negociados com a divisão da Caixa Econômica de gestão de ativos, vetada por um parecer técnico da estatal.


“Ficamos surpresos com essa questão do relatório. Até onde a gente entende, e pelas conversas que temos com a Caixa e a Caixa Asset, eles têm uma opinião diferente do que está no parecer. A opinião do relatório não é a opinião efetiva da Caixa sobre o banco Master”, afirmou Vorcaro à época.

Próximos passos do BCB

 BC deve ser vago sobre os seus passos futuros- Valor 4/11


Alex Ribeiro


A aposta dominante do mercado financeiro para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central desta semana é uma alta de 0,5 ponto percentual nos juros básicos da economia, para 11,25% ao ano. A dúvida: será sinalizada alguma coisa para os passos futuros e, mais importante, sobre o tamanho do ciclo de aperto?


O mercado não ficará completamente no escuro. O Copom sempre dá alguma indicação, às vezes mais forte e às vezes mais fraca, por meio de suas projeções de inflação. Elas passam uma ideia se a trajetória de juros esperada pelo mercado é suficiente ou não.


Por esse parâmetro, em setembro a situação já não era boa. O BC precisava levar a taxa Selic para mais de 13% ao ano. Ou subir menos que isso, mas adiar o ciclo de baixa, que o mercado então esperava para meados de 2025. Hoje, a situação parece um pouco pior.


Esse tipo de indicação nunca é um gabarito, menos ainda na situação atual. Nas últimas semanas, o Banco Central se esforçou para tirar um pouco do peso das projeções de inflação como um sinalizador de juros. Seu diretor de política econômica, Diogo Guillen, disse que desaprova a relação mecânica entre projeções e orçamento de alta de juros.


Provavelmente, o Copom apresentará de novo uma sinalização vaga sobre os seus passos futuros. As duas principais incertezas que exigem cautela não devem se resolver até quarta-feira, quando sai a decisão.


Uma delas é o cenário externo. A eleição americana será amanhã, mas a apuração pode levar dias, até uma semana. O temor dos mercados é a vitória do ex-presidente Donald Trump, com suas propostas inflacionárias.


A outra incerteza é a nossa política fiscal. Pela frequência que os membros do Copom falaram sobre o assunto, é a mais importante delas.


De um lado, tem o efeito na demanda agregada. O comitê inclui, nas suas contas, uma redução do impulso fiscal neste segundo semestre. Mas há dúvidas se ela vai, de fato, acontecer. E também se ela será suficiente e duradoura para garantir a desaceleração gradual da economia.


Em um evento em Washington, o diretor de assuntos internacionais do BC, Paulo Picchetti, transmitiu uma visão do lado mais esperançoso. Ele vê os primeiros sinais de desaquecimento da economia, em dados como vendas no varejo e serviços. Isso tende a desacelerar a inflação e, ao longo do tempo, retomar a convergência das expectativas de inflação para a meta.


Guillen, em reunião com investidores em Washington, mostrou-se mais cético. Para ele, a desaceleração fiscal seria mais estatística, devido a uma concentração de gastos no primeiro semestre, incluindo pagamentos de precatórios, antecipação do 13º do funcionalismo. Não seria necessariamente uma mudança de instância na política fiscal.


O futuro presidente do BC, Gabriel Galípolo, deu uma no cravo e outra na ferradura. Num evento em São Paulo, disse que o impulso pode se desacelerar, mas citou preocupações do mercado sobre a composição dos gastos, com transferências de recursos à população com maior propensão a consumir.


Mas, talvez, o aspecto crucial para o BC definir o tamanho do aperto monetário necessário sejam as iniciativas do governo para mudar estruturalmente o gasto e, dessa forma, garantir a viabilidade do arcabouço fiscal. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, foi o primeiro a chamar a atenção para isso, quando disse que é necessário um “choque fiscal”.


Também em Washington, o diretor de organização do sistema financeiro do BC, Renato Gomes, disse que essas medidas estruturais são fundamentais para reancorar as expectativas de inflação.


Nesse caso, o orçamento de aperto monetário seria outro. Expectativas de inflação na meta facilitam a queda da inflação e, mais do que isso, reforçam a credibilidade e a eficácia da política monetária.


Coube a Picchetti, indicado pelo governo Lula, dizer em Washington o que significaria o abandono do arcabouço fiscal. Haveria um impacto nas expectativas de inflação e no dólar, que piorariam o cenário inflacionário, exigindo mais juro do que o indicado nas projeções atuais. Mas não terminaria aí: o Copom teria que rever os parâmetros de seus modelos de projeção, que hoje não estão calibrados para uma situação mais extrema de descontrole fiscal, ou mudança de regime econômico. Nesse caso, a dosagem da Selic teria que ser bem maior.


Alguns participantes do mercado perguntaram aos dirigentes do BC por que, desde já, não dar um choque de juros para conquistar a credibilidade de vez. As opções do Copom da B3 deram na semana passada cerca de 50% de chances de um uma alta de um ponto percentual na Selic em janeiro.


A teoria e prática de política monetária, porém, dizem que os BCs só deve se mover mais rápido quando têm certeza sobre a dosagem total de juro. Na dúvida, vão mais devagar, acumulando informações ao longo do caminho. Mas, ao fim, a trajetória de juros é a necessária para fazer o serviço de controlar a inflação.


Em tempo: desta vez, não houve ruído nas falas dos membros do Copom a investidores na reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, ao contrário das duas edições anteriores. Ajudou Campos Neto ter exigido dos organizadores a transmissão ao público.


Alex Ribeiro é repórter especial e escreve quinzenalmente

Matinal MZ 0411

 *Bom dia ☕️*


*🌎Os índices futuros de Nova York operam sem direção definida nesta segunda-feira (4)*, enquanto investidores se preparam para o resultado da eleição presidencial dos EUA, que ocorrerá na terça-feira e poderá desempenhar um papel fundamental na performance das ações até o fim do ano.


Além das eleições, Wall Street se prepara para a próxima decisão do Federal Reserve (Fed) sobre as taxas de juros. A expectativa é que o Fed reduza os juros em 25 pontos-base na quinta-feira.


*📊Veja o desempenho dos mercados futuros:*


*🇺🇸EUA*


* Dow Jones Futuro: -0,06%

* S&P 500 Futuro: +0,15%

* Nasdaq Futuro: +0,13%


🌏 Ásia-Pacífico


* Shanghai SE (China), +1,17%

* Nikkei (Japão): fechado por feriado

* Hang Seng Index (Hong Kong): +0,30%

* Kospi (Coreia do Sul): +1,83%

* ASX 200 (Austrália): +0,56%


🌍 Europa


* FTSE 100 (Reino Unido): +0,47%

* DAX (Alemanha): -0,03%

* CAC 40 (França): +0,09%

* FTSE MIB (Itália): -0,01%

* STOXX 600: +0,08%


🌍 Commodities


* 🛢️Petróleo WTI, +2,12%, a US$ 70,96 o barril

* 🛢️Petróleo Brent, +1,98%, a US$ 74,54 o barril

* 🧲Minério de ferro negociado na bolsa de Dalian, +0,91%, a 779,00 iuanes (US$ 109,74)


🪙Bitcoin


* Bitcoin, -0,44%, a US$ 68.466,00


*📚MZ Investimentos*

*🗞️Jornal do Investidor*

Matinal Bankinter Portugal 0411

 Análise Bankinter Portugal


SESSÃO: Após uma semana passada fraca (ca.-1,3% tanto S&P500 como ES-50), esta semana temos referências fortes: eleições americanas amanhã e reduções de taxas de juros nos EUA (Fed) e Reino Unido (BoE). Para ganhar perspetiva: a semana passada foi a segunda consecutiva de retrocesso, mas após 6 consecutivas de subidas; pelo menos no S&P500, que é o que realmente conta. Isso é coerente com a melhoria dos resultados 3T publicados (S&P500): +7,8% vs +5,1% esperado. O regresso dos últimos dias é relevante. 

 

As novidades desde sexta-feira são: (i) uma no cal e outra na ferradura em tecnologia: na quinta-feira à noite, Intel publicou resultados mistos, mas melhorou o guidance e subiu +7,8%, enquanto Apple teve bons resultados, mas resultados maus nas vendas na China que resultaram em uma queda de -1,3%. (i) China inicia uma agressiva inspeção fiscal geral para tratar de aumentar a cobrança de receitas, porque as suas receitas fiscais 9 meses -2,2% e as vendas apenas por parte do governo -25%, medida que será contraproducente e que indica que a situação das contas públicas se agrava seriamente. (iii) As sondagens estão a favor de Trump (47,0% Trump vs 47,9% Harris, mas estima-se ca.2,5% de voto oculto pró-Trump), embora o estado mais importante dos 7 swing states parece que será Pensilvânia (47,9% Trump vs 47,7% Harris), que é o que mais votos eleitorais acresce (20) desses 7 Estados. (iv) Petróleo ca.+2% devido ao facto da OPEP atrasar em um mês o seu aumento previsto de produção para dezembro (do corte de 5,9M b/d que aplica voluntariamente agora). Isso quer dizer que a procura final não poderá encaixar nenhum aumento de produção sem sofrimento do preço, o que é bom para o ciclo económico global. 

 

HOJE os futuros vêm com uma tímida intenção de recuperar (+0,1%/+0,3%), mas o mais provável é que tenhamos uma sessão de transição um pouco errática e a movimentar-se num intervalo estreitíssimo (algo positivo, talvez) à espera de ver qual aspeto terá o desenvolvimento eleitoral americano, sobre o qual provavelmente não saberemos nada fiável até uns dias depois (talvez muitos) devido à contagem manual aceite pelo Tribunal Supremo em um ou outro Estado, como é o caso de Michigan (16 votos eleitorais). Portanto, não nos moveremos por impulsos e rumores sobre as eleições, mas por realidades. 

 

 

Em paralelo, ao longo da semana haverá reunião de 6 bancos centrais, dos quais 3 baixarão taxas de juros, mas as 3 descidas já estão descontadas e, por isso, não influenciarão. As 3 descidas serão no mesmo dia, na quinta-feira: Fed -25pb, até 4,50/4,75%; BoE (Reino Unido) -25pb, até 4,75%; Riksbank (Suécia) -50pb, até 2,75%. Brasil subirá na quarta-feira: +25pb, até 11,25%, porque sente-se obrigado a proteger o Real da sua forte depreciação (desde 4,8/$ até 5,9/$ em 2024), enquanto Austrália irá repetir amanhã em 4,35% assim como a Noruega, na quinta-feira, em 4,50%, passando desapercebidos. 

 

CONCLUSÃO PRÁTICA: Sessão e semana erráticas em intervalos muito estreitos, mas que provavelmente resultarão numa subida de Nova Iorque, assim que for conhecido o vencedor das eleições americanas, mesmo que seja apenas o mais provável e não o mais certo/definitivo. Subida que será mais sólida caso Trump seja o vencedor, que é o mais provável (especulação própria com base nos resultados). Mas subida apenas pela libertação da incerteza. Ficar de fora continua a ser mais arriscado do que estar dentro, embora seja apenas pelo processo de descidas de taxas de juros e melhoria de EPSs (lucros). Isto é, o FOMO (Fear Of Missing Out) funcionará. 

 

S&P500 +0,4% Nq-100 +0,7% SOX +1,1% ES-50 +1% IBEX +1,5% VIX 21,9% Bund 2,41% T-Note 4,30% Spread 2A-10A USA=+15pb B10A: ESP 3,12% PT 2,85% FRA 3,17% ITA 3,68% Euribor 12m 2,547% (fut.12m 2,281%) USD 1,085 JPY 165,7 Ouro 2.741$ Brent 74,4$ WTI 70,8$ Bitcoin -0,3% (69.017$) Ether -1,8% (2.475$). 

 

FIM

domingo, 3 de novembro de 2024

Haddad não viaja

 Haddad no Brasil tende a aliviar abertura do mercado, mas cobrança por medidas seguirá firme


Por Bruna Camargo e Maria Regina Silva


São Paulo, 03/11/2024 - A decisão do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de cancelar a viagem que faria à Europa ao longo desta semana é bem vista por especialistas consultados pelo Broadcast, que esperam uma reação positiva dos mercados amanhã. Segundo nota divulgada pela Fazenda nesta manhã, o ministro permanecerá em Brasília para tratar de "temas domésticos" a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A expectativa agora é de que haja um anúncio de medidas fiscais em breve.

O cancelamento da viagem foi uma surpresa "bem" positiva, segundo Bruno Takeo, estrategista da Potenza Capital. Ao mesmo tempo, indica que o governo se sensibilizou, dado o recente estresse dos mercados financeiros no Brasil em meio ao anúncio da ida do ministro ao continente europeu. "O dólar superou R$ 5,80 e os juros explodiram. O cancelamento mostra que o governo se sensibilizou, indica um senso de urgência", afirma Takeo.


Por conta da indefinição com o fiscal, na sexta-feira, dia 1º, o dólar à vista fechou no segundo maior nível da história, a R$ 5,8694, em alta de 1,53%, com avanço forte dos juros futuros. O Ibovespa recuou 1,23%, aos 128.120,75 pontos, o menor nível de fechamento desde 7 de agosto, então aos 127,5 mil pontos.


"De forma geral é uma sinalização positiva para o mercado e para o Brasil. Visto que a situação está mais delicada, ver o governo focado em trazer uma resposta concreta e rápida é importante", concorda o economista da Manchester Investimentos, Thiago Lourenço. "Essa sinalização de Lula pedindo para o Haddad ficar vem num bom momento. O mercado precisa ter a presença dele aqui voltada para controlar os gastos", diz Gustavo Riess, sócio e assessor da Ável Investimentos.


Para Gabriel De Biase Berenguer, presidente executivo (CEO) da RJ+ Asset, o governo priorizou os desafios econômicos internos e evitou um possível estresse adicional aos mercados. Ele diz que a reação dos mercados na abertura de amanhã pode ser favorável, mas as ações concretas dos próximos dias seguem no radar. "Se efetivamente essa postergação da viagem se dá para ter algum anúncio em relação ao fiscal, isso é bastante positivo", reforça Rodrigo Moliterno, head de Renda Variável da Veedha Investimentos.


Na mesma linha, Pedro Moreira, sócio da One Investimentos, afirma que o cancelamento da viagem em si não deve trazer grande alívio. "[O mercado] quer resoluções práticas e concretas, anúncios, não mais promessas. Isso controlaria a parte de especulação que estamos tendo, as pressões em cima do câmbio e da inflação", afirma. "Só remarcar [a viagem] não muda nada, dado a calamidade que está", observa Gabriel Meira, especialista e sócio da Valor Investimentos. E, para Gustavo Jesus, sócio da RGW Investimentos, "cada vez que o governo adia a questão, menos paciência o mercado tem".


Mas a expectativa de Takeo, da Potenza, é de que a abertura dos ativos brasileiros amanhã seja atenuada, pois o governo pode anunciar o pacote de corte de despesas nos próximos dias, em vez de fazer isso apenas na semana seguinte. Ele pondera, no entanto, que os ativos ainda podem não devolver todo o prêmio de risco, uma vez que os investidores e os agentes querem algo concreto.


De acordo com o economista-chefe do BV, Roberto Padovani, com o cancelamento da viagem, o governo anunciará alguma medida fiscal para reduzir as despesas da máquina pública. E, segundo o analista da Empiricus Research, Matheus Spiess, esse anúncio pode vir logo, talvez até o dia 8 ou 9. O estrategista-chefe do Grupo Laatus, Jefferson Laatus, por sua vez, vê chance de algo sair já amanhã. "Imagine a pressão que não ficou em cima do Haddad, que teve de cancelar a viagem. Provavelmente terá de fazer algum anúncio nesta segunda-feira", estima. Mas, se o anúncio não agradar, Laatus decreta: "É dólar a R$ 6,00".


O economista-sênior da Tendências Consultoria, Silvio Campos Neto, afirma que só mesmo um anúncio de medidas que levem à percepção de responsabilidade fiscal mudará a dinâmica dos ativos brasileiros. "Se houver, é o que realmente vai mudar, mesmo que de forma tardia", afirma.


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