*Leitura de Sábado: Proximidade de corte da Selic incentiva posições aplicadas em DI curto*
Por Arícia Martins
São Paulo, 10/02/2026 - Após a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) e janeiro ter referendado as perspectivas do mercado de que o primeiro corte na Selic será de 0,5 ponto porcentual, em seguida ao comunicado que abriu a porta para uma redução em março, instituições estrangeiras e grandes gestoras de recursos passaram a ampliar apostas na queda dos juros futuros.
Em um primeiro momento, profissionais ouvidos pela Broadcast apontaram que os trechos curto e intermediário foram os escolhidos para abrir e/ou aumentar posições aplicadas, sendo o vértice mais longo neste trade o de janeiro de 2029, como é de se esperar às vésperas de um afrouxamento do juro. Já os trechos mais distantes, apesar de acumularem prêmios de risco relevantes, ainda não estão sendo considerados interessantes para posição vendidas, devido às incertezas que ainda pairam sobre o cenário eleitoral e ao quadro fiscal pressionado.
Na expectativa de que o aguardado ciclo de cortes do juro básico leve a uma nova rodada de alívio de prêmios na curva futura, o banco americano Citi e o francês BNP Paribas informaram em relatório, no fim de janeiro, que voltaram a ficar aplicados em juros no Brasil. Ambas as instituições iniciaram posições em contratos com vencimento em janeiro de 2029 - horizonte que, por aqui, dada a estrutura mais curta da curva de DIs em relação a outros países, é considerado intermediário.
Em relatório assinado pela economista-chefe do banco, Fernanda Guardado, e pelo estrategista de renda fixa e câmbio para América Latina, Mario Castro, o BNP Paribas afirma que o ajuste da linguagem do Banco Central, sugerindo que o ciclo de flexibilização do juro básico está próximo, "aponta para um novo rali nas curvas locais".
A instituição manteve, por ora, a expectativa de redução de 25 pontos-base da Selic em março, com taxa terminal em 12% ao final de 2026, mas pondera que a decisão do colegiado entre um ajuste de 25 ou 50 pontos-base na próxima reunião pode ser apertada.
"Embora o mercado já estivesse descontando março como o ponto de partida do ciclo, o BC validando as expectativas atua como um catalisador para que os participantes retomem posições de recebedores. A mudança de tom do BC coincide com uma tendência contínua de fraqueza do dólar, que continuará a exercer pressão descendente nas curvas locais", observa o BNP, explicando a combinação que levou a instituição a abrir posição aplicada no DI de janeiro de 2029.
Essa é a mesma estratégia adotada pelo Citi, que observa que as taxas de curto prazo costumam aumentar após o primeiro afrouxamento no juro básico, conforme o ocorrido nos ciclos de cortes de 2016 e 2023, por exemplo. O banco pontua que dois riscos para a operação são uma inflação mais alta do que o esperado no Brasil e uma postura mais 'hawkish' da autoridade monetária.
Na sua carta mensal de fevereiro, a Kinea Investimentos informa que a estratégia segue a mesma do mês anterior, com posição ainda aplicada em juros. Mas o cenário eleitoral, que pode trazer volatilidade, reduz a visibilidade e comprime o espaço para apostas direcionais grandes.
Gestor de renda fixa da Kinea, Guilherme Rodrigues diz que a gestora que faz parte do grupo Itaú "encurtou" as posições de um mês para outro, com prazos que, agora, vão até um ano, no máximo. "Hoje estou bem aplicado, mas agora está tudo no 'curtinho'. Já chegamos a ter posição aplicada nos [vencimentos] de dois a três anos; agora estou sendo mais tático", afirmou Rodrigues à Broadcast.
A estratégia está alinhada à tendência de que a curva de juros fica mais inclinada em momentos que antecedem ciclos de corte, disse o gestor, para quem há espaço para, no mínimo, 300 pontos-base de ajuste para baixo do juro básico no ciclo atual. "Em um primeiro momento há uma inclinação da curva nominal, e isso está acontecendo. O pessoal tende a 'se esconder' nos curtos e médios".
A Bradesco Asset, por sua vez, afirma que identificou melhor relação risco retorno na parte intermediária da curva nominal, onde os prêmios ainda incorporam assimetria favorável em um ambiente de transição de política monetária. "Além disso, preservamos uma estratégia de inclinação, com posições aplicadas no segmento intermediário e tomadas na parte longa, visando capturar a tendência de normalização da estrutura a termo em um ciclo de relaxamento monetário", explica a instituição na carta mensal deste mês.
Em sua carta mensal de fevereiro, a Santander Asset aponta que, no primeiro mês do ano, manteve a visão otimista para a renda fixa local, aumentando o posicionamento aplicado em juros prefixados e vendido em inflação implícita, e reduzindo a alocação em ativos atrelados à inflação, com resultado positivo. "Apesar da evolução menos favorável dos ativos atrelados à inflação no período, a forte queda da curva de juros nominal contribuiu de forma positiva para o nosso resultado", diz a gestora de recursos do Santander.
E para fevereiro, a asset do banco espanhol segue aplicada em juros nominais, destacando, além do iminente ciclo de redução da Selic, que a atividade e a inflação estão em rota de moderação. "Diante da precificação atual, enxergamos prêmios atrativos nas curvas de juros", diz a instituição.
Contato: aricia.martins@estadao.com
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