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*ASA descarta novos cortes de juros nos EUA em 2026 e aposta em dólar mais forte*
_Para a economista Andressa Durão, Kevin Warsh não deve encontrar apoio suficiente no colegiado do Fed para alterar a política monetária de forma significativa no curto prazo_
Por Cristiana Euclydes e Luana Reis, Valor — São Paulo
Na contramão do consenso do mercado, o ASA avalia que não há mais espaço para cortes de juros nos Estados Unidos neste ano e aposta em um dólar mais forte. A visão é defendida pela economista Andressa Durão, que, em conversa com o Valor, diz esperar forte crescimento na economia americana neste ano e acredita que Kevin Warsh, indicado para assumir a presidência do Federal Reserve (Fed), não deve encontrar apoio suficiente no comitê para alterar a política monetária ou o balanço de ativos de maneira significativa.
O banco central americano realizou uma pausa no ciclo de afrouxamento em janeiro, após realizar três cortes consecutivos no final do ano passado, levando as taxas de referência para o intervalo entre 3,50% e 3,75%. Com uma expectativa de que o Fed deve manter os juros inalterados ao longo de 2026, Durão acredita que as movimentações políticas de Donald Trump e as eleições de meio de mandato nos EUA devem gerar mais volatilidade nos mercados do que a política monetária.
“O Fed deve ficar parado o ano inteiro”, diz a economista. “E, talvez, o próximo movimento seja de alta, algo que ninguém ainda está falando, mas a gente acha que a economia tá muito forte. Então, não tem porque continuar cortando”, enfatiza a economista, ao esperar, ainda, um crescimento de 3% nos EUA neste ano.
Durão espera que 2026 também seja um ano de volatilidade nos mercados americanos, com os investidores reagindo às mudanças nas políticas americanas, especialmente com as eleições de meio de mandato, que devem começar a chamar a atenção dos investidores a partir da metade do ano. A economista acredita que Trump pode apostar em novas medidas de estímulo econômico para tentar aumentar a popularidade de seu partido nas eleições. “Acho que, ao longo do ano, vai ter mais um foco para isso do que para o que o Fed vai fazer", avalia.
Embora Durão reconheça que ainda existem riscos de alta para a inflação, ela ressalta que eles diminuíram. A economista vê a inflação americana medida pelo índice de preços ao consumidor (CPI) mais perto de 2,5% do que de 3% ao ano. Na avaliação dela, a maior parte dos riscos não se materializou, com impacto das tarifas bem menor que o esperado, e os preços de bens e imóveis desacelerando. “O que fica de risco é a inflação de serviços por conta de uma atividade econômica forte.”
O Fed, assim, deve mudar um pouco o peso para a questão do mercado de trabalho, embora o presidente do banco central, Jerome Powell, tenha dito após a decisão de janeiro que o emprego tem se estabilizado. Em janeiro, dados do “payroll” mostraram criação de 130 mil postos de trabalho, acima das expectativas dos agentes.
Ao ser questionada sobre a fraqueza de dados de trabalhos recentes, divulgados na semana passada, Durão afirma que, embora o relatório Job Openings and Labor Turnover Survey (Jolts) tenha mostrado um esfriamento no número de abertura de vagas, não indicou um aumento nas demissões. Na visão dela, a taxa de desemprego deve se manter baixa ao longo deste ano, em linha com a forte atividade econômica sugerida pelos dados do Produto Interno Bruto (PIB).
A perspectiva do ASA é bem mais “hawkish” (propensa ao aperto monetário) do que o consenso dos investidores, que ainda vê dois cortes nos juros ao longo do ano, em linha com o que foi sinalizado pelo Fed em seu último Sumário de Projeções Econômicas (SEP), em dezembro. Para Durão, a visão do mercado também reflete a expectativa de que Warsh deve ceder às pressões políticas de Trump e apoiar cortes nas taxas de juros. A próxima revisão no “gráfico de pontos” será na decisão de política monetária de março e, na visão dela, deve refletir uma visão mais “hawkish” por parte dos dirigentes.
Durão acredita que Warsh deve apoiar um corte em sua primeira reunião do Fomc, em junho, caso o cenário se mantenha igual, para “chegar mostrando serviço” a Trump, mas ele não deve construir maioria para isso, nem para alterar o balanço de ativos do
Fed, ainda que discussões sobre alterações em sua composição possam ser intensificadas. Na visão da economista, embora a pressão política por juros mais baixos exista, a maioria do comitê ainda é “hawkish” e deve formar maioria nas votações.
“Eu não acho que todo mundo se deixaria levar pelo novo presidente ou por questão política”, comenta a economista, ressaltando que boa parte do comitê tem defendido a manutenção dos níveis atuais dos juros, sem realizar novos ajustes tão cedo. “Claro que Warsh deve influenciar, mas não deve ser um grande problema. Pensando em uma votação, ainda vencem os mais ‘hawk’.”
As ameaças ao Fed, no entanto, não estão precificadas no mercado, porque se tratam de riscos de cauda, na visão da profissional. Para ela, caso realmente houvesse a percepção de que a independência e a credibilidade do banco central americano estão sob ameaça, a reação vista até o momento teria sido bem pior nos mercados de Treasuries, de câmbio, e de inflação “implícita”, avalia. Durão aponta que, caso a diretora do Fed Lisa Cook seja destituída de seu cargo — o que não é o cenário-base —, o mercado reagiria muito mal.
Warsh foi visto como um nome menos propenso a apoiar cortes rápidos de juros do que os outros candidatos cotados para assumir a liderança do Fed, o que levou a uma firme recuperação do dólar no exterior. No entanto, Durão acredita que o movimento se tratou mais de uma correção, já que a moeda vinha se enfraquecendo de maneira expressiva no começo do ano.
A indicação de Warsh também levou a uma alta na ponta longa dos juros dos Treasuries e a uma derrocada histórica nos preços de metais preciosos.
Para este ano, o ASA aposta em um dólar mais forte no exterior, apoiado pelo crescimento econômico robusto dos EUA. “Temos um cenário de economia muito mais forte do que em outros países”, ela afirma. “Não consigo imaginar um cenário de dólar fraco.”
Ela também destaca que o mercado de ações dos Estados Unidos continua a ser o mais forte globalmente e pode continuar batendo recordes, ainda que não seja possível afirmar se já chegou às máximas. “Não tem muito como apostar contra.”
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