domingo, 20 de abril de 2025

Editorial OESP

 Estadão/Editoriais: O caminho para a insolvência


São Paulo, 19/04/2025 - Os investidores estão dando ao governo federal a oportunidade de aferir o nível de desconfiança que ronda a política fiscal de Lula da Silva. Ao embutirem, desde dezembro de 2024, juros reais - já descontada a inflação - de mais de 7%, os títulos da dívida pública brasileira de longo prazo mostram que é alto o descrédito na solvência de um governo focado no aumento dos gastos e sem margem para elevar ainda mais a arrecadação. O descontrole impõe um preço muito alto pelo risco de compra dos títulos que financiam a dívida.


Uma recente reportagem do Estadão mostrou que há quatro meses esses títulos, com vencimento aproximado de dez anos, romperam a barreira dos 7% e desde então mantêm taxas semelhantes às que eram cobradas entre 2015 e 2016, quando o País viveu uma das piores crises de sua história, que culminou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Apesar de o novo marco ter sido atingido em dezembro, desde outubro a taxa vinha gradativamente se aproximando desse patamar.


A simples equivalência com um período tão crítico para a economia nacional seria suficiente para disparar sinais de alerta no governo, diante de um endividamento público de 76% do Produto Interno Bruto (PIB). Economistas ouvidos na reportagem estimaram que, mesmo que o País não registrasse déficit nas contas públicas, ainda assim seriam necessários ao menos 13 anos para estabilizar o patamar de uma dívida tão acentuada.


Mudar esse cenário é uma escolha de governo, que não aparenta disposição para se afastar da crença lulopetista que vê no Estado o grande indutor do desenvolvimento nacional. Assim, mesmo em meio a uma situação fiscal complicada, criam-se programas sem o respectivo aprofundamento da capacidade orçamentária. Um exemplo é o Pé-de-Meia, que combate a evasão escolar no ensino médio. O programa tem previsão de custo de R$ 12,5 bilhões neste ano, mas só teve R$ 1 bilhão incluído no Orçamento de 2025 aprovado pelo Congresso. Há outros exemplos, como o Auxílio Gás e o próprio Bolsa Família.


Um relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado divulgado em fevereiro alertou para o aumento dos desafios do Tesouro Nacional na gestão da dívida em momentos de aperto monetário como o atual. A taxa básica de juros de 14,25% - com probabilidade de chegar a 15% até junho - piora a percepção de risco no controle da dívida, deixa os títulos mais voláteis e afasta investidores dos papéis destinados ao financiamento da dívida pública. Além disso, ter uma elevada parcela de títulos remunerados pela Selic na composição do endividamento faz com que o custo médio da dívida suba proporcionalmente mais em situações de aperto monetário. E haja recursos para a rolagem desse endividamento.


Não à toa, o descasamento entre as políticas monetária e fiscal é hoje um dos principais entraves à economia. A política monetária busca controlar a inflação, que em março acumulou taxa de 5,48% em 12 meses pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE. A expectativa do mercado financeiro, de acordo com o mais recente relatório Focus, do Banco Central (BC), é de que chegue ao fim de 2025 em 5,65%, isto é, 1,15 ponto porcentual acima do teto permitido. A redução de gastos pelo governo poderia contribuir para conter a inflação e, por consequência, afrouxar um pouco a política de juros do BC. Mas o que se vê nas medidas apadrinhadas por Lula é exatamente o oposto.


O conturbado cenário internacional já traz a sua cota de incertezas a países emergentes, como o Brasil. Soluções internas voltadas ao equilíbrio econômico e fiscal - como um efetivo corte de despesas, desindexação da economia, fiscalização e redimensionamento de programas sociais - seriam um bom sinal em direção à equalização da dívida e recuperação da confiança no País. Mas, pelo que mostra o levantamento da venda de títulos pelo Tesouro, o governo Lula da Silva está a anos-luz dessa meta. Como bem resumiu o ex-secretário do Tesouro Jeferson Bittencourt, as taxas de juros refletem hoje a certeza de que o arcabouço fiscal não vai entregar a solvência prometida.


Broadcast+

sábado, 19 de abril de 2025

O novo não

 O novo “não” de Tarcísio de Freitas para Bolsonaro


19/04/2025 04h06 Atualizado há 5 horas


Jair Bolsonaro externou a aliados, há algumas semanas, que não vivia seu melhor momento com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.


O motivo foi o novo convite feito para Tarcísio deixar o Republicanos e migrar para seu partido, o PL.


Jair Bolsonaro queria que o pupilo político migrasse para sua legenda antes que o Supremo Tribunal Federal (STF) aceitasse a denúncia contra ele, por tentativa de golpe de Estado, mas isso não ocorreu.


O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, já chegou a anunciar a ida do governador de São Paulo para o PL em diferentes ocasiões, ao longo do ano passado.


Primeiramente, Valdemar disse em entrevistas que Tarcísio comunicou a ele que iria para o PL antes das eleições municipais. Depois que o pleito de 2024 passou, o presidente do partido alegou que o governador estava esperando o fim das eleições daquele ano para fazer a mudança.


Sempre que foi perguntado publicamente sobre o tema, Tarcísio disse que ficaria no Republicanos. Por muito tempo Tarcísio alimentou críticas sobre a conduta política de Valdemar Costa Neto. Além disso, uma ida para o PL significaria um controle maior de Bolsonaro sobre seu destino político.



https://oglobo.globo.com/google/amp/blogs/bela-megale/post/2025/04/o-novo-nao-de-tarcisio-de-feitas-para-bolsonaro.ghtml

Leitura de sábado 3

 Leitura de Sábado:China não voltará a comprar soja dos EUA como antes, diz professor da Cornell

10:00 19/04/2025 


Por Gabriel Azevedo


São Paulo, 17/04/2025 - O professor de economia aplicada Wendong Zhang, da Universidade Cornell, no Estado de Nova York, avalia que, mesmo que os Estados Unidos e a China cheguem a um acordo para encerrar a disputa envolvendo a questão tarifária, os chineses dificilmente voltarão a importar soja do país nos mesmos volumes de antes. "Não acho que veremos o retorno aos números antigos, a menos que haja uma mudança política dramática", afirma ele, em entrevista ao Broadcast Agro. Nesta semana, o governo Donald Trump afirmou que as tarifas aplicadas contra produtos chineses chegaram a 245%, após sucessivas rodadas de sobretaxas. Do outro lado, a China impôs retaliações, elevando a até 84% taxas de importação sobre bens norte-americanos.


Trump justifica as medidas como forma de pressionar a China por acordos comerciais mais vantajosos. Já Pequim classificou a atitude como "erro sobre erro" e prometeu lutar "até o fim". Em meio a esse embate, o agronegócio brasileiro observa com atenção os desdobramentos. Uma reaproximação comercial entre Estados Unidos e China, como já ocorreu no primeiro acordo entre os dois países em 2020 (chamado de "Fase 1"), poderia afetar diretamente os embarques brasileiros de soja e carne - produtos que hoje lideram a pauta de exportações do Brasil para o mercado chinês.


Zhang é especialista em comércio agrícola, China e política internacional. A seguir, os principais trechos da entrevista:


Broadcast Agro - A China está formando estoques e ampliando o plantio de soja, enquanto aumenta as compras do Brasil. Como o senhor analisa essa estratégia? É uma mudança estrutural ou apenas um reflexo da guerra comercial com os EUA?


Wendong Zhang - Nos últimos anos, a China aumentou seus estoques de soja em mais de 25%, principalmente através da empresa estatal Sinograin. Isso dá ao país margem para pausar ou redirecionar compras em momentos de tensão política. Junto com os esforços para expandir a área plantada internamente, essa estratégia claramente reduziu a dependência chinesa da soja americana no curto prazo. Não é apenas uma questão de estabilizar preços, mas de garantir segurança caso as relações se deteriorem novamente. Ao mesmo tempo, vemos a forte preferência chinesa pela soja brasileira como parte de um realinhamento de longo prazo, não apenas uma reação de curto prazo. Em 2024, o Brasil forneceu mais de 70% de todas as importações chinesas de soja, número que seria considerado alto mesmo uma década atrás. Os importadores chineses preferem os grãos brasileiros não apenas pelo preço, mas pela logística mais previsível e pelas relações comerciais mais amigáveis. Com empresas estatais chinesas investindo diretamente em portos brasileiros, isso parece mais uma mudança estratégica do que um ajuste temporário.


Broadcast Agro - Quanto impacto a guerra comercial de 2018/19 causou às exportações americanas? Os agricultores dos EUA conseguirão recuperar o espaço perdido no mercado chinês?


Zhang - A guerra comercial de 2018/2019 deixou marcas duradouras. As exportações americanas de soja para a China caíram drasticamente, e, mesmo com a recuperação parcial dos volumes, o dano à reputação não foi totalmente reparado. Em 2024, a participação dos EUA nas importações chinesas de soja permaneceu em torno de 26%, bem abaixo dos níveis anteriores à guerra comercial. Um estudo do Centro de Pesquisa Agrícola mostrou que, embora os agricultores americanos tenham recebido dinheiro do governo como compensação, as relações comerciais foram enfraquecidas e a confiança foi perdida. Isso é muito mais difícil de restaurar com um cheque. Nossas projeções indicam que a participação dos EUA nas importações chinesas ficará entre 28% e 32% em 2025/26, dependendo da evolução das tarifas e do clima. Isso está bem abaixo dos níveis de 40-45% antes de 2018. Mesmo com safras americanas mais fortes, não acredito que veremos o retorno aos números antigos, a menos que haja uma mudança política dramática ou um problema grave na oferta de outros países. O mundo mudou - e a forma como a China compra também.


Broadcast Agro - O Brasil conseguirá manter sua posição de liderança, apesar dos problemas de infraestrutura? E como secas ou enchentes extremas podem afetar esse cenário?


Zhang - O Brasil fez progressos reais, não há como negar. A expansão do Arco Norte (sistema de portos nas regiões Norte e Nordeste) e os investimentos em ferrovias ajudaram a aliviar os congestionamentos. Mas gargalos sazonais e custos de frete interno ainda são barreiras. Meus modelos sugerem que o Brasil poderia atingir cerca de 100 milhões de toneladas de soja em exportações até 2026, se tudo correr bem. Mas isso pressupõe investimento contínuo e logística mais eficiente da colheita ao porto. Então sim, a infraestrutura é uma limitação - mas uma que está melhorando com o tempo. Os impactos climáticos são extremamente importantes nessa equação. Vimos isso durante a seca argentina de 2023/24 - a China rapidamente redirecionou compras para o Brasil e, em menor medida, para os EUA. Se Mato Grosso enfrentasse uma seca severa ou inundações, eu estimaria um redirecionamento de 5 a 8 milhões de toneladas de demanda. Os choques climáticos são o fator imprevisível nesse sistema, e eles forçam a China a manter planos B - e fornecedores - alternativos.


Broadcast Agro - Muitos analistas falam em "desglobalização". O senhor concorda? Como essa tendência afeta o comércio agrícola global?


Zhang - Eu chamaria de desglobalização seletiva ou estratégica. Os países ainda comercializam, mas estão mais cautelosos agora. Após a pandemia, a guerra na Ucrânia e as tarifas EUA-China, as nações importadoras de alimentos estão repensando os riscos. O comportamento de compra da China - construindo estoques, diversificando fornecedores, investindo em logística - mostra uma clara mudança do comércio baseado na busca pelo menor preço para um comércio baseado em segurança. É um padrão que espero que continue. Essa nova lógica mudou fundamentalmente os fluxos globais. Em 2024, a China importou quase 9 milhões de toneladas da Argentina, Uruguai e Rússia - países que vendiam muito menos há uma década. E não são apenas as importações - a China também está investindo em alternativas proteicas e aumentando a produção doméstica de soja. O resultado é um sistema mais flexível e menos dependente dos EUA.


Mesmo que as tarifas desapareçam, não espero que a China retorne aos padrões de compra anteriores a 2017 tão cedo. Nossas simulações mostram que a guerra tarifária custou cerca de 2,5% do PIB aos EUA e ainda mais à China. As exportações agrícolas americanas caíram mais de US$ 25 bilhões entre 2018 e 2020. Os estados do Meio-Oeste americano, onde se concentra a produção de soja, foram os mais afetados, mesmo com os pagamentos do governo. As tarifas chamaram atenção para os desequilíbrios comerciais? Sim. Mas trouxeram mudança estrutural na China? Não, longe disso. No final, os agricultores americanos pagaram um preço alto por uma mensagem política.

Leitura de sábado 2

 Leitura de Sábado: Governo precisará de R$ 118 bi a mais em receitas para fechar contas em 2026

10:00 19/04/2025 


Por Giordanna Neves, Fernanda Trisotto e Amanda Pupo


Brasília, 15/04/2025 - O governo federal precisará de um esforço adicional de R$ 118 bilhões em receitas para conseguir fechar as contas públicas em 2026, de acordo com o chefe do Centro de Estudos Tributários e Aduaneiros da Receita Federal, Claudemir Malaquias. Segundo ele, a equipe econômica trabalha com três frentes principais para atingir esse objetivo, todas voltadas à ampliação da eficiência arrecadatória, sem a necessidade de aumentar tributos.


As propostas envolvem mecanismos para facilitar a recuperação de créditos tributários em litígio, medidas para intensificar a execução de créditos tributários já reconhecidos e ações voltadas à melhoria do ambiente de negócios. "Esse conjunto de medidas vai ser discriminado por ocasião da lei orçamentária. Até agosto essas medidas precisam estar em tramitação no legislativo", disse durante coletiva de apresentação do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2026.


Malaquias explicou que os mecanismos de facilitação na resolução de litígios tributários envolvem medidas já adotadas em exercícios anteriores, com foco na aceleração da regularização fiscal.


Quanto às iniciativas voltadas à melhoria do ambiente de negócios, ele destacou que diversos fluxos de trabalho no sistema tributário impõem custos operacionais significativos aos contribuintes, os quais podem ser reduzidos por meio de ações de simplificação. "À medida que reduzimos isso, a gente permite que esses contribuintes ganhem competitividade (...) Medidas de simplificação ampliam a aderência de contribuintes a normas tributárias", afirmou.


Já as medidas de garantia de execução de crédito tributário, segundo ele, não representam aumento da carga tributária, mas sim a recuperação de valores que já são devidos ao governo e que, por diferentes razões, ainda não foram efetivamente arrecadados

Leitura de sábado

 Leitura de Sábado:China não voltará a comprar soja dos EUA como antes, diz professor da Cornell

10:00 19/04/2025 


Por Gabriel Azevedo


São Paulo, 17/04/2025 - O professor de economia aplicada Wendong Zhang, da Universidade Cornell, no Estado de Nova York, avalia que, mesmo que os Estados Unidos e a China cheguem a um acordo para encerrar a disputa envolvendo a questão tarifária, os chineses dificilmente voltarão a importar soja do país nos mesmos volumes de antes. "Não acho que veremos o retorno aos números antigos, a menos que haja uma mudança política dramática", afirma ele, em entrevista ao Broadcast Agro. Nesta semana, o governo Donald Trump afirmou que as tarifas aplicadas contra produtos chineses chegaram a 245%, após sucessivas rodadas de sobretaxas. Do outro lado, a China impôs retaliações, elevando a até 84% taxas de importação sobre bens norte-americanos.


Trump justifica as medidas como forma de pressionar a China por acordos comerciais mais vantajosos. Já Pequim classificou a atitude como "erro sobre erro" e prometeu lutar "até o fim". Em meio a esse embate, o agronegócio brasileiro observa com atenção os desdobramentos. Uma reaproximação comercial entre Estados Unidos e China, como já ocorreu no primeiro acordo entre os dois países em 2020 (chamado de "Fase 1"), poderia afetar diretamente os embarques brasileiros de soja e carne - produtos que hoje lideram a pauta de exportações do Brasil para o mercado chinês.


Zhang é especialista em comércio agrícola, China e política internacional. A seguir, os principais trechos da entrevista:


Broadcast Agro - A China está formando estoques e ampliando o plantio de soja, enquanto aumenta as compras do Brasil. Como o senhor analisa essa estratégia? É uma mudança estrutural ou apenas um reflexo da guerra comercial com os EUA?


Wendong Zhang - Nos últimos anos, a China aumentou seus estoques de soja em mais de 25%, principalmente através da empresa estatal Sinograin. Isso dá ao país margem para pausar ou redirecionar compras em momentos de tensão política. Junto com os esforços para expandir a área plantada internamente, essa estratégia claramente reduziu a dependência chinesa da soja americana no curto prazo. Não é apenas uma questão de estabilizar preços, mas de garantir segurança caso as relações se deteriorem novamente. Ao mesmo tempo, vemos a forte preferência chinesa pela soja brasileira como parte de um realinhamento de longo prazo, não apenas uma reação de curto prazo. Em 2024, o Brasil forneceu mais de 70% de todas as importações chinesas de soja, número que seria considerado alto mesmo uma década atrás. Os importadores chineses preferem os grãos brasileiros não apenas pelo preço, mas pela logística mais previsível e pelas relações comerciais mais amigáveis. Com empresas estatais chinesas investindo diretamente em portos brasileiros, isso parece mais uma mudança estratégica do que um ajuste temporário.


Broadcast Agro - Quanto impacto a guerra comercial de 2018/19 causou às exportações americanas? Os agricultores dos EUA conseguirão recuperar o espaço perdido no mercado chinês?


Zhang - A guerra comercial de 2018/2019 deixou marcas duradouras. As exportações americanas de soja para a China caíram drasticamente, e, mesmo com a recuperação parcial dos volumes, o dano à reputação não foi totalmente reparado. Em 2024, a participação dos EUA nas importações chinesas de soja permaneceu em torno de 26%, bem abaixo dos níveis anteriores à guerra comercial. Um estudo do Centro de Pesquisa Agrícola mostrou que, embora os agricultores americanos tenham recebido dinheiro do governo como compensação, as relações comerciais foram enfraquecidas e a confiança foi perdida. Isso é muito mais difícil de restaurar com um cheque. Nossas projeções indicam que a participação dos EUA nas importações chinesas ficará entre 28% e 32% em 2025/26, dependendo da evolução das tarifas e do clima. Isso está bem abaixo dos níveis de 40-45% antes de 2018. Mesmo com safras americanas mais fortes, não acredito que veremos o retorno aos números antigos, a menos que haja uma mudança política dramática ou um problema grave na oferta de outros países. O mundo mudou - e a forma como a China compra também.


Broadcast Agro - O Brasil conseguirá manter sua posição de liderança, apesar dos problemas de infraestrutura? E como secas ou enchentes extremas podem afetar esse cenário?


Zhang - O Brasil fez progressos reais, não há como negar. A expansão do Arco Norte (sistema de portos nas regiões Norte e Nordeste) e os investimentos em ferrovias ajudaram a aliviar os congestionamentos. Mas gargalos sazonais e custos de frete interno ainda são barreiras. Meus modelos sugerem que o Brasil poderia atingir cerca de 100 milhões de toneladas de soja em exportações até 2026, se tudo correr bem. Mas isso pressupõe investimento contínuo e logística mais eficiente da colheita ao porto. Então sim, a infraestrutura é uma limitação - mas uma que está melhorando com o tempo. Os impactos climáticos são extremamente importantes nessa equação. Vimos isso durante a seca argentina de 2023/24 - a China rapidamente redirecionou compras para o Brasil e, em menor medida, para os EUA. Se Mato Grosso enfrentasse uma seca severa ou inundações, eu estimaria um redirecionamento de 5 a 8 milhões de toneladas de demanda. Os choques climáticos são o fator imprevisível nesse sistema, e eles forçam a China a manter planos B - e fornecedores - alternativos.


Broadcast Agro - Muitos analistas falam em "desglobalização". O senhor concorda? Como essa tendência afeta o comércio agrícola global?


Zhang - Eu chamaria de desglobalização seletiva ou estratégica. Os países ainda comercializam, mas estão mais cautelosos agora. Após a pandemia, a guerra na Ucrânia e as tarifas EUA-China, as nações importadoras de alimentos estão repensando os riscos. O comportamento de compra da China - construindo estoques, diversificando fornecedores, investindo em logística - mostra uma clara mudança do comércio baseado na busca pelo menor preço para um comércio baseado em segurança. É um padrão que espero que continue. Essa nova lógica mudou fundamentalmente os fluxos globais. Em 2024, a China importou quase 9 milhões de toneladas da Argentina, Uruguai e Rússia - países que vendiam muito menos há uma década. E não são apenas as importações - a China também está investindo em alternativas proteicas e aumentando a produção doméstica de soja. O resultado é um sistema mais flexível e menos dependente dos EUA.


Mesmo que as tarifas desapareçam, não espero que a China retorne aos padrões de compra anteriores a 2017 tão cedo. Nossas simulações mostram que a guerra tarifária custou cerca de 2,5% do PIB aos EUA e ainda mais à China. As exportações agrícolas americanas caíram mais de US$ 25 bilhões entre 2018 e 2020. Os estados do Meio-Oeste americano, onde se concentra a produção de soja, foram os mais afetados, mesmo com os pagamentos do governo. As tarifas chamaram atenção para os desequilíbrios comerciais? Sim. Mas trouxeram mudança estrutural na China? Não, longe disso. No final, os agricultores americanos pagaram um preço alto por uma mensagem política.

Para entender a conjuntura



O livro “Para entender a conjuntura econômica”, de Carmem Aparecida Feijó, Elvio Valente, Fernando Carlos G. de Cerqueira Lima, Márcio Silva Araujo e Paulo Gonzaga Mibielli de Carvalho, é uma obra voltada para quem deseja compreender o comportamento da economia no curto prazo — a chamada conjuntura econômica.


Resenha

Esta obra busca tornar acessível a análise dos principais indicadores econômicos, como inflação, PIB, taxa de juros, taxa de câmbio, saldo comercial, dívida pública, entre outros. Com uma linguagem clara e didática, os autores explicam como esses indicadores interagem entre si e quais são os impactos de políticas econômicas (monetária, fiscal e cambial) sobre o desempenho de uma economia.

O diferencial do livro está em sua abordagem prática e contextualizada: ele conecta conceitos teóricos da macroeconomia com os acontecimentos da economia brasileira, facilitando a compreensão da dinâmica econômica do país. Isso torna a leitura especialmente útil para estudantes de economia, administração e contabilidade, bem como para profissionais e interessados em acompanhar e interpretar a evolução econômica.

Além disso, a obra é publicada pelas editoras Minha Editora e Manole, conhecidas por materiais didáticos de qualidade, o que reforça o caráter educativo do livro.

Pontos fortes:
• Linguagem acessível, sem abrir mão do rigor técnico.
• Aplicação prática dos conceitos à realidade brasileira.
• Útil tanto para iniciantes quanto para quem deseja aprofundar o entendimento da conjuntura.

Se quiser, posso preparar um resumo por capítulo ou destacar os principais conceitos abordados no livro. Deseja isso?


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Mercado chinês

 OPINIÃO: O mercado chinês como alternativa para a diversificação de portfólios


Integração entre Brasil e China cria oportunidades de acesso a ativos em meio ao avanço da IA



O início do segundo mandato do governo de Donald Trump ilustra como estamos vivendo em um mundo de grande incerteza econômica e geopolítica. Tensões comerciais, avanços tecnológicos disruptivos e mudanças nas cadeias produtivas globais reforçam a necessidade de diversificação nos investimentos, à medida que países e empresas buscam novas formas de crescimento e resiliência.


Nesse contexto, um novo estudo publicado pela Itaú Asset Management, em parceria com a gestora chinesa E Fund, analisa como Brasil e China podem desempenhar um papel estratégico na diversificação de portfólios globais. Este white paper (relatório), intitulado “China-Brazil Economic Cooperation – A new era of Growth and Opportunity”, vai além das manchetes habituais, explorando como as duas maiores economias emergentes do mundo não apenas colaboram, mas transformam mercados globais, criando oportunidades de investimento e crescimento econômico.


Brasil x China: um relacionamento promissor


Brasil e China, frequentemente vistas como opostas em sua estrutura econômica, na verdade se complementam de maneira única. O Brasil se destaca como o maior exportador de produtos agrícolas e minerais, mas é um equívoco pensar que esse protagonismo se deve apenas à abundância de recursos naturais. A força do Brasil nesses setores é resultado de décadas de investimento em pesquisa e desenvolvimento, que possibilitaram avanços fundamentais na produtividade e na sustentabilidade.


O país é o único do mundo capaz de colher três safras ao ano, uma conquista viabilizada por tecnologias agrícolas avançadas e práticas inovadoras de manejo do solo. Além disso, o Brasil transformou o Cerrado, antes considerado inadequado para a agricultura, em uma das regiões mais produtivas do planeta.


No setor mineral, o país também se destaca por inovações como a pelotização de baixo carbono, um processo que reduz as emissões de CO₂ na produção de pelotas de minério de ferro, tornando a cadeia do aço mais sustentável. Outra iniciativa importante é o avanço no uso de rejeitos sólidos, que permite um descarte mais seguro e ecologicamente responsável dos resíduos da mineração.


Já a China, além de sua força na manufatura e infraestrutura, avança rapidamente em Inteligência Artificial (IA), semicondutores e tecnologia digital. Um exemplo recente dessa evolução no setor de software é a DeepSeek, empresa que lançou um modelo de inteligência artificial competitivo em escala global. O caso ilustra como a China tem expandido sua presença tecnológica não apenas em áreas como veículos elétricos e baterias, mas também em outros segmentos de alto valor agregado no setor digital.


Essa complementaridade econômica tem sido acompanhada por um avanço na integração financeira entre os dois países. Desde 2013, quando Brasil e China assinaram um acordo de swap cambial (troca de taxas com o objetivo de proteger o investidor contra variações excessivas) no valor de R$ 60 bilhões para proteger transações comerciais da volatilidade do dólar, as relações financeiras se fortaleceram.


Em 2023, o Acordo de Compensação do Renminbi (RMB) foi um novo passo nessa direção, permitindo que transações comerciais sejam liquidadas diretamente entre real e yuan, sem necessidade de conversão para o dólar, reduzindo custos e facilitando operações em larga escala. Esse ambiente mais integrado abre espaço para novos instrumentos financeiros que permitam aos investidores brasileiros uma exposição mais eficiente ao mercado chinês.


Diversificação de portfólio


Meu colega Ahmad Mourad, analista quantitativo da Itaú Asset, exemplifica os benefícios dessa maior integração financeira e diversificação internacional através de um exercício intuitivo. Mourad construiu um portfólio risk parity utilizando o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, e o CSI 300, que reúne as 300 maiores empresas das bolsas chinesas.


De forma simples, um portfólio risk parity aloca mais capital nos ativos menos voláteis e menos capital nos ativos mais arriscados, garantindo que cada um contribua de forma semelhante para o risco total do portfólio — daí o nome “paridade de risco”. No estudo, a alocação foi ajustada anualmente com base na volatilidade observada no ano anterior.


Os resultados mostram que, enquanto o Ibovespa sozinho apresentou um retorno médio anual de 8% e uma volatilidade de 25%, o portfólio combinado com o CSI 300 em reais apresentou um retorno de 11% e uma volatilidade reduzida para 17%. O índice de Sharpe, que mede a relação entre retorno e risco, passou de 0,32 no caso do Ibovespa sozinho para 0,65 no portfólio combinado com o CSI 300 em reais.


Além disso, para responder à pergunta se os ganhos de diversificação advêm apenas da conversão cambial, Ahmad realizou um exercício fictício comparando o portfólio com o CSI 300 em reais com outro que utilizasse o índice diretamente em moeda chinesa (CNY). Mesmo sem considerar o impacto do câmbio, os resultados evidenciaram ganhos de diversificação significativos, com o índice de Sharpe alcançando 0,6, demonstrando que a baixa correlação estrutural entre os mercados é o principal fator por trás da eficiência do portfólio.


O white paper da Itaú Asset Management, em parceria com a E Fund, destaca como Brasil e China podem desempenhar um papel complementar não apenas no comércio global, mas também na construção de portfólios mais eficientes e resilientes.


À medida que a integração financeira entre Brasil e China avança, novas oportunidades surgem para facilitar o acesso a ativos chineses por investidores brasileiros e vice-versa. Seja por meio de instrumentos financeiros inovadores ou da ampliação do comércio e dos investimentos bilaterais, essa relação estratégica pode ajudar a enfrentar os desafios de um mundo cada vez mais incerto e dinâmico.


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Simon Schwartzman