quarta-feira, 5 de março de 2025

BDM Matinal Riscala 0503

 Trump brinca de guerra comercial | BDM - Bom Dia Mercado

Por Rosa Riscala e Mariana Ciscato*


[05/03/25]


… Os futuros de NY registraram uma reviravolta positiva ontem à noite após o secretário de comércio dos EUA, Howard Lutnick, dizer que Trump poderá anunciar ainda hoje “algum alívio” nas tarifas para o Canadá e o México, encontrando-se com os parceiros comerciais para chegarem a um “meio-termo”. A mudança de atitude ocorre poucas horas depois que a Casa Branca confirmou as tarifas, inclusive para a China, e levou de volta as respectivas retaliações, com os mercados reagindo aos prováveis impactos para a inflação americana. Trump também jogou duro com Zelensky, suspendendo a ajuda militar à Ucrânia, que agora diz estar pronta para fechar um acordo com a Rússia sob a “forte liderança” dos EUA. Os pregões domésticos reabrem hoje, às 13h, já na onda da volatilidade induzida por Trump.


… A agenda da semana mais curta do Carnaval é importante aqui e lá fora. NY terá payroll, discurso de Powell, Livro Bege. A zona do euro, reunião do BCE. E o Brasil, o PIB/4Tri e as repercussões sobre as últimas novidades do governo Lula.


… A nomeação de Gleisi Hoffmann para a articulação política, no lugar de Alexandre Padilha, gera expectativa e muitas dúvidas quanto ao seu significado. Lula surpreendeu o mercado, que teme por uma guinada (ainda mais) populista para recuperar a popularidade.


… Crítica contumaz do ministro Haddad, Gleisi leva o investidor a redobrar a cautela com a percepção fiscal e a agenda econômica.


… “Gleisi no Palácio é mais um sinal dos descaminhos da política econômica e tender a fragilizar Haddad ainda mais”, avalia Sérgio Vale, da MB Consultoria, lembrando o seu perfil combativo ao controle fiscal e à alta da Selic.


… Na própria 6ªF, atendendo a pedido de Lula, Gleisi ligou para Haddad e também procurou outros ministros e líderes no Congresso para buscar uma aproximação, segundo apurou a Folha. A melhor hipótese é de que ela assuma uma postura mais conciliadora.


… Outro alerta foi a notícia (também da Folha, neste Carnaval) de que Lula cogita nomear Guilherme Boulos (PSOL) como secretário-geral da Presidência, cargo que era cotado para Gleisi e que faz a interlocução com os movimentos sociais.


… Na 6ªF, antes de sair para o Carnaval, o dólar rompeu R$ 5,90 (R$ 5,9163, +1,5%), o DI resgatou as taxas de 15% e o IBOV queimou dois mil pontos (-1,6%, 122.799,09) com o impacto combinado do cenário externo adverso com as incertezas domésticas.


… Trump agiu em dois tempos. Primeiro foi para cima e mostrou que não estava blefando, como muitos queriam acreditar. Anunciou que as tarifas de 25% para o Canadá e o México, e a tarifa adicional de 10% para a China, estavam em vigor desde ontem.


… A retaliação de Pequim foi imediata, com um aumento de 15% na tarifa sobre alimentos e outros produtos agrícolas importados pelos EUA. Além disso, os chineses elevaram as restrições para a exportação a empresas americanas.


… A China também entrou com ação na OMC, alegando descumprimento das regras pelos americanos.


… De seu lado, o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, anunciou que vai aplicar uma tarifa de 25% sobre os EUA. A cobrança atingirá um total de 155 bilhões de dólares canadenses (US$ 107 bilhões) em mercadorias americanas.


… O processo será realizada em duas etapas: de imediato, a tarifa será aplicada a 30 bilhões de dólares canadenses em importações. Em um segundo momento, daqui a 21 dias, afetará o restante dos produtos dos EUA.


… Trudeau afirmou que as tarifas permanecerão em vigor até que os Estados Unidos removam os 25% para os produtos canadenses, cuja cobrança, segundo ele, é ilegal e será contestada na OMC.


… Trump rebateu em postagem: “Expliquem ao Trudeau que quando ele retaliar elevaremos na mesma proporção.”


… No México, Claudia Sheinbaum prometeu que revidaria os EUA no próximo domingo, em anúncio em praça pública.


… À noite, a conversa virou e veio o secretário de comércio americano para mudar o rumo das coisas. Tudo em menos de 24 horas.


HUMILHAÇÃO, PARTE 2 – Ainda no noticiário do Carnaval, Trump anunciou que estava tirando toda a ajuda dos EUA à Ucrânia, deixando Zelensky sem saída para assinar o acordo que permite aos americanos explorarem minerais em território ucraniano.


… Em seu primeiro discurso do segundo mandato no Congresso, Trump antecipou ontem à noite que anunciará no fim de semana medida para expandir a produção de minerais críticos e a exploração em terras raras nos EUA.


… Disse ainda que fez mais em 43 dias do que outros antecessores fizeram em 4 anos, que está só começando, prometeu derrotar a inflação e equilibrar o orçamento federal em um “futuro próximo”.


… Citou ainda nominalmente o Brasil, além da UE, China, México e Canadá, pela cobrança de tarifas “injustas” dos EUA. Ele repetiu que as tarifas recíprocas serão adotadas no início de abril (dia 2).


MAIS AGENDA – Em meio ao interesse político de que a economia continue aquecida, o IBGE divulga na 6ªF o PIB/4Tri e do acumulado do ano passado. No Broadcast, a mediana indica altas de 0,4% e 3,5%, respectivamente.


… Semana passada, Lula disse que o Brasil cresceu 3,8% no ano passado e vai crescer “um pouco mais de 2,5%” este ano, contrariando o governador Tarcísio (SP), que previu em reunião com prefeitos um recuo de até 2% do PIB.


… Além do PIB, na 6ªF, sai a balança comercial de fevereiro.


… Amanhã (5ªF), dois indicadores de inflação de fevereiro devem acelerar: o IPC-S, de 0,02% em janeiro para 1,21%, e o IPC-Fipe, de 0,24% para 0,45% no mesmo período.


O QUE MAIS VEM AÍ – O governo deixou para depois do Carnaval a definição das medidas para conter os preços dos alimentos. O vice Alckmin assegurou que não haverá “heterodoxia”, como aumento de imposto e criação de cobrança sobre a exportação.


… Também para depois do Carnaval é esperada a MP que melhora o acesso ao crédito consignado privado e o projeto de lei que cria um novo formato para custear o programa Auxílio-Gás dentro das regras do arcabouço fiscal.


… A MP que libera o saque do FGTS para trabalhadores que tiveram o saldo retido por optar pelo saque-aniversário foi publicada na 6ªF em edição extra do Diário Oficial da União. A estimativa é de que R$ 12 bilhões sejam liberados.


… A injeção de dinheiro na economia coloca em xeque o esfriamento da atividade e das pressões inflacionárias.


LÁ FORA – Na 6ªF forte, o payroll de fevereiro e um discurso de Powell em universidade calibram as projeções para a política monetária, neste momento em que cresce a aposta em um corte acumulado de 75pb pelo Fed (leia abaixo).


… Antes do payroll, saem hoje nos EUA o relatório ADP sobre a criação de empregos no setor privado em fevereiro (10h15), o PMI/S&P Global de serviços (11h45), as encomendas à indústria em janeiro (12h) e o Livro Bege (16h).


… Os estoques de petróleo do DoE serão divulgados às 12h30. Durante o carnaval, a Opep e seus aliados decidiram por um aumento “gradual” da produção, de pouco menos de 0,5% ao mês, entre abril deste ano e o final de 2026.


… Os aumentos devem ocorrer na Arábia, Argélia, Casaquistão, Emirados Árabes, Iraque, Kuwait, Omã e Rússia. A previsão é de que os países estejam produzindo 31,650 milhões de bpd no final/2025 e 32,880 milhões no fim/26.


… Diante da retomada da produção pela Opep+ no mês que vem e temores de desaceleração do crescimento global com as tarifas de Trump, o barril do Brent para maio recuou 0,81% ontem, cotado a US$ 71,04 na Ice londrina.


ZONA DO EURO – Na agenda de hoje, a leitura final do PMI de serviços e composto/fev será divulgada na Alemanha (5h55), zona do euro (6h) e Reino Unido (6h30). Às 7h, tem PPI da zona do euro. Bailey (BoE) fala às 11h30.


… Amanhã (5ªF), é amplamente esperado que o BCE corte o juro novamente, de 2,75% para 2,50%. Mas os próximos passos já não são tão claros, diante das pressões da inflação e dúvidas sobre o impacto do protecionismo de Trump.


… Lagarde pode dar alguma pista em coletiva de imprensa amanhã, quando também o BC da Turquia decide juros.


CHINA HOJE – Durante o carnaval, dados da atividade chinesa confirmaram uma melhora. A leitura final do PMI industrial medido pelo setor privado (S&P Global) subiu de 50,1 (jan) para 50,8 (fev) e superou a previsão de 50.


… O indicador oficial passou a apontar expansão. Avançou de 49,1 para 50,2, também acima do esperado (49,9).


… Ontem saiu o PMI/S&P Global composto, que subiu de 51,1 em janeiro para 51,5 em fevereiro, nível mais alto dos últimos três meses. O PMI de serviços registrou crescimento de 51,0 pontos para 51,4 no mesmo intervalo.


… Na virada de 5ªF para 6ªF, será divulgada a balança comercial de janeiro.


… No Congresso Nacional do Povo, que se prolonga até o fim de semana, a China estabeleceu nesta 3ªF uma meta de crescimento do PIB de “cerca de 5%” para 2025, a mesma do ano passado, apesar dos desafios.


… Além das tensões comerciais, preocupam a demanda doméstica fraca e a prolongada desaceleração do mercado imobiliário chinês.


JAPÃO HOJE – O PMI/S&P Global composto subiu de 51,1 pontos em janeiro para 52,0 pontos em fevereiro. O PMI de serviços avançou de 53,0 para 53,7 no mesmo período, também em território de expansão.


FLIGHT TO QUALITY – Preocupações com o impacto das tarifas a produtos de México, Canadá e China sobre a economia dos EUA pesaram sobre as bolsas em NY, que fecharam em baixa forte nesta 3ªF, feriado de Carnaval no Brasil.


… O S&P 500 caiu 1,22%, aos 5.778 pontos, enquanto o Dow Jones caiu 1,55%, aos 42.520 pontos. Só o Nasdaq (-0,35%, 18.285 pontos) foi um pouco melhor com a recuperação de algumas techs, como a Nvidia (+1,69%), que havia sofrido mais em pregões anteriores.


… “A decisão de Trump de avançar com as tarifas, somada a mais dados fracos sobre a economia dos Estados Unidos, resultaram em busca por segurança nos mercados financeiros”, disse Jonas Goltermann, economista da consultoria Capital Economics.


… Mas ele foi um dos que considerou a reação exagerada, prevendo que Trump poderia mudar de ideia a qualquer momento.


… O medo de uma guerra comercial enfraqueceu o dólar. No final do dia em NY, o euro subia para US$ 1,0614, enquanto a libra esterlina avançava a US$ 1,2786. O dólar também caiu em relação ao iene, porém em menor grau (a 149,16 ienes).


… Já em relação ao peso mexicano, o dólar subiu a 20,7009 pesos, avançando ainda sobre o dólar canadense (1,4477 por dólar).


… As taxas dos Treasuries reagiram sem direção única, refletindo as preocupações com o efeito inflacionário das tarifas e os receios com a perda de fôlego da economia americana. Enquanto o yields da Note-2 anos caiu para 3,932%, o da Note-10 anos subiu a 4,202%.


… Apesar do risco de os choques das tarifas evoluírem para inflação mais alta, dados fracos de atividade nos EUA têm aumentado as apostas em uma redução acumulada de 75 pontos-base nos juros pelo Fed neste ano.


… Apesar disso, o Fed boy John William descartou, nesta 3ªF, mudanças nos juros neste momento, ressaltando que é preciso esperar o desdobramento das políticas de Trump sobre a inflação antes de decidir sobre eventuais alterações.


… Impulsionado pelas incertezas com tarifas e tensões geopolíticas, o ouro fechou em alta nesta 3ªF, com o contrato para abril subindo 0,67% na Comex, negociado a US$ 2.920,60/onça-troy. O metal se aproxima do seu recorde histórico de US$ 2.974/onça-troy.


… O ouro é alimentado ainda pelo conflito na Europa Oriental e expectativa de um aumento nas apostas de cortes de juros pelo Fed.


EM TEMPO… PETROBRAS reduziu QAV em 5,9%, o que corresponde a uma redução aproximada de R$ 0,25/litro, informou a estatal. A medida está valendo desde o sábado de Carnaval (1º/3).


PRIO informou que o conselho de administração aprovou o aumento do capital social no valor de R$ 2,8 bilhões e que o Ibama concedeu a licença de perfuração para o campo de Wahoo.


SANTANDER informou a exoneração do diretor vice-presidente executivo Franco Raul Rizza, no cargo desde janeiro de 2024, quando substituiu Antonio Pardo de Santayana Montes…


… Também foi anunciada nomeação interina do atual diretor vice-presidente executivo, Gustavo Alejo Viviani, à função de diretor responsável por gerenciamento de riscos (CRO) do conglomerado prudencial do banco no Brasil…


… Banco relacionou em formulário 20-F como riscos de seu negócio a chance de falha na proteção de informações pessoais, efeitos nocivos do uso da IA e forte ambiente competitivo no mercado de serviços financeiros.


ASSAÍ. Antipodes Partners Limited passou a deter 1.352.215.647 de ações ON, o que representa 5,13% do total.


IGUATEMI. Radar Gestora de Recursos passou a deter 47.285.400 de ações PN, equivalentes a 10,67% do total.


MÉLIUZ informou a renúncia da Marcos Lisboa, ex-presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e de Bruno Chamas Alves como membros do conselho de administração…


… Em substituição, foram eleitos Tiago Bortoletto Veloso de Almeida e Guilherme Villela de Viana Bandeira…


… Já no lugar de Ofli Campos Guimarães, que renunciou em novembro, assumiu Roberta Lemos Antunes da Silva. Na posição de Júlio Cezar Tozzo Mendes Pereira, que deixou o conselho em janeiro, entrou Matheus Ferreira.


WEG concluiu a aquisição da Reivax, empresa brasileira no setor de sistemas de controle para geração de energia, anunciada em novembro do ano passado.


AGROGALAXY anunciou que pretende agrupar ações na B3 para atender à exigência de negociação acima de R$ 1; proposta será votada pelos acionistas em 3 de abril; se aprovada, cada 15 ações serão condensadas em uma só.


ENERGISA. Fundos de investimentos geridos pelas Entidades Goldman Sachs realizaram operações que resultaram em posição de derivativos com liquidação física equivalente a 81.126.100 de ações PN de emissão (5,79% do total).


ANEEL anunciou bandeira tarifária verde em março, mencionando o volume de chuvas e as boas condições dos níveis dos reservatórios. É o quarto mês consecutivo em que não há custo adicional na tarifa de energia.


AOS ASSINANTES DO BDM, BOM DIA E BONS NEGÓCIOS!

DAN KAWA 0503

 *Dan Kawa: Quarta-Feira de Cinzas*


Sem cair no risco de soar repetitivo, trago nessa quarta-feira de cinzas uma atualização gráfica de tudo aquilo que tenho escrito nas últimas semanas, e que se intensificaram nos últimos dias.


O S&P500 já devolveu toda a alta verificada após as eleições presidenciais americanas. Neste período, o desempenho do mercado de juros foi melhor do que a bolsa.


Está dinâmica está intimamente ligada aos sinais de desaceleração do crescimento dos EUA.


Quando olhamos "por debaixo da superfície" do mercado de ações, vemos como fatores como Growth, Momento e Tech está deixando de ser os principais líderes do mercado, algo que não víamos há anos.


Segundo análise preliminar da Goldman Sachs com Hedge Funds, vemos como a diversificação regional e setorial fez diferença no mês de fevereiro.


Repito aqui o que escrevi há alguns dias atrás: "Muitos investidores ficaram anos - quiçá décadas - acertadamente expostos a fatores como Crescimento, Momento e Tecnologia, além de um "excesso" de exposição aos EUA.


O momento atual enseja uma profunda reflexão sobre diversificação de carteiras, em termos de fatores, regiões e teses."


https://x.com/DanKawa2/status/1897215385050735020

Matinal 0503

 🌎🇧🇷🇺🇸 Relatório de emprego ADP prepara espírito para payroll


Os futuros de NY registraram uma reviravolta positiva ontem à noite após o secretário de comércio dos EUA, Howard Lutnick, dizer que Trump poderá anunciar ainda hoje “algum alívio” nas tarifas para o Canadá e o México, encontrando-se com os parceiros comerciais para chegarem a um “meio-termo”. A mudança de atitude ocorre poucas horas depois que a Casa Branca confirmou as tarifas, inclusive para a China, e levou de volta as respectivas retaliações, com os mercados reagindo aos prováveis impactos para a inflação americana. Trump também jogou duro com Zelensky, suspendendo a ajuda militar à Ucrânia, que agora diz estar pronta para fechar um acordo com a Rússia sob a “forte liderança” dos EUA. Os pregões domésticos reabrem hoje, às 13h, já na onda da volatilidade induzida por Trump. (Rosa Riscala)


👉 Confira abaixo a agenda de hoje


Indicadores

▪️ 05h55 – Alemanha: PMI/S&P Global de serviços e composto de fevereiro

▪️ 06h00 – Zona do euro: PMI/S&P Global de serviços e composto de fevereiro

▪️ 06h30 – Reino Unido: PMI/S&P Global de serviços e composto de fevereiro 

▪️ 07h00 – Zona do euro: PPI de janeiro 

▪️ 10h15 – EUA: relatório ADP de empregos no setor privado em fevereiro

▪️ 11h45 – EUA: PMI/S&P Global de serviços e composto de fevereiro

▪️ 12h00 – EUA: Encomendas à indústria em janeiro

▪️ 12h30 – EUA: Estoques de petróleo 

▪️ 16h00 – EUA: Fed divulga Livro Bege


Eventos

▪️ 11h30 – Andrew Bailey (BoE) testemunha no Tesouro britânico


📰 Jornal do Investidor 

📚 MZ Investimentos

                    

🗞 O seu CANAL DE NOTÍCIAS 

Estamos no WhatsApp, Telegram, Twitter e Instagram

Bankinter Portugal Matinal 0503

 SESSÃO: Ontem, golpe de realidade repentino. O mercado percebeu – desta vez de forma mais clara e definitiva – que há um risco sério de que o ciclo económico global sofra um retrocesso, ao tornar-se evidente que o "Trump trade" na verdade é um "Trump fake". As represálias comerciais (tarifas e similares) e a "geoestratégia de bazar" (negócios, sim; princípios, nenhum) têm consequências muito sérias que o mercado vinha ignorando até pouco tempo, para terminar a ser humilhado e reconhecê-lo isso ontem com quedas violentas, como uma correção à ingenua complacência anterior. Ninguém poderá dizer que não avisamos.


Mas Trump quer ir ainda mais longe, testando os seus próprios limites: Deixou escapar que está a elaborar uma proposta para reformar a Constituição dos EUA e eliminar o limite de dois mandatos presidenciais (Emenda 22 de 1951), imitando o que Putin fez em 2020 para se perpetuar. Isso significaria passar de um sistema constitucionalista para um sistema patrimonialista: o estado ficaria sob o controle de um grupo de pessoas lideradas por alguém que se perpetua e cujos interesses se concentram em favorecer o seu património pessoal, o dos seus aliados e engrandecer o seu ego. O bom é que modificar a constituição americana é realmente difícil porque existem apenas duas vias: uma emenda aprovada pelo Congresso (ambas as câmaras) e ratificada por 38 estados (ao todo 50), ou a convocação de uma convenção nacional, algo nunca utilizado na história. Os republicanos controlam o Congresso (220 contra 215) e o Senado (53 contra 47), mas é improvável que todos os republicanos apoiassem Trump numa emenda desse tipo, que ainda precisaria ser ratificada por 76% dos estados. Muito difícil, embora não impossível. O mais grave para o mercado é que o simples facto de ter sido mencionada informalmente essa possibilidade faz com que se pense que a solidez das instituições americanas pode ser colocada à prova, e isso é motivo de grande preocupação. Esse foi o outro golpe de realidade ontem, além das consequências de uma guerra comercial indiscriminada, onde todas as partes perdem… embora a China e a Europa percam proporcionalmente mais.


Após o golpe de ontem, principalmente sobre a Europa, o mercado tentará recuperar HOJE. Mas a fiabilidade disso é praticamente zero, pois o problema é estrutural, não circunstancial. Pode ser o famoso "rebound do gato morto", embora ele ainda possa "miar" (se recuperar) um pouco. Trump diz que anunciará mais tarifas no dia 2 de abril, referindo-se provavelmente à Europa, embora possa ser qualquer outra coisa. Esse é o problema estrutural: não saber nada com certeza e esperar qualquer coisa, até mesmo o contrário. Nessas circunstâncias, a confiança deteriora-se seriamente, o mercado fica bloqueado, toma lucros e o ciclo económico balança. Amanhã será, teoricamente, o dia mais importante desta semana, porque o BCE (Banco Central Europeu) vai reduzir em -25pb, até 2,50/2,65%, e saberemos se a Broadcom decepciona ou anima, embora isso seja só no fecho de NY.


CONCLUSÃO TELEGRÁFICA: Quando se entra numa fase em que ninguém sabe nada porque não se pode estar seguro de nada e qualquer coisa é possível sem que isso cause grande surpresa (Trump), é preciso ter muito cuidado, pois o ciclo económico expansivo pode ser frustrado, e isso inevitavelmente levaria a revisões para baixo nos lucros por ação/benefícios empresariais. E as bolsas, no médio e longo prazo, fazem o mesmo que os resultados empresariais. Isso não muda. A guerra comercial trará de volta a inflação em cerca de 6 meses, porque as empresas, em geral, vão repassar o maior custo para os preços finais. Isso significa que as taxas de juros podem ficar mais ou menos onde estão agora, e se o BCE reduzir agressivamente, precisará aumentá-las depois, se descreditando novamente. As yields das obrigações europeias subiram entre 10pb e 20pb esta semana, e isso afeta negativamente as valorizações. Isso também não muda. O aspecto geral está se deteriorando rapidamente. Insistimos: cuidado. Não confiemos na recuperação de hoje, caso ele dure até o final da sessão.


S&P500 -1,2% Nq-100 -0,4% SOX +0,6% ES-50 -2,8% IBEX -2,6% VIX 23,2 Bund 2,50% T-Note 4,25% Spread 2A-10A USA=+28pb O10A: ESP 3,31% PT 3,01% FRA 3,27% ITA 3,68% Euribor 12m 2,381% (fut.2,078%) USD 1,062 JPY 159,2 Oro 2.919$ Brent 71,0$ WTI 67,9$ Bitcoin +4,7% (87.615$) Ether +4,9% (2.198$).


FIM

Manifestação

 " *Manifesto pela Liberdade de Criação Artística* 


Enquanto nos Estados Unidos e no resto do mundo a ideologia woke está em decadência, no Brasil ela reina soberana. Como dizia o Millôr Fernandes: "Quando uma ideologia fica bem velhinha, vem morar no Brasil".


Temos visto no nosso país uma escalada do autoritarismo, que se expressa na censura, nos cancelamentos, perseguição a artistas e intelectuais que não pensam de acordo com a cartilha vigente, o identitarismo woke.


Politicamente correto, cancelamentos, lacração, ataques à liberdade de expressão, tudo isso faz parte do radicalismo próprio ao identitarismo.


Ministério da Cultura, Ancine, editais estaduais e municipais, lei Paulo Gustavo, etc, todos usam abertamente critérios da ideologia woke.


Conceitos importados como apropriação cultural e linguagem neutra orientam os debates e o fomento da arte brasileira há mais de uma década. Como diz Antonio Risério, até a língua portuguesa foi instrumentalizada por essa ideologia.


Além disso, existe o preconceito contra pessoas religiosas em geral, e especificamente contra os cristãos. É praticamente impossível aprovar um filme cristão num edital audiovisual, por exemplo.


Uma das principais vítimas da censura é o humor, tem sido cada vez mais difícil fazer uma comédia popular. Humoristas são cancelados diariamente sob aplausos da base woke.


Tem sido comum também fazer tábua rasa do passado, em vez de ser tratado com a devida complexidade, existe um ódio muito grande ao passado e aos personagens que fizeram o nosso país e a cultura brasileira.


A arte brasileira está sob censura. O que hoje chega ao resto da sociedade, essa chatice de lacração e de linguagem neutra, já domina a arte brasileira há mais de uma década. Isso afastou a arte e a cultura brasileira do seu público.


Nunca o cinema, a televisão e o teatro brasileiro estiveram tão afastados do gosto popular. Por um motivo simples: as obras seguem fielmente uma estética importada. Nós artistas livres lutamos pela diversidade estética e pela liberdade de expressão e de criação."

terça-feira, 4 de março de 2025

Impeachment do Trump

 Impeachment on the road?


https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/02/historiadores-e-cientistas-politicos-passam-a-chamar-de-golpe-acoes-de-trump.shtml?fbclid=IwY2xjawIyj85leHRuA2FlbQIxMQABHR5rwGlwZLzLEAfkfiYVFsvYPH3eqGBKoEK-iGqi8RE_Ih3N-JZhjTnCxA_aem_gT-AduBDMZuwoQonNF9ezw


*Historiadores e cientistas políticos passam a chamar de golpe ações de Trump*


_Figuras da esquerda à centro-direita, como Martin Wolf, Anne Applebaum e Timothy Snyder, acreditam que republicano já esteja rompendo ordem constitucional nos EUA_


Patrícia Campos Mello


Da esquerda à centro-direita, um número crescente de historiadores, analistas e cientistas políticos dos Estados Unidos está usando o termo "golpe" para caracterizar as ações de Donald Trump passado seu primeiro mês de mandato.


Figuras respeitadas como os historiadores Timothy Snyder e Ruth Ben-Ghiat, os cientistas políticos Steven Levitsky e Adam Przeworski, e até comentaristas mais identificados com a direita e centro-direita, como o jornalista Martin Wolf e a economista Jessica Riedl, do centro de estudos conservador Manhattan Institute, afirmam que as medidas adotadas pelo presidente ameaçam a democracia e podem configurar uma ruptura institucional.


"É claro que é um golpe", escreveu Snyder, professor da Universidade Yale e autor de "Sobre a Tirania", que popularizou o conceito de "obediência antecipada" a tiranos.


"As ações contínuas de Elon Musk e seus seguidores são um golpe, porque os indivíduos que estão tomando o poder não têm esse direito. Ele não foi eleito para nenhum cargo e não há cargo que lhe daria autoridade para fazer o que está fazendo. Tudo isso é ilegal", escreveu Snyder em sua coluna no Substack.


O desmantelamento do Estado está no foco das preocupações. Desde que o republicano assumiu, funcionários públicos têm sido pressionados a se demitir, agências governamentais inteiras estão sendo fechadas, e os recursos federais para estados e ONGs foram bloqueados. O Doge, sigla para o departamento criado via decreto por Trump com a tarefa de cortar gastos, tendo Musk à frente, atropelou regras de estabilidade de funcionários públicos, e o Executivo se apropriou de atribuições do Congresso —que tem o chamado "poder da carteira".


"Eles estão determinados a destruir o governo, não a fazer um ajuste por meio de reformas institucionais", disse Przeworski, estudioso da democracia na New York University e que cunhou o termo "autoritarismo furtivo".


"Eu adoraria ver cortes de 30%, 40% ou até mais em algumas agências governamentais. Mas siga a Constituição, vá ao Congresso e veja o que a maioria dos legisladores devidamente eleitos está disposta a aprovar", afirmou Jessica Riedl, que foi assessora econômica de políticos republicanos. Ela vê uma clara "erosão da democracia".


Já Wolf, outro influente pensador de centro-direita e colunista do Financial Times, acredita que o objetivo das demissões em massa e substituição de funcionários de carreira por aliados políticos seja "transformar os EUA em uma ditadura plebiscitária, na qual o detentor do poder é rei".


Ele escreveu em sua coluna mais recente que as reformas de Musk e Trump não têm nada a ver com tornar o governo mais eficiente. Segundo Wolf, a estratégia foi revelada pelo então senador e hoje vice-presidente, J. D. Vance, a um podcast conservador, ainda em 2021. "[Trump] deveria demitir todos os burocratas de nível médio, todos os funcionários públicos no Estado administrativo, substituí-los por nosso pessoal... E, quando os tribunais o impedirem, ficar ao lado da nação como [o ex-presidente] Andrew Jackson e dizer: 'O presidente da Suprema Corte tomou sua decisão, ele que a ponha em prática."


Em 1832, Jackson se recusou a cumprir uma decisão da Corte em uma disputa entre o estado da Geórgia e os indígenas cherokees, e a declaração atribuída a ele, provavelmente apócrifa, marcou o choque com o Judiciário.


A historiadora Anne Applebaum, autora de "Autocracia S.A.", compara esses expurgos no funcionalismo aos feitos pelo ditador venezuelano Hugo Chávez, que demitiu 19 mil empregados da PDVSA, a estatal do petróleo do país, e pelo primeiro-ministro da Hungria, Viktor Órban, que acabou com as proteções trabalhistas do setor público. Applebaum se refere às ações de Trump como "golpe" e "mudança de regime".


Para Ruth Ben-Ghiat, professora da Universidade de Nova York e autora de "Strongman", o republicano inaugurou uma versão atualizada do autoritarismo, com inovações como a rapidez extrema das mudanças e a dupla liderança, Musk-Trump. "Sou historiadora de golpes, e também usaria essa palavra. Estamos em uma situação de emergência real para nossa democracia." Na visão do economista progressista Paul Krugman, há uma "tentativa de autogolpe".


Professor da Universidade Harvard que se destacou com a obra "Como as democracias morrem", Steven Levitsky considera provável que a democracia nos EUA entre em colapso durante o segundo mandato de Trump ao "deixar de atender aos critérios padrão de uma democracia liberal: sufrágio universal adulto, eleições livres e justas, e ampla proteção das liberdades civis".


Em ensaio publicado na revista Foreign Affairs (e reproduzido pela Folha), ele afirma que os EUA não terão uma ditadura clássica do tipo "tanques na rua", mas se encaminha para o que chama de autoritarismo competitivo, "um sistema em que os partidos competem nas eleições, mas o abuso de poder do detentor do cargo desequilibra a disputa, deixando a oposição em (franca) desvantagem".


Mas, claro, há a turma do "devagar com o andor".


Em editorial, o Wall Street Journal afirma que "as ações de Trump são agressivas, mas não constituem um golpe". O WSJ é de propriedade Rupert Murdoch, dono também da Fox News, que faz cobertura positiva do governo e de onde foram pinçados alguns ministros do republicano.


Para o jornal, aqueles que falam em "crise constitucional" estão exagerando. "A verdadeira crise virá se Trump contestar uma decisão da Suprema Corte. Se isso acontecer, e pode acontecer, a esquerda vai querer não ter desperdiçado sua credibilidade ao gritar 'lobo' tantas vezes sobre crises que não existiam. Por enquanto, os leitores podem relaxar."

Amilton Aquino 0403

 Ontem, tive o desprazer de assistir ao documentário "A Face Oculta de Zelensky", produzido pelo Brasil Paralelo. Já havia visto outros episódios da série, o que me despertou curiosidade para ver até que ponto a produtora havia mergulhado nas investigações, separando fatos de desinformação russa espalhada pelas redes.


Para minha decepção (e para a esmagadora maioria dos internautas nos comentários), o documentário é uma coletânea de argumentos usados para denegrir a imagem de Zelensky, recorrendo a meias verdades e até mentiras descaradas, como veremos a seguir.


Desde o início, tenta-se traçar um paralelo com imagens da série cômica que o então ator protagonizou e a realidade, criticando sua postura outsider. Curiosamente, essa mesma característica é tratada com simpatia pelo BP quando o assunto é o bolsonarismo.


Na mesma linha, há uma crítica ao fato de Zelensky ter evitado debates durante a campanha, já que, rapidamente, despontou como favorito nas pesquisas. De fato, um ponto válido.


Até esse momento, quase metade do documentário, o tom predominante é de ironia, até mesmo ao citar a famosa frase de Zelensky: "Não me dê carona, me dê armas."


A partir daí, porém, o documentário começa a sugerir que a retórica do presidente ucraniano teria justificado a invasão de Putin. Zelensky, que se elegeu prometendo um acordo de paz, de repente vira incendiário. Segundo a narrativa do BP, ele teria sido o único responsável pela violação do Segundo Acordo de Minsk, afirmação ilustrada com imagens de tanques ucranianos avançando contra a região ocupada pelos russos. Putin, coitado, é apenas uma vítima, que não estimulou o separatismo, apenas reagiu às provocações de Zelensky!


A coisa se agrava quando o filme tenta pintar Zelensky como autoritário, citando a proibição de partidos pró-Rússia como se tivesse ocorrido antes da invasão, sugerindo que isso teria sido mais um motivo para a agressão de Putin. Na realidade, a proibição só aconteceu um mês depois da invasão e foi decidida pelo parlamento ucraniano, um erro inadimissível para uma produção que caminha para meio milhão de views.


O mesmo erro ocorre ao tratar do fechamento de veículos de imprensa pró-Rússia, algo comum em qualquer país em guerra. O documentário ainda usa a separação entre a Igreja Ortodoxa Russa e a Ucraniana como argumento contra Zelensky, ignorando o fato de que Moscou utiliza a religião como ferramenta de propaganda — basta ver as imagens do patriarca Cirilo (líder ortodoxo russo) abençoando a guerra de Putin.


Outro erro grosseiro está na questão da adesão à OTAN. O documentário tenta justificar a invasão russa alegando que Zelensky mudou de posição sobre o assunto, quando, na verdade, ocorreu o oposto. O próprio filme admite que, antes da guerra, a entrada na OTAN não era uma demanda de Zelensky. A mudança de discurso veio depois da invasão. Por que será??? 


Para reforçar as suspeitas sobre Zelensky, o documentário cita casos de corrupção em escalões inferiores do governo, sem qualquer envolvimento direto do presidente e sem mencionar que todos os envolvidos foram exonerados.


De crítica válida, apenas a sessão de fotos para a revista Vogue, que, de fato, foi um tiro pela culatra no esforço de Zelensky para conquistar apoio do Ocidente.


Pelo menos, o documentário não repete a mentira clássica de que Zelensky teria suspendido as eleições, algo que a própria Constituição Ucraniana proíbe em caso de guerra. No entanto, sugere que ele teria interesse na continuação do conflito para se manter no poder — ignorando o fato de que o próprio Zelensky já se mostrou disposto a renunciar como parte de uma eventual negociação.


Ah, e como não poderia faltar, tem também a insinuação de simpatia ao nazismo! Sim, eles usaram essa carta!


Enfim, um documentário lamentável, que cumpre o papel de justificar a guinada de Trump em direção ao ditador russo, abandonando os valores que tornaram os EUA grande. Aos apoiadores, cabe o lastimável papel de disseminadores do ódio contra um raro caso de político que abriu mão do conforto de uma vida nos EUA para arricar sua vida numa luta inglória contra a segunda maior potência militar do planeta.

Ailton Braga

  Hoje, 02/02/2026, saiu no Blog do IBRE da FGV, artigo meu em que faço análise da interação entre política fiscal e política monetária, a p...