sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Jonas Federighi

 


A reportagem do Estadão organiza um enredo de bastidor que, politicamente, é ouro puro: o próprio Lula teria concluído que a permanência de Dias Toffoli na relatoria do inquérito do Banco Master “contaminava” o governo — e que a insistência do ministro já havia se tornado insustentável. O ponto central não é apenas a troca de relatoria; é a mensagem de que o Planalto passou a enxergar Toffoli como um vetor de risco eleitoral e reputacional, e não como um amortecedor.

Os destaques do texto são bem objetivos e seguem uma escalada: (1) a Polícia Federal indica suspeição após encontrar menções a Toffoli no celular de Daniel Vorcaro; (2) Lula, irritado, teria enquadrado o ministro com uma escolha binária — renunciar ao caso ou “sair do STF” (na narrativa do artigo); (3) Toffoli diz ao presidente que, se o processo descer para a primeira instância, pode virar uma “Lava Jato 2”; (4) o Planalto monitora redes sociais e registra a percepção pública de que Toffoli agiria para “abafar” a crise e proteger a si mesmo e ao PT; (5) paralelamente, a CPI do Crime Organizado ganha velocidade com pedidos de convocações (inclusive dos irmãos de Toffoli) e quebras de sigilo, tornando o custo político de “segurar” a história ainda maior.

Na sequência, a matéria mostra como a engrenagem institucional começa a produzir pressão por múltiplos lados: STF tentando conter dano interno com a mudança de relatoria; parlamentares mirando convocações e sigilos; e o próprio Toffoli reagindo com a narrativa de “investigações clandestinas” e “vazamentos distorcidos”. É o típico cenário em que a disputa deixa de ser “apurar fatos” e vira “controlar o perímetro do estrago”: cada ator se movimenta para impedir que a lama chegue no andar de cima — ou, se chegar, para decidir quem cai primeiro.

E aqui entra o paralelo soviético, com clareza didática: regimes que vivem de narrativa fazem “edição da realidade” quando um personagem vira tóxico. Na URSS, eliminava-se gente de fotografias para reescrever a memória oficial — o recado era “nunca esteve aqui”. No caso retratado, a lógica é a mesma, só que adaptada ao século XXI: retirar Toffoli do quadro para reduzir contaminação, como se a remoção do rosto resolvesse a origem do problema. A conclusão política que o texto sugere (e que a história ensina) é dura: quando a conveniência manda mais do que a regra, o sistema tenta salvar o líder “apagando” o auxiliar — e Toffoli passa a ser tratado como o “filho incômodo” do lulismo, aquele que se quer longe da foto oficial, mas cuja paternidade política permanece óbvia demais para ser apagada com Photoshop institucional.

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