domingo, 25 de janeiro de 2026

Macroeconomia, Análise Macroeconômica e Cenário Econômico

 Macroeconomia, Análise Macroeconômica e Cenário Econômico

1. O que é Macroeconomia

A macroeconomia é o ramo da ciência econômica que estuda o funcionamento do sistema econômico como um todo, analisando fenômenos agregados em diferentes escalas de observação, tais como:

economias nacionais (países);

blocos econômicos regionais;

e a economia global de forma integrada.

Diferentemente da microeconomia, que se concentra no comportamento de agentes individuais — como empresas, consumidores ou setores específicos —, a macroeconomia busca compreender as grandes forças estruturais que determinam o nível de atividade econômica, a estabilidade dos preços, o emprego, a renda, o valor da moeda e o fluxo global de capitais.

A macroeconomia responde a questões centrais para governos, investidores, empresários e formuladores de políticas públicas, tais como:

A economia está em processo de crescimento, estagnação ou desaceleração?

O dinheiro está caro ou barato, isto é, o custo do capital está elevado ou reduzido?

Para onde o capital global está migrando?

Qual é o nível de risco sistêmico presente no ambiente econômico?

Quais classes de ativos tendem a apresentar melhor desempenho no momento atual?

É fundamental compreender que a macroeconomia não tem como objetivo prever o desempenho de empresas individuais. Seu papel é mais amplo e estrutural: ela define o ambiente econômico, ou, em termos práticos, o vento a favor ou contra que afeta simultaneamente todos os negócios, setores e investimentos.

2. Os Pontos Essenciais da Macroeconomia

2.1 Crescimento Econômico

O crescimento econômico representa a expansão da capacidade produtiva e da geração de renda de uma economia ao longo do tempo. Trata-se de um dos pilares centrais da análise macroeconômica, pois influencia diretamente o nível de emprego, o consumo, os investimentos e a arrecadação do Estado.

Os principais indicadores utilizados para mensurar o crescimento econômico incluem:

Produto Interno Bruto (PIB), em termos reais e nominais;

PIB per capita;

produção industrial;

vendas no varejo;

índices de gerentes de compras (PMIs) da indústria e dos serviços.

De maneira geral, períodos de crescimento econômico robusto tendem a favorecer:

ações;

crédito;

consumo;

investimentos imobiliários.

Por outro lado, cenários de crescimento fraco ou desaceleração econômica costumam beneficiar:

renda fixa;

ativos defensivos;

ouro e instrumentos de preservação de capital.

2.2 Inflação

A inflação corresponde à perda do poder de compra da moeda ao longo do tempo, refletindo aumentos generalizados e persistentes dos preços na economia. Trata-se de uma variável crítica, pois afeta diretamente o comportamento dos consumidores, das empresas, dos investidores e das autoridades monetárias.

Os principais indicadores de inflação incluem:

índices de preços ao consumidor (CPI, IPCA);

índice de gastos com consumo pessoal (PCE);

núcleo da inflação, que exclui itens voláteis;

inflação de bens versus inflação de serviços.

A inflação exerce impacto direto sobre:

as taxas de juros;

os modelos de valuation;

a condução da política monetária;

o poder de consumo da população.

De forma prática, pode-se afirmar que a inflação é o inimigo número um do investidor passivo, pois corrói silenciosamente o valor real do patrimônio ao longo do tempo.

2.3 Política Monetária: Juros e Liquidez

A política monetária é conduzida pelos Bancos Centrais e tem como principal objetivo garantir a estabilidade de preços e o funcionamento adequado do sistema financeiro.

Na análise macroeconômica, deve-se observar atentamente:

a taxa básica de juros (Fed Funds, Selic, taxa do BCE, entre outras);

o forward guidance, isto é, a comunicação prospectiva do Banco Central;

o tamanho e a composição do balanço da autoridade monetária, por meio de políticas de afrouxamento ou aperto quantitativo;

a estrutura da curva de juros.

Como regra geral:

juros em queda tendem a favorecer ativos de risco;

juros em alta tendem a pressionar negativamente ativos de risco e valorizações.

2.4 Política Fiscal

A política fiscal refere-se à forma como o governo gasta, arrecada e se endivida. Sua credibilidade é um dos fatores mais relevantes para a estabilidade macroeconômica de longo prazo.

Os principais indicadores fiscais incluem:

resultado fiscal (déficit ou superávit);

relação dívida pública/PIB;

qualidade e eficiência do gasto público;

sustentabilidade intertemporal da dívida.

Um ambiente caracterizado por desequilíbrio fiscal combinado com inflação elevada representa um risco sistêmico relevante, capaz de gerar crises cambiais, financeiras e de confiança institucional.

2.5 Mercado de Trabalho

O mercado de trabalho é um dos melhores termômetros da saúde real da economia, pois reflete diretamente a capacidade de geração de renda e consumo da sociedade.

Os indicadores mais observados incluem:

taxa de desemprego;

criação líquida de vagas;

evolução dos salários reais;

produtividade do trabalho.

Emprego forte tende a sustentar o crescimento econômico. Contudo, aumentos salariais descolados da produtividade podem gerar pressões inflacionárias persistentes.

2.6 Setor Externo

O setor externo conecta a economia doméstica ao restante do mundo, influenciando a estabilidade cambial e a capacidade de financiamento do país.

Principais indicadores:

balança comercial;

conta corrente;

reservas internacionais;

fluxo de capitais.

Fragilidade no setor externo geralmente se traduz em risco cambial elevado.

2.7 Câmbio

O câmbio representa o preço relativo da moeda de um país em relação às demais e é influenciado por fatores econômicos, financeiros e institucionais.

Na análise cambial, é fundamental observar:

taxa de câmbio nominal e real;

diferencial de juros entre países;

termos de troca;

nível de confiança institucional.

Moedas desvalorizadas tendem a favorecer exportadores, ao passo que prejudicam importadores e pressionam a inflação interna.

2.8 Ciclos Econômicos

As economias não crescem de forma linear; elas evoluem em ciclos econômicos, geralmente compostos por quatro fases:

recuperação;

expansão;

pico;

recessão.

Cada fase do ciclo favorece diferentes classes de ativos e exige estratégias de investimento específicas.

3. Como Realizar uma Análise Macroeconômica Global Completa

Passo 1 – Análise do Ciclo Global

O primeiro passo consiste em identificar a fase do ciclo econômico global, respondendo a perguntas como:

a economia mundial está em expansão ou contração?

a liquidez global está aumentando ou diminuindo?

Estados Unidos, China e Europa estão sincronizados ou em estágios distintos?

Historicamente, os Estados Unidos continuam sendo o principal termômetro da economia global.

Passo 2 – Análise dos Grandes Blocos Econômicos

A análise deve ser feita de forma comparativa entre os principais blocos:

Estados Unidos;

China;

Europa;

Japão;

economias emergentes, incluindo o Brasil.

Devem ser comparados aspectos como:

crescimento econômico;

juros reais;

estabilidade institucional;

capacidade de atração de capital.

Passo 3 – Avaliação da Liquidez Global

A liquidez é o combustível dos mercados financeiros. Para avaliá-la, observa-se:

o balanço dos Bancos Centrais;

a expansão ou contração do crédito global;

spreads de crédito;

fluxos de capital para economias emergentes.

Passo 4 – Análise Intermarket

A análise intermarket cruza informações de diferentes mercados:

juros e ações;

dólar e commodities;

inflação e ouro;

curva de juros e recessões.

Nenhum mercado se movimenta de forma isolada.

Passo 5 – Identificação de Riscos Sistêmicos

Por fim, é essencial mapear riscos como:

tensões geopolíticas;

crises bancárias;

endividamento excessivo;

bolhas de ativos;

quebras de confiança institucional.

4. Principais Aspectos Macroeconômicos para Decisão de Investimento

Uma análise macroeconômica aplicada ao investimento deve responder, de forma objetiva, a um conjunto de questões-chave:

Em que fase do ciclo econômico estamos?

Os juros reais estão em trajetória de alta ou de queda?

A liquidez global está aumentando?

A política fiscal é sustentável?

A moeda tende a se valorizar ou depreciar?

Qual classe de ativo é favorecida no cenário atual?

Onde está o menor risco sistêmico?

Para onde o capital global está migrando?

5. Relação entre Cenário Macroeconômico e Classes de Ativos

Juros em queda: ações, imóveis, ativos de crescimento;

Juros em alta: renda fixa, caixa;

Inflação elevada: commodities, ouro;

Recessão: títulos longos e ativos defensivos;

Expansão global: ações cíclicas e crédito.

6. Consideração Final

Investir sem compreender macroeconomia é como navegar sem bússola.

É possível avançar, mas o risco permanece elevado e o controle é limitado.

Alcides José dos Santos

CEO – BMGK Capital | UAIFE

Um século de política monetária

 


Quase um século da Política Monetária americana mais recente é tratada com profundidade pelo Economista Ben Bernanke neste livro primoroso.

Atributos não faltam ao autor, ganhador do Nobel de Economia em 2022, renomado Professor da Universidade de Princeton e ex-presidente do FED durante a Crise de 2008, tendo sucedido Alan Greenspan no cargo.

Economia: narrativa x modelos

 FORMAMOS ECONOMISTAS PARA UM MUNDO QUE JÁ NÃO EXISTE.


A Economia do século XXI é marcada por incerteza radical, crises sistêmicas, sustentabilidade, transformação digital e centralidade das instituições.

Mas a trilha de aprendizado do economista segue, em grande parte, ancorada em pressupostos concebidos para um mundo estável, previsível e linear — um mundo que já não existe.

O problema não é falta de rigor.
É o tipo de rigor que estamos ensinando.

A formação dominante:

– naturaliza modelos como se fossem a realidade,

– trata instituições e história como acessórios,

– empurra epistemologia para o final (quando não a elimina),

– fragmenta o aprendizado em disciplinas que pouco conversam entre si.

📉 O resultado é excesso de técnica sem leitura sistematizada.

Reformar o ensino de Economia é um problema econômico estrutural.

Currículos são dispositivos de alocação cognitiva:
definem quais problemas importam,
quais métodos são legítimos,
e quais dimensões da realidade permanecem invisíveis.

A questão central é qual trilha de aprendizado forma economistas capazes de lidar com complexidade, incerteza e responsabilidade social.

O século XXI exige menos reprodução automática de modelos
e mais economistas capazes de pensar a economia como sistema aberto, histórico e institucional.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Joaquim Levy

 


As gerações se sucedem (2)


Várias foram as gerações de hashtagteorias monetárias desde os anos 1970. A começar pelas que trouxeram as hashtagexpectativas hashtagracionais e os modelos microeconômicos de equilíbrio geral com hashtagotimização da utilidade do consumidor representativo.

Os modelos Novo Keynesianos permitiram expressar as convicções hashtagkeynesianas--inclusive a de que o equilibrio entre oferta e demanda de moeda é afetado pelos juros-- usando esse instrumental microeconômico.

Essas gerações trouxeram
entendimentos valiosos, mas como esses modelos implicam na antecipação de expectatívas, eles podem exigir hipóteses fortes para selecionar trajetórias estáveis para as variáveis relevantes. E deixam indagações sobre em que medida suas previsões se encaixam com a hashtagevidência empírica. Além disso, sua construção, ao simplificar a realidade para identificar quais os fatores chave para a dinâmica entre variáveis macroeconómicas (e.g., preços e atividade) pode deixar de lado elementos relevantes nas economias modernas, como os hashtagbancos.

No hashtagBrasil, onde temos a singularidade de taxas de juros bastante altas comparadas com as de outros países, a teoria monetária ainda precisa responder a idiossincrasias muito nossas. É provável que a política hashtagfiscal, com um gasto público/PIB relativamente alto em relação a outros países tenha um papel naquelas taxas, ainda que em termos de geraçâo de saldo da arrecadação menos despesas excetuadas com hashtagjuros (resultado primário) nosso desempenho não seja tão ruim.

A volatilidade do hashtagcâmbio e seu impacto na inflaçâo, e a hashtaginércia de alguns componentes da inflação, que pode exigir uma hashtagcontração monetária forte e prolongada, podem criar uma grande demanda de hedge contra os efeitos dessa contração no valor dos ativos de renda fixa com rendimentos pré-fixados. Papéis hashtagpósfixados, cujo rendimento varia com a hashtagSelic, seriam um instrumento para obter esse hashtaghedge, na visão de algums economistas. E, na percepção de uns tantos, começando pelo saudoso prof Affonso Pastore, essa proteção acaba diminuindo o poder dos juros contra a inflação, ao excetuar investidores do "efeito riqueza" negativo trazido pelas altas de juros: essas teriam quer ser maiores, já que a subida da Selic aumentaria o rendimento desses papéis e a demanda doméstica.

Há argumentos pró e contra essas teses, tanto quanto à exata transmissão da política monetária nos modelos Novo Keneysianos, quanto ao impacto da dívida pós fixada no "poder dos juros". Uma das teorias mais radicais a esse respeito é a Teoria Fiscal do Nível de Preço (hashtagFTPL) que atribui papel preponderante à trajetória fiscal futura do governo, em detrimento dos juros do Banco Central em determinar aquele nível ou mesmo sua dinâmica.

Ainda há espaço para inovações na teoria monetária. Ou como diria o Horácio em Shakespeare, há mais entre o céu e a terra do que alcança nossa imaginação.

O artigo anexo do Valor Econômico fala um pouco sobre isso de uma forma que alguns acharam poética. Boa leitura!

"Dinheiro Além das Fronteiras: Moedas Globais de Croesus às Cripto"

 


Uau, super interessante!


"Dinheiro Além das Fronteiras: Moedas Globais de Croesus às Cripto" por Barry Eichengreen

"As dúvidas sobre o domínio internacional do dólar só aumentam em meio a preocupações com tarifas, disfunção política e alianças internacionais em desfiança. O dólar continuará a reinar supremo? Em Money Beyond Borders, a principal autoridade em moedas internacionais, Barry Eichengreen, coloca as perspectivas do dólar em uma profunda perspectiva histórica ao registrar toda a história das moedas transfronteiriças, desde a invenção das moedas no século VII a.C. até as criptomoedas de hoje e as moedas digitais dos bancos centrais de amanhã."

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Guia dos fundos de investimento

 Como funciona o mercado que movimenta a poupança de milhões de brasileiros?


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Ailton Braga

  Hoje, 02/02/2026, saiu no Blog do IBRE da FGV, artigo meu em que faço análise da interação entre política fiscal e política monetária, a p...