quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O DIA SEGUINTE

 As expectativas eram de que, confirmada a vitória de Trump nas eleições norte-americanas, haveria um movimento de sell-off forte nos mercados globais. Isto até chegou a acontecer, em parte, no Japão na madrugada da quarta-feira (bolsa caiu mais de 5%), mas, depois do discurso conciliador do presidente eleito, pregando a união da América, alguma cautela se fez presente. Agora, as expectativas são outras. Se voltam mais para saber qual será sua agenda de fato, a raivosa das eleições, mandando deportar imigrantes e abrir uma guerra comercial com o mundo ou uma mais conciliadora e antenada com a realidade? Claro que medidas protecionistas devem ser anunciadas no futuro, até porque grande parte do seu eleitorado partiu das zonas afetadas pela globalização. Mas muito se comenta que mesmo obtendo maioria nas duas casas do Congresso norte-americano, Trump terá que negociar, e muito, com os próprios republicanos. 

A economia de Trump, por Vinicius Torres Freire, da FSP

A economia de Trump
Jeff Kowalsky/AFP
US Republican presidential candidate Donald Trump exits his final rally of the GOP 2016 presidential campaign at Devos Place in Grand Rapids, Michigan on November 7, 2016. / AFP PHOTO / JEFF KOWALSKY ORG XMIT: JAK124
O novo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump
Donald Trump e coerência pragmática ou programática são palavras que não andam bem juntas. Como pensar o que será feito da economia americana?
Quando se tenta deduzir um projeto do que se disse em sua campanha, chega-se a alguns republicanismos estereotipados, para não mencionar os apêndices também politicamente inviáveis ou tumultuários.
Nos governos Ronald Reagan e George Bush a dívida pública subiu devido à fórmula republicana típica de baixar impostos, para ricos em particular, e gastar mais em defesa.
O candidato republicano também propôs redução radical de impostos sobre empresas, além de uma simplificação tributária extensa. A alíquota máxima do imposto sobre a renda também cairia. O IR ficaria mais parecido com o do Brasil, que privilegia mais ricos. Mas o rolo econômico nem está aí.
Trump quer aumentar gastos em infraestrutura, "em obras", o que implicaria um aumento de deficit, o que é até programa dos democratas de esquerda. Mas quer, ressalte-se, baixar impostos. Quer aumentar gasto em defesa. Rejeita cortes na Previdência Social e na maioria dos gastos em saúde. Chegou a mencionar de passagem apoio a aumento de salário mínimo pelos Estados.
No ritmo desembestado dos números de campanha, isso daria em crescimento ainda mais rápido do deficit.
O Escritório de Orçamento do Congresso previa aumento contínuo da dívida mesmo antes de Trump, por causa de Previdência, saúde de idosos e juros mais altos. O deficit passaria dos atuais 2,5% do PIB (incluindo a conta de juros) para 3,3% do PIB, ano final de Trump 1.
A sabedoria convencional diz que isso resulta em crescimento ainda mais rápido das taxas de juros. No entanto, a discussão do programa Trump por ora carece de fundamento maior: planos, números e alianças políticas.
Trump não juntou uma equipe de pensadores econômicos, acadêmicos, pelo menos. Empresários bilionários, vários ligados ao setor imobiliário-financeiro, são o seu conselho até agora.
Como se sabe, o presidente eleito não tem relação organizada com a máquina do Partido Republicano, menos ainda com a maioria dos caciques. Terá de lidar com bancada de deputados que, além de não gostar de deficit, tem poder e inclinação para cortar asas de presidentes.
Entre outros problemas, a arenga trompista contra o comércio exterior não agrada a grandes empresas que vivem de salário barato chinês ou mexicanos, para ficar apenas no exemplo caricato, mas muito real. Expulsar imigrantes irregulares, cerca de 5% da mão de obra, obviamente vai causar tumulto social e econômico. Em 2020, tem outra eleição, parlamentar.
A vitória decerto agrega, traz aliados, talvez amenize os populismos mais odientos. Porém, Trump prometeu satisfação de ressentimentos e empregos ao mundão médio americano. Como?
O que sairá disso?
O homem nem tem experiência alguma na administração ou no poder públicos. É uma incógnita como vai conviver com o restante do establishment, com o poder formal e informal, em particular Wall Street, que por exemplo abduziu a imaginação e a política econômicas dos democratas Bill Clinton e Barack Obama. Por ora, Trump é incerteza. O que em si mesmo já não é bom. 

Lançamento do livro do membro da ABL e grande economista Edmar Bacha

Ótima reflexão.

TRUMP EM NY

CNN
Lighting up the New York City skyline, CNN projects Donald J. Trump will win The White House on the Empire State Building
#Election2016 #MyVote #CNNElection http://cnn.it/2flRGrj

Populismo

Excelente reflexão de Sérgio Goulart de Faria sobre o comentário da Monica de Bolle na quarta-feira (dia 8) na CBN a respeito do populismo sem ideologia:
"Acho que o populismo é o uso de discursos superficiais de grande aceitação popular. É aquele discurso que praticamente toda a maioria vai se identificar. Ou seja, o populismo é a busca superficial e estética pela unanimidade.
Populismo não é "o quê", populismo é "como".
Não é o cerne, o conteúdo, o objeto, mas a forma como o objeto é apresentado.
Ele é como uma fantasia que pode ser vestida em qualquer idéia para vendê-la melhor.
No entanto ele é conhecido erroneamente pela maioria apenas como fantasia para determinado grupo de idéias, àquelas mais ligadas ao combate à desigualdade social, rotuladas como 'esquerdistas'.
Dizem até que populismo é sinônimo de esquerdismo. Uma gafe.
No tempos atuais, a fantasia populista, por inúmeros motivos, está mudando de corpo. Está saindo (ou já saiu) do corpo das idéias unânimes sobre combate à desigualdade, exploradas historicamente pelas esquerdas, e está se vestindo no corpo das idéias unânimes ligadas à aversão política, aversão à esquerda, crença na figura estética de um gestor.
Se antes o populismo era defender o fim da pobreza, hoje o populismo é defender que a política não presta, que justiça social é coisa de vagabundo, que o mercado resolve qualquer problema, que corrupção é coisa de esquerdista, que qualquer gestor é mais eficiente e honesto que qualquer político.
Se antes, para ter popularidade fácil e superficial, era só um político colocar os termos "luta de classes", "fim da desigualdade" e "justiça social" em seu discurso, hoje, para se ter popularidade fácil é só um político colocar os termos "gestor", "fora PT", "não sou político" "esquerdista" e "mercado" em seu discurso.
Nunca foi tão fácil ganhar popularidade enganando a opinião pública. Ou talvez sempre tenha sido."

Ailton Braga

  Hoje, 02/02/2026, saiu no Blog do IBRE da FGV, artigo meu em que faço análise da interação entre política fiscal e política monetária, a p...