*A guerra que todos anunciam — e ninguém assume*
*Daniel Benjamin Barenbein*
_Jornalista | Analista político | Defensor de Israel_
Mais uma noite. Mais uma madrugada. Mais um domingo de expectativa, ansiedade e confusão — ou talvez tudo isso ao mesmo tempo.
Durante toda a semana, construiu-se a sensação de que o ataque ao Irã era iminente. Datas foram cravadas. O dia 31 de janeiro virou fetiche. Apostadores no Polymarket colocaram milhões de dólares na mesa. Houve quem dissesse que, se o ataque não ocorresse naquela madrugada, mais de 125 milhões seriam simplesmente perdidos. Outros juravam que aconteceria no fim de semana, talvez no domingo pela manhã.
Chegamos ao domingo. Dia 1º de fevereiro.
E, até agora, nada.
O que houve, na verdade, foi uma *construção de narrativa.* Um crescendo calculado: o tom subiu em Washington, subiu em Teerã, enquanto mais tropas americanas chegavam à região. Porta-aviões, baterias, sistemas antiaéreos. Tudo apontava para o “agora vai”.
Mas o “agora” nunca chega.
E aqui vale abrir um parêntese quase obrigatório, porque há algo de profundamente surreal nessa cobertura toda. Toda hora surgem “vazamentos” dizendo que os _Estados Unidos ainda não definiram o dia e a hora exata do ataque._ Como se guerra fosse reunião de condomínio. Como se alguém fosse ligar para Teerã e avisar:
“Olha, só para você se organizar: liga os radares, prepara as baterias antiaéreas, compra pipoca e pizza porque amanhã, às 3h17, começa.”
A exigência por data e hora exatas não é ingenuidade. É incompreensão básica do que é um conflito militar — ou má-fé travestida de análise.
Mas há algo muito mais grave nisso tudo.
Essa espera não é neutra.
Ela *custa vidas.*
Pode-se até argumentar que Donald Trump está fazendo terrorismo psicológico com o regime iraniano. Ou que está apenas ganhando tempo para se preparar melhor. Seja qual for a explicação, o fato é simples: *quem menos sofre com essa indefinição é o regime iraniano.* Eles têm serviços de inteligência, espionagem, leitura estratégica. Sabem muito mais do que aparentam.
Quem sofre são os outros.
Sofrem os israelenses, vivendo numa sociedade inteira suspensa entre o “vai” e o “não vai”. E sofrem, sobretudo, os iranianos comuns — aqueles que foram às ruas acreditando que o mundo os apoiaria.
E aqui entra um ponto moral impossível de ignorar.
Hoje já se fala em mais de *86 mil mortos* na repressão aos protestos no Irã. Não toda, *mas uma parcela dessa tragédia recai, sim, sobre os ombros de Donald Trump.*
Primeiro, porque no final da chamada “guerra dos 12 dias”, Trump ordenou que aviões israelenses retornassem quando Israel estava prestes a eliminar Ali Khamenei. O próprio Trump assumiu publicamente que salvou a vida do líder supremo iraniano — mais de uma vez. Muitas mortes posteriores simplesmente *não teriam acontecido* se aquela decisão tivesse sido diferente.
Segundo, porque Trump *convocou* a população iraniana. Incentivou protestos, falou em apoio, sinalizou que a ajuda estava a caminho. E ela não veio. Convocar pessoas a se exporem diante de um regime brutal, sem estar pronto para agir, não é estratégia: é irresponsabilidade.
Como disse Amir Tsarfati — e com razão — não há problema algum em os Estados Unidos se prepararem com calma, reforçarem tropas, fazerem tudo de forma profissional. Se for para derrubar o regime iraniano de maneira decisiva, melhor que seja bem feito.
O erro foi *convocar antes de estar pronto.* Isso custou sangue.
Do ponto de vista israelense, a situação é igualmente clara — e igualmente insuportável.
A esmagadora maioria da sociedade israelense está pronta para pagar o preço da guerra. Não por entusiasmo bélico, mas por exaustão histórica. Sabemos que, se o regime iraniano não cair agora, no seu momento de maior fraqueza, talvez nunca caia. O que nos espera, então, são apenas rounds intermináveis de conflito.
E há algo que poucos entendem:
é mais fácil lidar com o evento — alarmes, bunkers, custos reais — do que com essa agonia psicológica permanente do “é hoje ou não é?”. A espera prolongada corrói mais do que o impacto.
Voltemos a Trump.
Aqui entra um elemento decisivo: *o narcisismo.*
Dito sem histeria e sem demonização. Trump foi, sem dúvida, o melhor presidente americano para Israel. Fez movimentos históricos, corajosos, corretos. Mas ele é, sim, um narcisista — e isso não é um insulto, é uma constatação.
O homem que diz ter “inventado” o Iron Dome.
Que aceita para si um Nobel entregue a uma opositora venezuelana.
Que cria estruturas paralelas à ONU e se coloca como figura central.
Que fala em ter feito a paz no Oriente Médio “depois de 3 mil anos”.
Esse narcisismo tem dois lados.
O lado bom é que ele *empurra a História.* É o mesmo traço que o faz querer destruir o programa nuclear iraniano e sair como o homem que fez isso. É o mesmo impulso que o leva a reagir quando é afrontado publicamente — como foi por Maduro, como está sendo agora pelo Irã.
Mas há o lado destrutivo.
O mesmo narcisismo que o fez interromper operações por querer controlar o desfecho, o timing e o crédito político. A guerra termina quando ele decide que terminou. Mesmo que ainda não devesse.
Ainda assim, por esse mesmo traço psicológico, é difícil imaginar Trump recuando silenciosamente depois de ser desafiado repetidas vezes por Teerã. A dúvida real não é *se* haverá ataque, mas *quando* e com *qual escopo.*
E do lado iraniano, o comportamento é quase suicida.
O regime está no ponto mais fraco desde a revolução de 1979: crise hídrica, colapso elétrico, protestos internos, proxies destruídos. Ainda assim, provoca. Ironiza. Ameaça. Posta imagens chamando Trump de “cão que ladra, mas não morde”. Sugere novos atentados. Parece pedir a guerra.
Por quê?
Talvez para desviar a atenção da população.
Talvez para buscar uma guerra regional e se salvar no caos.
Talvez para forçar uma narrativa de vítima.
Ou talvez porque regimes em colapso tomam decisões irracionais.
As informações mais recentes só aumentam a névoa. Avaliações em Israel indicam que, se for um ataque limitado, os EUA já estariam prontos hoje. Se for uma operação ampla para derrubar o regime, ainda levaria de duas semanas a dois meses. Ao mesmo tempo, o chefe do Estado-Maior israelense esteve secretamente nos Estados Unidos coordenando cenários com os americanos.
Vai acontecer? Não vai? Agora? Depois?
A única certeza é a confusão.
E essa confusão não é abstrata. Ela tem custo humano, psicológico e político.
Guerras não são apenas bombas.
São decisões.
E decisões adiadas também matam.
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