segunda-feira, 7 de abril de 2025

Bankinter Portugal Matinal 0704

 Análise Bankinter Portugal


SESSÃO: Chegados a este ponto, a chave agora é aceitar e interiorizar que o contexto se deteriorou brusca e repentinamente, portanto a prioridade é proteger. Não é o momento para debater sobre a probabilidade de uma retificação das medidas alfandegárias que hipoteticamente permitira que as bolsas subissem. Como ninguém pode adivinhar, esperamos para comprovar quais eram as medidas que Trump adotaria, visto que havia probabilidade de estarmos enganados e que ficasse em mensagens histriónicas, mas com uma materialização diluída, como aconteceu no seu primeiro mandato. Porque não analisamos nenhum processo sério de reflexão, mas sofremos as consequências de decisões pessoais que são resultado de um profundo desconhecimento dos fundamentos económicos mais básicos. Mas não foi assim.


Desde há semanas, temos vindo a insistir em 2 ideias: (i) uma guerra comercial não é um processo de soma zero; todas as partes perdem em maior ou menor medida. E se a mesma avançar, como o fez, o ciclo económico poderá tornar-se contrativo. (ii) Reduzir riscos é uma grande ideia, tal como temos vindo a insistir (ainda mais). Embora já o tenhamos executado (reduzimos exposição ao risco em -10% linear a todos os perfis de clientes a 24 de março), esse foi um movimento de prevenção perante o que considerávamos provável que acontecesse, como efetivamente aconteceu na quinta-feira passada: imposição de medidas alfandegárias que colocam em risco o atual ciclo económico expansivo. Por isso, aplicamos a partir de hoje uma redução de exposição ao risco de certa profundidade: desde o intervalo Defensivo 20%/Agressivo 70% até 0%/40%, visto que acreditamos que o dano desta guerra alfandegária será semiestrutural ou estrutural, já impossível de reverter/reparar a curto prazo (isto é, em menos de, digamos, 3 meses).


Em relação à semana, o mais relevante será o Índice de Confiança de Michigan de sexta-feira, que foi o primeiro indicador adiantado americano a alertar, a 14 de março, de que algo sério estava a mudar ao retroceder desde 64,7 até 57,9… revisto até 57,0 uns dias depois e que se espera que retroceda até 54,0 no seu registo de abril de sexta-feira. E veremos como saem os seus componentes de inflação, agora em +4,9% a 1 ano e +3,9% a 5/10 anos… De forma complementar, hoje sairá o Sentix da UE (Confiança do Investidor) provavelmente a retroceder bastante, enquanto na quinta-feira teremos uma inflação americana de março que poderá suavizar-se um pouco (+2,6% vs. +2,8%), e que será quase ignorada porque as repercussões sobre a inflação tardarão, pelo menos, 2 meses a chegar.


Em suma: (i) o essencial: reduzir exposição ao risco. (ii) O acessório imediato: a Confiança da Universidade do Michigan, na sexta-feira.


Em situações como esta, “preocupar-se” deve levar a “ocupar-se” e reagir. Perante a pergunta “Não terão terminado as quedas depois dos retrocessos tão severos desde quinta-feira?” A resposta é NÃO. Insistimos, é semiestrutural e pode chegar a ser estrutural se Trump não retificar rapidamente. Mas é improvável que o faça, a não ser que veja o enorme dano que causa à riqueza (património/poupanças) dos seus próprios votantes. E o mercado irá demonstrá-lo. Esta madrugada, Nikkei -7%, HK -12% e os futuros com quedas de -3%/-4%, com o petróleo -10 $ em 2 dias perante a possibilidade de um ciclo económico contrativo, obrigações extracompradas (yield T-Note < 4%) e volatilidade disparada (VIX 45%). A objetividade (e crueldade) de um mercado livre é a melhor medicina para quem impõe medidas guiadas pela sua própria ignorância.


S&P500 -6% Nq-100 -6,1% SOX -7,6% ES-50 -4,6% IBEX -5,8% VIX 45,3 Bund 2,59% T-Note 3,92% Spread 2A-10A USA=+41pb B10A: ESP 3,27% PT 3,15% FRA 3,33% ITA 3,76% Euribor 12m 2,235% (fut.2,058%) USD 1,099 JPY 160,5 Ouro 3.039$ Brent 63,9$ WTI 60,4$ Bitcoin -2,4% (76.924$) Ether -1,9% (1.544$). 


FIM

domingo, 6 de abril de 2025

Quem é quem...

 Quem é quem na negociação do Banco Master: de Vorcaro a Esteves


Nomes à frente de dois bancos privados e um controlado por um governo estadual estão entre os personagens que concentram as atenções em um movimento observado pelo mercado financeiro


Anunciada ao anoitecer da última sexta-feira de março, a compra de uma fatia relevante do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) é, desde então, um dos assuntos mais comentados do mercado financeiro. A aquisição, que ainda depende de aprovação do Banco Central (BC), tem detalhes que despertam discussões, entre eles o fato de o comprador ser um banco estatal.


Outro ponto é o modelo de negócio do banco cuja fatia está à venda, que teve crescimento acelerado com a oferta de CDBs com rentabilidade de 140% sobre o CDI com proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Esse debate concentra alguns personagens principais. Conheça quem é quem:


O mineiro de 41 anos assumiu em janeiro de 2018 o comando da Máxima, fundada em 1974 como corretora de valores e títulos mobiliários. Além de mudar o nome da companhia para Banco Master, Daniel Vorcaro expandiu os negócios com a compra do Banco Vipal, o crescimento da carteira de crédito e consignado, o lançamento da Kovr Seguradora e a aquisição do controle da fintech will bank, entre outros movimentos.


Em três anos, entre junho de 2021 e de 2024, o patrimônio líquido saltou 7,5 vezes: de R$ 556 milhões para R$ 4,2 bilhões. Esse crescimento teve com motores a oferta de CDBs com retorno de 140% sobre o CDI — bem acima do mercado, que em geral oferece 100% —, com a facilidade de ser assegurado até o valor de R$ 250 mil, em caso de quebra do banco, pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mantido por todo o sistema financeiro.


Banqueiro com perfil que chama a atenção em colunas sociais, é investidor da Sociedade Anônima de Futebol (SAF) do Clube Atlético Mineiro, já afirmou ter comprado o Fasano Itaim, na capital paulista.


Ao anoitecer da sexta-feira, 28, formalizou um acordo de venda de 49% das ações ordinárias (com direito a voto) e de 100% das preferenciais (sem direito a voto) para o Banco de Brasília (BRB), banco estatal do Distrito Federal. Pelo acordo, continuaria como controlador do Master, que se tornaria BRB Banco de Investimentos, com 51% de participação com direito a voto, embora o BRB tendo poder de veto em determinados temas.


Antes de tomar posse no Banco de Brasília (BRB), em 31 de janeiro de 2019, Paulo Henrique Costa fez uma carreira de quase duas décadas na Caixa Econômica Federal, entre 2001 e 2018. Deixou o cargo de vice-presidente de Clientes, Negócios e Transformação Digital da Caixa para assumir a presidência do banco controlado pelo governo do Distrito Federal.


Costa anunciou na noite de sexta-feira, 28, a compra, pelo BRB, de 49% das ações ordinárias (com direito a voto) e de 100% das ações preferenciais (sem direito a voto) do Banco Master, por cerca de R$ 2 bilhões.


Diante dos questionamentos que se seguiram ao anúncio da aquisição — ainda dependente de aprovação pelo Banco Central e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) —, Costa afirmou que a análise foi técnica, com o início de compras de carteiras do Master em meados de 2024 e dentro da lógica de expansão do BRB para outras localidades do País.


Ele também afirmou que R$ 23 bilhões em ativos do Master ficariam excluídos do negócio, como a carteira de precatórios, de direitos creditórios, de ações judiciais, de fundos de investimento em ações de empresas. “Para que a gente possa entrar, vai sair o Voiter, vai sair a Cover, vai sair o Banco Master BI”, exemplificou, em entrevista ao Estadão. Na venda, entrariam apenas o banco múltiplo, a fintech will bank e a securitizadora Maximainvest.


Ele afirmou que “todos os CDBs que já estão emitidos serão honrados pelas condições e pelas taxas de juros em que eles foram adquiridos”.


O BRB, autor da oferta de compra de parte do Banco Master, é controlado pelo governo do Distrito Federal. Logo depois do anúncio do negócio, o governador, Ibaneis Rocha (MDB), estimou em entrevista ao Valor Econômico que a aquisição da fatia do Master pelo elevaria os dividendos pagos ao governo do Distrito Federal, em cinco vezes, de R$ 200 milhões para R$ 1 bilhão em 2025.


O governador, no cargo desde janeiro de 2019, disse também que, embora não tivesse participado diretamente das negociações técnicas, a aquisição estava sendo analisada havia seis meses.


Uma das primeiras reações com que o governo do Distrito Federal eventualmente terá de lidar vem do Sindicato dos Bancários de Brasília (Bancários-DF). A entidade afirmou que pedirá ao Banco Central e ao Cade que rejeitem a compra do Banco Master pelo BRB. A informação foi adiantada ao Estadão/Broadcast pelo presidente da entidade, Eduardo Araújo.


O sindicato também não descarta acionar o BRB por vias judiciais. No último sábado, 30, o Bancários-DF afirmou em nota que a compra do Banco Master poderia caracterizar uma possível gestão temerária da diretoria do BRB. A ideia é apresentar uma representação ao BC já nesta quarta-feira, 2, se possível, para demarcar a posição.


Presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, 42 anos, tem um papel-chave para o destino do negócio entre o Banco Master e o BRB. A instituição tem até 360 dias para analisar o processo. O prazo foi criado pela resolução número 108, de 2021, e é válido para a transferência de controle societário ou qualquer alteração no grupo de controle da sociedade, de forma direta ou indireta.


Para a tarefa, conforme apurou o Estadão, o comando do BC mobilizou, internamente, alguns dos chamados “cabeças brancas” — servidores com experiência e que já acompanharam outros casos de fusão, intervenção e saneamento no setor — para participar dos testes de estresse que serão rodados sobre o BRB.


Esses servidores acompanharam casos como liquidações do Econômico, Bamerindus, Nacional e Cruzeiro do Sul, que enfrentaram crise no passado. O objetivo agora é tentar antecipar problemas que possam impactar o sistema financeiro.


Diretores e servidores que passaram pelo mercado financeiro também vão participar do processo de análise, para compor um olhar mais amplo, que incorpore também a expertise da Faria Lima.


Na segunda-feira, 31, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, teve uma reunião com o presidente do conselho de administração e sócio-sênior do banco BTG Pactual, André Esteves. Na pauta, a busca de uma saída alternativa para a compra do Banco Master pelo BRB, e uma das possibilidades que entraram na mesa de avaliações seria por meio de incluir na operação o BTG Pactual, maior banco de investimentos da América Latina.


Antes do acerto anunciado pelo BRB, Esteves chegou a analisar os ativos do Master, mas não levou a oferta adiante. O Estadão apurou que o BTG já teria iniciado conversas com o Master, desde o fim do ano passado, mas há dúvidas ainda sobre a cobertura da operação — que poderia prever o uso do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para lastrear algum problema com a instituição.



https://www.estadao.com.br/amp/economia/quem-e-quem-na-negociacao-do-banco-master-de-vorcaro-a-esteves/

60 anos....

 SESSENTINHA DO BC

E essa semana comemoramos os 60 anos de nada mais, nada menos, do que o Banco Central do Brasil. Se fosse uma pessoa, estaria perto da aposentadoria, mas, ironicamente, segue firme ditando o ritmo da sua vida econômica (e do seus boletos também).


O Banco Central do Brasil foi criado legalmente em 1964, com a promulgação da Lei nº 4.595, que reorganizou todo o sistema financeiro nacional em meio ao início do regime militar. Sua fundação oficial ocorreu em 31 de março de 1965, data em que passou a operar como autoridade monetária, assumindo funções que até então eram do Banco do Brasil — como o controle da política monetária e da inflação.


Ao longo das décadas seguintes, o BC teve papel central em todas as grandes mudanças da economia brasileira. Em 1986, participou ativamente da implementação do Plano Cruzado, uma tentativa ambiciosa de estabilização monetária e controle da inflação, que infelizmente falhou. Esse foi apenas o primeiro de vários planos econômicos de emergência que marcaram a década de 1980, período de hiperinflação e instabilidade crônica.


Em 1994, o Banco Central teve atuação decisiva na transição para o Plano Real. Coube à instituição gerenciar a política cambial e assegurar o controle dos preços em meio à adoção de uma nova moeda — o Real — que viria a substituir décadas de inflação galopante por um novo padrão de estabilidade.


Cinco anos depois, em 1999, o país enfrentou uma severa crise cambial que levou à adoção do regime de metas de inflação. Foi nesse momento que o Banco Central passou a perseguir metas claras para os índices de preços, com a taxa Selic como principal instrumento de política monetária. Essa mudança representou a modernização da atuação do BC, conferindo maior previsibilidade às suas decisões.


Em 2002, a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva gerou forte volatilidade nos mercados. Diante da crise de confiança, o Banco Central agiu rapidamente com aumento dos juros e uso das reservas cambiais para conter a desvalorização do real, ajudando a evitar um colapso financeiro maior.


Durante a crise financeira global de 2008, o BC teve novamente papel essencial ao implementar medidas de liquidez que garantiram o funcionamento do sistema bancário brasileiro. Enquanto bancos de diversos países quebravam, o Brasil atravessou a turbulência com relativo controle, fruto de uma regulação sólida e atuação firme da autoridade monetária.


A partir de 2013, o BC começou a se reinventar tecnologicamente, com a criação de bases para o que viria a ser o Sistema Financeiro Nacional Digital. Foi uma resposta às fintechs, ao mobile banking e à necessidade crescente de inclusão financeira por meios digitais.


Em 2020, diante da pandemia de Covid-19, o Banco Central reduziu a Selic ao menor nível da história, 2%, e lançou o Pix — um divisor de águas nos pagamentos instantâneos. O sistema se tornou rapidamente um dos mais usados do mundo, transformando radicalmente a forma como brasileiros pagam, transferem e recebem dinheiro.


No ano seguinte, 2021, o Congresso aprovou a autonomia formal do Banco Central, com mandatos fixos para seus dirigentes, não coincidentes com os do Presidente da República. A autonomia buscava blindar a política monetária de pressões políticas e reforçar a credibilidade da instituição.


Em 2022, outra inovação foi colocada de pé: o Open Finance. Coordenado pelo BC, esse sistema permitiu o compartilhamento e a portabilidade de dados financeiros com consentimento do usuário, abrindo espaço para mais concorrência e personalização de serviços no mercado bancário.


Já em 2024, o Banco Central lançou o projeto piloto do Drex — o real digital —, testando a integração entre tecnologia blockchain, finanças públicas e criptoativos de forma regulada, segura e em linha com as tendências internacionais.


Finalmente, em 2025, o Banco Central do Brasil completa 60 anos com um histórico de protagonismo. Da hiperinflação ao controle de preços, do papel regulador à inovação financeira, o BC se tornou uma das instituições mais respeitadas do país. Com a autonomia conquistada, tecnologia de ponta à disposição e novos desafios no horizonte, o BC chega à terceira idade como guardião da estabilidade, catalisador da inovação e peça-chave do futuro da economia brasileira.


Desde a sua fundação em 1965 até abril de 2025, o Banco Central do Brasil (BCB) teve 28 presidentes oficiais. Essa contagem inclui todos os que ocuparam o cargo, considerando também aqueles que exerceram a função de forma interina. E estar nessa cadeira exige não apenas conhecimento técnico, mas nervos de aço para lidar com o vai-e-vem do câmbio, da inflação e, principalmente, das alfinetadas vindas dos políticos.

Luiz César Fernandes

 https://www.youtube.com/watch?v=m_tbJGJdTHQ

Amilton Aquino

 Para cada problema complexo, existe uma solução simples… e estúpida, já dizia o jornalista norte-americano H. L. Mencken. E foi exatamente isso que Trump fez nesta semana. O mercado relutou em acreditar, até o último minuto, que algo tão estúpido realmente aconteceria. Mas aconteceu. As bolsas norte-americanas, obviamente, despencaram, arrastando consigo os mercados do mundo todo.


E qual foi a fórmula encontrada por Trump para justificar tais aumentos de tarifas? Simples: ele listou os países com maior superávit percentual com os EUA e aplicou categorias de taxação. As mais altas, como no caso do pobre Camboja, que sofreu uma tarifa de 49%, até as mais baixas, como a de 10% imposta ao Brasil — um dos poucos países com o qual os EUA ainda têm leve superávit comercial.


Genial! Os EUA adotando a fórmula brasileira de industrialização. A economia mais aberta do mundo, com um dos melhores índices de produtividade, imitando uma das mais fechadas, com produtividade estagnada há décadas. Quem diria!


O mundo está mesmo de pernas para o ar. De repente, os EUA — bastião do capitalismo mundial, acusados no passado pela nossa esquerda de querer impor a ALCA à América Latina, defensores do livre mercado e da globalização — seguem hoje na direção oposta. Enquanto isso, a “comunista” China recorre à OMC (organização criada e bancada pelos próprios EUA para promover o comércio global), reclamando do protecionismo norte-americano!


Como chegamos a este ponto?


Basicamente, os orientais aprenderam a criar riqueza como nunca, usando a própria fórmula do liberalismo: produzir mais barato para as massas, com mão de obra e matéria-prima acessíveis. Com os lucros advindos do ganho de escala, investiram em tecnologia e tornaram-se também produtores de inovação.


E o que Trump propõe? Justamente o contrário, atacando os dois pilares da competitividade asiática. Vejamos: ao aumentar as tarifas de importação, ele encarece a matéria-prima utilizada pela própria indústria para gerar produtos de maior valor agregado. E, ao deportar imigrantes, torna a mão de obra ainda mais cara. Ou seja, Trump está criando as condições para o pior dos mundos: a estagflação, a combinação de inflação com estagnação.


Mas voltemos aos asiáticos. Sim, os EUA têm motivos para se sentirem lesados por “financiar” o enriquecimento de seus principais concorrentes — algo que ocorre desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Começando pelo Japão, que recebeu pesados investimentos norte-americanos para contrabalançar a ascensão comunista da China. O Japão aproveitou bem o impulso e se tornou, nos anos 1980, a segunda maior economia do mundo — até que cedeu às pressões dos EUA para reduzir os desequilíbrios e estagnou.


Depois vieram os Tigres Asiáticos: Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan e Hong Kong — este último, colônia britânica devolvida à China em 1997. Taiwan já está na fila.


Por fim, a China. Um colosso de 1,4 bilhão de habitantes, rica em recursos naturais e com uma cultura milenar, disciplinada e hierarquizada — ingredientes perfeitos para ascender como potência ao adotar a máquina capitalista de produção de riquezas. E, pasmem, também com ajuda americana!


Inicialmente, copiavam tudo o que o Ocidente produzia de melhor. A qualidade inferior era compensada por preços baixíssimos, resultado de fatores como fretes baratos, controle de câmbio e práticas de dumping.


Enquanto o Ocidente se burocratizava, multiplicando leis, regulações, direitos e restrições ambientais, os chineses nadavam de braçada, tomando mercados e estendendo seus tentáculos em todos os continentes.


Mas não é só a China que lucra com o desequilíbrio global. Há outros emergentes asiáticos, mas quatro grandes economias se destacam no modelo exportador de produtos de alto valor agregado: China, Coreia do Sul, Japão e Alemanha. Em contrapartida, quatro países anglo-saxões — EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália — tornaram-se os principais destinos desses produtos, com parte de suas indústrias migrando para os concorrentes.


Como corrigir essas distorções? Eis a questão.


O primeiro passo é refletir sobre os gastos dos próprios EUA. De fato, os americanos não podem continuar se endividando infinitamente. O que fazer, então, para conter os gastos? Nesse ponto, o governo Trump acerta com o chamado DOGE — Departamento de Eficiência Governamental. Não dá mais para continuar bancando a polícia do mundo nem ser, de longe, o maior financiador de organismos internacionais e ONGs que, há décadas, agem contra os próprios interesses dos EUA.


Sim, os EUA têm razão em cobrar maior investimento dos europeus em defesa. Têm razão em criticar a burocracia e as barreiras alfandegárias europeias. No entanto, Trump joga no lixo décadas de esforço para construir uma ordem internacional que garantiu as décadas mais pacíficas e prósperas da história da humanidade. E, de quebra, empurra antigos aliados para os braços da China, ao tratá-los como inimigos da noite para o dia.


Todo mundo sabe que o principal rival é a China. Então, por que taxar todos ao mesmo tempo? Por que comprar briga com todos?


Certamente Trump tenta seguir o conselho de Maquiavel: fazer o bem aos poucos e o mal de uma só vez. Politicamente, até faz sentido. Mas, economicamente, ele está quebrando as cadeias comerciais globais, gerando um nível de incerteza que pode levar o mundo à recessão.


O caminho mais inteligente seria estreitar os laços com aliados históricos, reduzir as disparidades tarifárias e unir forças contra a China — a maior beneficiária da ordem liberal criada pelos EUA e, hoje, uma de suas principais sabotoras, ao lado de Rússia, Irã e Coreia do Norte.


E por falar na Rússia, eis que Trump a isenta do tarifaço. É muito xadrez 4D.


Em meio a toda essa confusão, o Brasil sai bem na foto. Além de receber a menor tarifa, pode até ganhar espaço no mercado global de commodities com as retaliações às exportações norte-americanas. Mas isso nem é o mais importante. O enfraquecimento da economia dos EUA pode antecipar a queda dos juros. Não por acaso, os mercados futuros no Brasil recuaram, reduzindo a pressão sobre o Banco Central para elevar a Selic para os 15% que já estavam precificados. De quebra, provocou uma queda expressiva no preço do petróleo. Um presentão de Trump para Lula!


Enfim, em pouco mais de dois meses, Trump não só feriu de morte a OTAN como desmontou a ordem mundial construída por décadas com base no soft power norte-americano — e está prestes a jogar o mundo em recessão. A esquerda anti-capitalista, anti-globalização e anti-livre mercado deve estar comemorando, de mãos dadas com os reacionários trumpistas que sonham com o retorno à era colonial, a era dos fortões.

sábado, 5 de abril de 2025

Resumo

 📊 Resumo da Semana 


A semana termina com uma guerra comercial declarada entre EUA e China. A disputa entre as duas maiores economias do mundo vem agravar o cenário já preocupante de uma recessão global, desenhado após o anúncio das tarifas “desconcertantes” de Donald Trump, especialmente sobre produtos asiáticos. O Brasil até que saiu relativamente ileso da guerra de Trump, com uma tarifa recíproca de “só” 10%. Mas, a possibilidade de um choque na economia chinesa reacendeu a luz amarela por aqui, visto que o país é o principal mercado de vários produtos brasileiros, especialmente commodities. Até Jerome Powell se viu obrigado a mudar seu discurso, admitindo que a inflação das tarifas poderá não ser “transitória”. Ele também reforçou o “mantra” de que o Fed não tem pressa para mexer na política monetária. 

Bom fim de semana! (Téo Takar)


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sexta-feira, 4 de abril de 2025

Ordem econômica global

 A visão de Scott Bessent e Stephen Miran para remodelar a ordem econômica mundial reflete uma abordagem estratégica que combina políticas econômicas agressivas com uma reorientação do papel dos Estados Unidos no comércio global, embora suas ideias nem sempre estejam perfeitamente alinhadas ou totalmente implementadas na prática pelo governo Trump em 2025. Bessent, como Secretário do Tesouro dos EUA, e Miran, um ex-conselheiro econômico sênior do Tesouro e coautor de um influente artigo econômico, compartilham a crença de que o sistema econômico internacional precisa ser ajustado para priorizar os interesses americanos, mas suas perspectivas diferem em detalhes e execução.


*Visão de Scott Bessent:* Bessent defende uma reestruturação do sistema econômico global que fortaleça a posição dos EUA, usando ferramentas como tarifas e políticas fiscais para "rebalancear" as relações comerciais. Ele vê as tarifas não como um fim, mas como um meio de pressionar outros países a negociar termos mais favoráveis aos EUA, promovendo o que chama de "interligações que podem ser reordenadas para avançar os interesses do povo americano". Em discursos recentes, como o de março de 2025 no Economic Club de Nova York, ele argumentou que o acesso a bens baratos não é o cerne do "sonho americano", justificando os custos de curto prazo (como preços mais altos) em prol de ganhos estratégicos de longo prazo. Bessent também propôs o "Plano 3-3-3" — reduzir o déficit orçamentário para 3% do PIB, alcançar 3% de crescimento do PIB e aumentar a produção de petróleo em 3 milhões de barris por dia —, visando estabilizar a economia americana enquanto pressiona parceiros comerciais. Ele acredita que essa abordagem, combinada com uma postura firme contra adversários como a China (com tarifas de até 54% em 2025), pode iniciar uma "era dourada" para os EUA, reafirmando sua dominância econômica.


*Visão de Stephen Miran*: Miran, em um artigo de novembro de 2024 amplamente debatido, sugere uma estratégia mais estruturada, inspirada no Acordo de Plaza de 1985, que ajustou moedas globais para beneficiar os EUA. Ele propõe um "Acordo de Mar-a-Lago", um pacto comercial e monetário que enfraqueceria o dólar em relação a outras moedas para impulsionar as exportações americanas e reduzir déficits comerciais, especialmente com países como China e Vietnã. Diferentemente de Bessent, que foca em tarifas como alavanca tática, Miran enfatiza uma coordenação multilateral para redefinir as regras do comércio global, embora reconheça em entrevistas que essa não é a política exata de Trump em 2025. Ele vê as tarifas de Trump como parte de um plano mais amplo para forçar negociações, mas alerta que, sem um acordo formal, o resultado pode ser caótico.


*Convergências e Divergências*: Ambos concordam que o sistema atual, herdado de Bretton Woods, favorece países com superávits comerciais (como China e Vietnã) às custas dos EUA, e que os americanos devem usar seu poder econômico para corrigir isso. Bessent, porém, adota uma postura mais pragmática e unilateral, enquanto Miran busca uma solução mais sistêmica e multilateral. Em 2025, as ações de Trump — como tarifas de 46% sobre o Vietnã e 20% sobre a UE — refletem mais a visão de Bessent de pressão imediata do que o plano coordenado de Miran. Críticos, como o economista Adam Tooze, chamam isso de "sane-washing", sugerindo que se tenta impor racionalidade a decisões impulsivas de Trump.


*Impacto Proposto*: Juntos, eles imaginam um mundo onde os EUA recuperam a liderança econômica, reduzindo a dependência de cadeias de suprimentos estrangeiras e forçando países a alinharem suas políticas aos interesses americanos. Isso incluiria desincentivar a "desdolarização" e conter a ascensão da China como superpotência econômica, embora Miran note que a China, ao contrário do Japão em 1985, não é subordinada militarmente aos EUA, tornando acordos mais difíceis. Em resumo, a visão de Bessent e Miran é ambiciosa, mas enfrenta desafios como resistência global, inflação doméstica e a imprevisibilidade das decisões de Trump.


*o que pode dar certo e o que pode dar errado na implementacqao atual da estrategia ?*


A implementação da estratégia de Scott Bessent e Stephen Miran, conforme refletida nas políticas econômicas dos EUA em 2025 sob a administração Trump, tem potencial para gerar resultados positivos e negativos, dependendo de como os fatores econômicos, políticos e globais se desenrolam. Aqui está uma análise do que pode dar certo e do que pode dar errado, com base no contexto atual e nas dinâmicas descritas:


*O que pode dar certo:*


*Fortalecimento da Indústria Doméstica*  

*Como*: As tarifas elevadas (46% sobre o Vietnã, 54% sobre a China, 20% sobre a UE) podem incentivar a produção nos EUA, especialmente em setores como manufatura e energia. O aumento de 3 milhões de barris diários na produção de petróleo, parte do plano de Bessent, já mostra sinais de progresso em 2025, com o Texas e o Dakota do Norte ampliando operações.  


*Por quê:* Reduzir a dependência de importações pode criar empregos e fortalecer a resiliência econômica americana, alinhando-se à visão de "America First".


*Pressão Negociadora Bem-Sucedida*  

*Como:* Países como o Vietnã e a UE, enfrentando tarifas punitivas, podem ceder em negociações bilaterais, comprando mais produtos americanos (como LNG ou soja) para evitar perdas maiores. Em março de 2025, o Vietnã já sinalizou interesse em importar mais etanol e equipamentos dos EUA para equilibrar o déficit comercial.  


*Por quê:* Bessent vê as tarifas como uma alavanca tática, e, se bem calibradas, elas podem forçar concessões sem escalar para uma guerra comercial total.


*Estabilização Fiscal e Crescimento*  

*Como:* O "Plano 3-3-3" de Bessent — déficit em 3% do PIB, crescimento de 3% e mais 3 milhões de barris de petróleo — pode ser alcançado se os cortes fiscais propostos (como os 2 trilhões de dólares em debate no Congresso em abril de 2025) estimularem a economia sem disparar a inflação.  


*Por quê:* Um dólar mais competitivo (como sugerido por Miran) e maior produção energética podem atrair investimentos e aumentar as exportações.


*Contenção da China*  

*Como:* Tarifas altas e sanções podem limitar a expansão econômica chinesa, especialmente em tecnologia e manufatura, enquanto os EUA atraem cadeias de suprimentos de volta ao Ocidente ou para aliados próximos.  


*Por quê*: Isso reforçaria a dominância americana e enfraqueceria um rival estratégico, um objetivo central da estratégia.


*O que pode dar errado:*


*Inflação e Custos para o Consumidor*  

*Como:* Tarifas amplas já elevaram os preços de bens importados em 2025 — roupas do Vietnã subiram 15% e eletrônicos da China, 20%, segundo o Bureau of Labor Statistics. Sem alternativas domésticas imediatas, os consumidores americanos arcam com o custo.  


*Por quê*: Bessent minimiza isso como um preço pelo "sonho americano", mas a insatisfação pública pode crescer, pressionando o governo a recuar.


*Retaliação Comercial*  

*Como:* A UE ameaçou em abril de 2025 impor tarifas de 25% sobre carros americanos, e a China pode retaliar reduzindo compras de soja e Boeing, afetando estados agrícolas e industriais dos EUA. O Vietnã, por sua vez, cortou importações de algodão americano em 10% como resposta inicial.  


*Por quê:* Parceiros comerciais não estão passivos, e uma guerra comercial pode reduzir as exportações americanas, anulando ganhos das tarifas.


*Fracasso na Coordenação Global*  

*Como:* O "Acordo de Mar-a-Lago" de Miran exige cooperação multilateral, mas a abordagem unilateral de Trump e Bessent (tarifas primeiro, negociações depois) alienou aliados. A UE e o Japão rejeitaram propostas de ajuste cambial em uma cúpula em fevereiro de 2025.  


*Por quê:* Sem um acordo tipo Plaza, o dólar pode se fortalecer demais (já subiu 5% em 2025), prejudicando exportadores americanos.

*

**Desafios Domésticos e Político*s*  

**Como*: Cortar o déficit para 3% do PIB exige reduzir gastos ou aumentar impostos, mas o Congresso, dividido, resiste. A inflação (4,2% em março de 2025) e os juros altos do Fed (mantidos em 5%) podem frear o crescimento, frustrando o alvo de 3%.  


*Por quê:* A estratégia depende de execução precisa, mas a imprevisibilidade de Trump e a polarização política podem descarrilar os planos.


*Resistência da China e Desdolarização*  

*Como:* A China, menos dependente dos EUA que o Japão em 1985, intensificou esforços para usar o yuan em acordos com o Sudeste Asiático e a África, reduzindo o domínio do dólar. Em 2025, 12% do comércio Vietnã-China já é em yuan.  


*Por quê:* Isso mina a alavanca americana e pode levar a uma ordem econômica multipolar, contrária aos objetivos de Bessent e Miran.


*Cenário Balanceado:*


*Sucesso Parcial:* As tarifas podem trazer alguns ganhos (mais empregos em Ohio, por exemplo, com fábricas realocadas), e o petróleo extra pode estabilizar preços energéticos. Mas os custos inflacionários e as retaliações provavelmente limitarão o impacto, enquanto a falta de um acordo global deixa a estratégia incompleta.  


*Risco Principal:* Se a inflação disparar (acima de 5%) ou aliados como a UE se voltarem para a China, a tentativa de remodelar a ordem econômica pode sair pela culatra, enfraquecendo os EUA em vez de fortalecê-los.


A implementação atual é um jogo de alto risco: pode dar certo se os EUA calibrarem a pressão e conseguirem concessões rápidas, mas pode dar errado se o resto do mundo resistir ou se os custos internos se tornarem insustentáveis. Até abril de 2025, os sinais são mistos — crescimento modesto, mas tensões crescentes.

Leitura de domingo 2

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