segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

BDM Matinal Riscala 1612

 Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2024.


SUPERSEMANA TEM FED, ATA DO COPOM, RTI E VOTAÇÕES NO CONGRESSO 

Por Rosa Riscala e Mariana Ciscato*



… Dados de atividade divulgados neste domingo não empolgam sobre o ritmo da economia na China, que decide juro esta semana. Ainda na bateria de decisões de política monetária, o BoE deve manter o juro inalterado e o mercado vê com ceticismo a chance de aperto pelo BoJ, enquanto a opção para o Fed está consolidada para novo corte (4ªF). Aqui, após o choque da Selic, o mercado espera pela ata do Copom (amanhã) e RTI (5ªF). O BC ataca com mais um leilão de linha hoje para suprir a demanda pontual de fim de ano, enquanto o dólar segue rodando acima de R$ 6, no contexto de pressões fiscais. Lula teve alta hospitalar, mas fica até 5ªF em SP, de onde deve conduzir as articulações políticas nesta última semana decisiva antes do recesso. Na maratona de votações, o governo entra na corrida contra o tempo para votar o pacote fiscal, a reforma tributária e o Orçamento/25, tudo antes do Natal.


… O prazo é apertado no Congresso e, em meio ao teste de fogo, mais de R$ 7,5 bi em emendas já foram liberados. Lira indicou a aliados que acionará o “modo turbo” a partir desta 2ªF para garantir a aprovação da pauta prioritária.


… Pacheco disse que vai se “esforçar muito” e é “plenamente possível” analisar todas as propostas até a próxima 6ªF. Pelo cronograma programado pelo presidente do Senado, o Congresso votará a LDO e LOA na 5ªF ou 6ªF.


… Na Câmara, a ideia é colocar a regulamentação da reforma tributária para votação em plenário amanhã.


… O grupo de trabalho dos deputados se reuniu nesse domingo para discutir as mudanças realizadas no texto pelo Senado. O relator, deputado Reginaldo Lopes (PT), fala em respeitar a trava de 26,5% para a alíquota do IVA.


… Mas da forma como a matéria está, o próprio governo reconhece que será necessário cobrar quase 28%.


… O relator indicou que a Câmara rejeitará o desconto na alíquota sobre saneamento colocado pelo Senado.


… Mas defende que o texto volte a contemplar lista de medicamentos que terão alíquota zero. Esse ponto foi alterado no Senado e gerou preocupações no setor farmacêutico e entre integrantes do Ministério da Saúde.


… A incorporação pelo Senado de uma mudança no texto da reforma que permite a substituição tributária para setores como cigarros e bebidas deve ser discutida ainda com o Ministério da Fazenda.


… A substituição tributária é um mecanismo que transfere a responsabilidade pelo pagamento de um imposto para um contribuinte anterior na cadeia produtiva, e foi um pedido feito por todos os governadores, segundo o Estadão.


… Em relação ao pacote fiscal, as mudanças nas regras do BPC continuam como o ponto mais sensível e polêmico e, pela mobilização parlamentar observada dos últimas dias, é aí que reside o perigo de maior desidratação do texto.


… Também a medida que prevê acabar com salários acima do teto no funcionalismo público tem sido alvo de insatisfação do Judiciário. O presidente do TRF3, Carlos Muta, classificou a proposta como “atentado constitucional”.


… Ele declarou que, se a proposta for aprovada, desembargadores do tribunal podem antecipar as aposentadorias, “gerando uma crise sem precedentes”. O TRF3 é o maior tribunal federal do País, com jurisdição em SP e MS.


… O desafio em driblar as resistências pega o governo desfalcado pela ausência de Lula em Brasília. Mas o presidente já está habilitado para retomar as negociações de forma remota, após ter recebido alta hospitalar neste domingo.


… Ele, no entanto, ainda fica na capital paulista até 5ªF para a realização de nova tomografia de controle, antes de ser liberado para voltar a Brasília. À saída do hospital, Lula afirmou estar “inteiro e com mais vontade de trabalhar”.


… Horas depois, em entrevista gravada ao Fantástico, Lula rebateu as críticas do mercado financeiro sobre a gestão de gastos públicos. “Ninguém neste País tem mais responsabilidade fiscal do que eu”, afirmou.


… “A única coisa errada aqui é a taxa de juros, que está acima de 12%”, disse. Para o presidente, não há justificativa para a Selic estar onde está, porque a inflação segue “totalmente controlada”. “Mas vamos cuidar disso”, declarou.


… O comentário vem poucos dias depois de o Copom hawkish ter esvaziado as suspeitas de ingerência política na transição do comando de Campos Neto para Galípolo, ao contratar Selic de pelo menos 14,25% até o início de maio.


… Questionado sobre a prisão preventiva de Braga Netto, Lula disse que o general quatro estrelas tem direito a presunção de inocência, mas se acusações sobre golpe forem verdade, envolvidos devem ser punidos severamente.


… “Não é possível admitir que uma alta graduação militar trame a morte de um presidente”, afirmou em coletiva.


… Ao Broadcast, o médico Roberto Kalil Filho disse que Lula está “completamente apto” para a reeleição em 2026.


… Apontado como virtual candidato da direita ao Planalto, Tarcísio negou neste domingo, em entrevista ao Canal Livre, da Band, que disputará a Presidência em 2026 e afirmou que pretende concorrer à reeleição ao governo de SP.


… Tarcísio disse que Bolsonaro ou algum nome indicado pelo ex-presidente será o candidato da direita ao Planalto.  


QUE TIRO FOI ESSE? – No ambiente altamente especulativo potencializado pela percepção de risco fiscal, o mercado espera pela ata do Copom, amanhã, depois de o BC já ter contratado pelo menos mais duas doses de 1pp na Selic.


… Competindo por ousadia, o DI já vai ainda mais longe e se arrisca a projetar 1,25pp de alta em janeiro e março.


… A onda de revisões para cima na Selic levou o Itaú a mudar na 6ªF a sua previsão para a taxa terminal de juro de 13,5% para 15,0%. O banco puxou ainda a estimativa para o IPCA (4,8% para 4,9%) e PIB deste ano (3,2% para 3,6%).


… Depois de o IBC-Br de outubro (abaixo) ter confirmado que a economia doméstica continua aquecida, a mediana do mercado para o PIB/4Tri aumentou de 0,3% para 0,5% na margem, segundo pesquisa-relâmpago do Broadcast.


… O mercado espera que a ata dê mais detalhes sobre o trecho do comunicado em que o BC menciona que houve abertura adicional no hiato do produto. Além disso, o tom hawkish esperado terá o cenário fiscal como protagonista.


… O patamar antecipado pelo comunicado para a Selic, de pelo menos 14,25%, é 0,5pp maior do que a mediana do último relatório Focus, que indicava 13,75% no fim do ciclo, o que contrata ajustes no levantamento de hoje (8h25).


… Economista-chefe do Itaú, Mario Mesquita espera que a leitura da ata e do RTI indique se alguns integrantes do Copom optaram por ritmo diferente para a Selic, talvez +75pb, mas apoiaram a maioria para minimizar ruídos.


… Gabriel Galípolo participa hoje (9h) de café da manhã promovido pela Abratel e Record. O diretor do BC Otávio Damaso falará sobre open finance em evento do Ibrac, às 9h, e estará em almoço da Anbima, às 12h30.


… O BC chamou para hoje (10h20) novo leilão de venda de dólares com compromisso de recompra (linha) de US$ 3 bi, provavelmente para atender demanda específica e pontual, após a intervenção no câmbio à vista na 6ªF (abaixo).


… A agenda da semana prevê ainda as prévias de inflação doméstica do IPC-S (hoje, às 8h) e do IPC-Fipe (amanhã).


LÁ FORA – O Fed chega à sua última reunião de política monetária do ano com o mercado amplamente precificado (96%, segundo a ferramenta de apostas do CME) para um novo corte do juro, devendo deixar a pausa para janeiro.


… A decisão será comentada em entrevista coletiva para a imprensa por Jerome Powell.


… Com pouco ou nenhum potencial para mudar as estimativas mais do que consolidadas para o Fomc, antes da decisão de 4ªF, ainda saem nos EUA a produção industrial e vendas no varejo em novembro, ambas amanhã (3ªF).


… O PIB/3Tri (5ªF) e o PCE de novembro (6ªF) só virão após o encontro do Fed. Hoje, serão divulgados o índice Empire State de atividade industrial em dezembro (10h30) e a leitura do PMI/S&P Global composto (11h45).


… Este mesmo indicador também será informado hoje na Alemanha (5h30), zona do euro (6h) e Reino Unido (6h30). Lagarde fala cedinho (5h15), enquanto os integrantes do BCE continuam defendendo cortes graduais do juro.


… O BC inglês decide juro na 5ªF e o BoJ, na virada de 4ªF para 5ªF, enquanto crescem as especulações no mercado de que pode não ser hora ainda de a autoridade japonesa promover o aperto monetário que vem ensaiando.


… A semana terá ainda reuniões de política monetária no Chile (amanhã), México (5ªF), Rússia e Colômbia (6ªF).


CHINA HOJE – A produção industrial cresceu 5,4% em novembro, levemente acima de outubro e da previsão de 5,3%. As vendas no varejo registraram alta de 3%, abaixo do mês anterior (+4,8%) e do consenso de 4,6%.


… Na noite de 5ªF, PBoC define as taxas de referência de longo prazo (LPRs) de 1 ano e de 5 anos.


JAPÃO HOJE – O PMI composto subiu de 50,1 em novembro para 50,8 em dezembro, segundo pesquisa preliminar da S&P Global. O indicador permaneceu acima do patamar neutro de 50, ou seja, indicando expansão da atividade.


… O PMI de serviços avançou de 50,5 para 51,4 no mesmo período, também em território de expansão. O PMI industrial saiu de 49,2 para 49,4 na mesma comparação, ainda apontando contração, apesar da alta.


SEM TRÉGUA – As preocupações em torno da política fiscal continuaram a dar o tom nos mercados domésticos na 6ªF, sem abrir espaço para um alívio nos prêmios de risco.


… Pelo contrário, a possibilidade de atraso e desidratação do pacote fiscal, já considerado insuficiente, disparou os juros, afundou o Ibov abaixo dos 125 mil e impediu um recuo no dólar, mesmo com o leilão no mercado à vista.


… O IBC-Br de outubro (+0,12%) acima do esperado (estável), depois de dados do varejo e de serviços mais fortes, ainda injetou mais pressão na curva dos DIs.


… O DI para janeiro de 2026 subiu a 14,845% (de 14,660% no pregão anterior); Jan/27, a 15,050% (de 14,710%); Jan/29, a 14,650% (de 14,165%); Jan/31, a 14,350% (de 13,850%); Jan/33, a 14,110% (de 13,630%).


… No balanço da semana, as taxas longas subiram 20 pontos, enquanto as curtas abriram 50 pontos.


… Depois de uma sessão muito volátil, o dólar fechou com alta de 0,40%, a R$ 6,0313. Mas na semana em que o Copom subiu a Selic em 1pp e contratou mais duas altas iguais, a moeda caiu 0,65%.


… O dólar chegou a ficar abaixo dos R$ 6 na mínima do dia (R$ 5,9740), mas, além da questão fiscal, foi pressionado pela demanda de empresas para remessas de fim de ano.


… Essa procura teria motivado o BC a entrar no mercado, injetando US$ 845 milhões por meio do leilão à vista, com taxa de corte de US$ 6,02. Desde 30 de agosto, a autoridade não fazia atuação similar.


FIM DE FEIRA – Para ter uma ideia do estrago dos últimos acontecimentos (fiscal, Copom e queda do minério) sobre o Ibov, no curto espaço de uma semana, o índice virou de alta acumulada de 2% no mês para queda de 0,84%.


… No último pregão, caiu 1,13%, perdeu os 125 mil pontos (124.612,22 pontos) e movimentou R$ 22,7 bilhões.


… Junto com a percepção de risco nas contas públicas, a Vale (com peso pesado de 11,7% no Ibov) tem atuado de vilã. Em sua 4ª baixa seguida, caiu mais 1,50% no último pregão, a R$ 55,86, derrubada pelo minério (-1,12%).


… A mineradora fechou o dia valendo R$ 252,9 bilhões, o menor valor de mercado desde maio de 2020. A ação perde 4,25% no mês e 21,48% no ano, em meio às dúvidas sobre a recuperação da economia da China.


… Com o mercado chinês em baixa, o preço do minério deve continuar caindo, segundo o Goldman Sachs, que agora prevê a commodity em US$ 95/t na média de 2025, de um patamar atual de U$ 105/t.


… Petrobras foi na contramão da alta expressiva do petróleo: ON, -0,48% (R$ 41,07) e PN, -0,63% (R$ 38,10). O Brent/fev subiu 1,47%, a US$ 74,49 por barril, na ICE, diante da possibilidade de novas sanções do Ocidente à Rússia.


… Bancos também ficaram no vermelho: Santander, -1,66% (R$ 24,25), na mínima do dia; Banco do Brasil, -1,37% (R$ 24,51); Bradesco PN, -1,31% (R$ 12,10); Itaú, -1,29% (R$ 32,06); e Bradesco ON, -1,16% (R$ 11,06).


… Sob pressão dos DIs, Assaí caiu 5,12% (R$ 5,75), Carrefour cedeu 5,02% (R$ 5,86); Vamos, -5,08% (R$ 5,60); CVC, -4,85% (R$ 1,96); Localiza, -4,50% (R$ 32,23); e RD Saúde, -4,38% (R$ 23,60).


… Maior queda do Ibov no dia, Braskem (-11,03%; R$ 12,82) refletiu o rebaixamento da indicação do papel para neutra, feito pelo Santander.


… Grupo Pão de Açúcar, subiu 4,87% (R$ 2,37), repercutindo a notícia de que o empresário Nelson Tanure, que deve assumir o controle da rede de supermercados Dia, teria interesse na fusão com o GPA.


… Minerva, com +1,60%, a R$ 5,73, e JBS, com +1,13%, a R$ 38,44, subiram com o dólar.


BAIXA HAWKISH – Numa 6ªF vazia de indicadores, rolou solta em Wall Street a percepção de que, depois do corte de 25pb depois de amanhã, o Fed vai adotar uma postura mais conservadora nos juros.


… “O mercado está se preparando para uma ação do Fed que provavelmente vai ser um ‘corte ‘hawkish’”, escreveu Ian Lyngen, do BMO, em relatório a clientes.


… No MarketWatch, Krishna Guha, vice-presidente da Evercore ISI, disse que a reunião desta semana marcará o fim da primeira fase do ciclo de queda dos juros. Ela espera que a próxima fase seja apresentada por Powell na coletiva.


… “Ele deve enfatizar as incertezas, deixando claro que agora está entrando em uma fase diferente e mais cautelosa, com uma abordagem menos comprometedora quanto ao momento e à extensão de cortes adicionais”, disse Guha.


 … A expectativa de um Fed ainda mais gradual foi sendo desenhada ao longo da semana passada, que mostrou um CPI dentro do esperado e um PPI mais salgado.


… Depois desses dados, traders reduziram apostas na flexibilização dos juros e passaram a precificar três cortes de 25pb nos próximos 12 meses. Na semana anterior, a expectativa era de pelo menos quatro cortes (Bloomberg).


… Já pressionados ao longo das últimas sessões, os juros dos Treasuries subiram ainda mais e acionaram o alerta nas bolsas de ações.


… O retorno da note de 2 anos subiu a 4,241% (de 4,191% na sessão anterior), o da note de 10 anos foi a 4,397% (de 4,330%) e o do T-bond de 30 anos avançou a 4,605% (de 4,545%).


… O Dow Jones encerrou em queda pela 7ª sessão seguida, com -0,20%, aos 43.827,88 pontos. O S&P 500 ficou estável (6.051,09 pontos) e o Nasdaq subiu 0,12% (19.926,72 pontos).


… Broadcom saltou 24% depois de prever um boom na demanda por seus chips de inteligência artificial. A tech alcançou US$ 1 trilhão em valor de mercado.


… Uma preocupação que começa a tomar forma no mercado é o fato de a maioria das ações do S&P cair mesmo nos dias de alta do índice, indicando que, fora das techs, as altas não são muito abrangentes.


… Uma análise do Bespoke Investment Group observou que não houve uma única sessão em dezembro em que mais ações no S&P 500 subiram do que caíram. Pelos cálculos da casa, essa é a sequência mais longa em mais de 20 anos.


… O índice dólar ficou estável (+0,04%), a 107,003 pontos, com o euro ganhando tração depois da indicação de François Bayrou como primeiro-ministro da França.


… A extrema-direita não sinalizou planos de se opor à indicação, embora a esquerda não tenha gostado do nome.


… Além disso, a comunicação do BCE na reunião de 5ªF, que cortou o juro em 25pb, pareceu menos dovish que o esperado. O euro subiu 0,28%, a US$ 1,0497.


… A libra caiu 0,41%, a US$ 1,2618, depois que a produção industrial do Reino Unido teve uma queda inesperada de 0,6% em outubro ante setembro, ante expectativa de +0,3%, e o PIB de outubro caiu 0,1%, contra previsão de +0,2%.


… O iene recuou 0,70%, a 153,633/US$, com o mercado convencido de que o BoJ não elevará o juro esta semana.


EM TEMPO… Conselho do SANTANDER destituiu quatro diretores executivos, em reunião realizada na 6ªF; motivos das exonerações não foram informados, nem quem serão os substitutos…


… Deixaram o banco Adriana Almeida, que era diretora de Global Transation Business; Murilo Riedel, diretor de seguros; Rogério Panca, diretor de cartões e pagamentos digitais; e Sandro Gamba, diretor de negócios imobiliários.


BRADESCO quer atrair 1 milhão de clientes ao Principal, segmento voltado a um estrato de alta renda logo abaixo do private, e que levará a um reposicionamento dos outros segmentos…


… A opção por uma marca nova busca uma oxigenação do posicionamento do banco, para que o público de alta renda aspire receber a oferta do Principal, e com isso, concentre sua vida financeira no Bradesco.


MULTIPLAN aprovou a distribuição de R$ 110 milhões em JCP, o equivalente ao valor bruto de R$ 0,1889 por ação, com pagamento em 20/12/24; ex desde 28/12/23.


REDE D’OR aprovou a distribuição de R$ 450 milhões em JCP, o equivalente a R$ 0,2022 por ação, com pagamento em 30/12; ex em 19/12…


… Empresa fará o segundo programa de recompra de até 30 milhões de ações, limitado a R$ 1 bilhão.


RD SAÚDE aprovou a eleição de Renato Raduan para o cargo de diretor-presidente da companhia; executivo assumirá a função a partir de 1º/1/25.


B3 projeta desembolso entre R$ 2,84 bilhões e R$ 3,22 bilhões para 2025. Do total, as despesas ajustadas devem ficar entre R$ 2,260 bilhões e R$ 2,450 bilhões e os investimentos, de R$ 240 milhões e R$ 330 milhões…


… Para 2024, as projeções foram mantidas entre R$ 2,140 bilhões e R$ 2,320 bilhões (despesas) e entre R$ 200 milhões e R$ 280 milhões (investimentos).


CCR comprou, por aproximadamente R$ 97 milhões, a participação detida pela Invepar na concessionária VLT Carioca, o que corresponde a 4,7273% do capital social da companhia.


ELETROBRAS concluiu energização do Conversor 4 do bipolo 1 da linha de transmissão de corrente contínua (HVDC, na sigla em inglês) que conecta subestações de Foz do Iguaçu (PR) e Ibiúna (SP) da Usina Hidrelétrica de Itaipu.


ENGIE aprovou a distribuição de JCP no valor bruto de R$ 250 milhões, o equivalente a R$ 0,3063 por ação, com pagamento em 31/12; ex em 20/12.


APPLE prepara grandes mudanças de design e formato em sua linha de iPhones e potencialmente outros produtos, em uma tentativa de reavivar o crescimento da receita após anos oferecendo atualizações apenas incrementais.


… Em 2025, a Apple planeja lançar um iPhone que será mais fino do que o perfil de aproximadamente 8 milímetros dos modelos atuais. O modelo deve ser mais barato do que os modelos Pro, com um sistema de câmera simplificado.

Amilton Aquino

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"A hora da verdade 


Preparem-se, amigos! Os próximos meses prometem ser intensos, com grandes inflexões no Oriente Médio, Europa, EUA, China, Argentina e Brasil. Vou focar neste post em Brasil e Argentina, mas aguardem um específico sobre geopolítica.


Vamos começar pelos hermanos. Assim como o Estadão publicou recentemente um editorial admitindo ter subestimado Milei, confesso que também enxerguei sua eleição com ceticismo. Não pelas ideias econômicas, com as quais tenho quase total concordância, mas porque considerava a Argentina um caso perdido: uma sociedade presa há décadas na ilusão paternalista deixada por Perón. Adicione-se o estilo espalhafatoso de Milei (que em alguns aspectos remete a Bolsonaro), a falta de base parlamentar e o fato de ser o primeiro libertário a liderar um país, e meu ceticismo foi às alturas.


Um ano depois, que grata surpresa. A Argentina melhorou quase todos os seus indicadores. Apesar da má vontade da imprensa, que sempre divulga suas conquistas seguidas de um “mas” – frequentemente apontando o aumento da pobreza como um "preço", ainda que este indicador quebrasse recorde sucessivos há anos –, o fato é que até mesmo este "calcanhar de Milei" começou a melhorar, e pelo quarto mês consecutivo. Portanto, em menos de um ano, já temos a reversão de trajetórias entre Brasil e Argentina. Vejamos:


O Brasil chega ao final de 2024 crescendo 3,5%, enquanto a Argentina ainda amarga uma recessão de 3,4%. Mas nossa vantagem termina por aqui. Nos demais indicadores, a trajetória da Argentina é de melhora gradativa, enquanto nós pioramos. Entre os indicadores macro mais voláteis, como juros, câmbio e desempenho da bolsa, por exemplo, perdemos de goleada: enquanto o Peso argentino foi a moeda que mais se valorizou no ano, o Real foi uma das que mais perdeu valor, pior até mesmo que a de países em guerra. O mesmo ocorre com os ETFs dos dois países, com a Argentina no topo e o Brasil na última posição.


Quanto aos juros, na mesa semana em que o Brasil elevou a Selic para 12,25%, a Argentina conseguiu reduzi-los para 32%. Sim, uma taxa ainda absurda, porém muito inferior ao recorde de 113% registrado no início do ano. No caso da inflação, seguimos em aceleração, enquanto a Argentina comemora a reversão de uma trajetória explosiva: apesar de ainda alta, a inflação mensal de 2,6% é dez vezes menor do que no início de 2024.


O risco-país também segue trajetórias opostas. O Brasil piorou de 121 para 172 pontos, enquanto a Argentina reduziu de incríveis 4.281 para 772. O mesmo ocorre com o desemprego e a recuperação salarial, que começaram a melhorar no segundo semestre. 


Apesar disso, a situação dos hermanos segue crítica devido à sua imensa dívida pública, que alcançou 155% do PIB em dezembro de 2023. Mesmo com dez superávits fiscais consecutivos, a economia desse esforço ainda não compensa os acréscimos dos altíssimos juros que incidem na dívida. Além disso, Milei enfrenta o desafio de manter o apoio de pelo menos 51% da população, algo delicado em um país que frequentemente recorre a soluções mágicas na economia.

Se conseguir contornar esses desafios, Milei pode se tornar não apenas a solução para a Argentina, mas também um exemplo para o mundo. Não à toa, foi capa da The Economist na semana passada.


Por aqui, infelizmente, continuamos no impasse, chegando ao ponto de o dólar cair forte com a notícia da cirurgia de Lula, porém voltando a disparar com expectativas de melhora, mesmo com o Banco Central vendendo bilhões de dólares para tentar conter a alta. 


Ou seja, apesar de o Brasil ter começado 2024 em uma posição muito melhor, com grandes reservas internacionais, uma dívida pública menor e quase toda interna, menores juros e inflação, nossa situação inspira menos confiança que a da Argentina. Como explicar? 


A diferença está nas posturas dos presidentes. Enquanto Milei prometeu e implementa um forte ajuste fiscal, cortando um terço dos gastos públicos, Lula – que assumiu com o primeiro superávit em uma década – termina o segundo ano resistindo até mesmo a economizar no cartão corporativo, que segue batendo recordes.


Quem planta colhe. Pena que quando se trata de governos, a colheita nem sempre coincide com o mandatário. Que Lula e Milei continuem vivos para colher os frutos de suas gestões."

domingo, 15 de dezembro de 2024

Goldman Sachs

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"A hora da verdade 


Preparem-se, amigos! Os próximos meses prometem ser intensos, com grandes inflexões no Oriente Médio, Europa, EUA, China, Argentina e Brasil. Vou focar neste post em Brasil e Argentina, mas aguardem um específico sobre geopolítica.


Vamos começar pelos hermanos. Assim como o Estadão publicou recentemente um editorial admitindo ter subestimado Milei, confesso que também enxerguei sua eleição com ceticismo. Não pelas ideias econômicas, com as quais tenho quase total concordância, mas porque considerava a Argentina um caso perdido: uma sociedade presa há décadas na ilusão paternalista deixada por Perón. Adicione-se o estilo espalhafatoso de Milei (que em alguns aspectos remete a Bolsonaro), a falta de base parlamentar e o fato de ser o primeiro libertário a liderar um país, e meu ceticismo foi às alturas.


Um ano depois, que grata surpresa. A Argentina melhorou quase todos os seus indicadores. Apesar da má vontade da imprensa, que sempre divulga suas conquistas seguidas de um “mas” – frequentemente apontando o aumento da pobreza como um "preço", ainda que este indicador quebrasse recorde sucessivos há anos –, o fato é que até mesmo este "calcanhar de Milei" começou a melhorar, e pelo quarto mês consecutivo. Portanto, em menos de um ano, já temos a reversão de trajetórias entre Brasil e Argentina. Vejamos:


O Brasil chega ao final de 2024 crescendo 3,5%, enquanto a Argentina ainda amarga uma recessão de 3,4%. Mas nossa vantagem termina por aqui. Nos demais indicadores, a trajetória da Argentina é de melhora gradativa, enquanto nós pioramos. Entre os indicadores macro mais voláteis, como juros, câmbio e desempenho da bolsa, por exemplo, perdemos de goleada: enquanto o Peso argentino foi a moeda que mais se valorizou no ano, o Real foi uma das que mais perdeu valor, pior até mesmo que a de países em guerra. O mesmo ocorre com os ETFs dos dois países, com a Argentina no topo e o Brasil na última posição.


Quanto aos juros, na mesa semana em que o Brasil elevou a Selic para 12,25%, a Argentina conseguiu reduzi-los para 32%. Sim, uma taxa ainda absurda, porém muito inferior ao recorde de 113% registrado no início do ano. No caso da inflação, seguimos em aceleração, enquanto a Argentina comemora a reversão de uma trajetória explosiva: apesar de ainda alta, a inflação mensal de 2,6% é dez vezes menor do que no início de 2024.


O risco-país também segue trajetórias opostas. O Brasil piorou de 121 para 172 pontos, enquanto a Argentina reduziu de incríveis 4.281 para 772. O mesmo ocorre com o desemprego e a recuperação salarial, que começaram a melhorar no segundo semestre. 


Apesar disso, a situação dos hermanos segue crítica devido à sua imensa dívida pública, que alcançou 155% do PIB em dezembro de 2023. Mesmo com dez superávits fiscais consecutivos, a economia desse esforço ainda não compensa os acréscimos dos altíssimos juros que incidem na dívida. Além disso, Milei enfrenta o desafio de manter o apoio de pelo menos 51% da população, algo delicado em um país que frequentemente recorre a soluções mágicas na economia.

Se conseguir contornar esses desafios, Milei pode se tornar não apenas a solução para a Argentina, mas também um exemplo para o mundo. Não à toa, foi capa da The Economist na semana passada.


Por aqui, infelizmente, continuamos no impasse, chegando ao ponto de o dólar cair forte com a notícia da cirurgia de Lula, porém voltando a disparar com expectativas de melhora, mesmo com o Banco Central vendendo bilhões de dólares para tentar conter a alta. 


Ou seja, apesar de o Brasil ter começado 2024 em uma posição muito melhor, com grandes reservas internacionais, uma dívida pública menor e quase toda interna, menores juros e inflação, nossa situação inspira menos confiança que a da Argentina. Como explicar? 


A diferença está nas posturas dos presidentes. Enquanto Milei prometeu e implementa um forte ajuste fiscal, cortando um terço dos gastos públicos, Lula – que assumiu com o primeiro superávit em uma década – termina o segundo ano resistindo até mesmo a economizar no cartão corporativo, que segue batendo recordes.


Quem planta colhe. Pena que quando se trata de governos, a colheita nem sempre coincide com o mandatário. Que Lula e Milei continuem vivos para colher os frutos de suas gestões."

Azeites brasileiros

 https://neofeed.com.br/finde/azeites-de-rotulos-brasileiros-ganham-sotaque-europeu/

sábado, 14 de dezembro de 2024

Argentina, um ano depois

 Uma análise detalhada e aporofundada do que está acontecendo na Argentina sob Milei e uma comparação com o que poderia ser replicado no Brasil. Muito bom.


https://www.youtube.com/live/uiGOTtG4SaU?si=I1RV94LEfauNvTed

Neofeed

 


Este trecho é parte de conteúdo que pode ser compartilhado utilizando o link: https://neofeed.com.br/economia/paciencia-do-mercado-esta-diminuindo-porque-o-cenario-nao-evolui-diz-a-economista-do-ubs/. Não reproduza o conteúdo do Neofeed em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.

Conjunto vazio, Gustavo Franco

 "Conjunto vazio”, o texto de Gustavo Franco, Senior Advisor da Rio Bravo, publicado em nossa Carta Estratégias, foi destaque na Exame. No texto, Franco traz a nossa atenção para os desafios econômicos atuais, refletindo sobre as lacunas nas políticas públicas e suas implicações para o mercado financeiro.​


Na Órbita, revista digital da Rio Bravo, você encontra a matéria completa e muito mais. Acesse e confira: https://hubs.la/Q02_DzCc0

Novembro trouxe uma bela imagem nos principais jornais do país: chefes de estado de vários países tendo ao fundo o Pão de Açucar num dia iluminado. Eram os oitenta e tantos signatários de uma aliança internacional contra a fome, países e organizações multilaterais, uma conquista da diplomacia brasileira. A foto, se não vale mil palavras, vale o suficiente para compensar as frustrações em temas muito difíceis em que o Brasil buscava algum protagonismo: o clima, as guerras e o tão sonhado assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Tudo começa com o diagnóstico, ou com uma ideia um tanto romanceada sobre o estado da economia. O governo acha que a economia vai muito bem. Os sinais parecem, de fato, positivos, o PIB do terceiro trimestre veio forte, mas há sutilezas. Os números do mercado de trabalho sugerem o “pleno emprego”, e o crescimento do PIB, ainda que baixo (na faixa entre 2% e 3%, chegando a 4% em algumas comparações escolhidas), tem sido melhor que a encomenda. Circulam teorias otimistas sobre o PIB potencial, que estaria sendo vítima recorrente de subestimativa, talvez por má vontade dos analistas. Círculos governistas repetem-se, dizendo que “o mercado errou” nesse tópico, várias vezes seguidas, quando não é o próprio presidente da República.

Mas o fato é que o aquecimento do mercado de trabalho e de atividade econômica pode ser simplesmente febre.

Não é impossível que o PIB cresça mais que o potencial. É mais tenso, pois o sistema fica estressado, quando se pisa fundo no acelerador e no freio ao mesmo tempo, o que tende a se expressar mais habitualmente em inflação, e em importações, mas pode explodir em tensões financeiras na presença de uma fagulha. Na maior parte dos casos conhecidos de sobreaquecimento (essa é a linguagem habitual), é por excesso de demanda, e a expansão pode prosseguir por certo tempo, sem qualquer sinal de alerta, até que os problemas parecem vir de onde não se espera. Ao longo do caminho, as advertências de cautela vão sendo descontadas, desmoralizando o prognóstico e servindo para aguçar a propensão a correr riscos.

O Brasil vive uma expansão um tanto além do PIB potencial, e do “pleno emprego”, impulsionada por estímulos fiscais fortes, isto é, por gasto público financiado por aumento na dívida pública. Na primeira metade desta presidência, a dívida pública subirá de 72% para 84% do PIB, aproximadamente. Não é um ritmo sustentável, e evoca a máxima de Orestes Quércia, “quebrei o estado, mas fui reeleito”, uma observação clássica, mas feita bem depois de as coisas darem errado.

Pouca coisa se nota durante a caminhada, é o que se diz de todas as grandes crises financeiras, que parecem surgir de repente, sem aviso nem fanfarra, cada uma de um jeito. O fato é que não se entende muito bem como é possível haver pleno emprego com os juros onde estão, senão em um extremo de crowding out talvez ainda não catalogado.

O problema brasileiro

O arcabouço fiscal não é como o Teto de Gastos, ou seja, não é impeditivo, mas indicativo. É quase que apenas uma meta, com diversas possibilidades de contorno. Muita coisa fica fora do limite do arcabouço, como explica o economista Marcos Mendes, em detalhes exaustivos. E quando vai se tentando criar gatilhos para o arcabouço ele vai ficando parecido com o falecido Teto de Gastos, porém sem os mesmos poderes.

Uma expansão fiscal financiada por aumento de dívida pública em grande escala cria uma situação de crowding out de livro texto, com pressão sobre a taxa de juros, sobre o câmbio e, afinal, sobre a inflação. O problema brasileiro parece ser um hiper-crowding out. Os cálculos para o juro neutro ficam cada vez mais impressionantes, bem como as expectativas de inflação cada vez mais desancoradas, isso tudo sugerindo que o Banco Central do Brasil terá de subir a SELIC mais agressivamente do que se imaginava. Ainda mais juro para ainda mais aquecimento. Isso não parece saudável. O paciente está febril, acima do peso e cada vez mais rebelde na sua alimentação.

O mês de novembro parecia terminar mal, mas estava em preparação o pacote que pretendia trazer a correção de rumos. Desde algum tempo, as circunstâncias apontavam com muita clareza a necessidade de ajuste fiscal, mas, numa primeira avaliação, o governo deu todas as indicações de que pretendia restaurar o equilíbrio fiscal pelo lado da receita. Afinal, é um governo de esquerda, que mal parece controlar sua ansiedade para começar a temporada de conversas sobre tributação progressiva da renda. Mas não era realista.

É claro que é mais simpático apelar aos impostos sobre os “super-ricos” que se abraçar às “maldades” inevitáveis nos ajustes pelo lado da despesa. Mas não é prático nem viável. Repetidamente se discutiu a lista de gastos tributários e renúncias fiscais, bem como os números alucinantes do Sindifisco para “privilégios”, até que o governo admitiu que não é viável pretender que o ajuste se faça unicamente pelo lado da receita. Ainda vai vir alguma novidade pelo lado da receita, mas todos em Brasília sabem que essa conversa é muito difícil.

Seria ótimo (do ângulo político) que a adesão à responsabilidade fiscal pudesse ser feita com um aumento na progressividade da tributação, idealmente sem aumento global de carga, e com aumentos das receitas tributárias decorrentes de maior atividade econômica. Seria fácil e politicamente funcional. Só que não existe essa alternativa. Não há saída fácil para o problema fiscal. Na verdade, ficou evidente entre técnicos que a inconsistência entre as políticas monetária e fiscal, da qual resulta o juro alto, não poderá ser resolvida sem um pacote de redução de despesa.

Esse era um consenso entre os especialistas, mas que não incluía o presidente da República. Era um trabalho para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que já tinha conduzido muito bem a confirmação do nome de Gabriel Galípolo para a presidência do Banco Central. O presidente da República, inclusive, já havia baixado as armas de sua cruzada pessoal contra Roberto Campos Neto e mesmo contra os juros altos, admitindo que, se Galípolo achava mesmo necessário manter as coisas como estavam, e mesmo subir um bocado a mais, ele se conformava. Era um grande avanço.

O passo lógico a seguir era o de acolher o diagnóstico pelo qual era preciso fazer um pacote pelo lado da despesa. Os ministérios econômicos já vinham trabalhando há tempos nesse tema, mas o trânsito no interior do governo era complexo, e o problema não estava apenas no presidente Lula.

O ministro Haddad não quis se expor ao apresentar uma proposta dele, ou da área econômica, para, em seguida, vê-la atacada frontalmente por outros ministros ou pela liderança petista. Por isso, o assunto foi levado ao presidente da República para que escolhesse entre alternativas. Foi prudente para o ministro renunciar à autoria do pacote, trazendo o ônus e o bônus para o presidente Lula. Mas é claro que há custos nessa alternativa.

Nem sempre os presidentes gostam de ver um problema depositado na soleira da sua porta. É muito melhor quando o ministro especialmente encarregado do assunto traz uma solução, e boa. É ruim quando não vem desse jeito.

Para o ministro, pareceu muito prudente deslocar a escolha para cima, pois havia enorme potencial de fogo amigo. Ao final, o fogo amigo não veio porque o mercado financeiro detestou o pacote, razão suficiente para a liderança petista nutrir o sentimento exatamente oposto. Entretanto, o resultado político para Haddad foi acentuar a sensação de que ele é mais assessor que ministro. Mas tudo fica dependente da qualidade do pacote.

O presidente da República, de seu lado, percebendo o potencial de polêmica, resolveu abrir consultas junto a seus ministros, e alguns, que logo perceberam que a tesoura vinha em sua direção, passaram a se pronunciar publicamente sobre o assunto. O ministro de Trabalho, por exemplo, declarou que não haveria cortes em gastos da sua pasta pois sequer tinha sido chamado para conversar, meio que ameaçando se demitir se algo ocorresse nos assuntos seus que não tivesse sido expressamente negociado. Outros ministros se manifestaram de forma semelhante, como o da Previdência, e alguns foram chamados para conversar, inclusive os militares, no pressuposto de que todos teriam que contribuir.

Seguiu-se uma pequena encenação de “pacto social”, como se fora uma competição entre prioridades, ou uma negociação com a sociedade civil e não entre subordinados do presidente da República. E depois de muita conversa, os ministros todos permaneceram como estavam (os sociais, os da casa, os do centrão e os militares): não houve nenhuma reforma ministerial, tampouco cortes relevantes, nem em ministros, nem em despesas. A solução política para um pacote de cortes de gastos foi trabalhar com cortes que não incomodam ninguém no governo, como descrito logo abaixo, cortes mais virtuais do que reais.

Quanto mais pompa, pior

O pacote foi apresentado com a pompa dos grandes anúncios na noite de quinta-feira, dia 28/11, com um pronunciamento do ministro da Fazenda em rede nacional de televisão, seguido de uma coletiva na sexta-feira, dia 29/11, pela manhã. Era o sinal inequívoco da grandeza da iniciativa, talvez aí uma indicação de que Fernando Haddad estava recebendo o tratamento de presidenciável. Mas não foi uma boa ideia. Parecia que a máquina de comunicação do governo estava em dessintonia com a substância da coisa.

Um pacote pífio requer um anúncio discreto, livre de pirotecnia. Pelo mesmo raciocínio, quando se trata de pacote mal construído, quanto mais pompa, pior.

A repercussão foi péssima, e não foi unicamente um problema de comunicação ou porque o pacote era composto de “maldades”. Ou mesmo porque não devia ter falado na isenção de IRPF para as rendas menores que R$5 mil. Na substância, o pacote é um conjunto vazio ao revelar muito claramente a extensão do desconforto do governo com a ideia de cortar gastos. É um desconforto profundo e compreensível de um governo de esquerda diante do imperativo de reduzir gasto, ou seja, com a redução do tamanho do Estado.

A renúncia de IRPF só chamou tanta atenção porque era como a cereja no bolo: o pacote de redução de gastos não apenas não tem muita carga como traz para enfeitar um aumento de despesa. Como pode ser?

Muitas vezes no passado se exaltou o pragmatismo do presidente da República ao contrariar teses históricas de seu partido. Desta vez, todavia, não houve nada disso. Trata-se de pacote de “revisão de gastos” de inspiração petista, a julgar pelo apoio de lideranças como Lindenberg Farias e José Dirceu, ambos exaltando as medidas tributárias progressistas, que, na verdade, não fazem parte do pacote.
De um ângulo mais operacional, o desconforto com a ideia de cortes de gastos se observa em vários aspectos do pacote: no formato, na filosofia, na natureza exata das medidas e, é claro, na estratégia de comunicação.

No formato, para começar, não há íntegras dos textos. Um pacote sem as medidas. O Diário Oficial não mente. Onde estão as íntegras? Depois de várias semanas de conversas intensas, nas quais muitas possibilidades foram debatidas, como é possível que não haja texto? Seria um lapso freudiano?

Houve um pronunciamento do ministro em cadeia nacional de televisão, sobre o qual circularam o texto do discurso, duas páginas vagas, e um power point. Esse foi o pacote.
O anúncio (power point) aludiu a duas ferramentas principais, uma PEC e uma proposta de lei complementar, duas fórmulas de longa tramitação e nenhuma medida provisória, isto é, nada com o requisito constitucional de “urgência e relevância”.

Claro que os textos apareceram nos dias que se seguiram, uma PEC e dois projetos de lei complementar assinados pelo deputado José Guimarães (PT-CE), líder do governo na Cãmara dos Deputados. Mas no primeiro momento, causou espécie a inovação representada por um pacote sem texto. Como se o governo quisesse trazer “temas” ou “teses” de forma mais aberta, deixando para os relatores das matérias a autoria do texto principal.

Sem prejuízo dessa nova técnica de encaminhamento parlamentar, na página 21 do power point oficial do pacote há números ano a ano, de 2025 a 2030, para os impactos das medidas, ainda que não sejam especificadas. Numa avaliação mais realista, fica muito claro que o governo não resolveu o seu desconforto com a ideia de cortar gasto. Entende-se a objeção ideológica e conceitual, bem como a contrariedade do presidente Lula.

As circunstâncias costumam contrariar os desejos dos presidentes. Às vezes, são crises externas, ou são legítimas heranças malditas, que é preciso endereçar tomando medidas ditas impopulares, medidas que qualquer presidente preferiria não ter que tomar. Os bons presidentes são os que tomam as decisões corretas nesses momentos.

Nesse momento em particular, a ação recomendada pela boa técnica era um pacote de redução de gastos, e o presidente Lula não gosta de cortes de gastos. Sempre que se fala nesse assunto, ele se esforça em dizer que os gastos não são gastos, mas investimentos. É puro negacionismo fiscal, até agora sem qualquer consequência..

Mas como se organiza um pacote fiscal nessas condições?

Os “cortes” precisam atender a certas condições para serem aceitos no pacote. Precisam ser o resultado do consenso dos ministros e precisam soar como programas do governo, ou seja, devem ser cortes que se pareçam com aumentos em gastos.

Deve ser claro que um pacote de cortes que atendem simultaneamente a essas exigências é um conjunto vazio. Esta é razão para o fiasco. O pacote é vazio de substância pois é inexistente a vontade do presidente Lula e do governo em cortar despesa. Simples assim. É uma opção legítima do presidente da República, isso não se discute. Mas as consequências vêm depois, como reza a boa sabedoria política. O câmbio foi a R$6,00 e muitos petistas reclamaram de o Banco Central não fazer nada em oposição a esta especulação.

Jabuti na comunicação

No nível mais conceitual, o esforço de se fazer cortes que não eram cortes resultou em algumas variantes criativas: (i) cortar aumentos que ainda não aconteceram (como, por exemplo, os aumentos futuros do salário-mínimo); e (ii) remanejar despesas que já iam acontecer de qualquer jeito para que atendam requisitos que requereriam despesa nova (por exemplo, no item FUNDEB).

Junte-se a isso: (iii) um pente fino sobre programas sociais, o que se transforma em uma medida de compliance destinada a cortar despesas decorrentes de fraude; e a (iv) velha conhecida desvinculação (DRU), tão combatida no passado, agora uma escolha do presidente Lula.

Sempre há algum ajuste menor, que é um corte de verdade, como resultará, por exemplo, da redução da idade mínima da aposentadoria dos militares, e de dispositivos que pegam carona na PEC e nos projetos de lei complementar que compõem o pacote. Mas são valores pequenos, nada que chegue perto dos 70 bilhões falados para 2025/2026, e que foram colocados em dúvida.

Não se perca de vista que, mesmo que fossem 70 bilhões de verdade, estamos falando de um orçamento de 5 trilhões (somando as PLOAs de 2024 e 2025). Ou seja, o governo não foi capaz de identificar nem 1,5% de corte na despesa pública. É claro que isso foi muito claramente percebido como um fracasso.

É nada mais que um agravante a mistura, no anúncio do pacote, que o governo tenciona ampliar a faixa de isenção de IRPF para os rendimentos menores que R$ 5 mil. Diz-se que a inclusão do tema no anúncio foi pela vontade expressa do próprio presidente Lula. Não é um acidente que as lideranças petistas tenham saído em defesa do pacote exatamente nesse tópico que, como já observado, e bem lembrado por lideranças como Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, não fazem parte desse pacote.

O governo quer muito discutir o que tem designado sobre a “reforma da renda”, um pacote tributário que se quer definir como “reforma” a fim de absorver um tanto do goodwill que se viu na reforma tributária (do consumo). As chances da “reforma da renda” já não eram boas antes desse pacote, talvez ficado ainda menores. Mas será impossível ignorar a sombra dessa matéria enquanto se discute o pacote dos cortes.

A “reforma da renda” está no futuro, e o governo parece calcular o momento de lançar essa tese da isenção para a “classe média”, promessa de campanha do presidente Lula, no pressuposto que os “super ricos” vão pagar essa conta.

Muitos apontaram aí um erro do governo em misturar aumento de despesa (redução de imposto) no pacote de redução de despesa. Outros falaram em antecipar 2026. Mas está tudo misturado mesmo.

Curiosamente, o assunto da isenção foi o que mais atraiu a atenção da imprensa. Mais curioso é que não há nada de extravagante em que jabuti na comunicação seja mais importante que a substância do pacote, quando o pacote é confuso na substância. O pacote de cortes não traz cortes, talvez refletindo a sabedoria pela qual gasto não é gasto. Talvez exatamente por isso, o pacote terá (provavelmente) um percurso fulminante e uma aprovação rapidíssima no Congresso. O que há para opor ou a agregar a um pacote de cortes que não traz cortes?

*Gustavo Franco é sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos e ex-presidente do Banco Central do Brasil. Este artigo faz parte da Carta Estratégias de novembro relatório mensal distribuído pela Rio Bravo a seus clientes e reproduzido com exclusividade pela EXAME Invest.


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