terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Pedro Fernando Nery

 *A economia precisa de menos escândalos?*


Instabilidade política pode ser pior para o crescimento do que a própria corrupção


Pedro Fernando Nery


O fim do ano é um tempo de reflexões. Época do reencontro, da acareação. Pensamos nos erros e nos acertos. Porque há dias ruins, e há Dias Toffoli.


Recebi esse chiste no X. Há alguns meses fiz lá uma pergunta. Toffoli só foi mencionado em gracejos assim. A pergunta era “qual é o melhor ministro do STF?”. Houve mais de quinhentas respostas.


Lembraram ministros atuais ou que já saíram. Eloquentes ou discretos, progressistas ou conservadores. Mas ninguém votou em Toffoli.


Imediatamente pensei no tricolor que dizia que toda unanimidade é burra. Recordei dos políticos ostracizados que não aceitaram surfar no bolsonarismo nem implorar por validação da esquerda. Pensei em polarização e cancelamentos. Lembrei dos meus recreios no 2º ano do ensino médio. Pensei que “Sozinho como Toffoli” poderia ser uma expressão.


Se as cortes constitucionais foram pensadas para serem contramajoritárias, Toffoli é contraunanimitário. Há os que não gostam dele porque atrapalhou a ida de Lula ao enterro do irmão, porque anulou decisões da Lava Jato depois, porque tentou centralizar a investigação do INSS outro dia, porque decretou sigilo no caso Master agora.


E se Toffoli for quem está certo? Vamos fazer o exercício. Precisamos, afinal, de tantos escândalos? O Peru troca de presidente toda semana e não parece ir muito bem. Você me diz que o crescimento econômico precisa de boas instituições. Mas precisa de moralismo?


A Coreia está entre os piores em corrupção entre os ricos da OCDE, a Polônia entre os países da União Europeia e a China é a pior entre as grandes economias do mundo. São as histórias de crescimento econômico do século 21.


A impunidade é subestimada como ingrediente do crescimento, porque é difícil estabilidade econômica sem estabilidade política. Reza a lenda que com o fim da União Soviética a economia parou em alguns lugares porque não se sabia mais a quem subornar.


E se as empresas grandes atraem melhor capital humano que a média do setor público? A regulação será desenhada pelos cérebros “piores” e prejudicará o avanço natural da produtividade em emergentes com Estado grande. Qual a melhor forma do privado transmitir rapidamente a melhor informação ao público? Talvez seja por mecanismos de mercado, que são ilegais.


Para o regulador da corrupção, fica a difícil tarefa da calibragem. A corrupção endêmica é péssima, mas derrubar o único sistema de tomada de decisões da economia também é. Alguém precisa ter coragem para fazer um incêndio controlado.


Toffoli seria o meme do silent savior, o soldado que está apanhando enquanto as crianças dormem tranquilas na madrugada. Toffoli não é o herói que o Brasil queria, Toffoli é o herói que o Brasil merece.



https://www.estadao.com.br/economia/pedro-fernando-nery/economia-precisa-menos-escandalos/

Bankinter Portugal Matinal

 Análise Bankinter Portugal 


NY -0,35%, US TECH -0,50%, US SEMIS -0,24%, UEM +0,10% ESPAÑA +0,1% VIX +4,41% +0,6PB. BUND 2,83%, T-NOTE 4,11%, SPREAD 2A-10A USA=+65,5PB O10A, ESP 3,25%, ITA 3,50%. EURIBOR 12M 2,26% (FUT.12M 2,39%). USD 1,177. JPY 183.7. OURO 4.371$. BRENT 61,8$. WTI 57,96$. BITCOIN +0,2% (87.413,1$). ETHER +0,4% (2.946,5$).


SESSÃO: Ontem realização de lucros em Nova Iorque (-0,3%) e Europa praticamente plana. Tudo isto numa sessão sem grandes referências macroeconómicas, com o foco concentrado no frente geoestratégico: (i) Continuam as negociações para um acordo de paz entre Rússia/Ucrânia, mas as cedências territoriais permanecem o ponto de discórdia. Além disso, ontem a Rússia denunciou um suposto atentado contra a residência de Putin por parte da Ucrânia e avisou que revê a sua posição negociadora. Neste contexto, parece complicado alcançar um acordo a curto prazo. (ii) Os EUA intensificam os ataques na Venezuela. Trump afirma ter intervindo um cais supostamente usado para narcotráfico, na primeira operação terrestre em Venezuela reconhecida pelos EUA. E (iii) a China realiza manobras militares perto de Taiwan. Tudo isto levou a algum refúgio em obrigações: T-Note -1,8pb até 4,11%, Bund -3,2pb até 2,83%, embora surpreendentemente o ouro caísse -4,4% até 4.332$, após atingir máximos na semana passada (+18% na semana, +31% no mês).


Hoje nova jornada de transição, sem grandes referências numa semana a meio gás. Principalmente porque amanhã (Passagem de Ano) a Europa fecha às 14h e na quinta-feira (Ano Novo) não há mercados. Provavelmente as Minutas da Fed (reunião de 10 de dezembro) de hoje (20:00h) serão o mais relevante, embora seja pouco provável que tragam novidades. Na última reunião, a Fed cortou -25pb até 3,50%/3,75%, reveriu em alta as previsões de crescimento e anunciou a compra de Letras do Tesouro para manter liquidez suficiente no sistema. Agora o foco está em saber quem será o sucessor de Powell a partir de maio. O anúncio pode ser a surpresa da semana. Kevin Hassett, Diretor do Conselho Económico da Casa Branca, continua o favorito nas sondagens, embora Waller ou Warsh também estejam na lista. Em qualquer caso, será alguém inclinado a continuar a baixar as taxas, pelo que estimamos 3 cortes de taxas em 2026 — sempre que o emprego se deteriore mais do que o antecipado — até níveis de 2,75%/3,00%.


Em conclusão, hoje nova jornada de transição, com lateralização na ordem de -0,2%/+0,2%, volumes reduzidos e alguma consolidação, com o olhar já posto em 2026.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Carlos Alberto Sardemberg

 O exemplo que vem do Chile


A coluna de Carlos Sardenberg, publicada em O Globo nesta segunda-feira, me fez sentir inveja do Chile — um país que eu já admirava pela Concertación Democrática, responsável pela construção de uma democracia estável e por um bom desempenho econômico no período pós-Pinochet.


Os partidos da Concertación, pilares dessa estabilidade, foram destroçados, assim como o partido da centro-direita tradicional, pela onda antipolítica que acabou desaguando na eleição de Kast — da mesma forma que, no Brasil, a antipolítica levou à eleição de Bolsonaro.


Mas não foi isso que me fez, hoje, voltar os olhos para os Andes e sentir inveja do Chile. A coluna de Sardenberg informa que, entre outubro de 2024 e dezembro de 2025, três ministros da Suprema Corte chilena foram afastados de seus cargos: dois pelo Senado — um deles por unanimidade — e outro pela própria Corte.


Aí surge o primeiro grande diferencial do Chile quando comparado a nós, brasileiros. No país de Salvador Allende e Gabriel Boric, para afastar um magistrado não é necessário provar que ele — ou ela — praticou corrupção, nem que tomou decisões com o objetivo explícito de favorecer parentes ou amigos. Basta a aparência de parcialidade, além da existência de relações familiares ou pessoais impróprias.


Foi com base nesse critério que, em outubro de 2024, a própria Suprema Corte destituiu a juíza Angela Vivanco, que havia sido vice-presidente do tribunal. O motivo: relações impróprias com o advogado Luis Hermosilla — um dos mais famosos do país, com trânsito em governos de esquerda e de direita, além de membros do Poder Judiciário. A juíza afastada não foi flagrada negociando diretamente qualquer decisão. Ainda assim, o tribunal considerou inadmissível sua relação com o advogado, que, por meio dela, tinha acesso privilegiado ao que se passava na Corte.


O segundo membro afastado — esse pelo Senado, por pequena diferença de votos — foi o juiz Sérgio Muñoz. Esse episódio doeu na alma de muitos chilenos. Muñoz era um magistrado comprometido com os direitos humanos e a defesa do meio ambiente em várias de suas decisões. Não houve qualquer acusação que colocasse em dúvida sua honestidade pessoal. O motivo do afastamento foi o fato de sua filha, advogada, ter trabalhado para empresas envolvidas em grandes questões econômicas, inclusive regulatórias.


O terceiro caso, também por meio de uma “acusação constitucional”, resultou no afastamento, pelo Senado e por unanimidade, do juiz Diego Simpértingue. Ele e sua esposa foram flagrados pela imprensa em um cruzeiro no Mediterrâneo na companhia do advogado de uma multinacional com causas na Suprema Corte. O juiz perdeu o cargo porque não se declarou impedido de participar do julgamento de alguns desses processos.


Chego à conclusão de que o Chile nos humilha. Aqui, o Supremo Tribunal Federal alterou recentemente o entendimento sobre o impedimento de juízes — incluindo ministros — julgarem casos em que uma das partes seja cliente de escritório de advocacia no qual atue parente até o terceiro grau ou o cônjuge. A decisão ocorreu no contexto de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) ajuizada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) contra dispositivo do Código de Processo Civil (CPC).


Tão ou mais grave: membros do Supremo participam de eventos financiados por empresas com causas no STF e acham isso absolutamente normal. Também não veem problema em pegar caronas em jatinhos particulares, mesmo quando neles estão advogados de causas que irão julgar.


Quando o Supremo esboça medidas para delimitar de forma mais rígida a fronteira entre o público e o privado, interesses corporativistas incrustados na instância máxima do Poder Judiciário se sublevam e tentam boicotá-las. É o que assistimos agora diante da proposta do presidente do STF, ministro Edson Fachin, de o Poder Judiciário adotar um código de conduta para seus membros. Fachin é uma ilha de postura impoluta em uma Corte na qual alguns de seus integrantes não observam o decoro e o recato necessários.


Em certo sentido, o STF é também um espelho da sociedade. A maioria de nós acha natural — ou se acostumou, sem bradar — com práticas permissivas que, no Chile, gerariam um escândalo nacional. Nos acomodamos e não nos engajamos em boas causas, como a bandeira levantada por Fachin.


Para agravar, parte de nós distorce valores e transfere responsabilidades quando a jornalista Malu Gaspar traz à luz fatos que precisam ser passados a limpo.


De fato, é para morrer de inveja do Chile.

Anatomia de uma fraude

 🔥  *ANATOMIA DE UMA FRAUDE*


Como um desconhecido boêmio mineiro, com um histórico fracasso empresariais, conseguiu liderar a maior fraude bancária da história do Brasil e prejudicar dezenas de milhares de funcionários públicos.


Carlo Cauti para a Oeste:


*Quando Daniel Vorcaro foi preso, estava sorrindo. As imagens da câmera de segurança do Aeroporto de Guarulhos (SP)* mostram o diretor-presidente do Banco Master recebendo voz de prisão de um policial federal. O rosto parece entre o divertido e o incrédulo.


O executivo de 42 anos passava pelo controle de raio-X para embarcar em seu jato particular Falcon 7X, avaliado em R$ 200 milhões, que aguardava na pista com motores já ligados, pronto para decolar em direção à ilha de Malta, no Mediterrâneo.


Com camisa desabotoada até quase o umbigo, terno ajustado, cabelo com gel puxado para trás e celular na mão, deve ter achado tudo aquilo uma brincadeira. Ou estar confiante de que seus contatos poderosos em Brasília o libertariam em poucos minutos. Apenas o tempo de um telefonema.


Não foi assim. Cercado por 15 policiais federais, acabou sendo levado para o centro de detenção provisória da cidade aeroportuária, onde permaneceria por 12 dias. Aparentemente sem perder o sorriso, como mostram as fotos tiradas na prisão, nas quais aparece ao lado de um guarda armado de fuzil. De camiseta branca, boné verde do Los Angeles Dodgers e uma Bíblia de Estudo Almeida debaixo do braço.


Difícil saber se o riso era fruto da falta de noção sobre os acontecimentos ou da certeza da impunidade. Mesmo sendo o responsável pela maior crise bancária da história do Brasil, com um rombo de R$ 41 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — mais do que dobrando o escândalo do Bamerindus, que em 1997 tinha acumulado um passivo de pouco menos de R$ 20 bilhões. Sem contar os outros bilhões de reais perdidos no Master por fundos de pensão de empresas públicas estaduais, que deixarão dezenas de milhares de trabalhadores sem aposentadoria.


Incompetência e ousadia


Daniel Vorcaro nunca conseguiu administrar algo. Estudante medíocre e boêmio, aos 19 anos recebeu do pai, um empreiteiro de Minas Gerais, uma empresa de educação chamada PQS Empreendimentos Educacionais Ltda. e outra de livros didáticos. Seu objetivo era tocar os negócios, juntando as duas operações. Fracassou e foi forçado a vender para uma rede de escolas de Belo Horizonte.


Voltou a trabalhar com o pai, até que se tornou sócio de um fundo de investimento de cemitérios, que também deu com os burros n’água. Foi investigado por manipulação do mercado, mas optou por encerrar o caso por meio de um Termo de Compromisso e pagou R$ 2,2 milhões para evitar punições adicionais.


Tentou construir um hotel de luxo em Belo Horizonte, utilizando incentivos concedidos pela prefeitura para aumentar a capacidade de hospedagem às vésperas da Copa do Mundo de 2014. Adquiriu um prédio abandonado em uma região decadente da capital mineira e assim começaram as obras para o Golden Tulip, uma torre de vidro de 37 andares, com heliponto, restaurantes, SPA e um centro de convenções de 7 mil metros quadrados. A obra, orçada em R$ 200 milhões, em parte com dinheiro público, tinha que estar pronta até o dia 30 de março de 2014. O dinheiro acabou e o hotel não foi concluído.


Vorcaro foi resgatado novamente pela construtora do pai, até que encontrou Saul Sabbá, dono do Banco Máxima, praticamente falido. A gestão fraudulenta de Sabbá tinha provocado um rombo tão grande no caixa que o Banco Central (BC) foi forçado a inabilitá-lo. A solução foi oferecer o Máxima para Vorcaro, que aceitou na hora.


Com outros dois sócios, o empresário injetou a liquidez mínima para que o Máxima voltasse a funcionar. Pediu autorização para o Banco Central para operar, mas só a obteve dois anos depois, em 2019, após inúmeras viagens a Brasília.


O golpe de sorte foi a mudança na estratégia do BC em relação ao mercado bancário, tradicionalmente muito concentrado no Brasil. Para favorecer a concorrência, autorizou naquele período um grande número de entidades de crédito, entre bancos e fintechs.


Em 2021, Vorcaro mudou o nome do banco para Master e começou a escalada. Em apenas cinco anos, a instituição passou de um patrimônio líquido de R$ 200 milhões para R$ 4,7 bilhões, com uma carteira de crédito que avançou de R$ 1,4 bilhão para R$ 40 bilhões. Um crescimento de quase 100% ao ano, todos os anos. Nenhum banco brasileiro, nas últimas três décadas, conseguiu ter uma expansão dessa magnitude em tão pouco tempo.


Isso deveria ter chamado a atenção de muita gente. Principalmente das autoridades de vigilância, e em especial pela forma como o Master captava recursos do mercado. O banco oferecia Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com juros 30% mais altos do que a concorrência.


O problema não era apenas a ousadia na remuneração de seus papéis, mas como os recursos captados eram aplicados. Com juros tão elevados, seria necessário investir em atividades com um retorno ainda maior para poder devolver o dinheiro aos clientes, algo muito difícil de ser encontrado no mercado. O Master fazia exatamente o oposto: desembolsava bilhões em empresas em recuperação judicial ou com sérios problemas econômicos, apostando que dariam a volta por cima e passariam a operar no azul. Não foi o que aconteceu e o banco não recebeu o dinheiro de volta.


Boa parte das empresas que receberam recursos do Master é controlada ou investida pelo empresário Nelson Tanure — entre elas, a Gafisa, a Oi, a Light — ou é de amigos dele, como a Ambipar. Tanure não aparece oficialmente como sócio do banco, mas a Polícia Federal e o Ministério Público Federal abriram um inquérito para verificar se Tanure seria o controlador real do Master. Relatórios técnicos e informações de mercado geraram a suspeita de que o empresário usaria uma série de fundos de investimento, denominados Aventti, Estocolmo e Banvox, para controlar indiretamente o banco.


Uma das operações que mais levantaram suspeitas sobre essa relação especial entre Tanure e o Master foi a compra de ações da Ambipar entre junho e agosto de 2024. Em poucas semanas, o valor dos papéis disparou mais de 800%, sem qualquer conexão com os resultados econômicos da empresa, que não conseguia produzir números positivos havia anos.


Segundo uma investigação aberta pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), foram realizadas operações coordenadas entre fundos associados ao Master e a Tanure na compra de ações da Ambipar, o que poderia se enquadrar no crime de manipulação de mercado. A suspeita é que essa operação tenha sido uma “troca de favores” que permitiu à empresa aumentar seu valor de mercado, elevou o patrimônio do Master e permitiu que Tanure conseguisse as garantias necessárias para outra operação: a compra da estatal paulista Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) em leilão.


Amizades poderosas


Além de Tanure, Vorcaro mantinha relações estreitas com o poder. Ele se gabava de ter feito “fortes amigos” em Brasília, de que “no Brasil não tem como andar se não tiver esse tipo de proteção” e de que, sem o apoio de poderosos, não estaria no lugar aonde chegou. “O networking é algo bem relevante para querer criar algum tipo de empreendimento”, disse durante uma palestra em 2024. “É necessário criar conexões que favoreçam seu negócio.”


Patrocinador de peso dos principais grupos de lobby do Brasil, como o Lide, do ex-governador João Doria, o Esfera, de João Camargo, e o Grupo Voto, de Karim Miskulin, o Master financiou vários eventos no Brasil e no exterior. Os convescotes reuniam empresários, políticos e, principalmente, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de outras cortes superiores.


Um dos mais falados foi o Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado no Hotel Peninsula, um dos mais luxuosos de Londres, em abril de 2024. Entre os convivas, os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, além do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, o procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. O evento, cujo objetivo era discutir problemas do Brasil, ocorreu a 9 mil quilômetros de distância e a portas fechadas.


O Master financiou também a Lide Brazil Conference de Nova York, em novembro de 2022, eternizada pelo infame “perdeu, mané, não amola” pronunciado pelo ministro Luís Roberto Barroso contra um manifestante. O Fórum Esfera Internacional de Paris, em outubro de 2023, e o de Roma, um ano depois, ou o Fórum Empresarial Lide no Rio de Janeiro, em agosto de 2024. Todos os eventos locados em hotéis de luxo contaram com a presença de Moraes, Mendes, Barroso e Dias Toffoli, entre outros.


Além das mordomias, Vorcaro frequentemente emprestava seus três jatinhos de luxo para os amigos poderosos de Brasília se deslocarem dentro e fora do Brasil. Mais do que isso, os contratava diretamente. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, imediatamente após ter deixado o STF, se tornou membro do Comitê Consultivo Estratégico do Master, assim como dois ex-presidentes do Banco Central, Henrique Meirelles e Gustavo Loyola.


Outra contratada pelo Master foi Viviane Barci, mulher do ministro Alexandre de Moraes. O escritório de advocacia dela receberia R$ 129 milhões ao longo de três anos por serviços prestados — um valor completamente fora dos padrões do mercado jurídico, principalmente pela inexistência de um escopo de atuação definido. Ela exercia a função desde janeiro de 2024.


O networking deve ter funcionado, pois Vorcaro foi liberado menos de duas semanas depois de ser preso e Dias Toffoli decretou sigilo máximo no processo do Master poucas horas após viajar de jatinho particular para Lima, no Peru, onde foi assistir à final da Copa Libertadores. No mesmo voo estava um dos advogados do Master, Augusto Arruda Botelho, ex-secretário de Justiça do governo Lula, que atua no processo defendendo o diretor de compliance do Banco, Luiz Antônio Bull.


Vorcaro tinha grandes aliados também no Legislativo, especialmente no centrão. É o caso do senador Ciro Nogueira (PP-PI), onipresente nos eventos patrocinados pelo Master, e que, em 2024, apresentou uma emenda para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC. O jabuti foi incluído na PEC da Autonomia Financeira do Banco Central e não passou despercebido, tanto que ganhou a alcunha de “Emenda Master” por favorecer diretamente títulos como CDBs, carros-chefe do banco.


Outro episódio mostrou o tamanho da força do Master. Em julho de 2024, dois gerentes da Caixa Econômica Federal, feudo do PP, opuseram-se à compra de um lote de R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Master. Foram sumariamente demitidos. A área técnica de Renda Fixa da Caixa Asset tinha desaconselhado a aquisição, classificando-a como “arriscada” e “atípica” para os padrões da instituição estatal. Mesmo assim, a diretoria queria proceder. Diante da repercussão, a aquisição foi abortada.


Mas o mais grave foi a tentativa de aprovar um projeto de lei que permitiria ao Congresso Nacional demitir integrantes da diretoria do BC. Apresentado pelo deputado Cláudio Cajado (PP-BA), teve o apoio dos líderes das bancadas do MDB, PP, União Brasil, PL, PSB e Republicanos. Não prosperou pela oposição do corpo técnico do Banco Central. O projeto foi protocolado poucos dias antes da decisão do BC sobre a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Sentindo que a autorização não seria concedida, muita gente no Legislativo atuou para pressionar o Banco Central. Não adiantou, e a operação foi vetada.


Desespero e fracasso


A aquisição do Master pelo BRB foi uma última tentativa de Vorcaro de salvar o banco. Em 2025, o Master teria que reembolsar R$ 12 bilhões de CDBs em vencimento. Diante dos sérios problemas de balanço que a instituição financeira apresentava, em dezembro de 2024, Vorcaro e seus sócios foram convocados pelo então presidente do BC, Roberto Campos Neto, para uma reunião em Brasília. Na ocasião, foram intimados a recapitalizar o Master com R$ 2 bilhões até o dia 31 de março, ou o banco seria liquidado compulsoriamente. Dinheiro que eles não tinham, ou não queriam desembolsar.


Milagrosamente, no dia 28 de março, o BRB anunciou ao mercado a compra do Master e, contextualmente, a injeção de R$ 2 bilhões. Exatamente o valor do aporte de capital exigido pelo BC — uma operação considerada no mínimo ilógica pelo mercado.


Raramente se viu um banco menor tentar absorver um banco de maior dimensão. Muito menos um banco estatal e regional como o BRB em relação a um banco privado e nacional como o Master. Mas a pressão do governo do DF, controlador do BRB, foi mais forte. Sem contar que o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, é apadrinhado por Nogueira e já havia ocupado uma vice-presidência da Caixa. A compra foi vetada pela justiça do DF por suspeitas de irregularidades, mas mesmo assim a Assembleia Legislativa local votou a toque de caixa uma lei autorizando a transação. Em setembro, o Banco Central proibiu a compra.


Mesmo com essas negativas, o BRB já tinha transferido cerca de R$ 12 bilhões para os cofres do Master com a compra de uma carteira de crédito que se descobriu ser fictícia. Vorcaro jurou ter adquirido a carteira de duas associações de servidores públicos da Bahia: a Asteba e a Asseba. Os contratos, contudo, eram atribuídos a pessoas físicas que residiam em outros Estados. As apurações do BC mostraram que os papéis foram comprados pelo Master de uma outra fonte, a Tirreno Promotoria de Crédito, considerada pela Justiça como uma empresa de fachada.


Foi essa a razão que levou à prisão de Vorcaro no aeroporto de Guarulhos e ao afastamento do presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, em seguida demitido pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha.


Fraude dos aposentados


Mais uma vez, as maiores vítimas da fraude do Banco Master serão os brasileiros mais vulneráveis, como trabalhadores de empresas públicas de vários Estados e municípios brasileiros, que confiaram suas poupanças compulsórias a fundos de pensão que lhes deveriam garantir uma aposentadoria digna. Dezoito fundos de pensão de servidores públicos compraram papéis do Master muito além da cobertura oferecida pelo FGC, como mostrou a reportagem da edição 297 de Oeste. É o caso da Rioprevidência, responsável pela aposentadoria dos servidores do Estado do Rio de Janeiro, que aplicou quase R$ 1 bilhão em títulos do banco. Agora que o Master quebrou, receberá apenas R$ 250 mil.


A operação Compliance Zero está apurando se essas operações foram realizadas pela atratividade dos CDBs do Master ou por pressão dos amigos poderosos de Vorcaro. Empresas públicas e privadas também embarcaram nos papéis do Master, como a rede de tratamento de câncer Oncoclínicas, que investiu R$ 433 milhões, e a concessionária fluminense de saneamento Cedae, com R$ 200 milhões.


Aparentemente, o Master usou recursos de fundos de pensão estaduais desde o começo de sua trajetória. Se a Justiça brasileira funcionasse, Vorcaro teria sido preso há pelo menos seis anos. Em 2019, um juiz federal de Rondônia decretou sua prisão em um processo por aplicações financeiras feitas pelo Instituto de Previdência Social dos Servidores Públicos do município de Rolim de Moura (RO), o Rolim Previ. A ordem nunca foi cumprida. Vorcaro também tentou manter esse caso em segredo de Justiça, alegando que a exposição poderia prejudicá-lo. E conseguiu: ainda hoje o processo permanece inacessível.


Luxo e ostentação


Com a avalanche de dinheiro que ingressou no banco em pouco tempo, Vorcaro dedicou-se àquilo que melhor sabia fazer: ostentar uma vida de luxo. Nas redes sociais, o banqueiro aparecia constantemente surfando em praias paradisíacas, nos Alpes suíços ou em festas de altíssimo padrão. Sempre rodeado de mulheres deslumbrantes. “O principal item que eu posso falar sobre é ter um propósito”, disse em 2024, quando convidado para discursar na Brazil Conference do MIT de Boston. “Sem propósito, não tem meta, nem projeção de onde chegar.”


Em menos de cinco anos, Vorcaro comprou mansões no Brasil e no exterior por centenas de milhões de reais — como a de Trancoso, no litoral baiano, adquirida por R$ 280 milhões, rodeada por um enorme parque privativo de Mata Atlântica. Outra propriedade, em Miami, foi comprada por R$ 460 milhões — a transação mais cara já realizada na cidade americana. Também adquiriu três jatinhos Falcon 7X, Dassault Falcon 2000 e Gulfstream GV-SP por um valor total superior a R$ 1 bilhão.


Além disso, Vorcaro se tornou acionista do Atlético Mineiro, comprando 20% da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) que controla o time por R$ 300 milhões.


Sem contar as extravagâncias imobiliárias de um banco pequeno, mas com claros sinais de megalomania. Como a sede faraônica na Vila Olímpia, em São Paulo, ou o aluguel recorde no 830 Brickell Plaza, em Miami, prédio mais alto da cidade, no qual nunca ocupou o escritório de quase 2,5 mil metros quadrados. A mesma coisa em Londres, onde o Master alugou um espaço no 22 Bishopgate, o prédio mais alto e um dos mais exclusivos da capital britânica, em que nem sequer os bancões brasileiros ousariam se instalar.


O negócio começou a ficar grotesco quando se descobriu que Vorcaro tinha doado um apartamento de R$ 4,4 milhões para uma “sugar baby”, Karolina Santos Trainotti, cujo nome apareceu em uma operação contra o tráfico internacional de cocaína.


Vorcaro gastou cerca de R$ 20 milhões na festa de 15 anos da filha, realizada em agosto de 2023 em Nova Lima (MG). O evento viralizou com um bufê caríssimo, shows dos DJs Alok, The Chainsmokers, Dennis DJ, entre outros, e um bolo de R$ 25 mil, que chegou de avião de São Paulo. Para deixar os 500 convidados mais à vontade, o executivo asfaltou uma rua, deu vinhos Sassicaia e ofereceu diárias no Hotel Fasano aos vizinhos incomodados com o barulho.


Aparentemente imune às críticas ou a preocupações, e mesmo com o Master no olho do furacão, Vorcaro decidiu festejar o Carnaval 2025 com pompa e circunstância. O banqueiro bancou um camarote na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, com 2,5 mil metros quadrados distribuídos em três andares, recheado de modelos internacionais e com chefs estrelados que prepararam pratos saboreados com bebidas de luxo. Custo total: R$ 40 milhões. A entrada era gratuita, desde que fosse amigo do dono.


Quando os credores do Master tentarem penhorar o patrimônio do banco para recuperar as perdas, dificilmente encontrarão algo. Boa parte acabou nas taças de champanhe, nas bandejas prateadas e nas luzes que iluminaram as noites infinitas de Daniel Vorcaro. O dinheiro dos investidores financiou a dolce vita de um mineiro bon-vivant, que conseguiu — com a cumplicidade de muita gente — dar o maior golpe da história do Brasil.

Bco Master

 Para Eduardo Silva, presidente do Instituto Empresa, há um grande risco de fuga de investimentos no Brasil em caso do processo demorar a ser resolvido ou mesmo terminar em pizza, ou seja, sem punição.


“Em qualquer outro lugar do mundo, as ferramentas de reparação são muito mais efetivas. E, mais do que elas, as práticas concretas de prevenção de danos. Aqui, infelizmente, super estruturas jurídicas são postas, no mínimo, para retardar medidas de compensação”.


*Banco Master: Crescimento acelerado, riscos e a liquidação que acendeu o alerta no sistema financeiro*


Leia mais

https://emprc.us/O5hjmu

Bruno Carazza

 


Instituições importam, mas dependem das pessoas que as conduzem. Caso Master revela uma série de agentes públicos - de parlamentares a ministros do Supremo, passando por governadores e ministros do TCU - que manobram em favor de interesses privados, fazendo bullying institucional contra aqueles que defenderam o interesse público.


Minha coluna de hoje no Valor:

Call Matinal 2912

 Call Matinal

29/12/2025

Julio Hegedus Netto, economista

 

MERCADOS EM GERAL

 

FECHAMENTO (2612)

MERCADOS E AGENDA

No mercado brasileiro de sexta-feira (26), o Ibovespa fechou em alta de 0,27%, a 160.896 pts, com giro de apenas R$ 15 bilhões. Na semana curta, o índice subiu 1,53%⬆️. Já no mercado cambial, o dólar encerrou alta de 0,16%, a R$ 5,5446. Na semana, acumulou valorização de apenas 0,27%, mas caminha para fechar dezembro com ganho próximo de 4%. Na agenda da semana, em destaque a ata do FOMC e os dados de emprego no Brasil.

 

 

PRINCIPAIS MERCADOS

Semana mais curta e com pouca atividade, embora novidades "fora de agenda" com viés positivo possam animar o rally natalício para fechar um ano muito generoso e que deixa boas bases para um 2026 promissor.

 

 

 

MERCADOS 5h30

EUA

 

 

Dow Jones Futuro: -0,11%

S&P 500 Futuro: +0,01%

Nasdaq Futuro: +0,03%

Ásia-Pacífico

 

 

Shanghai SE (China), +0,04%

Nikkei (Japão): -0,51%

Hang Seng Index (Hong Kong): -0,71%

Nifty 50 (Índia): +0,10%

ASX 200 (Austrália): +1,10%

Europa

 

 

STOXX 600: +0,30%

DAX (Alemanha): -0,26%

FTSE 100 (Reino Unido): -0,05%

CAC 40 (França): +0,03%.

FTSE MIB (Itália): -0,20%

Commodities

 

 

Petroleo WTI para fevereiro subia a US$ 57,86 (+1,97%) e o Brent para março, a US$ 61,33 (+1,81%). Minério de ferro fecha em alta de +2,58% em Dalian, na China, cotado a US$ 113,68/ton.

 

 

 

NO DIA, 2912

Semana mais curta pelo feriado do Reveillon na quarta-feira (31), sem Ibovespa. Mesmo assim, segue pegando fogo o ambiente político e institucional, com acareação “inventada” pelo ministro do STF, Dias Toffoli, muitos achando, para constranger o BCB. Nos EUA, seguem em negociação Trump e Zelensky, na busca de um cessar-fogo com os russos, mas, interessante que o prócere do processo todo, Vladimir Putin não é consultado. Na quarta-feira (31), apenas os Treasuries fecham mais cedo.

 

Agenda Macroeconômica Brasil

 

Segunda-feira, 29 de dezembro 

Brasil: IGP-M de dezembro (8h), a desacelerar para 0,17%

Brasil: Boletim Focus

Brasil: Tesouro divulga hoje (14h30) as contas do Governo Central

 

 

Terça-feira, 30 de dezembro 

Brasil: Resultado do setor público consolidado de novembro (BCB)

 

Brasil: Pnad Contínua (9h), IBGE

Brasil: Dados do Caged (14h), Min Trab.

Brasil: Resultado Mensal da Dívida Pública de novembro.

EUA: PMI medido pelo ISM de Chicago em dezembro

EUA: Vendas pendentes de imóveis em novembro (12h)

China: PMI industrial de dezembro e medido pelo setor privado

Estoques de petróleo do DoE, às 12h30.

Quarta-feira, 31 de dezembro 

Treasuries encerram às 16h, mas as bolsas em NY operam normalmente. Os mercados financeiros em Portugal e na Espanha fecham mais cedo e não abrem na Alemanha e Itália.

Quinta-feira, 01 de janeiro   

Reveillon

Sexta-feira, 02 de janeiro

Leitura final de dezembro do PMI/S&P Global industrial nos EUA, Zona do Euro, Alemanha e Reino Unido

 

 

 

 

 

Boa semana para todos! Feliz 2026 !

BDM Matinal Riscala

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