segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Ailton Braga

 Hoje, 02/02/2026, saiu no Blog do IBRE da FGV, artigo meu em que faço análise da interação entre política fiscal e política monetária, a partir de indicadores para o Brasil, entre 2010 e 2025.


Os dados indicam que  a política fiscal no Brasil é eficiente, no sentido de impactar diretamente o nível de atividade e a taxa de desemprego. Já a política monetária tem efeitos limitados, tanto sobre a atividade econômica e o desemprego, quanto sobre a inflação, quando entra em confronto com a política fiscal. A análise sugere que as taxas de juros reais e a taxa de inflação no Brasil poderiam cair, de forma concomitante, se a taxa de crescimento dos gastos públicos fosse reduzida.

Apresento, também, possíveis motivos para a eficiência da política fiscal e a baixa potência da política monetária, que são:

  1. uma elevada propensão marginal a consumir da maior parte das famílias brasileiras, caracterizadas pelo baixo nível de renda, as quais são mais beneficiadas pelo aumento dos gastos públicos (programas sociais e previdência pública);
  2. mercado de crédito pró-cíclico, com expansão da oferta de crédito pelos bancos em momentos de aumento da renda das famílias e do valor de seus ativos, e redução em momentos de queda da renda, o que amplifica os efeitos da política fiscal;
  3. inércia inflacionária causada por mecanismos de indexação de preços, formais e informais, à inflação passada;
  4. remuneração de parte relevante da dívida pública pela taxa Selic, o que gera aumento da riqueza de seus detentores quando a taxa de juros é elevada pelo Banco Central e não a perda de riqueza que ocorreria se a dívida fosse remunerada por taxa de juros pré-fixada;
  5. segmentação do mercado de crédito, com o custo e a oferta do crédito direcionado (imobiliário, rural e crédito ofertado pelos bancos de desenvolvimento) tendo limitada sensibilidade a taxa de juros básica fixada pelo Banco Central;
  6. relação entre crédito e PIB relativamente baixa, comparativamente a outros países emergentes, o que reduz o impacto das variações da taxa de juros básica sobre a demanda agregada; 
  7. baixo impacto do diferencial de juros internos e externos sobre a taxa de câmbio, que seria mais afetada por fatores como variações da percepção de risco País, cotações das commodities e a política monetária dos principais países desenvolvidos.

Matemágica

 Marcelo Giufrida

Para muita gente, a matemática é aquele território árido onde moram símbolos estranhos, letras gregas e contas que parecem não ter nenhuma relação com o mundo real. Mas, de vez em quando — ou melhor, com bastante frequência na história da ciência — acontece algo curioso: aquilo que parecia apenas um truque formal, quase uma matemágica, acaba se revelando uma pista preciosa sobre como a natureza realmente funciona. Na física, isso acontece o tempo todo. 

Equações são escritas não porque alguém “viu” diretamente um fenômeno, mas porque a lógica matemática exige certas soluções. À primeira vista, essas soluções podem soar absurdas, artificiais ou até erradas. Só que a matemática, quando bem construída, tem um hábito intrigante: ela costuma saber mais sobre a realidade do que nós mesmos. Um exemplo clássico vem da mecânica quântica. A famosa equação de Schrödinger, base para descrever o comportamento de partículas microscópicas usa números imaginários, aqueles que envolvem a raiz quadrada de −1. Durante muito tempo, isso causou enorme desconforto. Como algo “imaginário” poderia descrever a realidade física? A suspeita era de que aquilo fosse apenas um artifício matemático elegante, mas sem significado físico profundo. 

Hoje sabemos que, sem esses números imaginários, a equação simplesmente não funciona. Eles não são um detalhe estranho: são essenciais para modelar corretamente o mundo das partículas muito pequenas. A tal “imaginação” da matemática acabou sendo exatamente o que a realidade exigia. Outro caso quase cinematográfico foi o de Paul Dirac. Ao tentar compatibilizar a mecânica quântica com a relatividade especial para descrever o elétron, ele chegou a soluções matemáticas que sugeriam a existência de partículas idênticas às conhecidas, mas com carga oposta. Na época, isso soava como um exagero formal: uma consequência esquisita das equações, sem correspondência física clara. 

Anos depois, porém, aceleradores de partículas detectaram o antielétron (o pósitron) e, mais tarde, o antipróton. Aquilo que parecia apenas um capricho algébrico revelou-se uma previsão brilhante. Matemágica em estado puro. Einstein também entrou nesse clube seleto. Ao manipular as equações da relatividade geral, ele percebeu que a gravidade deveria desviar a trajetória da luz, algo totalmente contraintuitivo à época, e que perturbações no espaço-tempo poderiam se propagar como ondas: as ondas gravitacionais. A primeira previsão foi confirmada relativamente cedo, inclusive com observações feitas durante eclipses, uma delas no Brasil. 

Já as ondas gravitacionais exigiram décadas de desenvolvimento tecnológico até que instrumentos sensíveis o bastante pudessem detectá-las. Quando isso finalmente aconteceu, em 2015, não foi uma surpresa para a matemática: ela já tinha contado essa história muito antes. Mas a matemágica não se limita à física fundamental. 

Um dos exemplos mais fascinantes vem da descoberta dos fractais. Por muito tempo, eles foram vistos como objetos matemáticos exóticos, quase brinquedos intelectuais: figuras infinitamente complexas, com padrões que se repetem em todas as escalas, estranhas demais pararepresentar qualquer coisa do mundo real. Afinal, quem acreditaria que equações gerando formas “irregulares demais” poderiam ter utilidade prática? 

Hoje, os fractais estão por toda parte. Eles descrevem com notável precisão a geometria dos vasos sanguíneos, a ramificação dos pulmões, o crescimento de plantas, o contorno das nuvens, das montanhas e das linhas costeiras. Na geologia, ajudam a entender a distribuição de falhas e terremotos. E, talvez de forma ainda mais surpreendente, aparecem até na modelagem do comportamento das cotações nas bolsas de valores, onde a aparente aleatoriedade esconde padrões estatísticos complexos que se repetem em diferentes escalas de tempo. 

Aquilo que começou como um formalismo estranho virou uma poderosa lente para enxergar sistemas complexos. Esses episódios mostram que a matemática, longe de ser apenas uma linguagem fria, funciona muitas vezes como um farol. Ela ilumina caminhos que ainda não enxergamos experimentalmente. O que parece um erro, um excesso ou uma abstração inútil pode ser, na verdade, um bilhete antecipado da realidade, esperando que a tecnologia e a curiosidade humana cheguem até lá. No fim das contas, a tal matemágica não é truque. 

É método. É o estranho e fascinante poder de equações bem pensadas apontarem para fenômenos que ainda nem sabíamos que existiam. E, convenhamos, isso é bem mais divertido do que parece à primeira vista.

Importante sobre mestrado

 📌 IMPORTANTE SOBRE MESTRADO


Produção científica vs. aprendizado real: publicar muito ou aprender de verdade?

Essa é uma das tensões centrais do mestrado moderno — e quase ninguém fala dela com honestidade.

👉 O mestrado é para aprender ou para produzir artigo?
Na prática brasileira atual, muitas vezes… para produzir.


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📄 A lógica que domina muitos programas

Hoje, o sistema valoriza: ✔️ número de artigos
✔️ fator de impacto
✔️ Qualis / métricas
✔️ produtividade rápida

Aprendizado profundo?
Nem sempre entra na conta.


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⚠️ O risco desse modelo

Quando o foco vira só publicação: ❌ o método vira mecânico
❌ o aluno aprende a “fazer paper”, não ciência
❌ leitura crítica é superficial
❌ criatividade dá lugar à repetição segura

Resultado: currículo inflado, formação frágil.


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🧠 O paradoxo do mestrado

Publicar é importante — sim.
Mas publicar sem aprender cobra a conta depois, especialmente no doutorado ou fora da academia.

Quem não domina:

método

estatística

escrita

pensamento crítico


fica dependente do orientador para sempre.


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🚀 Quando o equilíbrio acontece

O mestrado vale muito quando: ✔️ a publicação nasce do aprendizado
✔️ o erro faz parte do processo
✔️ há tempo para ler, discutir e refazer
✔️ o orientador prioriza formação, não só número

Aqui, o artigo é consequência — não objetivo vazio.


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🚨 A armadilha comum

Confundir:

> “publiquei bastante”
com
“estou bem formado”.



Não são sinônimos.


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🔑 Pergunta-chave

👉 Se eu parar de publicar amanhã, o que eu realmente sei fazer sozinho?

Essa resposta define o valor real do seu mestrado.


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Ciência não é só contagem de artigos.

Ailton Braga

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