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Paulo Gala

 

Os Mercados, a Incerteza e o Mundo Real: Uma Visão Pós-Keynesiana

By Paulo Gala on 18/12/2024

O livro “Financial Markets, Money and the Real World” de Paul Davidson, um dos principais economistas pós-keynesianos, apresenta uma crítica ao mainstream econômico e oferece uma visão alternativa sobre o funcionamento dos mercados financeiros e da economia. Suas ideias são centradas na incerteza fundamental, no papel das expectativas e na importância das instituições financeiras. Abaixo estão os principais pontos abordados na obra:

1. Incerteza Fundamental

Davidson argumenta que os mercados financeiros operam sob condições de incerteza genuína, diferente de riscos mensuráveis. Inspirado por John Maynard Keynes, ele enfatiza que os agentes econômicos não possuem informações perfeitas ou previsões confiáveis sobre o futuro. Isso leva a decisões baseadas em convenções sociais ou expectativas de curto prazo, o que pode causar volatilidade nos mercados.

2. Diferenciação entre Riscos e Incertezas

O autor distingue risco, que pode ser calculado probabilisticamente, de incerteza, que é irreversível e imprevisível. Ele argumenta que a teoria econômica dominante, ao ignorar essa distinção, falha em capturar a complexidade dos mercados financeiros e suas crises.

3. Papel dos Mercados Financeiros

Davidson critica a visão de que os mercados financeiros sempre alocam recursos de forma eficiente. Ele sugere que, frequentemente, os mercados financeiros estão mais preocupados com ganhos especulativos de curto prazo do que com investimentos produtivos de longo prazo. Essa desconexão entre o setor financeiro e a economia real pode levar a instabilidade econômica.

4. Moeda e Liquidez

A moeda desempenha um papel central no pensamento de Davidson. Ele argumenta que a demanda por liquidez reflete a necessidade de proteção contra incertezas futuras. Isso está em contraste com a visão neoclássica, que trata a moeda apenas como um meio de troca. A preferência pela liquidez pode reduzir investimentos produtivos, exacerbando recessões econômicas.

5. Crítica ao Livre Mercado

Davidson questiona a crença de que os mercados financeiros, deixados a si mesmos, podem se autorregular. Ele argumenta que a especulação e o comportamento em manada podem amplificar instabilidades, o que torna essencial a presença de regulação governamental para estabilizar os mercados e proteger a economia.

6. Importância da Intervenção Estatal

Para Davidson, o governo deve desempenhar um papel ativo na economia, especialmente em tempos de crise. Ele propõe políticas fiscais e monetárias contracíclicas, regulação dos mercados financeiros e investimentos públicos para fomentar o crescimento econômico e o emprego.

7. Heterodoxia Econômica

O livro é uma defesa do pensamento pós-keynesiano, contrastando com a abordagem neoclássica. Ele critica a suposição de equilíbrio automático e destaca a importância de estudar a economia como um sistema dinâmico e dependente do tempo.

8. Globalização e Instabilidade

Davidson discute como a globalização financeira exacerbou a instabilidade econômica. Ele critica a falta de um sistema financeiro internacional robusto para lidar com desequilíbrios comerciais e crises financeiras globais. Propõe reformas no sistema monetário internacional, como o uso de uma moeda internacional (inspirada no “bancor” de Keynes) para evitar os problemas associados ao dólar como moeda de reserva global.

9. Recomendações de Políticas

• Regulamentação mais rigorosa dos mercados financeiros para conter a especulação.

• Estímulo ao investimento produtivo em vez de ganhos especulativos.

• Criação de instituições internacionais para coordenar políticas econômicas e reduzir desequilíbrios globais.

Importância da Obra

O livro é uma contribuição importante para aqueles que buscam uma visão alternativa à teoria econômica dominante. Davidson oferece ferramentas teóricas para compreender a natureza instável dos mercados financeiros e propõe soluções práticas para tornar o sistema econômico mais resiliente e equitativo.

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